O princípio de autoria

Se quem dá coices são os cavalos, e não a cavalidade,

do mesmo modo quem age é o homem concreto, e não a sociedade.

– Olavo de Carvalho (O Jardim das Aflições, Diadorim, pág 222)

Vou logo dizendo que escrevo este artigo porque ele me pareceu o mais urgente de todos. Vou dizer umas coisas que me parecem altamente óbvias, mas que tenho visto sendo negadas por aí com uma certa freqüência. Talvez a situação seja mais alarmante do que eu penso… Mas bem. Vamos lá.

Todo mundo que ainda não atingiu um estado verdadeiramente patológico sabe o que pensa e o que quer. Basta evocar a própria consciência por alguns minutos. Basta pensar a qual fim, efetivamente, visam suas ações. Ainda que sentimentos brotem de você como que do nada, é você, é o sujeito individual concreto quem decide o que fazer com eles. Por exemplo: eu posso ter vontade de matar alguém, mas não o faço. Ao mesmo tempo, eu posso amar alguém, mas posso escolher não demonstrar esse amor, escondê-lo… E não posso culpar o objeto do meu amor por me ignorar, a não ser que ele seja o Thomaz Green Morton (na verdade, não posso culpar ninguém porque não posso obrigar ninguém a gostar de mim). Daí aproveito logo para reiterar que não vejo nenhum problema com “preconceitos ocultos”, desde que permaneçam ocultos – afinal, como diz o autor da minha epígrafe, “preconceito oculto é algo tão letal quanto “porrada implícita”.

Por isso que você só pode ser culpado da intenção que realiza, e não da intenção latente. Quem faz Direito sabe muito bem que as pessoas respondem por seus atos e pela cadeia de fatos em que aqueles se inserem, e não pelas intenções escondidas.

Mais exemplos. Leitora: se estamos namorando, e eu traio você, o que acontece? Pode ser que eu só estivesse com vontade de dar uma saída com aquela menina e mais nada, mas o “dar uma saída com aquela menina” – ainda mais se levado às últimas conseqüências – tem uma implicação da qual eu estou perfeitamente consciente. Se a conseqüência é que você não tolera sua nova posição de corna, então eu devo arcar com ela. Você, leitora, armará um escarcéu, me trairá, dirá para todas as suas amigas que eu não presto etc. E você sabe muito bem o que me diria se eu resolvesse dizer que quem te traiu foi a minha testosterona, não é? A não ser que já exista uma ideologia de corno, sei lá. Se até maconha tem ideologia e deputado, por que não?

Bem, o fato é que as implicações reais dos nossos atos vão, muitas vezes, além da nossa consciência; e não é porque as desconheçamos que elas se tornam inexistentes. Ainda que, te traindo, não me passe pela cabeça (olha, tem pessoas que realmente não pensam. Tratarei delas depois) que você pudesse se sentir ultrajada com isso, você se sente – é uma conseqüência impremeditada. Agora há pouco mesmo eu esbarrei, no mesmo Jardim das Aflições, com uma frase de Max Weber: “a História é o conjunto das conseqüências impremeditadas das ações humanas”. No entanto, o sujeito causador está lá: quem te traiu fui eu porque quem saiu com a outra fui eu. A responsabilidade, ou a possibilidade de responder por algo, o princípio de autoria, está tudo aí.

Admito um contra-argumento: mas e se a pessoa não estiver consciente do que faz? É bem verdade que há pessoas com um coeficiente gigantesco de inconseqüência. Porque tem gente que ou não sabe o que faz ou sabe muito bem e está mal-intencionado. Os socialistas, por exemplo. Após mais de cem milhões de mortos (mais que todas as guerras do século), alguém que se pronuncie a favor disto só pode ser idiota ou canalha. E quem defende alguma posição socialista numa universidade católica e “pontifícia” (o Capeta sabe o que ela tem de pontifícia) só pode ser mais idiota ou mais canalha ainda.

Mas voltando ao nosso conturbado romance, leitora: se eu traio você, só há essas duas possiblidades. Ou eu te traí sabendo o que fazia, e sou canalha, ou eu te traí sem saber, e sou idiota, inconseqüente (aliás, quem aceitar a desculpa de que o outro “não sabia o que estava fazendo” é mais idiota ainda, merece ser traído mesmo). Numa palavra melhor: inconsciente. E não há mal maior do que a falta de consciência.

Que dizer, então, das pessoas que não têm a menor consciência do que fazem? Que se deve ter alguma pena delas, e nunca achar que elas têm algo importante para ensinar (a não ser muito acidentalmente, e mesmo assim é melhor duvidar um pouco). Porque, se a conexão entre autor e ato e inevitável, por outro lado a conexão entre ato e consciência do autor não é tanto. O problema todo é que hoje em dia eu vejo muita gente que prefere fazer a apologia da irresponsabilidade, ou seja, preferem dizer que não são senhores de si mesmos, preferem sempre apelar para causas externas, como se fossem coitados cerceados por intransponíveis limites que o mundo lhes impõem. Ora, quem nega a culpabilidade é coitado, é objeto inerme, fantoche nas garras de forças falsamente superiores que acabam se tornando superiores mesmo. E, amigo, se um pedaço de chocolate é mais forte que você, ah, você está é mal…

Pode até ser que a maioria se enquadre nisto aí: a maior parte das pessoas tem alma de escravo, já dizia o bom Aristóteles. Querem atribuir a outro suas responsabilidades, querem alegar apenas estarem “cumprindo ordens” ou que são “vítimas” de alguma coisa: do tesão irrefreável, da gula, do instinto assassino, do sistema, da família opressora… Essa gente merece um governo totalitário mesmo, merece o código de trânsito. Querem ser apenas animais altamente amestrados mas com a liberdade de serem animais, isto é, de dar vazão a todos os instintos. Tentar chegar a ser humanos, jamais.

Política para quem precisa de política

Quando fui entrevistado por Cláudio Cordovil, um ser (ou talvez um nada, que eu percebi que ele gosta de Sartre) muito estranho do Jornal do Brasil – aquele que suja a mão (e aí você suja as paredes, os pratos, tudo) – , ele me disse que “quando você acorda de manhã, isto já é um ato político”. Na revista República tem um outro sujeito dizendo que, com a vinda do U2, um velho “axioma” estaria sendo “reatualizado”: o que diz que “todo ato é político”.

Examinarei cuidadosamente estas proposições. Primeiro, por axioma deve-se entender uma verdade auto-evidente, de intuição imediata e que prescinde de prova. Por exemplo: a linha reta é o caminho mais curto entre dois pontos. Daí creio que, através de uma comparação, se possa concluir obviamente que a idéia de que “todo ato é político” não é uma verdade indubitável – muito pelo contrário. Além disso, um axioma não precisa ser atualizado, por ser um universal; não importa o que aconteça, ele paira indiferente à História. Há mil anos a linha reta era o caminho mais curto entre dois pontos e o será daqui a mil anos da mesma forma.

Ora, a política pertence ao reino das coisas relativas, e não das absolutas. Política presume uma sociedade com um certo tipo de organização e com um certo grau de complexidade; além do que, se restasse somente um ser humano sobre a terra, ele não precisaria de nenhuma política. No entanto, os axiomas todos restariam incólumes.

Só posso inferir, pois, que a idéia de “todo ato é político” como um axioma é fruto de uma mente que já se desligou de qualquer noção de absoluto, e que colocou um sentido relativo no lugar de um sentido universal. No caso, este é o velho “sentido da História”, noção que passo a examinar.

