Fé & razão

Sabedora de minha adesão ao catolicismo, uma moça me perguntou: “O que você acha desse negócio do Papa dizer que as camisinhas não funcionam para prevenir a AIDS?” Na hora, respondi que não tinha o menor interesse por esse assunto, pois minha última namorada me deixou há tempo suficiente para eu não ter dilemas de moral sexual, ou melhor, não viver draminhas de poeta barroco.

Mas ela não se comoveu. Só queria mesmo a minha opinião, porque achava “um absurdo o Papa dizer uma coisa dessas”. Perguntei por que era absurdo. “Porque a ciência diz que a camisinha previne a AIDS”. Ora, o Papa não está usando o parecer de outros cientistas ao dizer isso? Por que pressupor que “a ciência” é um bloco unitário, uníssono e unânime? Será que ela nunca ouviu falar que os cientistas discordam entre si? Então. O Papa deve ter pego uns cientistas que têm umas provas contra a camisinha. Controvérsia é normal. Controvérsia com partidarismo, mais ainda. Pretensão à imparcialidade absoluta é coisa de doente mental. No máximo a pessoa pode tentar ser honesta e sincera. E olhe lá.

A melhor resposta então seria: “Olha, você não sabe nada de camisinha e está apenas acreditando nos cientistas. É uma preferência pessoal. Deixe-me em paz. Eu posso preferir o Papa e seus cientistas, se quiser.” Porque há muitas coisas que desconhecemos e simplesmente confiamos na opinião alheia. Eu confio na minha dermatologista. Por quê? Não sei bem. Ela parece inteligente. É muito simpática. E eu não entendo nada de dermatologia. Minha interlocutora também não entende nada de dermatologia. Mas deve confiar na sua dermatologista. Por mais “esclarecido” que alguém se julgue, continua vivendo de fé, por uma simples limitação humana: não é possível examinar todos os assuntos.

A questão é que a autoridade “da ciência” é hoje aceita como aparentemente era a autoridade da Igreja há séculos atrás. A maioria esmagadora das pessoas ou é incapaz ou não desejaria se envolver com seriedade na menor querela teológica, e por isso simplesmente aceita: há um purgatório, um inferno, um céu etc. Da mesma maneira, poucos dentre nós têm a disposição de realizar um teste com camisinhas com todo o rigor científico – isto é, incluindo as mais variadas taras.

(Não resisto ainda a pensar o seguinte: se o uso de camisinhas aumentou e o número de casos de AIDS também, talvez possamos concluir que a camisinha seja uma das causas da AIDS.)

Se alguém duvida de que esta entidade chamada “a ciência” hoje possui uma autoridade maior do que a da pitonisa de Delfos, pode considerar um único fato. Experimente dizer em um jantar qualquer que o Sol gira em torno da Terra. Você será chamado de palhaço e idiota. Agora, todos vêem, todos os dias, o Sol dar a volta no céu. Todos vêem, todos os dias, a Terra paradinha onde está, e o Sol se movendo. “Ah, mas isso é só uma impressão.” Não é não. Você não aprendeu na escola que “o movimento depende do referencial”?

Mensagem de Natal

O mundo vai mal. Quem não sabe? Por toda parte – inclusive n’ O Indivíduo – encontramos explicações para “o que está acontecendo” e tentativas de descrever a nossa miséria.

Soluções, por sua vez, são um pouco mais escassas – mas quase sempre categóricas. Cada um escolhe a parte do mundo moderno que mais lhe dói e deduz de sua eliminação a solução universal. O embate entre as várias correntes cria uma expectativa: “algo” precisa acontecer que dê fim a estas dores e acusações. É a plenitude dos tempos.

Mas o que acontecerá quando “algo” chegar? Será que todas estas expectativas serão atendidas? Ao que parece, a chegada de “algo” à Judéia há 2001 anos frustrou muita gente. A verdadeira pergunta, então, é: o que EU farei quando “algo” chegar? Será que em vez de esperar que Cristo aja como Papai Noel e me dê aquilo que EU quero, não é melhor preparar-me para aquilo que ELE quer?

Se Cristo olhasse nos MEUS olhos em uma praia da Galiléia, o que eu faria? Será que eu estaria pronto? Será que minha casa está construída sobre a rocha? Será que não gastei todos os meus tijolos jogando-os nas casas dos vizinhos?

Pelo nosso calendário litúrgico, Cristo nasceu novamente. Quem ele encontrará? Pessoas com listas de desejos ou dedicados discípulos? É o excesso de desejos e a falta do cumprimento da vontade do Mestre que piora a situação – e cá estou eu também a explicar a “crise do mundo moderno”. Mas com uma ressalva: não há solução fora do interior de cada um, onde Cristo pode colocar a única coisa necessária, a paz que ultrapassa todo entendimento. Podemos dizer: “Mestre, salve-me” e mostrar dedicação; mas não podemos dizer: “Mestre, salve o mundo, que vai mal pelas razões expostas acima”.

Que Cristo, então, inspire mais uma vez os homens de boa vontade a buscar somente a Paz – a Paz no coração, não nos noticiários – , que os inspire a fazer tudo para merecê-la, que Ele a dê, e que Deus seja louvado nas alturas por todo o sempre. Amém.

Mensagem de Natal

Ontem eu pensava sobre como, na infância, eu imaginava o menino Jesus, e sobre como a imagem do presépio parece despertar um verdadeiro sentimento de piedade nas pessoas. Mesmo aqueles que não são cristãos abrandam a alma e desejam, nesta época do ano, ser pessoas melhores do que no resto do ano. A imagem do presépio e a lembrança do nascimento do menino Jesus parecem catalisar este sentimento na alma de todos.

Um abrandamento da alma e um doce curvar-se diante de Deus são condições fundamentais para a apreensão da verdade. Se o Cristo que nasce é o Logos divino, o Intelecto Agente divino encarnado, devemos também preparar o nosso intelecto paciente para recebê-lo. Só quando nos preparamos para aceitá-Lo é que podemos repousar, como a alma de Santo Agostinho.

