Valsa dos rentistas

*Há mais de dois anos, creio que antes de o negócio das biografias ser discutido no Congresso, O Globo publicou um texto meu exatamente sobre esse assunto, chamado “Rentismo de imagem”.

No fim da adolescência, entre os 18 e os 19 anos, passei um ano e meio morando em Nova York. As saudades do Rio de Janeiro eram grandes, e uma música que eu gostava de ouvir, quando não ia, feito uma besta, comer bolo de aipim e tomar guaraná na Rua 46, a “rua dos brasileiros”, era “Valsa de uma cidade”, na gravação de Caetano Veloso. Minha mãe também gostava. Ouvíamos em CD, que isso foi antes do mp3, num sonzinho pequeno que ficava na divisória entre a cozinha – era uma daquelas cozinhas americanas abertas – e a sala. Da janela, víamos o Hudson com imensos blocos de gelo flutuando, a neve caindo… E nós escutando: “Rio de Janeiro, gosto de você…”

Esses momentos tão sentimentais me vieram à cabeça agora, aqui no Rio de Janeiro, em plena Copacabana, quando me lembrei dos argumentos imbecis que li a respeito das biografias não-autorizadas. Segundo a Folha, o mesmo Caetano Veloso, em seu perfil no Twitter, teria sugerido que o biografado deveria receber pelas biografias não-autorizadas. Wilson Simonal disse que “tudo o que se usa, paga” (sic), frase que gramaticalmente reconstruída provavelmente deve ser interpretada como “deve-se pagar por tudo aquilo que se usa”. Pedro Luís (esse no conozco; meu interesse ativo por música popular cessou nessa época de NY), diz que “Todo mundo que é ingrediente do sucesso deve ser remunerado. (…) E o assunto do produto, não?”

Eis que voltamos à música de Antônio Maria e Ismael Netto, a “Valsa de uma cidade”. Deveriam eles ter pago royalties à prefeitura do Rio para poder compor sobre o calçadão da orla? Se não me engano, “Drão”, de Gilberto Gil, é sobre ou para sua ex-mulher Sandra – cadê o dinheiro da Sandra? Será que Machado de Assis não deveria aliás indenizar a cidade porque em Dom Casmurro o mar, violento, mata um dos personagens principais? (Não vou nem falar que aquele maldito misógino comparou os olhos de Capitu à “vaga do mar lá fora”, ou seja, deu-lhe um olhar assassino.)

Preciso continuar?

Vejam, caros músicos. Se é justo que vocês recebam quando o assunto são vocês mesmos, podem dar o exemplo é começar a remunerar os assuntos que usaram.

Governo não é literatura

Lembro de ver, nos anos 1990, Gustavo Dahl falando da “importância estratégica” do cinema. Para ele, Hollywood era quase o ministério da Cultura americano – e os EUA, numa frase imortal de Olavo de Carvalho, “uma espécie de União Soviética de direita”. Sem querer discutir todas as acepções do termo, nem o que isso pode significar em tempos de NSA, devo dizer que é dessa cena que me lembro quando penso no que Paulo Coelho tem dito a respeito da delegação brasileira presente na Feira de Frankfurt.

Como a imprensa tem divulgado, Paulo Coelho, o autor brasileiro mais vendido de todos os tempos (sobretudo por causa de O alquimista), recusou-se a participar da delegação por achar que outros autores com força comercial deveriam ter sido convidados.

Colocando à parte as minhas próprias inclinações pessoais, e tentando raciocinar em termos – olha a farofa na boca! – “geopolíticos”, não é difícil imaginar que, se o objetivo do governo brasileiro é aumentar a projeção da cultura brasileira, então parece boa ideia investir em autores que vendam bem. Nesse ponto, parece ter razão o coordenador da programaçao brasileira ao dizer à Folha, na matéria já linkada:

“Em sua maioria, são autores que estão despertando amplo interesse em editores internacionais, […] que vêm se abrindo para as mais diferentes vertentes da nossa literatura contemporânea, para além da literatura mais palátavel ao gosto comum.”