A História, fruto das ações humanas premeditadas e de suas conseqüências impremeditadas, na verdade nem faz sentido nem não faz sentido; seria como se os gatos latissem. Uma coisa só pode fazer sentido para um indivíduo humano, e nenhum indivíduo humano vive toda a História. Se supuséssemos um indivíduo que vivesse toda a História, ele seria hipotético, e assim o sentido que este ser hipotético daria a História seria igualmente hipotético. E, para piorar, só podemos supor a respeito do passado, já que o presente está continuamente se transformando em passado e o futuro ainda não chegou. Nada impede que o futuro venha e desminta por absoluto a hipótese que se supõe ser o sentido da História.

A História só poderia, então, fazer sentido do ponto de vista daquilo que restará após os tempos, ou seja, Deus. Nesta perspectiva, todo ato que não seja religioso é que não faz sentido. Porém, para uma ideologia atéia, o sentido terá que ser dado por outra coisa; e fora de Deus e dos princípios metafísicos (lembrando que Aristóteles chamava sua Metafísica de Teologia), tudo é relativo. Agora, por que cargas d’água escolheram, entre as coisas relativas, a política e não os pães de mel para dar sentido último à vida humana, é coisa que me escapa (ou não escapa: o desejo mal disfarçado de poder é que leva as pessoas a afirmar as maiores bobagens com a maior pompa e descaramento).

Ou seja: se “todo ato é político”, então a política tem ou deveria ter o estatuto de uma religião, de uma ciência metafísica, portadora de verdades universais que governam nossos atos. Se assim é, o homem pretende ser Deus e enxergar ou mesmo determinar o tal “sentido da História”. A diferença é que as verdades universais são verdade quer se queira quer não: dois mais dois dá sempre quatro, a linha reta é mesmo o caminho mais curto entre dois pontos… Já as “verdades” da política são verdades relativas: só são verdade dadas certas condições que variam segundo o tempo e o espaço.

Por exemplo: a noção de Estado. Nem todas as sociedades humanas tem um Estado; só é possível entender o que seja Estado ao se referir às condições específicas dos povos europeus. Outro exemplo melhor ainda: a noção de direitos. Um direito é na verdade o símbolo de uma negação. Somente quando o indivíduo está privado da possibilidade de fazer algo, ele se

questiona sobre o direito dele a fazer aquilo. Ninguém ainda se questiona sobre o direito de respirar, mas o Estado brasileiro já questiona o direito que o indivíduo tem ao seu cadáver. Veja lá se alguma tribo indígena tem uma palavra da sua língua para direito, ou se existe este termo em alguma sociedade não-européia (ou europeizada). A noção de direito é uma noção inventada por brancos europeus e que só faz sentido dentro desta cultura.

O grande problema, pois, em dizer que “todo ato é político” está no seguinte: a politização de tudo pretende dar um status de absoluto ao relativo e um status de relativo ao absoluto. As leisda aritmética e da geometria e a Metafísica são absolutas; elas são independentes da vontade humana, porque elas sim são o próprio sentido do real. Mais uma vez: dois mais dois dá quatro, Deus existe, a linha reta é o caminho… No entanto, a moderna “ciência” social – dos lados da direita e da esquerda, porque afinal são apenas variations on a theme: uma quer o livre mercado, a outra quer o mercado na mão do Estado – diz que a Metafísica é superstição, um produto da cultura; e diz que todo ser humano tem direito a tudo.

É a confusão entre o essencial e o existencial : todos somos humanos, temos cérebro, fígado, uma alma imortal, a possibilidade da linguagem… Mas, ao contrário do que pretende a Declaração Universal dos Direitos Humanos da Revolução Francesa, nem todos são iguais perante a lei. Todos sabem, por exemplo, que ter dinheiro no Brasil significa ter uma certa segurança quanto à possibilidade de ser criminalmente condenado. Até porque, na hipótese mais simples, quem tiver mais dinheiro poderá contratar um advogado melhor.

No fundo, este é o fruto do “esquecimento do eterno”(nas palavras do poeta José Enrique Barreiro). Uma vez que se perdeu o Sentido, tudo vai para o brejo. O homem que não acredita em Deus já acredita em tudo, e, perdido o senso da realidade(ou, como querem muitos, na universidade principalmente, a realidade nem existe. É uma desgraça que a realidade seja tão confundida com a nefasta “coisa-em-si” de Kant), cada um quer que a sua ficção pessoal – a ideologia – determine o sentido das coisas. E é justamente deste desejo diabólico de substituir a realidade por uma ficção – “sereis como deuses”, disse a serpente no Éden – que nascem os Hitlers com suas idéias de raça pura e os Lênins e Stálins com a idéia de que tudo deve obedecer ao Estado Revolucionário Socialista, internando como loucos os opositores e tantas atrocidades que o próprio Hitler dizia aprender com ele.

Posso concluir, por fim, que a idéia de que “todo ato é político” é fruto de uma gigantesca patologia cultural, patologia esta que se realiza obviamente na mente de vários indivíduos. Pretender que “tudo é relativo” conduz imediatamente à idéia de que não há Bem ou Mal, e por conseqüência ao desejo de fazer com que alguma idéia – relativa – que não tem preponderância sobre outra, como a verdade tem sobre a mentira, passe a governar os aspectos da existência. Afinal, se não existe verdade, nem um Deus que julgue, nada impede que alguém se sinta infantilmente legitimado – segundo a sua própria moral pessoal, agora elevada ao status de moral universal – a matar, fazer experiências, manipular pessoas através da “educação”, da propaganda… Infelizmente, isso é o que acontece numa época que se crê a mais esclarecida de todas.

Breve relato de um atentado à inteligência

Texto de palestra proferida em Porto Alegre, 05/01/98

Caros senhores, a julgar pelo noticiário dos últimos dois meses da imprensa carioca, este rapaz que se encontra agora à sua frente é um perigoso fomentador do ódio, um perseguidor das minorias oprimidas, uma grave ameaça ao Estado democrático. Parece descabido, ou até mesmo absurdo? Concordo. Mas vejamos os fatos.

Sérgio Coutinho de Biasi, Pedro Sette Câmara e José Roberto de Barros são três amigos meus, que estudavam comigo na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Conversávamos muito, os quatro, sobre uma estranha homogeneidade do discurso imperante na universidade. A doutrinação “politicamente correta” parecia ter penetrado a fundo no meio em que estávamos e isso nos parecia preocupante, por razões que exporei mais à frente.

Tanto falamos – nesse e em diversos outros assuntos de filosofia, ciência, poesia, etc. – que resolvemos publicar nossas opiniões. Fizemos um jornal chamado “O Indivíduo”.

E aí vem a primeira pergunta: por que o título?

Em primeiro lugar, devo esclarecer que não se trata de defender o individualismo egocêntrico. Infelizmente, a maioria das pessoas vê o mundo segundo as categorias mais infantis e acha que se falamos em indivíduos é porque somos individualistas e se falamos em coletividades somos altruístas.

Na verdade, a nossa idéia é semelhante à expressa no seguinte trecho de Ortega y Gasset (1):

Nadie puede vivirme mi vida; tengo yo por mi propria y exclusiva cuenta que írmela viviendo, sorbiendo sus alborozos, apurando sus amarguras, aguentando sus dolores, hirviendo en sus entusiasmos.