Eu poderia ficar aqui reclamando de como o mundo está em crise etc. Mas não pude deixar de me maravilhar ao perceber a analogia entre o sentimento despertado pela visão do presépio, do menino Jesus, e o estado de alma necessário para que a Palavra Encarnada de Deus não seja jogada em solo duro, mas em solo fértil, e germine.

Faço votos de que, neste Natal, a inspiração trazida pelo nascimento do menino Jesus transforme mais um pouco a alma de cada um, preparando-a para receber a Verdade – que é o que o mundo precisa, e não de paz, como tantos pensam.

Entrevista com René Girard

René Girard lê O Indivduo

por Pedro Sette Câmara e Alvaro Velloso de Carvalho, com a participação de Olavo de Carvalho. Fotos de Sergio de Biasi.

No dia 17 de novembro de 2000, pude assistir a uma conferência de René Girard na Faculdade da Cidade do Rio de Janeiro. Logo após o evento, consegui marcar para o dia seguinte uma pequena entrevista com ele, feita no Hotel Glória em conjunto com Alvaro Velloso de Carvalho, meu companheiro aqui no Indivíduo, e o filósofo Olavo de Carvalho, que há muito fala de Girard em suas aulas. (PSC)

Ciência & Violência

Olavo de Carvalho: Embora o senhor tenha sido o primeiro que conseguiu reconciliar ciências humanas e catolicismo, o pensamento católico do século XX parece não ter exercido a mínima influência sobre a sua obra. Como se explica isso?

René Girard: Sou antes de tudo um cientista social, e foi normal que passasse à margem dos debates filosóficos e teológicos que envolveram os pensadores católicos. Interesso-me pela Bíblia principalmente como documento sociológico. Por isso eles acabaram me olhando com desconfiança, vendo em mim uma espécie de lobo em pele de cordeiro, sem perceber que minha obra, embora não tenha o menor intuito doutrinal ou apologético, abre novas e insuspeitadas perspectivas apologéticas para o catolicismo, na medida em que mostra a sua superioridade moral. Vivemos numa sociedade em que todos pensam que os Evangelhos são um mito e que todos os mitos são falsos; minha obra demonstra que só é possível compreender a falsidade dos outros mitos à luz dos Evangelhos e que eles não podem ser apenas mitos.(1)

Olavo de Carvalho: No seu sistema, a violência punitiva aparece sempre como um ato coletivo, um ato das massas, e no seu último livro o senhor diz ter deixado de acreditar na possibilidade de uma sociedade não-violenta. O senhor acredita que ao menos na alma do indivíduo humano exista uma espécie de recinto protegido, não contaminado pela violência?

René Girard: Isso depende da sua concepção do pecado original. Um agostiniano, um predestinacionista, diria que não. Mas eu espero que sim. É evidente que tanto na escala individual quanto na coletiva as paixões são substancialmente as mesmas – inveja, orgulho, etc. -, mas no coletivo elas são potencializadas pela força multiplicadora do mecanismo mimético.

Um longo argumento do princpio ao fim

O demônio estatal

Como ainda diz Girard em seu ensaio Are the Gospels Mythical?, este modo de funcionar da sociedade expressa o domínio de Satanás sobre ela. Pois, até o advento de Jesus Cristo, era Satanás quem expulsava Satanás. Era ele, o espírito acusador, quem extirpava o mal em nome do mal, quem impedia o cataclismo maior com um menor, e escrevia a história – os mitos – assumindo o partido do acusador. A religião cristã assume o partido da vítima – o Cristo -, e afirma sua inocência, ressaltando que não era preciso matá-lo.

Pedro Sette Câmara: O Sr. concordaria com a afirmação de que a ideologia politicamente correta, buscando a proteção estatal de todas minorias contra todos, representa uma tentativa de Satanás de expulsar Satanás novamente?

René Girard: Sim. O que é interessante nesse fenômeno é que ele só poderia acontecer numa civilização que já recebeu a influência do cristianismo. Como o mecanismo do bode expiatório já foi revelado, não retornamos diretamente a ele, isto é, não acusamos diretamente a vítima de alguma coisa, não dizemos diretamente que ela é culpada. Mas o mecanismo do bode expiatório continua a funcionar, de forma diferente: o movimento politicamente correto acusa seus adversários de criar bodes expiatórios, acusam-nos de vitimar os outros. Esta é uma espécie de cristandade ao contrário: eles pegam o que resta da influência da cristã, o que resta da linguagem cristã, mas para fins opostos, para perpetuar o mecanismo de sacrifício do bode expiatório.

Pedro Sette Câmara: Tenho aqui uma entrevista sua, de 1996, em que o Sr.defende a intervenção internacional na Bósnia, dizendo que ela ocorre não com fins imperialistas, mas apenas com o objetivo de parar a matança de inocentes. Após afirmar que a violência é o fundamento das sociedades, o Sr. ainda subscreveria essa posição? Ou o Sr. crê que o cristianismo possa também servir como fundamento para a organização da sociedade?

René Girard: O cristianismo nunca teve esse propósito. Ele não tem o objetivo de organizar a sociedade.

Pedro Sette Câmara: Mas e aquela posição, o Sr. a manteria?

René Girard: Eu não adotaria ainda hoje uma posição inteiramente favorável à intervenção na Bósnia. É difícil dizer para onde caminha o mundo hoje, com a possibilidade do fim das soberanias nacionais. Se você olhar casos como o da prisão de Pinochet, verá que todo o procedimento é inteiramente avesso ao direito internacional. O que se passa é que a legislação internacional entrou em colapso – e o que se seguirá daí?

Alguns dirão que é uma nova forma de imperialismo americano – mesmo que não haja desígnios para isso, porque o imperialismo pode funcionar mesmo sem um objetivo direto nesse sentido. Por exemplo, quando Putin falou em particular com Chirac, recentemente, ele lhe disse que De Gaulle não agiria como ele, não aceitaria acompanhar a política externa americana sem questionamentos.

Ora, poderíamos apoiar esse tipo de intervenção se soubéssemos que a comunidade internacional sempre intervirá pelos motivos certos – mas não dá para apostar nisso.

O que me preocupa é o potencial dessa situação para criar novos bodes expiatórios, como vimos claramente nos casos de Milosevic e Pinochet: é fácil odiar os dois, estando de longe, sem conhecer as situações específicas, sem ouvir um único argumento a favor dos dois, seguindo a onda de ódio da multidão.