Se isso é verdade, é preciso dizer que Paulo Coelho se equivoca duplamente ao dizer:

“Eu duvido que sejam todos escritores profissionais. Dos 70 escritores convidados (LISTA AQUI), eu conheço apenas 20, então os outros 50 nunca ouvi falar. Presumo que sejam amigos de amigos de amigos. Nepotismo.”

São todos escritores. Na pior das hipóteses, era só colocar o nome deles no Google. E, se há escritores comerciais que ele não conhece, então talvez seja ele que esteja defendendo seus próprios amigos. O pior é que eu até simpatizo com essa atitude; com meu temperamento intempestivo, teria feito a mesma coisa.

O argumento contrário ao pró-comercial diria que autores que vendem bem não “precisam” de apoio do governo. Acho que existe um equívoco aí. Qual é o propósito da delegação? Como o governo vai medir o sucesso ou o fracasso de seu investimento? E, por favor, não venham falar que literatura não é mercadoria na feira de Frankfurt. A feira de Frankfurt é como uma Bienal do Livro (só que anual) em que agentes e editoras do mundo inteiro vão negociar direitos autorais. Não venham falar que feira não deve ter mercadoria.

Feira, mercadoria, mercado. Vejam, agora trazendo as minhas convicções pessoais, eu não vejo nada de errado com o que essas palavras indicam. O dinheiro do governo não é criado pelas musas, mas pela atividade econômica das pessoas. A minha pergunta é: se você está tirando dinheiro das pessoas para realizar um investimento, não é razoável (nem que seja como atenuante) ser prudente com o investimento? Ou o objetivo do governo não é aumentar a projeção do Brasil no exterior?

Agora, fosse eu jornalista, nem precisaria ir a Frankfurt para investigar o seguinte. Quanto dinheiro o governo gastou? E as editoras privadas, gastaram quanto? Quantos negócios foram fechados por interferência do governo, quantos por esforços privados, quais os valores? Os critérios, pois é, não são literários. São econômicos. Governo não é literatura. Talvez verifiquemos que o governo não deveria apoiar quem vende pouco porque os resultados seriam pífios, nem deveria apoiar quem vende muito porque essas pessoas realmente não precisam de ajuda…

Notas para um conservadorismo linguístico (III)

Ça suffit.

Após dois meses deveras intensos, volto ao blog e admito duas coisas:

1. Comecei a escrever sobre “conservadorismo linguístico” pensando em usar um tom conciliador etc. Realmente é necessário que haja alguma ideia clara de conservadorismo linguístico, uma ideia que possa ser transmitida. E, mesmo que não seja transmitida uma ideia, que ao menos seja transmitida uma atitude conservadora.

2. O que me motivou a escrever tudo isso foi um texto de Marcos Bagno. Um texto em que Bagno, pela enésima vez, dizia que toda reclamação contra o uso de “presidenta” seria um disfarce para “a reação de determinados setores da sociedade, do lado conservador do espectro ideológico, à ascensão ao cargo máximo do poder de uma mulher e, não só, de uma mulher vinculada a um projeto político que se identifica com as forças convencionalmente chamadas de esquerda”. Senhor doutor Bagno, não venha fingir que esses setores conservadores não adoram Margaret Thatcher. O problema com a “presidenta” é que o uso é incomum e assim abre caminho para a serventa, a gerenta etc.

Bagno, no texto, lembra – como eu mesmo já lembrei – que sim, o dicionário lista “presidenta”. Mas é aquilo: nem tudo que é bom é conveniente, ou nem toda coisa boa é convenienta. Fica o dilema: se você vai adotar o uso de “presidenta”, então depois só poderá condenar o de “gerenta” se apelar ao dicionário. E eu mesmo não teria problema nenhum em relação a isso, aliás.

O problema com Bagno – o problema, aquilo que realmente me motivou a começar a escrever, foi a seguinte frase: “o recurso aos dicionários não autoriza nem desautoriza ninguém a dizer ou a não dizer o que quer que seja”. Que Bagno diga isso logo após ter recorrido a três dicionários para justificar o uso de “presidenta” faz com que eu me indague se ele está usando um truque neurolinguístico para afirmar sua própria autoridade de gramático formado e certificado, ou se é burro mesmo.