Ora, cabe ao próprio ser humano a responsabilidade por todos os seus atos, inclusive os atos de consciência. Quando dizemos que a juventude ‘pensa’ de determinado jeito, estamos usando uma metáfora, pois quem pensa é cada jovem, individualmente, não a coletividade. Quem deve se responsabilizar pelo que estou dizendo agora sou eu, não a juventude. Se eu dissesse que falo em nome da juventude, estaria falando em sentido figurado, pois em última análise só posso falar por mim mesmo (2). O todo social não tem consciência, nem responsabilidade moral. A consciência surge no próprio indivíduo, da unidade do corpo biológico.

Por isso falamos em indivíduos: é muito vago falar “para a juventude”, “para a classe social”, “para a comunidade acadêmica”. Falamos, sim, para cada um em particular, conclamando cada membro das coletividades a examinar a própria consciência, a fim de questionar as idéias a que tem aderido. Trata-se de um diálogo de consciência a consciência, entre seres humanos que se reconhecem como portadores de conhecimentos pelos quais têm de se responsabilizar não perante o consenso acadêmico ou perante a juventude, mas perante a própria consciência. Perante aquele fundo insubornável de que falava Ortega y Gasset, onde o homem admite para si mesmo, entre quatro paredes, o que não tem coragem de admitir em público.

O nosso convite é para um exame dessa natureza. Para um questionamento daquilo que é dado como certo e inquestionável pela mídia e pela intelligentzia.

Claro que não se trata de individualismo, mas muito pelo contrário: como querer montar uma coletividade verdadeira se não respeitamos a individualidade de cada um? Como querer falar em coletividades que pensam por si só, como se os indivíduos que as compõem não fossem o mais importante? É só do entrecruzamento de consciências, do emaranhado de vidas psíquicas diversas, que pode surgir a coletividade verdadeira.

O individualismo egocêntrico reduz cada indivíduo a uma entidade auto-suficiente sem maior interesse para o resto do mundo. Não é disso que estamos falando. Estamos falando contra o coletivismo inquisitorial, que pretende que todos sigam uma determinada idéia como se ela fosse um dogma inquestionável. Estamos falando contra a adesão irracional a uma idéia sem o devido exame. Somos, enfim, contra o espírito de rebanho de que falava Nietzsche, tendência natural do ser humano. Não queremos tratar com gado: queremos tratar com indivíduos conscientes.

Que não se tome essa “consciência” no sentido político. Não falamos de indivíduos conscientes da mesma forma que falam as esquerdas. Não se trata de conscientizar ninguém da sua condição social ou coisas desse tipo, mas de levar cada um a admitir para si mesmo aquilo que sabe, a analisar as idéias que diz professar à luz do próprio eu, ou do fundo insubornável de que falei acima.

Mas voltemos aos fatos. Com essa linha editorial, francamente avessa a ideologias e ações políticas, o jornal foi sendo elaborado. Cada um de nós escreveu um artigo sobre o tema que lhe conviesse.

O Sérgio escreveu um ensaio defendendo um estreitamento dos laços entre ciência e filosofia; o José Roberto fez um artigo sobre três projetos de lei da deputada Marta Suplicy; eu fiz um artigo sobre Canudos, que questionava o posicionamento ideológico que nubla a mente dos nossos historiadores; e o Pedro trouxe um artigo humorístico ao estilo Agamenon Mendes Pedreira (3), um poema lírico-intimista e um ensaio sobre a Semana de Consciência Negra realizada na PUC algumas semanas antes do jornal.

Não vi nada de perigoso ou estranho em nenhum dos textos, concordando em geral com suas opiniões, com algumas ressalvas ao texto do Sérgio, que me parece excessivamente cientificista, e outras ao do José Roberto, que apresenta argumentos neo-darwinistas. Apesar das ressalvas, não sugeri qualquer mudança. Não me agrada a idéia de mexer em textos alheios, até pela minha própria defesa da individualidade. O nome do jornal não era “O Indivíduo”? Então, que se respeitasse a individualidade de cada um. Eu jamais me arrogaria o papel de censor.

Mesmo assim, ao ser lançado, o jornal causou escândalo. Muitos pareciam se sentir no direito de se arrogar esse papel…

Duas horas depois do início da distribuição do jornal, no dia 19 de novembro, fomos cercados por mais de cinqüenta pessoas que berravam, enfurecidos: NAZISTAS! FASCISTAS!

Todos negavam o nosso direito de fazer um texto humorístico sobre o movimento artístico de alguns alunos da PUC, a “Cambralha”. Todos diziam que o texto sobre a consciência negra era racista. Chegaram a querer colocar contra nós os seguranças da PUC, que são negros, dizendo para eles que defendíamos a raça pura e o extermínio dos negros. Ainda bem que os seguranças não lhes deram ouvidos, pois foi só graças à ação deles que saímos de lá vivos.

Fomos levados a um representante da vice-reitoria comunitária. Ele fez uma leitura dinâmica do jornal, supervisionada por dois representantes da Cambralha, circulou com pilot fluorescente o editorial, os artigos do Pedro e o artigo do José Roberto. Na capa do jornal escreveu: Recomendo Apreensão.

Dito e feito. Alguns minutos depois a segurança tinha ordens expressas de recolher todos os exemplares de “O Indivíduo”. Enquanto isso, a multidão que berrava contra nós e ameaçava queimar os jornais junto com nossos corpos crescia.

O raciocínio é simples: se um sujeito ameaça te matar, isso é uma bobagem. Agora, se um sujeito armado ameaça te matar, é bom você começar a se preocupar. Assim era a situação: o grupo enraivecido de cem alunos ameaçando matar três. (4)

Num determinado momento, um sujeito cuspiu no rosto do Sérgio. Um pouco mais tarde, duas meninas cuspiram no rosto do Pedro, além de outra pessoa lhe ter acertado um soco no rosto, quando ele estava entrando no táxi para sair da PUC. Vale lembrar que essa saída se deu por caminhos tortuosos, pois os seguranças dividavam da possibilidade de nos manter vivos se continuássemos lá dentro. Saímos eu e o Sérgio num táxi e o Pedro em outro, pois tinha se separado de nós para fazer uma prova.

Pouco antes de irmos embora, eu e o Sérgio fomos chamados para uma conversa com o vice-reitor comunitário. Ele estava visivelmente irritado, confessou que não tinha lido o jornal e saiu-se com a seguinte pérola:

— Parece que vocês falaram mal da semana de consciência negra e isso não pega bem, né? Além disso, estamos numa universidade católica…

Nesse momento quem se irritou fui eu, um sujeito normalmente calmo. Respondi que os católicos éramos nós e não aquela turba que saía pela PUC berrando palavras de ordem marxistas. Nesse momento exato, estavam todos reunidos fazendo para nós a saudação nazista.

O vice-reitor não me respondeu e negou veementemente qualquer possibilidade de termos uma audiência com o reitor:

— Ele está analisando o jornal e vocês serão avisados de qualquer providência administrativa a ser tomada contra vocês.

Depois dessa, só nos restava mesmo tomar um táxi.

Aí é que a história começa na imprensa. Enviei o material para o IEE, pois me disseram que ele seria distribuídos aos senhores. Não sei se isso aconteceu, logo, aí vai um breve resumo:

Quem logo assumiu a nossa defesa foi o professor Olavo de Carvalho, cujo seminário de filosofia eu e o Pedro freqüentamos. Ele logo preparou um artigo e enviou a “O Globo” e à “Folha de S. Paulo”. A resposta do diretor de redação do Globo:

— Ah, é aquele jornalzinho nazista?