O reino da mentira

Pedro Sette Câmara: O Sr. teria dito que acha que, se tivesse de realizar seu trabalho acadêmico hoje, não conseguiria fazê-lo dentro de uma universidade. O Sr. disse isso mesmo?

René Girard: Sim, é verdade. Se eu fosse jovem hoje, e tivesse de entrar em uma universidade, ficaria muito preocupado. Quando eu comecei, nos anos 50, 60, a situação poderia já não ser ideal, mas era boa, era diferente. Havia erros, mas as pessoas eram honestas, ou pelo menos estavam tentando ser honestas. Hoje, no meio universitário, as pessoas não estão mais nem tentando ser honestas. Está tudo – ao que parece, no mundo inteiro – infestado pela ideologia, e a universidade se transformou em um espaço de propaganda política.

Aborto: os inocentes pedidos pelo secularismo moderno

Alvaro Velloso de Carvalho: No livro Quand ces choses commenceront, o senhor faz observações interessantes sobre o aborto e a maneira como sua legalização representa uma regressão em relação a conquistas do cristianismo. Poderia comentar algo mais a respeito? (2)

René Girard: Nos Estados Unidos, ainda há uma discussão do assunto, mas na Europa, por exemplo, praticamente não existe dissenso nesse ponto. Recentemente, escrevi um artigo para uma revista católica européia e mencionei o aborto. Uma amiga ficou chocada!

Alvaro Velloso de Carvalho: O aborto nunca é visto num contexto bíblico, ou mesmo em um contexto antropológico mais amplo, certo?

René Girard: Sim, exato. Mesmo aqueles que argumentam contra o aborto nem sempre têm essa perspectiva, porque encaram a Bíblia de maneira excessivamente rígida.

A proteção à criança, a proteção ao recém-nascido é essencial na Bíblia. O sacrifício de Isaac marca a diferença entre o Deus antigo e o Deus novo: é o Deus antigo que pede a Abraão que ele sacrifique seu filho, e quando Abraão vai fazê-lo, o Deus novo impede o sacrifício da criança, e o substitui pelo sacrifício de um animal. O fim do infanticídio ritual é uma das marcas da nossa civilização, e estamos perdendo isso.

Recentemente, vi um livro em que o autor, de cujo nome não me lembro, dizia que o aborto era o sacrifício da criança, e ele tomava partido a favor desse sacrifício. Isso é o mais horroroso a que se pode chegar!

Fica a impressão de que as antigas fatalidades primitivas, descartadas provisoriamente pela luz profética e evangélica, estão ressurgindo. Na Bíblia, a proteção à criança vem junto com a proteção aos deficientes, aos leprosos, aos aleijados. Essas são as vítimas preferenciais nas sociedades antigas, e entendemos que devemos protegê-las. Hoje continuamos a proteger os aleijados, os deficientes, mas no centro de tudo há uma espécie de câncer se desenvolvendo, do retorno ao infanticídio. Este é um argumento decisivo, que poucos levam em consideração: os defensores do aborto estão procurando fazer a nossa sociedade retornar à barbárie pré-cristã.

Links relevantes

Notas:

(1) Comentário à parte, por Pedro Sette Câmara: somente esta observação já é suficiente para destruir a obra inteira de um Joseph Campbell, que nivela todas as religiões.

(2) Trechos referidos do livro Quand ces choses commenceront, editado pela Arléa em 1996, uma compilação de entrevistas de Girard com o jornalista Michel Treguer sobre os aspectos mais importantes de sua obra:

Neste ponto, estamos em uma situação absolutamente trágica. É perfeitamente verdadeiro que, em um plano humano, o do planning racional, o aborto e todas as medidas para limitar os nascimentos são tão justificadas quanto possível. Dir-se-ia que o mundo moderno encurrala os homens – seja à renúncia heróica, à castidade, à sobriedade, à pobreza, àquilo que outrora chamávamos ‘santidade’ – seja à queda cega em direção ao caos e à morte… E isto numa época na qual compreendemos cada vez menos a positividade da renúncia. O combate dos cristãos ‘progressistas’ para reconciliar o cristianismo com a sociedade atual me parece defasado com relação àquilo que pressentem os seres extirpados pela modernidade. Essa maneira de confundir a Igreja Católica com um partido político desatualizado com os anseios de seus eleitores é uma perda do senso religioso.

E, em outra parte do mesmo livro:

A atitude da Igreja Católica, ou, melhor dizendo, a do Vaticano – hoje em dia muito isolado no seio mesmo do catolicismo – desconsiderada por uma boa parte de seu clero, ridicularizada pelo universo inteiro, bode expiatório quase oficial da mídia e de toda a intelligentsia mundial, tem algo de heróico, ainda mais que esse heroísmo não é reconhecido. Nós somos cada vez menos capazes de saudar ou mesmo de respeitar as verdadeiras dissidências. No fundo, o que encoleriza o mundo é o fato de que, longe de provar a hipocrisia que sempre se reprova nela, longe de se mostrar ‘política’, sobre este ponto a Igreja se apega firmemente à sua doutrina de sempre. Ela permanece fiel à sua atitude fundamental, que consiste em pôr uma certa definição da graça e do pecado acima de todos os imperativos puramente mundanos, de qualquer ordem que sejam eles.

O construtor do labirinto: Machado inconstruído

Que eu, se tenho nos olhos malferidos

Pensamentos de vida formulados,

São pensamentos idos e vividos.

“Soneto a Carolina”. Machado de Assis, 1906

Se me fosse pedido para apontar qual dos campos da atividade intelectual se encontra no maior estado de confusão, eu não titubearia em responder imediatamente que se trata da moderna crítica literária. A primeira razão para o pandemônio reinante, quase literal, é que o crítico de hoje é, em geral, uma pessoa que aboliu a priori a diferença entre signo e significado, entre as palavras e as coisas, entre o que as palavras dizem e as palavras mesmas. O crítico é capaz de caminhar por silogismos e não ver mais do que a expressão da psique de alguém, ou uma manifestação cultural; quando ele se depara com algo que parece lhe dizer respeito, este algo sempre lhe dá a medida de sua própria ignorância, e as coisas mais simples acabam mistificadas em abismos. O crítico, em suma, aboliu a verdade e a falsidade de sua mente; nela, só existe o texto. Ou, para tornar as coisas mais exatas, digo que a crítica literária trabalha somente com a lógica formal e com a lógica psicológica, tendo deliberadamente abandonado a lógica ontológica, porque esta é que impõe mais claramente a necessidade da existência de algo exterior ao texto e à mente do leitor.