Posso admitir sem problemas que toda autoridade é concedida e que numa certa medida essa concessão é arbitrária. (Essa admissão é terrível – estou ciente.) Só que a afirmação de que “o dicionário não autoriza nem desautoriza ninguém etc.” é simplesmente falsa na medida em que é exatamente o dicionário que mantém uma certa estabilidade lexical. Se você traduz, como eu, recorre ao dicionário para ter certeza de que não está inventando um novo sentido para uma palavra. Porque é melhor que você use um sentido que está só no dicionário, mas que pode ser acessado pelo leitor, do que usar um sentido que está só na sua cabeça. Isso não é óbvio? Realmente não é? Se o sr. Bagno gosta de dizer que toda relação é política, sou eu, que sou de direita, católico, conservador em moral e liberal em economia a não mais poder que tenho de insistir na cortesia com o leitor. Porque o homem de esquerda está fazendo o que os comunistas sempre fizeram: acredite em mim porque sou eu que estou falando, não repare na minha prestidigitação argumentativa, e se você discordar, bom, você é um reacionário burguês que… não gosta da esquerda.

Vejam, tudo isso é muito abaixo da crítica. Acho também que demorei dois meses porque eu queria encontrar algum jeito delicado de observar isso. Mas não há.

Essa cortesia de que falei é a base do conservadorismo linguístico. É o desejo de ser entendido por outras pessoas, da maneira mais clara, mais direta possível. Quem quer afirmar a autonomia de cada falante é a serpente do Paraíso. “Vai lá, janotinha, fale como quiser, escreva como quiser, bote aí umas arrobinhas no lugar dos artigos, se ninguém te entender, é que eles estão te oprimindo.” Ora, chispe já daqui, sua serpente ridícula, vou esmagar sua cabeça com o Houaiss e usar seu couro para forrar meu Caldas Aulete.

Notas para um conservadorismo linguístico: parêntese para comédia

A comédia do preconceito linguístico é a seguinte. De um lado, há os que gritam contra os preconceituosos, que só têm um domínio superficial do idioma. De outro, estão os conservadores linguísticos, que estão dispostos a dirigir todos os recursos necessários para que as pessoas possam dominar a mesma norma dos preconceituosos.

Imagine esta situação: fulano tem uma coisa preciosa e eu denuncio fulano porque fulano fala mal de mim só por eu não ter essa coisa. Aí vem um terceiro e diz: “Olha aqui, vou te dar a coisa preciosa.” E então eu respondo: “Eu não quero isso, eu quero que fulano diga que a coisa preciosa não tem valor nenhum e que a que eu tenho vale tanto quanto a dele!”

Depois a gente fica com um pé atrás em relação ao discurso público e ainda é chamado de cínico.

Notas para um conservadorismo linguístico (II)

No texto anterior, falei de como o preconceito linguístico existe entre semiletrados. São as pessoas que dominam a ortografia e uma gramática básica e que aproveitam para gozar de quem não as domina – como se falar “nós vamos” em vez de “nóis vai” fosse um grande mérito. Mas, francamente, não vejo nada de especial nisso. Cada um exibe o que tem. O único problema é que isso acaba sendo confundido com a própria ideia de dominar bem o português. E, pior ainda, isso acaba sendo combatido por pessoas que querem que “dominar bem o português” seja simplesmente o contrário de não dominar essas regras básicas.

Existe nisso uma tremenda vulgarização da sensibilidade. Você pode observar um erro, com ou sem aspas, e ter razão nisso. Só que, com isso, acaba chamando a atenção para o erro. Em um de meus poemas favoritos, “The Quest”, Auden fala em “testar a resolução dos jovens falando das pequenas falhas dos grandes homens”. Lembro, por exemplo, de encontrar erros de ortografia em originais manuscritos de Bruno Tolentino. Você pode apreciar ou não apreciar a poesia dele, mas teria mesmo a empáfia de sequer citar, numa crítica, esse erro ortográfico?