Já a “Folha” publicou uma nota do Olavo na sua edição de domingo daquela semana, relatando o caso como perseguição à liberdade de expressão.

Acontece que, antes disso, na quinta-feira, dia 20, o “Jornal do Brasil” publicou uma notinha que falava em ‘cenas de racismo na PUC-Rio’. No dia seguinte, o assunto ganhava chamada na primeira página do JB e uma matéria em que o reitor da PUC dizia o seguinte:

O jornal mostra um individualismo absoluto e um desprezo pelo coletivo, a começar pelo nome. As posições são reflexo do individualismo de hoje, onde o ser humano perde o sentido de solidariedade.

É difícil descrever o meu espanto.

O vice-reitor dizia, na mesma matéria, que a melhor resposta a nós foi “o próprio repúdio dos colegas”.

Mas não foi tudo: no dia seguinte, a reitoria anunciava, no mesmo JB, que ia nos punir:

As vice-reitorias Acadêmica e Comunitária tomarão as medidas necessárias para que tais fatos não se repitam e para que os autores sejam responsabilizados por sua conduta.

Mas não, isso não foi uma declaração a um jornal. Isso é um trecho de uma carta distribuída via correio a toda a comunidade da PUC, na qual o reitor dizia coisas como:

Os redatores se apresentam como campeões do individualismo e atacam tudo que lhes desagrada. Não quero negar a legítima liberdade de expressão e o pluralismo de opiniões. Porém, não posso concordar com o individualismo que ignora a solidariedade humana e o sentido cristão de fraternidade. Além disso, é completamente inadmissível que, com argumentos falaciosos, se veicule o ódio, o desprezo e a injúria direta contra os que pensam ou agem de modo diferente dos autores do panfleto.

Notaram a contradição? Notaram que ele fala em liberdade de expressão e logo depois nega que nós possamos exercer a nossa? Mais adiante, ele nos acusava de ter ultrapassado as fronteiras do delitivo – em português claro, de cometer um crime. Tanta burrice, tanto fanatismo, tanta incompreensão, tanta malícia no reitor de uma das principais universidades do Rio de Janeiro? As coisas andam mal na educação desse país.

Mas voltando à imprensa: no domingo, dia 23/11, o JB, por algum milagre, resolveu respeitar nosso direito de resposta e publicou uma reportagem do repórter Renato Lemos que mostrava, com fidelidade, a nossa posição, além de publicar o artigo do Olavo que havia sido enviado ao Globo no início da confusão.

As coisas estavam em suspenso, até que o articulista Elio Gaspari publicou um artigo, no Globo e na Folha de S. Paulo, em que defendia o nosso direito à liberdade de expressão, ainda que de forma tímida, aproveitando ainda para recordar um caso ocorrido com comunistas expulsos da PUC em 1962.

Esse artigo deu início a uma nova série de reportagens: uma no Globo, em que a repórter distorceu o sentido das frases do Pedro e entrevistou um advogado que estava preparando – só agora! – um manifesto a favor dos comunistas de 62 e dizia categoricamente (sem ter lido O Indivíduo): “esses meninos são racistas mesmo”. Outra, curtinha, na Folha de S. Paulo, em que a repórter relatava com fidelidade os fatos. E uma na Veja-Rio que era um amontoado de absurdos: dizia, entre outras coisas, que o Sérgio tinha escrito uma carta à reitoria se desculpando pelos excessos do jornal e ainda tinha uma declaração de um frei pedindo direito de resposta contra nós. É uma piada: direito de resposta contra um jornaleco de 400 exemplares de distribuição interna na PUC, por um frei que uma semana antes escrevera um artigo enorme na página de Opinião do JB nos esculhambando, com argumentos falaciosos. Enviamos ao JB uma resposta ao artigo do frei, mas quem disse que eles publicaram? Como também não publicaram a carta do escritor Antonio Fernando Borges nos apoiando; como O Globo não publicou a carta do roteirista Leopoldo Serran também nos apoiando.

Mas um detalhe saltou aos olhos: na matéria do Globo, o reitor declarava que a nossa falha não era assim tão grave. Quer dizer, de forma muito canalha, com muita timidez, declarou que estava errado. Afinal, não posso imaginar que o reitor ache que o crime de racismo não é uma falha grave… Só que a acusação foi espalhada para toda a comunidade, mas o desmentido ficou escondido numa declaração no jornal.

Surgiu um alento com o artigo do escritor Carlos Heitor Cony, na Folha de S. Paulo, classificando de ‘prepotente’ a ação do reitor. Na segunda-feira, 01/12, o filósofo e embaixador J. O. de Meira Penna publicava um artigo no Jornal da Tarde também nos apoiando. Uma semana depois, o maior jurista vivo do país, dr. Miguel Reale, também publicava um artigo de apoio a nós no Jornal da Tarde.

Quadro animador? Não. Fomos entrevistados, eu e o Pedro, para o Jornal do Brasil, por um sujeito chamado Cláudio Cordovil. Embora confessasse, durante a entrevista, não estar entendendo nossas declarações e não conhecer nenhum dos autores que citávamos, esse sujeito não hesitou em publicar uma reportagem de página inteira, no suplemento cultural de domingo, 14/12, com o título “A extrema-direita faz escola na PUC”. Não fez isso sozinho: estava acompanhado de um psicanalista, um cientista político e um “filósofo”. A quantidade de besteiras contidas nessa matéria está além do meu poder de síntese e podem ser verificadas na mesma. Olavo de Carvalho elaborou uma resposta, explicitando uma por uma, que acabou sendo publicada no JB do outro domingo, 21/12.

Mas o espírito totalitário (e a vontade de nos crucificar) do JB não podia deixar por menos: na segunda-feira, 22/12, junto com uma carta do Sérgio, saía um artigo do Cordovil dizendo que ‘as maiores revelações sobre o complô na PUC ainda estavam nas fitas, não tinham sido publicadas’, o que foi a coisa mais espantosa que já vi nos jornais: um repórter confessando, no próprio jornal em que escreve, ter sonegado informações. O artigo trazia acusações a nós e ao Olavo.

Na terça, 23/12, saíam as respostas do psicanalista, Joel Birman, e do cientista político, Luís Eduardo Soares, além de uma carta do Pedro. Novas acusações, novas injúrias, novas baboseiras. Pergunta: nós respondemos? Sim. Eu escrevi uma resposta, o Olavo escreveu uma outra, eu e o Pedro escrevemos juntos uma terceira. Estamos até hoje aguardando a publicação. Notem que isso é violação do direito constitucional: quando alguém é difamado, tem o direito de responder. Se o outro voltar a falar, o difamado tem direito de se defender novamente. Direito de resposta tem que ser em número par: A ataca B; B responde a A. Se A volta a atacar B, B tem de novo o direito de responder a A. Do contrário, fica evidente a predileção do órgão de imprensa pelo lado que ataca. Alguém ainda duvida disso?

Mas não foi só a imprensa escrita que entrou na história. O jornal local da Rede Globo, RJ-TV, fez uma matéria que já dava por pressuposto que o jornal era racista, entrevistava alguns dos nossos agressores e terminava com o apresentador dizendo: “os editores do jornal negam a acusação”, que foi a única linha a que tivemos direito. Já a Globo News, do grupo Globosat, promoveu uma entrevista com o Pedro e o Olavo. O reitor também foi chamado para o programa, mas se recusou a ir. Agora, o pior de todos foi o Jornal Nacional: numa reportagem que dizia que o racismo está crescendo no Rio, o Jornal enfocava a prisão de uma pessoa por racismo e dava como outro exemplo a existência do nosso jornal. Não sei se as pessoas perceberam que a reportagem se desmentia a si mesma, ao mostrar que houve um caso em que a lei de racismo pôde ser aplicada com sucesso e nem se perguntar como no nosso caso, se era racismo mesmo, ninguém teve coragem de apresentar a acusação perante os tribunais.