Em meio a esta loucura toda, tive a oportunidade de estudar, no fim do primeiro grau, com uma exceção, chamada Marta de Senna, a quem devo não só o aprofundamento do meu gosto pela Literatura como também o desejo, ou a necessidade biológica, de investigar os fundamentos da Arte. Estou até hoje dialetizando comigo mesmo as palavras que ouvi naquelas aulas, em busca de definições e de princípios. A lembrança daquelas aulas, em que fui apresentado a Sófocles, Shakespeare, Machado de Assis e Graciliano Ramos, me ajudou bastante a passar pelo tormento de um ano e meio de Faculdade de Letras.

Trago estes dados autobiográficos para apresentar ao leitor a autora do livro que servirá de base para a discussão que pretendo apresentar, e para prestar uma pequena homenagem a uma pessoa a quem eu devo tanto. Pois é ela, Marta, que me dá a deixa para iniciar uma discussão a respeito de Machado de Assis, cuja obra sempre me pareceu largamente incompreendida. Não que eu mesmo a tenha compreendido; aqui, pretendo apenas sugerir bases para uma análise futura, mais profunda, mais fundamentada. Aproveito, inclusive, para convidar a própria Marta a participar desta discussão se lhe aprouver, escrevendo para o jornal.

Não vejo, pois, ponto de partida mais honroso para começar uma discussão sobre Machado do que o livro de Marta, intitulado O Olhar Oblíquo do Bruxo: Ensaios sobre Machado de Assis (São Paulo: Nova Fronteira, 1998). Trata-se de uma obra de literatura comparada que procura paralelos tanto de forma quanto de idéias entre Machado de Assis e Lawrence Sterne, o maior dos “narradores autoconscientes” ingleses.

O olhar oblquo do bruxo

O livro de Marta de Senna possui várias virtudes, que se tornam ainda mais virtuosas à medida que contemplamos o presente estado do mundo dos estudos literários. Primeiro, o livro não parte de nenhum pressuposto absurdo, como a Estética da Recepção (que só dá as caras mui discretamente em uma nota de pé de página); segundo, ele admite a existência do mundo físico; terceiro, ele é extremamente bem escrito, o que lhe dá ares de oásis em meio à aridez técnica pedante da crítica universitária. Além disso, Marta de Senna é bastante arguta ao demonstrar as relações estruturais que existem entre obras de Sterne como Tristram Shandy (disponível em português como Vida e opiniões do cavalheiro Tristram Shandy) e A Sentimental Journey through France and Italy (também em português como Uma viagem sentimental); coisa, aliás, que o próprio Machado nos avisou que havia. Quanto a isto não creio que ainda haja qualquer coisa a ser dita.

Contudo, se do ponto de vista estritamente literário, isto é, formal, Marta de Senna é impecável, com uma análise concisa, interessante, e de agradável leitura, do ponto de vista das idéias de Machado sua análise ainda não toca nos pontos que me parecem centrais. O que Machado queria dizer com seus escritos? Qual o sentido da obra machadiana? Ela faz sentido mesmo, ou existe apenas a busca de um sentido, ou nem mesmo a pretensão? Uma parte do mundo universitário criou uma figura de Machado como um autor pessimista, leitor de Schopenhauer, kantiano, incrédulo em relação ao intelecto e à felicidade, além de ateu. De outro lado, os seguidores de Roberto Schwarz, mais esotéricos, pressentem em Machado aquela atmosfera de “luta de classes” que para muitas criaturas é suficiente para conferir o status de utilidade pública a uma obra de arte.

Neste ponto, me parece que a melhor estratégia é agir como crítico literário, e dizer que estas análises dizem mais sobre quem as realiza do que sobre o seu objeto. E, bem ou mal, é verdade que o conhecimento dos pressupostos ideológicos ou científicos de muitas análises basta para adivinhar-lhes o alcance. O problema todo são os pressupostos. Se tento ver a pintura medieval com olhos renascentistas, perderei todo o sentido da pintura medieval. Se tento ouvir A Paixão Segundo São João de Bach com ouvidos de bossa-nova e rock’ n’ roll, não ouvirei coisa nenhuma. Mas – eis o ponto mais importante – é preciso ressaltar que estes pressupostos não tem uma equivalência. Há olhares e olhares, é verdade, mas é verdade também que estes olhares não estão quantitativamente, ou horizontalmente nivelados. Podemos simplesmente não ter um olhar suficientemente grande e perspicaz para abarcar um objeto, e pode ser também que um objeto demasiado pequeno para nosso olhar nos pareça mesquinho e tacanho.

Acredito, então, que só podemos contemplar um objeto quando estamos no nível dele ou em um nível acima dele. Além disso, acredito também que precisamos deixar que o objeto nos mostre qual é o modo correto de observá-lo, precisamos deixar que ele nos diga qual é o ponto de vista desde o qual ele se torna mais nítido e brilhante.

Mas, não tendo ainda a intuição direta do sentido da obra de Machado, e nem mesmo sabendo se este sentido está lá ou não, só resta comparar o que dizem dela com o que ela diz.

A primeira coisa que dizem de Machado é que ele é pessimista. Como diz Marta de Senna em sua introdução, “Machado propõe em Quincas Borba uma espécie de filosofia do desencanto e do abandono (a que, todavia, não falta humor), desenhada tanto em termos necessários, ontológicos, como em termos contingentes, existenciais.”