No entanto, a noção de erro precisa ser rediscutida e, de certo modo, restaurada. Quando o linguista fala em “desvio da norma padrão”, ele está usando um termo técnico. Não creio que nenhum termo técnico tenha direitos especiais sobre a linguagem corrente. Acho engraçado que o linguista goste de dizer que num ambiente informal você não vai seguir a norma culta – e é verdade que nem os mais cultos falam de maneira tão límpida quanto escrevem, e que no Brasil a distância entre a fala e a escrita, mesmo das classes cultas, é impressionante – , argumentando a partir da ideia de adequação, e ele mesmo não se pergunte se é adequado que leigos sejam submetidos a conceitos linguísticos descontextualizados. Para um leigo, é muito mais vantajoso pensar que existe erro de português do que ter de compreender todo um arcabouço linguístico dentro do qual a frase “não existe erro” pode fazer algum sentido.

Dito isso, é verdade também que muitas críticas ao ensino tradicional são justas. Não consigo acreditar que crianças de doze anos possam se beneficiar da classificação das orações subordinas – a menos, talvez, que estudem latim e/ou grego ao mesmo tempo. Lembro de quando eu estudava, pela enésima vez, a colocação dos pronomes átonos, no terceiro ano do segundo grau. Meu professor era Sergio Nogueira. Enquanto estudávamos aquilo, eu lia, sem ser para a escola, Memórias Póstumas de Brás Cubas (essa é a melhor edição). Qual não foi a minha surpresa em ver que em diversas ocasiões Machado de Assis “desrespeitava” as regras de colocação pronominal propostas nas gramáticas. Levei o caso ao professor, que teve de concordar. E desde então eu coloquei as gramáticas entre parênteses.

De um lado, um ensino que privilegiasse a leitura, a interpretação de textos e a redação evitaria o mal de ter alunos que sabem que a palavra negativa atrai o pronome átono mas acham Machado de Assis um completo estranho. Também, se os alunos fossem capazes de escrever um pouquinho de nada como Machado de Assis, não seria nem necessário, nem razoável, ser capaz de enunciar essas regras todas.

De outro lado, a ideia de uma norma padrão está associada ao Estado e é francamente indispensável para ele. Não é possível manter um Estado funcional com documentos com redação ambígua. Imagine desde editais incompreensíveis até petições e decisões judiciais que ninguém consegue entender. Um pequeno exemplo: você defende o “nóis vai” porque o português já marca a primeira pessoa do plural no pronome, tornando o verbo redundante. Porém, essa redundância permite a omissão do pronome em incontáveis ocasiões. Se a marcação da pessoa ficasse a cargo do pronome, ou o português teria de ficar mais parecido com o inglês, para evitar ambiguidades, com pronomes aparecendo o tempo inteiro, e assim perderia um traço seu bastante distintivo, ou simplesmente passaríamos ao caos – a uma Babel não de idiomas, mas a Babel de “normas”.

Ao dizer isso não pretendo defender o Estado. Só me surpreende que aqueles que defendem a relativização da norma culta sejam os mesmos que defendem sempre mais intervenção estatal, mais soluções estatais, na forma de leis e de políticas públicas.

Curioso ainda que não percebam que a ideia de uma norma padrão é profundamente igualitária. Aliás, ela sim poderia ser um instrumento de equalização. O político mais poderoso, o milionário mais rico, o intelectual de maior prestígio e qualquer pé-rapado submetem-se às mesmas regras. Claro que isso não acontece hoje: o político mais poderoso fala de qualquer jeito e entende quem tem juízo; o milionário mais rico pode balbuciar qualquer coisa que os interessados perderão horas para entendê-lo; o intelectual de maior prestígio pode inflar seus discursos até ultrapassar todos os limites do tédio; o pé-rapado poderia falar melhorzinho mas a escola considerou que isso seria opressão.

Só que aqui já estamos numa questão plenamente política, e não mais linguística.

Notas para um conservadorismo linguístico (I)

Em nome do combate ao “preconceito linguístico”, vai-se jogando fora uma noção que, na verdade, talvez nunca tenha nem sido muito bem compreendida: a noção de falar bem, de escrever bem, de expressar-se bem. Não é difícil imaginar que é melhor ler um texto e entendê-lo de maneira imediata e com o mínimo de ambiguidades do que ter de penar para entendê-lo. O mesmo, é claro, vale para um discurso falado.