Mas o expediente que eles usaram foi o mais baixo, o mais absurdo possível. No trecho do artigo sobre a Consciência Negra em que o Pedro escreve:

Querer falar de uma consciência negra como se ela fosse essencialmente diferente de uma consciência branca, ou árabe, é realmente estúpido. (5)

O Jornal Nacional mostra ao público:

Querer falar de uma consciência negra é realmente estúpido.

O que era pregação da integração entre as raças vira desprezo por uma delas. O que defendia que não se levasse em consideração o fator raça para nada de súbito aparece como identificação do negro com a estupidez.

É impressionante como se pode inverter totalmente o sentido de um texto simplesmente tirando dele alguns pedaços.

No rádio, O Indivíduo foi noticiado através de um jornalista e cronista chamado Mário Negreiros, que fez quatro crônicas radiofônicas em nosso favor, além de um artigo num jornal português.

O caso deve chegar às livrarias agora em janeiro, como a segunda parte do livro O Imbecil Coletivo II, em que o professor Olavo de Carvalho fará uma coletânea de seus artigos sobre o caso, além de juntar artigos e cartas em nosso favor escritos por outras pessoas, inclusive alguns já citados.

Este é o caso. São muitos os detalhes impressionantes, são muitos os temas a se discutir. Mas o que me parece mais incrível são dois pontos que foram completamente ignorados pela imprensa: como é possível que quatro jovens publiquem um jornalzinho e causem um escândalo tão grande? E mais ainda: como é possível que a reação histérica de um determinado grupo de alunos seja aplaudida e reforçada por uma santa aliança de autoridades universitárias, professores universitários e órgãos de imprensa escrita e televisiva?

Não tenho respostas prontas, mas tenho uma boa hipótese: a dominação esquerdista dos meios de comunicação e das universidades.

Mas como se liga uma coisa a outra? Façamos um breve exame das técnicas que essa dominação usou para chegar a esse estágio avançado.

O expediente que eles usaram contra nós foi lançar um “rótulo odioso”. Esse expediente é descrito por Arthur Schopenhauer da seguinte forma (6):

Um modo de eliminar ou, ao menos, de tornar suspeita uma afirmação do adversário é reduzi-la a uma categoria geralmente detestada, ainda que a relação seja pouco rigorosa e tão só de vaga semelhança. Por exemplo: “Isso é maniqueísmo”, “É arrianismo”, “É idealismo” (…). Com isto, fazemos duas suposições: 1) que aquela afirmação é efetivamente idêntica a essa categoria ou, ao menos, está compreendida nela e estamos dizendo: “Ah, isto nós já sabemos!”; e 2) que esta categoria já está de todo refutada e não pode conter nenhuma palavra verdadeira.

Tivemos os exemplos mais perfeitos disso, seja das formas mais grosseiras (“nazismo”, “racismo”), como das mais intelectualizadas(“individualismo”, “misticismo”, “conservadorismo”).

Visto isso, pouco importa se as pessoas entenderam o que escrevemos ou não: somos detestáveis de qualquer maneira. Esse modo de proceder para vencer o adversário está tão difundido nos meios intelectuais que qualquer um que pretenda fazer uma argumentação lógica e demonstrar seus argumentos está fadado a receber em troca bocejos. Quando não receber cusparadas e rótulos odiosos, claro.

Mas isso não é tudo. O rótulo odioso é usado pela nossa esquerda em companhia de um outro estratagema: a manipulação semântica. Trata-se de dar a determinados conceitos um sentido único, de forma que não consigamos nem sequer pensar de forma diferente deles, por falta de vocabulário. Um exemplo claro ocorreu hoje, quando tive que explicitar que não falava em conscientização no sentido esquerdista.

Como aponta Olavo de Carvalho (7):

Se o orador sempre fala sozinho para a multidão, sem um oponente que venha equilibrar as coisas invertendo as conotações forçadas que ele dá a certos termos, estas vão aos poucos entrando no uso diário e o povo acaba por tomá-las como definições rigorosas; a ênfase postiça anexa-se de modo definitivo ao significado, e se torna impossível pensar o seu objeto independentemente do valor afirmado ou negado na palavra mesma.

E continua, mais adiante:

O domínio esquerdista do vocabulário é total e irrestrito, o que faz com que cada cidadão brasileiro, ao discordar da esquerda, se veja desprovido de meios de expressão que não estejam sobrecarregados de um temível potencial de malentendidos; aos poucos, a dificuldade de falar vira dificuldade de pensar. Hoje em dia, o debate cultural no Brasil não opõe senão as facções de esquerda umas às outras: o resto é tomado como mero discurso ideológico que não deve ser discutido, apenas explicado pelos interesses objetivos que o produzem e que ele encobre. [grifo meu]

Essa situação foi criada pelo domínio das esquerdas nos meios intelectuais e na mídia, como eu dizia acima. Quando se explicita isso, fica bastante claro por que causamos tanto escândalo: é que falamos coisas que não estão em voga.

No meio daquela multidão enfurecida, dificilmente encontraríamos algum que tivesse lido qualquer coisa que não o discurso esquerdista. Eles são culpados por isso? Claro que são. Ninguém é obrigado a aceitar tudo que o meio em torno lhe transmite. Mas também são vítimas.

Vítimas de seus professores, do meio intelectual, dos jornalistas, do reitor. Foram eles que transformaram a universidade numa escola de adestramento, num circo de aberrações. Foram eles que inculcaram esse discurso e esse modo de agir nesses jovens.

Por isso não é difícil perceber o porquê do apoio que os agressores puquinanos receberam. Eles nada mais são que os agentes mais exaltados dos verdadeiros agressores. É natural que esse tipo de ação política utilize jovens como agentes (8). Na juventude, a necessidade de auto-afirmação é maior, o que faz com que o jovem mais facilmente seja acometido do tal espírito de rebanho: para ser aceito pela comunidade, o jovem adere às idéias que essa comunidade professa. Isso se alia ainda à necessidade de modelos, que faz com que os jovens aceitem sem muito espírito crítico o que seus professores lhes dizem. (9)

A conseqüência psicológica dessa utilização é devastadora: leva os jovens a exagerarem sua própria importância, se sentindo grandes heróis libertadores lutando contra as forças opressores do capitalismo. Claro que indivíduos tão lisonjeados serão incapazes de lidar com as dificuldades e limitações da vida adulta e terão uma tendência à violência.

Em outras palavras, tanto a leitura errada quanto as agressões de que fomos vítimas por parte dos alunos têm uma origem bem definida: foi na PUC que aprenderam a ler assim, foi na PUC que aprenderam a agir assim.

Aprenderam que qualquer discurso que não fale nos excluídos, nos proletários, na eqüidade social, nos males da globalização; que não faça reverência aos santos do meio acadêmico, como Antonio Gramsci, Che Guevara, Michel Foucault, Karl Marx; que não pretenda mudar o mundo, mas apenas conclamar os indivíduos à reflexão ou a tentar compreender o mundo – qualquer discurso assim deve ser desconsiderado e taxado de direitista, logo, de fascista, logo, de nazista. E como nazistas representam um enorme perigo, atacá-los fisicamente torna-se perfeitamente legítimo.