Ora, o pessimismo, na obra de Machado, não é universal, mas é antes um pessimismo quantitativo, ou um pessimismo em relação à matéria, ou seja, ele surge apenas em “termos contingentes, existenciais”. Que isto soe como o pessimismo universal para críticos materialistas como os brasileiros em geral (Antonio Candido, Alfredo Bosi & cia.), é bastante compreensível, pois o materialismo não deixa de ser uma confusão entre essência e existência; no entanto, o leitor que estiver consciente das implicações espirituais de minhas proposições concordará plenamente. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, assim começa o Eclesiastes. “Meu reino não é deste mundo”, diz o próprio Jesus Cristo – e não esqueçamos que a Bíblia começa no Gênesis e termina no Apocalipse. Aliás, nenhuma religião ou pessoa séria acredita que este mundo vá melhorar. É próprio da matéria que se disperse.

O que fazer então com o pessimismo machadiano? Ele certamente está lá, mas se dirige ao leitor e aos personagens, tipos da sociedade da época em cuja composição a caricatura se confunde com a verossimilhança. Machado sabia que aquelas pessoas – aqueles personagens – uma vez reunidas, como na trilogia Memórias Póstumas de Brás CubasQuincas BorbaDom Casmurro, não poderiam fazer nada senão trabalhar para a destruição mútua. Destruição, bem entendida, da alma.

O mais nítido exemplo de dispersão da alma está em Quincas Borba. Rubião, simplório, dotado da simplicidade da pomba mas não da prudência da serpente, se deixa seduzir pelos aspectos mais superficiais da realidade, e acaba arrastado pela força centrífuga do desejo mimético (segundo a teoria de René Girard) até a loucura, ou até a dissolução de seu intelecto. Palha, por sua vez, suga seu dinheiro e assim compra sua passagem para o Nada: as batatas são o prêmio que este mundo dá aqueles que aqui vencem, trocando sua alma por um prato de lentilhas. E Sofia, por fim, só encontra deleite ao ser desejada por todos, como o Bezerro de Ouro que seduz os incautos, incapazes de perceber a importância do que existe bem debaixo de seus narizes. E estes é que são os personagens de Machado: os adoradores do Bezerro de Ouro, ou, em outras palavras, os intelectuais modernos e seus seguidores da nova burguesia. Não há como fingir que a paródia filosófica do humanitismo não seja dirigida aos iluministas e reformadores da sociedade em geral, estas pessoas que alegam as razões mais selvagens para “fazer o bem”. E, como crítico da modernidade, Machado de Assis está alinhado muito mais com os antigos, como Shakespeare e Dante, sendo que o primeiro não poupou condenações às idéias renascentistas em suas peças (ver a respeito Martin Lings: The Sacred Art of Shakespeare, Inner Traditions, 1998; saiu em português A arte sagrada de Shakespeare). O pessimismo de Machado, pois, diz respeito ao destino metafísico dos personagens, que, justamente por serem materialistas, estão condenados ao mundo dispersivo da matéria.

Mas para poder desdenhar de algo é preciso estar em outro patamar. Para poder criticar, é preciso estar acima da coisa criticada. Logo, em nome de que estaria Machado fazendo esta crítica? Eis a pergunta que caberia aos teóricos da literatura explicar. Existe o esquema do autor empírico e do autor-modelo, que na verdade se revezariam na composição da obra, com o autor empírico volta e meia aparecendo em uma brecha, voluntária ou não. Mas a maestria da obra de arte está em esconder, ou pelo menos somente se revelar àqueles que merecerem. Nesse sentido, a trilogia de Machado é o melhor exemplo que há: propositalmente ambígua, cheia de pistas falsas, de frases de duplo sentido, sem jamais se revelar diretamente.

Marta de Senna também aposta nesta qualidade da obra de Machado como reflexo da posição filosófica do autor, que não acreditaria que o intelecto fosse capaz de apreender o real. No livro, a autora chega mesmo a tomar Bentinho (ser ou não ser corno?) como modelo desta incapacidade. A construção que Bentinho faz de Capitu é na verdade uma “piada” machadiana, não a respeito da apreensão do real, mas a respeito da apreensão do real por aquele que não lhe tem amor suficiente para desejá-lo como tal, sem querer mudar-lhe em nada. Bentinho queria Capitu de maneira doente, sem aceitar sua autonomia, e por isto esta lhe escapa. É desta forma que Capitu “trai” Bentinho, isto é, Bentinho é traído pelo desejo de absolutizar o próprio olhar em frente ao mundo, preferindo o que está na sua cabeça às coisas exteriores. Ou, de maneira mais vulgar, Bentinho não passa de um masturbador que se recusa a sair desta situação. Ele teme o real e por isso prefere decidir o que aconteceu e não aconteceu, da mesma maneira que um jovem inexperiente que nunca saiu da barra da saia da mãe morre de medo de cumprimentar a menina que lhe atrai.

Capitu, por sua vez, aparece prefigurada na Guiomar de A Mão e a Luva, como a menina-mulher inteligente e decidida que não veio ao mundo para brincadeiras. Tanto é que dos dois rapazes que a pleiteiam, Estêvão e Luís Alves, ela prefere o segundo justamente pela sua capacidade de resolução. Sobre Estêvão, que fica chorando e imaginando em seu quarto qual um poeta romântico, Machado de Assis nos diz que “é próprio da pusilanimidade iludir-se a si mesma” (Cap. VIII, “Golpe”). Se A Mão e a Luva é a vitória da lucidez, da sinceridade e da resolução sobre os choramingos da paixão indecisa, Dom Casmurro apresenta o lado de Estêvão da história – o lado de quem acha bonito permanecer incapaz de lidar com os outros e com o mundo exterior que independe do sujeito que o observa.

Bentinho pode ser comparado a Hamlet mais do que a Othello, como propõe Marta de Senna. Mas eu devo adicionar que a comparação entre o jovem burguês e o príncipe da Dinamarca só pode se dar no plano da caricatura: Hamlet vai ampliando a sua consciência, vai assumindo os abismos de sua alma, até que está pronto para matar o rei Claudius, e o cumprimento de sua missão completa o sentido de sua vida. Remeto o leitor mais uma vez ao livro de Martin Lings para conferir o ensaio sobre Hamlet, que considero o mais magistral já escrito em toda a história da crítica literária. Se Hamlet vai ampliando a sua consciência e ganhando resolução, acumulando energia vital, Bentinho faz exatamente o contrário. Cada abismo assusta-lhe, cada oportunidade de crescimento é vigorosamente negada, e ele se recolhe até o extremo da casmurrice em sua alma, aceitando ser vilipendiado até por sua própria imaginação. Em suma, Hamlet é o sim e Bentinho é o não.