No Brasil, ao menos na minha experiência, escrever e falar mal costumam significar duas coisas. Se a pessoa tem algum diploma (é difícil dizer “formação”), ela fala e escreve de um jeito empolado, cheio de circunlóquios, realmente caricatural. Os textos acadêmicos trazem exemplos abundantes: meu favorito ainda é “um argumento cujo desdobramento subsequente se dirige no sentido de conceber”, cujo autor terá sua identidade preservada. Se você também for a um congresso qualquer, e sobretudo se você for lá para trabalhar como intérprete, vai sofrer na hora das perguntas. Os brasileiros nunca completam uma frase, ficam dando voltas, colocam um aposto atrás do outro, o verbo da oração principal nunca chega… Por outro lado, se vamos ver o discurso daqueles que seriam o alvo do famoso “preconceito linguístico”, temos as mesmas frases que não terminam, e, na escrita, a quase total ausência de pontuação. Você diz que eu sou um opressor que tem fetiche pela norma culta, e eu digo que, só para ficar num critério bem utilitário e nada empolado, preferia não ter de decifrar cada discurso que me chega. Essa é a vantagem da norma “padrão”.

A solução desse problema, a meu ver, é a seguinte: acabar com o ensino que privilegia a gramática e botar a molecada para ler e escrever muito. A língua é um hábito. Você não vai aprender a escrever bem lendo gramáticas, mas lendo Machado de Assis, Camões etc. É até fácil ver como essa estrutura do ensino está refletida nos dois principais tipos de mau português. O aluno só conhece dois registros: o coloquial mais básico e outro, abstrato, que parece não se referir a nada, mas que ele precisa macaquear para passar de ano e que ele acaba associando a uma impressão de respeitabilidade. Sem contar que o português é exigido pelos concursos públicos. Nesse caso, o concurseiro, em primeiro lugar, volta a estudar um monte de gramática, e depois fica lendo um monte de textos horrorosamente escritos, empoladíssimos, o que reforça a perversa ideia de que a “gramática” e a “norma culta” não passam de um monte de idiossincrasias que um bando de gente recalcada usa para oprimir os outros.

Existe o preconceito linguístico? Existe, claro. Mas eu só o vejo sendo praticado por pessoas semiletradas contra pessoas iletradas. Aqueles que conseguiram imitar trejeitos gramaticais rudimentares fazem pouco daqueles que não conseguiram. É o empolado que fala mal do roto, e os gramáticos “progressistas”, como o sr. Marcos Bagno, vêm defender o roto na base da carteirada: “sou gramático – e progressista!”. Fica tudo num universo nebuloso: o coitado que não enxerga a norma padrão, o que enxerga as aparências dela e o gramático que abusa da sua autoridade.

E se o Papa Francisco levar uma ovada?

Com o clima atual de animosidades e de promessas de manifestações contra o Papa Francisco, que dispensou o papamóvel com vidro blindado usado após o atentado a João Paulo II, pergunto-me se não vão tentar ao menos lançar alguma coisa contra suas vestes brancas aqui no Rio de Janeiro.

Aí me vem imediatamente uma cena do filme de Rossellini sobre São Francisco, baseada numa página célebre do próprio, em que São Francisco explica onde encontrar “a perfeita alegria”.

O santo dos pobrezinhos

Para o santo, a perfeita alegria não consiste em converter todo o mundo, nem em prever todos os acontecimentos futuros, mas em apanhar em nome de Cristo. Por isso ele convida o irmão Leone a bater na casa de um homem para convidá-lo a servir Cristo, e é escorraçado para fora, jogado na lama, debaixo da neve.

O Papa também virá aqui convidar-nos à mesma coisa. O dono da casa, no filme, manda um “Não perturbe!”. Pois o Papa Francisco vai perturbar bastante a cidade (e eu moro em Copacabana, o bairro que provavelmente será o mais perturbado de todos).