Não é outra senão essa lógica perversa que explica o porquê de um editorial que falava em respeito à individualidade e em diálogo entre consciências ser taxado de individualista; de um artigo que usava argumentos científicos contra uma lei que favorece um determinado grupo da sociedade ser considerado ofensivo a esse grupo; de um ensaio que celebrava a sociedade brasileira por sua pacífica convivência interracial ser chamado de racista.

Este último caso é o mais claro: alguns setores extremados do movimento negro querem ter o monopólio do racismo. Querem que qualquer pessoa que fale contra algumas de suas políticas seja imediatamente considerado racista. Pretendem representar o bem supremo. Se agarram de tal modo a suas causas que quem quer que levante uma única objeção contra elas se torna objeto de ódio e perseguição. Esse o sentido do termo ‘politicamente correto’: é a linha justa, qualquer um que saia dela deve ser imediatamente punido, pois está fora da linha, ou é incorreto, logo, moralmente condenável.

Mas, por ser falaciosa, essa condenação jamais se dará nos tribunais. Dar-se-á na mídia, infestada por repórteres prontos a propagar as idéias politicamente corretas, prontos a contribuir para a caça às bruxas promovida pela intelligentzia esquerdista. A mesma imprensa onde a acusação é estampada em letras garrafais nas manchetes e o desmentido, quando é publicado, é escondido em letras pequenas nas páginas internas.

O episódio provocado pelos arruaceiros da PUC em torno de “O Indivíduo” é uma demonstração deprimente desse estado de coisas. É um alerta sobre a grave ameaça à liberdade de expressão que ronda o nosso país, produto dessa aliança perversa entre reitores inquisitorias, professores esquerdistas desonestos, alunos obedientes e mídia pronta a publicar a versão do fato que mais interessar à intelligentzia.

Pelo que se viu nesse caso, no Brasil, responder a argumentos com socos e cusparadas é louvável; ler maliciosamente e atentar contra a liberdade de expressão do escritor é democrático; inventar conspirações nazificantes é grande jornalismo. O destino de um país que permite que essas coisas aconteçam não me parece ser dos mais animadores…

Rio de Janeiro, 03/04 de janeiro de 1998.

NOTAS:

(1) v. ORTEGA Y GASSET, José. En torno a Galileo, Revista de Occidente en Alianza Editorial, Madrid, 1994.

(2) Mesmo agora, quando falo na primeira pessoa do plural, na verdade estou falando por mim. O que me permite falar em nome dos outros editores é uma aproximação de idéias sobre este determinado ponto, mas com certeza se quem estivesse aqui fosse outro deles, a forma de apresentar os argumentos seria bastante diferente, pois cada um de nós dá um determinado enfoque à questão, embora esses enfoques se assemelhem.

(3) Personagem criado por membros do grupo Casseta & Planeta numa coluna semanal do jornal “O Globo”

(4) O José Roberto não estava na PUC durante a confusão. Após algum tempo, ficamos só eu e o Sérgio, tendo o Pedro ido fazer uma prova – sempre cercado por seguranças.

(5) Jornal “O Indivíduo”, número zero, novembro de 1997, p. 9

(6) v. SCHOPENHAUER, Arthur. Como vencer um debate sem precisar ter razão; introdução, notas e comentários de Olavo de Carvalho; tradução de Olavo de Carvalho e Daniela Caldas; Topbooks, Rio de Janeiro, 1997.

(7) v. SCHOPENHAUER, Arthur, op. cit.

(8) Excelentes comentários a respeito estão no penúltimo capítulo do livro O Jardim das Aflições, de Olavo de Carvalho; Diadorim, Rio de Janeiro, 1995.

(9) Aliás, uma grande contradição da juventude moderna é a rapidez com que jogam seus pais no descrédito, para posar de rebeldes, enquanto, ao mesmo tempo, são influenciados por tudo à sua volta.

FHC: “Racista” como eu

“Coisa é que admira e consterna”, diz o personagem Brás Cubas, do mulato Machado de Assis. Faço minhas as palavras do Bruxo do Cosme Velho: os eventos que tomaram a PUC na quarta-feira passada são, para dizer o mínimo, notáveis; para dizer o máximo… Bem, cada um saberá o que pensar.

O fato é que eu e mais três amigos publicamos um jornal (O Indivíduo) muito brando, quase anódino, em seu conteúdo – apesar dos temas tratados serem tidos como “polêmicos” – e fomos imediatamente atacados por uma multidão de alunos enfurecidos, que fizeram várias promessas contra a nossa integridade física. Promessas, aliás, que só não foram cumpridas graças à ação da segurança da universidade, que, mesmo assim, achou melhor que fôssemos embora o quanto antes, pois duvidava da possibilidade de nos manter inteiros se continuássemos na PUC.

Além disso, meus amigos foram avisados previamente de que qualquer tentativa de audiência com o reitor seria vetada. No dia seguinte, o reitor enviou uma carta à comunidade acadêmica em que condenava a nós, vítimas de uma agressão por parte dos alunos, como agressores. Cerca de cem pessoas perseguem três, e os agressores somos nós; aritmética muito curiosa, devo dizer.

O que pode haver de tão estarrecedor no jornal realmente me escapa. Há, é verdade, um texto meu que questiona a realização de uma Semana da Consciência Negra na PUC, mas os argumentos, além de perfeitamente legítimos, são rigorosamente os mesmos utilizados pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em sua participação em uma séria de documentários sobre os 500 anos de História do Brasil, segundo notícia da página 3 de O Globo de 24/11/97. O presidente e eu seguimos a linha de Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro: aqui no Brasil o povo se orgulha de ser miscigenado, e segundo o presidente, foi criada aqui “uma consciência muito especial”. Ou, como digo em meu artigo, o maior valor da cultura brasileira está justamente na desconsideração quanto ao fator raça – que não é mérito nem demérito –, integrando todos os povos que para cá vieram.

Se sou merecedor das acusações que me imputaram, também é o presidente Fernando Henrique Cardoso. E também os dois pilares da nossa ciência social, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro. Estou até agora completamente estarrecido – e creio que assim permanecerei por muito tempo – por ter sido tão atacado pelos alunos da PUC, filhos da elite carioca, e pela reitoria. Sou uma vítima que mal é capaz de entender o que aconteceu segundo os critérios mais comuns da razão humana, e só posso me arriscar a perigosas conjeturas se desejar uma verdadeira compreensão do assunto.

Parece-me que o que houve na PUC foi uma situação de totalitarismo; isso e mais nada. Totalitarismo da parte dos manifestantes; da parte do reitor, no mínimo imprudência, ao tomar partido dos agressores sem ter sequer ouvido o depoimento das vítimas.

O maior mal que posso me atribuir foi o de ter tido uma opinião contrária à do discurso dominante na PUC. Dominante não numericamente, note-se bem; acredito piamente que nosso jornal reflete a opinião da maioria silenciosa que integra o corpo de alunos da PUC. O discurso a que chamo dominante é dominante em termos de barulho, pois parte de um grupo organizado que se manifesta o tempo inteiro. A maioria mesmo permanece em silêncio, não se organiza e não se faz ouvir, ouvindo a minoria barulhenta sem sequer reclamar. Bater, jamais.