Se a má disposição da alma Bentinho fosse tomada como modelo da incapacidade do intelecto para apreender o real, estaríamos diante da maior tragédia de todas, presos numa diabólica tragicomédia em que Deus, a essência do real, O que nos criou, não se dá a conhecer. Ora, se Deus não se dá a conhecer de maneira direta, intuitiva (falo de intuição como a percepção de uma evidência direta e inequívoca), então só nos resta o quê? Nossos sentimentos? Mas se os sentimentos é que são valorizados, a vontade schopenhaueriana, acabou-se a filosofia, e entramos na era da moral – o imperativo categórico de Immanuel Kant, que é tão filosófico quanto minha mãe quando me mandava tomar banho porque sim. (E, se continuarmos este raciocínio, veremos que Bentinho é o típico sujeito medíocre que apóia as ditaduras, quaisquer que sejam. Tivesse nascido na Zona Sul do Rio de Janeiro cem anos depois, estaria usando um boné de Che Guevara, acreditando-se justificado pelos conteúdos da sua imaginação.)

Não: a verdadeira tragédia está em fechar as portas do Paraíso, está em, tendo recebido uma Graça, recusá-la… Somente quem conhece os dois lados pode ter compaixão por um deles; somente quem conhece a vida do espírito sabe a que infernos desce o mundo puramente material – e Machado certamente os conhecia. Tanto que se utiliza da eternidade em Brás Cubas, o ponto de partida explicitamente metafísico de uma obra que começa da consciência do nada e termina no nada.

Sem esquecer que agora já nos aproximamos do verdadeiro enigma. Como poderia Machado de Assis ironizar aqueles que desdenham do real se ele mesmo não conhecesse o real? Como inventar um tecido de pistas falsas e ambigüidades com tanta maestria se ele mesmo não conhecesse a saída do labirinto? Seria como dizer que Machado perdeu o controle de sua obra, ou que jamais o teve. A menos que decidíssemos falar de uma confusão premeditada por alguém que também não conhece outra coisa, ou que somente nela crê, e aí estaríamos diante do demônio mais burro do Inferno. Mas Brás Cubas, que nos escreve desde lá, é mais inteligente do que isto. Desde a eternidade se pode falar das coisas tais como elas são justamente porque não há impedimentos à consciência.

Machado, por sua vez, estava plenamente consciente do que fazia, e era certamente pessimista em relação ao intelecto de forma geral, mas de maneira alguma de forma universal. Ainda que sua época se afundasse em vaidades, ele soube guardar o fundo espiritual, perene, que lhe desse a segurança de navegar em águas turbulentas. No entanto, sem este fundo espiritual, só resta ao homem parasitar a matéria como um pernilongo, e desde esta posição essas águas lhe parecem turbulentas – como as que escorrem pelo ralo de um banheiro. O homem que está tomando banho, ainda que envolvido por essas águas, vê os insetos serem levados, mas ele mesmo não sai do lugar.

Como escritor, Machado decidiu dar a esta confusão a expressão mais exata que podia, tomando cuidado para que o sentido de sua obra permanecesse oculto ao leitor que não soubesse lhe dar a atenção devida, apenas a examinando segundo seus aspectos mais materiais – leia-se “econômicos”, “sociológicos”, “psicológicos”. Aqueles que analisam a obra de Machado segundo este viés também são seus personagens, seus leitores – empíricos ou modelo? Nesse sentido, o título do livro de Marta de Senna é extremamente feliz: o olhar de Machado é oblíquo e só poderá entender o que ele diz aquele cuja inteligência voar como uma flecha em direção ao ponto central. Como num koan. Aqueles que tentarem aproximar-se delas somente pelas beiradas ficarão vagando por um labirinto, à espera de um Minotauro qualquer, como o desconstrucionismo, a psicologia lacaniana ou a poesia concreta.

Creio, pois, que a única chave para a compreensão da obra de Machado de Assis é espiritual. Conhecedor da mundanidade, não se tornou mundano, como aliás sua vida recatada atesta. Condescendente com os amigos, que lhe eram muito inferiores como escritores, não teve escrúpulos ao retratar toda a náusea da vida daquela época – que foi desaguar nesta. Privilegiando o contato íntimo com sua esposa ao ruído da vida pública, Machado escolheu para si a melhor parte e deu a seus personagens aquilo que esperavam dele. Sua solidão, aliás, prefigura a maior característica do fim do século XX, que é a quase impossibilidade de encontrar vida espiritual para além da solidão da consciência individual.

Acredito que o próprio Machado nos faz uma quase confissão a este respeito no soneto que dedica a Carolina, sua esposa, por ocasião de sua morte em 1906. A maneira serena como ele encara a situação tem sua raiz nas coisas eternas, capazes de abarcar as coisas passageiras como a vida terrestre:

Querida, ao pé do leito derradeiro

Em que descansas dessa longa vida,

Aqui venho e virei, pobre querida,

Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

Que, a despeito de toda a humana lida,

Fez a nossa existência apetecida

E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores – restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos

E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos

Pensamentos de vida formulados,

São pensamentos idos e vividos.

Eis aí representada a paz interior que Machado experimentava, o ponto fixo desde o qual ele podia observar o mundo vão de seus personagens. Seus “pensamentos idos e vividos” eram suficientes para resistir aos modismos bem-pensantes da época e para retratá-los com uma agudez verdadeiramente profética. Digo profética porque este é o termo que se deve usar para quem produz um Simão Bacamarte (terá Machado ouvido falar do Dr. Freud, ou Lacan?), e um filósofo Quincas Borba (símbolo de Giannotti, Chauí, Adauto Novaes e tutti quanti). A caricatura de outrora tornou-se realidade hoje.