Então, se o Papa levar uma ovada ou qualquer coisa, eu saberei que ele está conhecendo a perfeita alegria. Ou, como vocês podem ver no trecho do filme, logo abaixo, la perfetta letizia (e italiano não é nada difícil de entender).

A diferença entre o Rio de Janeiro e São Paulo

*Nota: este texto terá muitas generalizações. Se você se sentir ofendido por uma generalização…

Há alguns anos venho explicando a amigos em conversas pessoais o que penso ser a diferença entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Pois uma vez uma senhora numa mesa ao lado da minha já se levantou para me cumprimentar pelo brilhantismo de minha explicação; e eu mesmo sinto que é hora de registrá-la por escrito, para que a humanidade a conheça e, mais importante, não a atribua a outra pessoa. Afinal, há algum tempo descobri que David Foster Wallace usou a mesma imagem que eu mesmo (em minha peça) para falar do sujeito que se jogou do World Trade Center no dia 11 de setembro; e eu, que nunca nem li mais do que meio ensaio de Wallace, agora passarei por plagiário, ou, o que é mais grave, praticante da intertextualidade.

Admito que amigos me ajudaram na formulação dos conceitos e sobretudo nos exemplos, mas a fórmula que enuncia a grande diferença veio desta minha privilegiada cachola. E lá vai: a diferença entre o Rio e São Paulo é que o Rio é uma sociedade aristocrática, com os vícios e as virtudes de uma sociedade aristocrática, e São Paulo é uma sociedade burguesa, com os vícios e as virtudes de uma sociedade burguesa.

O Rio, é claro, foi a capital do Império e depois da República. Ou seja: uma cidade de burocratas, uma sociedade baseada no privilégio. Privilégio que começa com os famosos “PR” inscritos nas portas das casas para anunciar que aquelas propriedades seriam usadas pelo Príncipe Regente. A população interpretava o “PR” como “ponha-se na rua”. (E não falei que “PR” são as iniciais de “privilégio” para evitar a leminskização do cosmos.) Mas eis que cá estamos, todos nos achando privilegiados. Privilégio significa “lei privada”. Por isso o Rio deve ser a capital mundial dos concurseiros, que têm algo como zero de espírito de serviço público, e cem de espírito de obtenção dos privilégios da burocracia. Por isso também o Rio é uma cidade onde absolutamente tudo é pessoal. Para você ir num restaurante e ter uma boa experiência, é preciso conhecer o maître, os garçons, ou ao menos ter aquele clique inicial de simpatia na hora de chegar. Não existe nenhum atendente no Rio, do setor público ou do privado, que acredite que sua obrigação é atender, gostando ou não de quem será atendido. Por isso o Rio é a cidade da afetação perpétua de intimidade, que só direi que esconde um enorme desprezo se o leitor aceitar que esse desprezo significa que o outro de fato é imediatamente esquecido.

Mais ainda, no Rio de Janeiro é preciso conhecer as pessoas. Nosso elitismo é em parte de classe, em parte grupal. Nossa classe está aberta a quem imitar nossos trejeitos. Daremos tudo a um dos nossos, mesmo que seja uma besta, e negaremos tudo a quem não for um dos nossos. Quantas vezes não vi, nas duas faculdades de Letras que frequentei, na PUC e na UFRJ, alunos talentosos que desconheciam certas regras de traquejo social – que, em suma, traíam sua origem social pobre – serem desprezados por professores – sem que nem soubessem que estavam sendo desprezados? Esses pobres alunos não entendiam que fazer a pose era mais importante do que estudar.

Mas há as virtudes, claro, e a primeira virtude é que no Rio de Janeiro a ideia de cultura não é estranha à vida, porque para um aristocrata ela é normal – tão normal que ele não precisa ficar falando dela. Jamais um carioca vai convidar você para ver quantos livros ele tem. Ele tem livros. Por quê? Você não tem? Que coisa. Isso tudo faz com que a discussão no Rio seja mais leve ou ao menos mais fluente. Se estamos discutindo, é porque naquele momento somos iguais. Não estamos questionando um as credenciais do outro, estamos só falando daquilo que pensamos, não esperamos que venha daí nenhuma consequência prática. Por isso o carioca fala o que pensa e nunca interpreta isso como arrogância. Nosso parâmetro é outro. (Não que aquilo que o carioca pensa seja necessariamente mais bem pensado.)