Editorial do Número Zero

É bom avisar logo que, num jornal que se chama O Indivíduo, este editorial do número zero vai ser a única coisa escrita de forma dita “impessoal”. Ou melhor: vai ser assinado por quatro pessoas, nós quatro que formamos o conselho editorial deste jornal. Porque neste jornal deve imperar o estritamente pessoal, pensado e escrito por um indivíduo sozinho.

Isto está fundamentado na nossa crença no indivíduo. Num tempo em que se fala muito em coletividades, nos “excluídos”, nos “sem-alguma coisa”(e todos somos sem alguma coisa…), no velho “proletariado”, nas “forças populares”, na “juventude”, na “geração cara-pintada”, nas “tribos” e tudo mais, nós queremos nos dirigir ao ser humano sozinho, de um para um. Porque é assim que as coisas são. Individuais.

Todas estas coletividades são apenas figuras que utilizamos para pensar com uma certa ordem e que não se traduzem completamente na figura de uma pessoa, que, se pode ter características atribuídas à coletividade, pode também – como acontece na maioria dos casos – transcendê-las.

Além do quê, não é, por exemplo, “a juventude” que pensa, mas cada jovem em separado. Se há semelhanças entre o pensamento de vários jovens, isto não é razão para crer que há uma elevação do coletivo sobre o individual, como se “a juventude” fosse um ente concreto e não apenas uma qualidade humana – aliás, a mais efêmera.

Por isso vemos que não faz sentido fazer um jornal para um “grupo”. Nós quatro queremos, antes de tudo, atingir os indivíduos pensantes, sejam negros, brancos, pardos, façam Física ou Letras, o que quer que seja.

A segunda motivação por trás deste jornal, muitíssimo ligada à primeira, está no nosso estranhamento a muita coisa deste nosso mundo muderno e da Pontifícia Universidade Católica. “Madness in great ones must not unwatched go”(“A loucura nos grandes não deve ficar sem vigilância”), diz o rei Claudius em Hamlet. Assim sendo, escrevemos estes artigos só para avisar aos “grandes” – os professores, o corpo administrativo da PUC, gente do mundo cultural e formadores de opinião em geral – que eles estão sendo vigiados, que não podem achar que ficam impunes.

Na verdade, não temos a menor pretensão de mudar nada. Só queremos mesmo que a PUC, professores, padres e alunos, saibam da nossa existência. Os que gostarem, ótimo; os que quiserem colaborar, melhor ainda. Os que não gostarem provavelmente só aumentarão nossa certeza de estar no caminho certo.

Terminando, queremos salientar que esse não é um jornal de mera opinião. Opinião é uma coisa que as pessoas têm ao fim do almoço, um pensamento não elaborado. Tudo o que estiver aqui publicado pretende ter o status de argumento e deverá ser considerado como tal. Não publicaremos as impressões de alguém sobre algo e nem conjugaremos o verbo achar. Quem acha não nos interessa; só prestamos atenção a quem quer discutir alguma coisa em bases razoáveis. Agora, tampouco nos consideramos os “donos da verdade”. É só que o nível do debate está tão baixo que um pouco de veemência e real capacidade argumentativa(aliada à qualidade dos argumentos) assusta os espíritos mais frágeis, que crêem ser a essência do debate, e não a sua caricatura.

Pode ser ainda que tudo que se escreva aqui seja meramente bobagem, que nós não passemos de uns malucos arrogantes. Mas, ainda que o sejamos, queremos deixar clara a certeza que fundamenta tudo que dissermos, inclusive a possibilidade do errar. Nas palavras do espanhol Antonio Machado:

La verdad es lo que es

y sigue siendo verdad

aunque se piense al revés.

Álvaro de Carvalho

Sérgio Coutinho de Biasi

Pedro Sette Câmara

Zé Roberto

A negra noite da consciência

Às vezes me pergunto em que país eu vivo. Porém, o testemunho da minha consciência me faz ver que a loucura que gera esta questão tem origem nos outros, e não numa possível ilusão geográfica minha. Eu continuo são, e meus olhos não me enganam. A única coisa que persiste é, talvez, a sensação de que eu preferia estar profundamente errado ou meio doido mesmo.

Foi exatamente assim que eu me senti ao descobrir que se realizaria na PUC uma Semana de Consciência Negra, um evento inspirado na idéia norte-americana do “politicamente correto”. Acredito mesmo que isso só possa ser fruto da tal “colonização cultural”, um fenômeno que, em tempos de “globalização”, ficou meio esquecido, mas que, infelizmente, existe sim: basta olhar para os negros brasileiros, que, em termos de aceitação social, têm uma vida muito melhor do que a dos negros americanos – lá nos EUA existe racismo mesmo – querendo

importar os problemas deles.

Se pudéssemos apontar qual o maior exemplo – quiça único – que o Brasil dá à humanidade, ele está na convivência interracial e multicultural. Só aqui, na TV, passa comercial de programa árabe durante o programa judeu. Só aqui todo mundo convive muito bem, sem Ku Klux Klan e sem ódio “étnico”. A única parte que assume isso são os skinheads e todo mundo sabe muito bem que eles são considerados um grupo malévolo à parte que deve ser combatido.

(Alguém pode dizer: “aqui o racismo é sutil”. Eu pergunto: o que é “racismo sutil”? Quem não gosta de uma raça sempre manifesta isso de uma maneira que qualquer espírito, ainda que não muito sutil, percebe.)

O grande racismo, nada sutil, mas que pouca gente percebe, está em eventos como esta Semana de Consciência Negra. Primeiro, porque ninguém acharia bonito se fizéssemos uma Semana da Consciência Branca. Promover uma raça, qualquer que seja, é racismo. E eu não vejo nenhuma razão para tolerar nos outros o que eles pretendem condenar em mim. A única razão que se poderia alegar para que eu tolerasse isso é uma certa infantilidade da parte deles. É em criança que se tolera esse tipo de atitude.

Donde se conclui o óbvio: uma Semana de Consciência Negra depõe contra a própria raça negra, como se esta fosse composta de pessoas que precisassem desesperadamente de auto-afirmação. Auto-afirmação, aliás, equivocada: nenhuma produção de cultura negra será boa ou relevante para a humanidade por ser negra, mas por ser cultura (não no sentido antropológico do termo). O poeta Cruz e Souza não se destaca como um poeta de relevância universal por ter sido negro, mas pelo valor da sua poesia, que teria o mesmo valor se tivesse sido escrita por um viking.

Querer falar de uma consciência negra como se esta fosse essencialmente diferente de uma consciência branca, ou árabe, é realmente estúpido. Porque, sendo diferente, e havendo tamanho esforço para celebrá-la e estimulá-la, só se pode concluir que ela seja ou superior ou inferior às outras. Faz-se tanto pelo consciência negra para ajudar ao mais fraco; ou então celebra-se tanto a consciência negra poe ela ser superior, a base mesmo da nossa civilização. A primeira é um nazismo patético às avessas; a segunda é nazismo mesmo – e com nazista eu não converso.

Um argumento que é utilizado pela comunidade negra (já pensou como soaria comunidade branca?) é o de reparação. Reparação das injustiças que foram cometidas contra os negros, escravizando-os, tirando-os da sua terra, etc. Bem. Os faraós egípcios, que, segundo alguns, eram negros, escravizaram vários povos durante mais de mil anos. A escravidão era prática comum entre as tribos africanas e todos sabemos que os negros das tribos mais fortes foram cúmplices dos europeus no comércio de escravos. Assim sendo, sugiro que os negros que desejam reparação façam árvores genealógicas para ir cobrá-la dos descendentes dos negros escravizadores. E, antes disso, peçam a conta a todos os povos escravizados pelos egípcios.