Mas bem. Justiça seja feita, pelo menos uma pessoa tentou a análise espiritual das obras de Machado de Assis. Gustavo Corção, na apresentação do volume sobre Machado que fez para a coleção Nossos Clássicos, da editora Agir, também rejeita a perspectiva material-ceticista da obra de Machado e joga em seu lugar luzes metafísicas. A apresentação é todavia muito curta, e desconheço o aprofundamento que Corção fez, segundo me dizem, em O desconcerto do mundo.

Não sei o que Gustavo Corção pensaria do que digo, e ignoro ainda mais o que ele pensaria da proposta que agora farei. No ramo das intertextualidades, tão caro ao meio acadêmico de hoje em dia, sugiro – Corção também sugere – que procuremos os paralelos entre a obra machadiana e o Eclesiastes. São duas obras escritas em linguagem aparentemente paradoxal, e que parecem tratar da utilidade das ações terrenas do homem. De fato, eu chegaria a dizer que todos os romances de Machado me parecem uma longa meditação sobre o livro do Antigo Testamento, uma tentativa de ilustrar modernamente um texto escrito há milhares de anos. Esta possibilidade, aliás, é que vai confirmar a universalidade do texto, e não o contrário. Não se trata de “reler” ou de “reinterpretar” o Eclesiastes à luz da modernidade, mas antes de se deixar interpretar por ele, verificando a perenidade da sabedoria inspirada.

Lebenswelt

Ahnest du den Schöpfen, Welt?

(Percebes o Criador, ó Mundo?)

– Schiller, “Ode an die Freude”

Todas as pessoas que querem “um mundo melhor” não têm a menor idéia de como seja o mundo real. São pessoas que tomam a essência da realidade por seus aspectos mais exteriores, travestidos de um sentimentalismo fabricado em agências de publicidade, cujos funcionários, por sua vez, têm tendências marxistas ainda que não sejam capazes de citar uma única linha de O Capital ou de qualquer outra obra de Karl Marx. Para demonstrar isto, basta lembrar que o socialismo, apesar de todas as suas dezenas de milhões de vítimas, é identificado com “o Bem”.

O que define o marxismo, assim como seu pai, o epicurismo, é justamente a falta de amor à realidade, ao mundo como tal. Não vá pensar o leitor que a minha coluna se chama “O mundo como mundo” por um desejo de brincar com palavras, mas sim por já declarar guerra a priori a qualquer tentativa de impor um conceito inventado por mim à realidade das coisas, que eram de um jeito quando eu nasci e continuarão sendo deste mesmo jeito quando eu estiver sentado no assento etéreo.

Mas eu não tenho a intenção de, neste artigo em particular, ficar esmiuçando as podridões marxistas. Quero ir muito mais fundo e mostrar que a porcaria inicial está no simples desejo de sobrepor um conceito à realidade, de inverter a ordem e tentar impedir a prática de desmentir a teoria. O desejo de transformação do mundo nasce justamente desta arrogância infantil, da pretensão de entrar na obra de Deus como co-autor, sem perguntar a opinião do autor – e, na maior parte dos casos, dizendo até que Ele não existe – associado à simples incapacidade de perceber o que de fato vem a ser o mundo. Como não se sabe o que é, por que não acreditar que uma invenção da imaginação tem o status de realidade? Afinal, para uma cabeça destas, o mundo é construído, e não dado. E aí o ódio ao burguês ou ao judeu se torna, kantianamente, uma categoria a priori na mente: se o mundo é construído pelo sujeito, e não percebido por ele, então eis justificada qualquer posição a respeito de qualquer coisa. O problema é que o mundo é dado, e não construído. Deus não pediu a ajuda de ninguém para fazer o mundo e muito menos entregou o conserto dele para qualquer pessoa, como se achasse que devia levá-lo à oficina ou algo assim. Então, antes de querer sair alterando tudo por aí, qualquer um que tenha esses surtos deveria se fazer essas perguntas, ao invés de tomar seus simples sentimentos, suas projeções, como explicações globalizantes e imperativos categóricos para tomada de ação.

Especialmente porque Deus não é um sentimento e muito menos um passo dado no escuro, como se a fé fosse um salto cheio de esperança nas trevas, uma aposta contra a gravidade do abismo. Não: a grande marca de Deus é a inteligibilidade. Deus se dá a conhecer a quem quer que tenha sinceridade e humildade para tanto, e eu digo conhecer, ter a certeza de que ele existe e é quem está por trás de tudo. Imagine só: Deus inventou o mundo e tal, e te deu cabeça para pensar pra quê? Ele seria um Deus muito sádico se nos obrigasse a apostar na sua existência e não se desse a conhecer a todo momento.

A realidade inteira aponta para Deus. O Criador deixou a sua marca em tudo o que existe. É claro que em certos momentos o Sentido nos parece mais presente do que em outros, que nem sempre se consegue manter essa tensão contemplativa máxima, mas os poucos momentos em que nos vemos frente à frente com a Beleza e a Verdade da criação divina são suficientes para resgatar todo o mal-estar da existência. Um único momento vale uma vida, e infelizmente há muitas vidas que não tiveram um só destes momentos.

Quem já viveu isto sabe bem do que falo. Não se troca a visão da rosa em meio ao caos pela arrumação arbitrária do caos. Mas, para quem nunca lançou um olhar sincero para o mundo, para quem nunca viu que Deus está no nascer do sol, nos olhos da amada, no suco de amora e nas pedras e tudo o mais, não me admira que só reste a reforma da sociedade. O que, no fundo se reduz a dizer que o reformador é bom e os reformados são maus: uma infantilidade muito da besta.

Não acredito que se possa ter um verdadeiro amor pelas criaturas sem antes amar o Criador. Quem não ama o Criador não é capaz de amar o que há de eterno em uma pessoa, mas somente seus aspectos mais acidentais e transitórios, o que, por sua vez, não configura amor nenhum, mas somente uma paixão, no sentido de pathos. E, não a amando, sendo incapaz de contemplá-la como deve (pois a contemplação está voltada para um objeto muito menor do que ela própria), deseja alterá-la, fazendo-a conformar com um ideal abstrato, que, por definição, é uma bela porcaria e infinitamente pior do que aquilo que Deus mesmo planejou. Por isto mesmo acredito que todo desejo moderno de reforma da sociedade é mal-intencionado.