Outra virtude é que o carioca está sempre à vontade. As pessoas podem achar que eu sou intelectual, e olha que eu até tenho um par de óculos com aro mais grosso, mas é muito difícil encontrar alguém no Rio que queira ostentar uma identidade. O sujeito é surfista no verão, um dia corta o cabelo punk, vai em todos os lugares, e entende que tudo isso é meio que só de brincadeira. Em São Paulo não. Em São Paulo há punks. De verdade. Que acreditam no punk. Um carioca pensa nisso, diz “hã?” e esquece.

E essa é a chave para pegar o que há de burguês em São Paulo. Se no Rio todo mundo parece filho de um aristocrata decadente, em São Paulo todo mundo parece filho do dono do armazém, mesmo que seja bilionário. São burgueses que se ilustram e não conseguem deixar de se orgulhar de sua ilustração, de querer alardeá-la. Cultura é outro objeto que se adquire e que se ostenta. É como um Porsche, que, bem, você não compra para deixar na garagem.

Por isso também, como falei, o paulista tem uma identidade. Ele é um hipster, ou não gosta de hipsters. É punk, ou skinhead, ou não gosta deles. Ele estudou “na Poli” ou “no Largo de São Francisco” e acha isso o máximo. (Não estou dizendo que não seja.) Aqui no Rio a gente não tem orgulho de onde a gente estudou. Porque nós somos deuses. Já éramos especiais e o lugar é que ficou mais especial com a nossa presença. É por isso também que emporcalhamos tudo. Um deus não liga para nada. (Ver, a esse respeito, a cena de O Leopardo em que o Príncipe de Salina explica por que as estradas sicilianas são tão sujas.)

O GattopardoO Leopardo

Por ser burguês, o paulista sabe o quanto as coisas custam. Sabe que sua posição no mundo é frágil, e depende de ele não criar muitos problemas. Isso é verdade, não estou negando. Mas essa atitude leva a uma diplomacia extremada nas relações. Vou dar um exemplo. Certa vez, há muitos e muitos anos, dei um breve curso em São Paulo, e os alunos me perguntaram o que eu achava de tal livro. Peguei o livro, dei uma olhada, e no dia seguinte falei: “Acho uma fraude. Ele pegou trechos de um livro antigo, que eu conheço muito bem, traduziu e não deu crédito. Aliás, ele reproduziu a fraude de outro autor que já tinha feito a mesma coisa com o mesmo livro. Gente, traduzir e dizer que é seu é fraude.” Pois o diretor do lugar onde dei o curso – uma pessoa boníssima, sem a menor ironia – veio dizer que minha postura era “agressiva”. Mas, caramba, agressão é você vender gato por lebre. A lição que levei foi que em São Paulo estamos sempre pisando em ovos. Mesmo quando o interlocutor diz que não estamos, que podemos falar abertamente.

Claro que o melhor lado de São Paulo é a eficiência. O paulista compreende bem as relações impessoais. Todos os garçons do Brasil deveriam ser paulistas, ou ter treinado em São Paulo. Mais ainda, o paulista busca realmente a qualidade. Você vê isso porque o nível médio de tudo é mais alto em São Paulo. O Rio é uma cidade de extremos; num dia é perfeita, no outro dia é um inferno, e você nunca sabe qual personalidade ela vai assumir. São Paulo ao menos é constante. O que é bom é bom, o que é ruim é ruim, e você já conhece.

O paulista também é um manso, em comparação com o carioca. Há não tanto tempo cheguei numa estação de metrô umas seis da tarde. Tinha gente demais. Cheguei a pensar em desistir. Porém, na minha perplexidade fiquei olhando aquela gente toda e… percebi que as pessoas estavam ordeiramente organizadas numa fila. Era apertado, mas pacífico. No Rio, qualquer aglomeração daquelas no metrô me daria praticamente a certeza de uma convulsão social. Por isso também o trânsito em São Paulo pode ser de maneira geral muito mais intenso, mas também é muito mais civilizado. Porque o paulista, burguês cioso, não vai arriscar suas propriedades como o carioca, esse divino temerário.