O pior mesmo é que ninguém atenta para isto. Só quando trouxerem a prática norte-americana (já banida) de “ação afirmativa” é que vão perceber. Houve na PUC, durante a Semana, um seminário sobre o tema. Para quem não sabe, “ação afirmativa” (“affirmative action” mesmo) é uma prática evidentemente racista que consiste em garantir uma porcentagem x de lugares para as minorias em certos meios dos quais elas se sentem excluídas – por exemplo, as universidades. Evidentemente racista porque toda decisão tomada com base em raça é racista. Assim, as universidades são obrigadas por lei a admitir tantos negros, de acordo com uma proporção matemática extraída no número de negros na região. A grande diferença dos EUA para o Brasil, neste sentido, é que lá, na hora de você entrar na universidade – falo por experiência própria – você fundamentalmente manda o seu currículo.

Aqui no Brasil o sistema é de vestibular, e cada universidade tem o seu. Já imaginaram a beleza que vai ser, se a “ação afirmativa” vier para cá, o vestibular? Salas para negros – que ou farão provas bem mais fáceis ou terão critérios mais brandos de avaliação, já que a universidade é obrigada por lei a ter em seus quadros um percentual predeterminado de alunos negros – e salas para brancos? Isto aí é ou não é a explicitação de uma demência completa?

Ninguém vê porque a consciência mesma, seja negra, branca, grega ou troiana, está mergulhada numa noite de preconceitos. E o preconceito é um tipo de cegueira intelectual. São cegos perdidos à noite que só tem outros cegos para os guiarem e que crêem que a cura da cegueira seja mais cegueira. O ruim com o ruim não dá bom: dá pior. Estas práticas, que só aumentaram o racismo nos EUA, produzirão um efeito muito mais nefasto no Brasil, que apesar de não ter valores culturais tão arraigados, têm como maior valor a boa convivência racial. Todo este discurso só vai ter como único resultado a importação de um problema que nós não temos. Vão inventar a consciência de uma contradição que não existe, e o Brasil vai dar mais um passo para longe da realidade.

Site Meter

O massacre do bom senso

Diante de certas manifestações de total falta de senso que andam invadindo os pilotis, é muito valorosa a advertência do historiador Evaldo Cabral de Melo, em recente entrevista para o caderno “Prosa e Verso”, do jornal “O Globo”.

Dizia ele, com coragem rara em nossos intelectuais, que política retroativa não é História. A História, para que se pretenda ciência, deve ser feita com documentos e elementos verificáveis. Em outras palavras, para estudar a História, não nos cabe impor modelos à realidade ou querer que o passado se adapte às nossas aspirações presentes. É preciso buscar a veracidade, buscar o fato, deixando que a realidade se apresente a nós tal e qual ela foi e não como gostaríamos que ela fosse.

Não digo com isso que a atividade historiográfica vai sempre ser capaz de descrever todos os fatos passados, mas que ela só atinge seu verdadeiro propósito quando se restringe àquilo que é capaz de descrever, e o faz com honestidade. Nada pode ser pior para a descrição histórica do que a contaminação ideológica, que impede os historiadores de enxergar o que não se adequa a sua pobre visão de mundo.

Uma vez descrita a realidade, aí sim é possível emitir sobre ela um juízo valorativo. Não me estenderei aqui sobre a necessidade de emitir esse juízo. Basta dizer que, sem que possamos enxergar a História de um ponto de vista universal e absorver dela algo que nos informe sobre nós mesmos, o estudo histórico deixa de ser necessário. Ora, incorporar à nossa vida verdades que nos tenham sido legadas por atos ou palavras dos homens que nos antecederam requer a emissão de um juízo.

Deste ponto de vista, podemos delinear, como aponta Olavo de Carvalho, três tipos de atuação histórica: aquele que não tem nenhum tipo de significação fora do contexto em que se desenrolou, aquele que deixa para os tempos seguintes um modelo de ação inspirador (e tem importância universal) e aquele que deixa atrás de si uma sombra de pesadelo, espécie de modelo negativo – o que não se deve repetir.

Tudo isso vem bem ao caso nesta época de exaltação ao movimento “revolucionário” de Canudos e ao seu chefe Antônio Conselheiro.

Dar a esse movimento um valor além de suas próprias circunstâncias é uma falsificação enorme, um exemplo perfeito da citada política retroativa. Antônio Conselheiro não foi um visionário e Canudos não foi um Movimento dos Sem-Terra avant la lettre. Foi, simplesmente, uma manifestação de crendices populares, um fenômeno localizado, provocado por um sentimento de impotência ante as novidades republicanas. Não há nenhuma profundidade mística, nem reivindicações progressistas nesse movimento. Há, sim, fanatismo e ignorância, recusa a qualquer autoridade e espírito de desordem.

Quando a nossa esquerda progressista elege como ídolo um sujeito como Conselheiro, é que perdeu completamente a noção dos fatos. Até porque o movimento foi reacionário, anti-progressista. Conselheiro criticava as mudanças introduzidas pela República, pregava a volta do Império e se aproveitava do sentimento religioso popular. A atração que exerceu – e exerce – vem da necessidade de ter algum modelo, de depositar as esperanças em alguma figura pública. Mais ainda, em alguém que se diz investido de poderes divinos.

Citemos a maior autoridade no assunto, Euclides da Cunha, mesmo correndo o risco de destruir doces ilusões: “Canudos ia se tornando o homizio [esconderijo] de famigerados facínoras.” De fato, o que Euclides observa no movimento é o desrespeito ao que quer que seja, aliado a uma devoção fanática a um líder messiânico, a quem foram atribuídos até milagres.

Não pensem que apóio o massacre. Pelo contrário. Tão ou mais selvagens que os sertanejos foram os militares, que não se esforçaram nem um pouco para compreender o movimento e nem refletiram sobre a imprevidência de suas ações.

O próprio Euclides os advertira que o extermínio de Canudos levaria a uma guerra longa e sangrenta. “O sertanejo é antes de tudo um forte” e lutou até o fim de suas forças. Ignorando esse fato, o sucessivo envio de tropas do Exército para a região levou a três conseqüências problemáticas, mutuamente relacionadas: a exaltação dos sertanejos, que culminava com o aumento do prestígio de Conselheiro; a morte (perfeitamente evitável) de milhares de soldados e a dizimação da população de Canudos; e o crescente atrelamento do poder político ao poder militar. A Nova República se tornava refém de seu braço armado.

Esse breve resumo pretende mostrar que não nos cabe dar à revolta de Canudos um status de luta do Bem contra o Mal. Reconheçamos que houve erros de ambas as partes, da mesma forma como ambas tinham suas razões. A terra é uma reivindicação legítima, desde que não se faça disso um instrumento para a instalação do caos – e, vale ressaltar, o discurso de Conselheiro tende mais para o caos do que para a legitimidade. Da mesma forma, a segurança nacional é uma causa legítima, deixando de sê-lo quando o poder armado incorre em abusos – caso no massacre de Canudos. Endeusar qualquer um dos lados é uma imprevidência e uma estupidez. Satanizar o outro, idem.

Mas será que adianta o apelo à razão, quando o público universitário está enceguecido pelas trevas da ideologia, e a ânsia de poder político se sobrepõe a qualquer outra aspiração da alma?

(Rio de Janeiro, 07 de outubro de 1997)