A compaixão de que Jesus nos fala é justamente a capacidade de perceber o aspecto trágico da queda, o drama do eterno em meio ao transitório. Ao mesmo tempo, é somente amando este mundo na sua totalidade, com todos os seus aspectos transitórios, que se pode perceber a unidade da realidade e a presença de Deus, que, como um maestro, rege esta imensa sinfonia que é o mundo da vida.

O princípio de autoria

Se quem dá coices são os cavalos, e não a cavalidade,

do mesmo modo quem age é o homem concreto, e não a sociedade.

– Olavo de Carvalho (O Jardim das Aflições, Diadorim, pág 222)

Vou logo dizendo que escrevo este artigo porque ele me pareceu o mais urgente de todos. Vou dizer umas coisas que me parecem altamente óbvias, mas que tenho visto sendo negadas por aí com uma certa freqüência. Talvez a situação seja mais alarmante do que eu penso… Mas bem. Vamos lá.

Todo mundo que ainda não atingiu um estado verdadeiramente patológico sabe o que pensa e o que quer. Basta evocar a própria consciência por alguns minutos. Basta pensar a qual fim, efetivamente, visam suas ações. Ainda que sentimentos brotem de você como que do nada, é você, é o sujeito individual concreto quem decide o que fazer com eles. Por exemplo: eu posso ter vontade de matar alguém, mas não o faço. Ao mesmo tempo, eu posso amar alguém, mas posso escolher não demonstrar esse amor, escondê-lo… E não posso culpar o objeto do meu amor por me ignorar, a não ser que ele seja o Thomaz Green Morton (na verdade, não posso culpar ninguém porque não posso obrigar ninguém a gostar de mim). Daí aproveito logo para reiterar que não vejo nenhum problema com “preconceitos ocultos”, desde que permaneçam ocultos – afinal, como diz o autor da minha epígrafe, “preconceito oculto é algo tão letal quanto “porrada implícita”.

Por isso que você só pode ser culpado da intenção que realiza, e não da intenção latente. Quem faz Direito sabe muito bem que as pessoas respondem por seus atos e pela cadeia de fatos em que aqueles se inserem, e não pelas intenções escondidas.

Mais exemplos. Leitora: se estamos namorando, e eu traio você, o que acontece? Pode ser que eu só estivesse com vontade de dar uma saída com aquela menina e mais nada, mas o “dar uma saída com aquela menina” – ainda mais se levado às últimas conseqüências – tem uma implicação da qual eu estou perfeitamente consciente. Se a conseqüência é que você não tolera sua nova posição de corna, então eu devo arcar com ela. Você, leitora, armará um escarcéu, me trairá, dirá para todas as suas amigas que eu não presto etc. E você sabe muito bem o que me diria se eu resolvesse dizer que quem te traiu foi a minha testosterona, não é? A não ser que já exista uma ideologia de corno, sei lá. Se até maconha tem ideologia e deputado, por que não?

Bem, o fato é que as implicações reais dos nossos atos vão, muitas vezes, além da nossa consciência; e não é porque as desconheçamos que elas se tornam inexistentes. Ainda que, te traindo, não me passe pela cabeça (olha, tem pessoas que realmente não pensam. Tratarei delas depois) que você pudesse se sentir ultrajada com isso, você se sente – é uma conseqüência impremeditada. Agora há pouco mesmo eu esbarrei, no mesmo Jardim das Aflições, com uma frase de Max Weber: “a História é o conjunto das conseqüências impremeditadas das ações humanas”. No entanto, o sujeito causador está lá: quem te traiu fui eu porque quem saiu com a outra fui eu. A responsabilidade, ou a possibilidade de responder por algo, o princípio de autoria, está tudo aí.

Admito um contra-argumento: mas e se a pessoa não estiver consciente do que faz? É bem verdade que há pessoas com um coeficiente gigantesco de inconseqüência. Porque tem gente que ou não sabe o que faz ou sabe muito bem e está mal-intencionado. Os socialistas, por exemplo. Após mais de cem milhões de mortos (mais que todas as guerras do século), alguém que se pronuncie a favor disto só pode ser idiota ou canalha. E quem defende alguma posição socialista numa universidade católica e “pontifícia” (o Capeta sabe o que ela tem de pontifícia) só pode ser mais idiota ou mais canalha ainda.

Mas voltando ao nosso conturbado romance, leitora: se eu traio você, só há essas duas possiblidades. Ou eu te traí sabendo o que fazia, e sou canalha, ou eu te traí sem saber, e sou idiota, inconseqüente (aliás, quem aceitar a desculpa de que o outro “não sabia o que estava fazendo” é mais idiota ainda, merece ser traído mesmo). Numa palavra melhor: inconsciente. E não há mal maior do que a falta de consciência.

Que dizer, então, das pessoas que não têm a menor consciência do que fazem? Que se deve ter alguma pena delas, e nunca achar que elas têm algo importante para ensinar (a não ser muito acidentalmente, e mesmo assim é melhor duvidar um pouco). Porque, se a conexão entre autor e ato e inevitável, por outro lado a conexão entre ato e consciência do autor não é tanto. O problema todo é que hoje em dia eu vejo muita gente que prefere fazer a apologia da irresponsabilidade, ou seja, preferem dizer que não são senhores de si mesmos, preferem sempre apelar para causas externas, como se fossem coitados cerceados por intransponíveis limites que o mundo lhes impõem. Ora, quem nega a culpabilidade é coitado, é objeto inerme, fantoche nas garras de forças falsamente superiores que acabam se tornando superiores mesmo. E, amigo, se um pedaço de chocolate é mais forte que você, ah, você está é mal…

Pode até ser que a maioria se enquadre nisto aí: a maior parte das pessoas tem alma de escravo, já dizia o bom Aristóteles. Querem atribuir a outro suas responsabilidades, querem alegar apenas estarem “cumprindo ordens” ou que são “vítimas” de alguma coisa: do tesão irrefreável, da gula, do instinto assassino, do sistema, da família opressora… Essa gente merece um governo totalitário mesmo, merece o código de trânsito. Querem ser apenas animais altamente amestrados mas com a liberdade de serem animais, isto é, de dar vazão a todos os instintos. Tentar chegar a ser humanos, jamais.