O Rio é essencialmente um balneário, mas nós cariocas estamos convencidos de que é o melhor lugar do universo. Quando vou à praia no Posto 6 e tiro a cabeça d’água e vejo as montanhas de Niterói num dia sem névoa, é isso que eu penso. Nós, cariocas, somos aristocratas decadentes e meio delirantes. O Rio é nossa droga, é a cidade que nos maltrata e também nos estonteia. Sua beleza não é nosso mérito: já destruímos praticamente todos os prédios bonitos da cidade (na orla, não consigo pensar em nenhum entre o Copacabana Palace e a Barra da Tijuca). São Paulo é uma megalópole de negócios. Pode impressionar, mas ficar em São Paulo será sempre uma decisão racional, e não pelo menos meio irracional, como ficar no Rio.

Mesmo que no Rio chova muito mais do que se conta. O que é muito chato.

Galeão & Cumbica

Nossa presidente Dilma Rousseff propôs cinco pactos, diz-me a imprensa. De um deles, já teria desistido, ou ao menos estaria reavaliando o que deseja fazer. Os outros quatro pactos são um primor: um fala em responsabilidade fiscal, e os outros só falam em gastos. Aliás, o pacto da mobilidade urbana fala em 50 bilhões de reais saídos diretamente do Tesouro.

Presidente, se a senhora apregoa a responsabilidade fiscal, o que vai cortar para transferir dinheiro para aquelas metas? Podemos dar sugestões? Podemos fazer passeatas pedindo a redução dos salários e das aposentadorias da burocracia? Podemos iniciar a discussão prática de onde cortar? A senhora vai anunciar quando o prazo para propostas? Eu, por exemplo, sem pensar muito, acho que a verba publicitária do governo pode ser violentamente reduzida (bota violentamente nisso), que cada deputado pode viver com um salário, talvez uns dois assessores e zero passagens (ele trabalha em Brasília, que faça contato com as bases via Skype como todos nós), zero planos especiais, zero etc., o que vale, é claro, para os demais cargos da burocracia, que manteriam, é claro, o direito de criar suas organizações privadas de classe.

Afinal, presidente, se a senhora está propondo responsabilidade fiscal e aumento de gastos ao mesmo tempo, faz isso por quê? Por ser idiota ou por acreditar na nossa ilimitada idiotice? Veja que sou receptivo às duas propostas, e sei que uma não exclui a outra. Também sei que a política é o domínio do marketing, e que o marketing é o domínio da neurolinguística, e me pergunto se a senhora não está apenas provocando estímulos contraditórios para nos deixar estupefatos e atônitos enquanto os absurdos se perpetuam.

Nesse nível de discussão, francamente, só consigo pensar em Roberto Campos, que dizia que o Brasil tinha duas saídas: Galeão e Cumbica.

Antiga Sé & adjacências: Centro do Rio, 23 de junho de 2013

Hoje é domingo. Fui à missa no rito extraordinário na Antiga Sé do Rio de Janeiro, na rua Primeiro de Março, em frente ao Paço Imperial. Tirei essas fotos com o celular na saída da missa. (Sou um péssimo fotógrafo, claro.)

De frente para a igreja, assim estão as janelas à esquerda:

Antiga Sé, primeira janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, primeira janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, segunda janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, segunda janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, terceira janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, terceira janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, terceira janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, terceira janela à esquerda a partir da porta

Uma visão do outro lado da rua:

Antiga Sé, janelas à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, janelas à esquerda a partir da porta

Aqui, a entrada do prédio da Receita Federal (tentei esconder meu reflexo no centro, um amigo saiu ao lado):

Receita Federal, Rua Primeiro de Março, Centro do Rio de Janeiro
Receita Federal, Rua Primeiro de Março, Centro do Rio de Janeiro

E apenas uma das janelas apedrejadas do Paço Imperial:

Paço Imperial, Rio de Janeiro
Paço Imperial, Rio de Janeiro
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