By this Sun of York

Após muitos e-mails perguntando “quando O Indivíduo será atualizado de novo?”, posso finalmente responder que ele foi atualizado por mim mesmo no dia 23 de janeiro.

Muitas pessoas podem se perguntar porque paramos durante tantos meses. Simples: há outras coisas na vida, as quais podem tomar muito tempo. Além destas, a simples chatice de atualizar um site todo em html certamente contribuiu para o período de férias. Por isso agora vamos funcionar no formato de blog, aproveitando as facilidades do Movable Type.

Uma outra novidade é que O Indivíduo está retornando ao seu projeto original: ser um veículo para três sujeitos – Alvaro Velloso de Carvalho, Sergio de Biasi e eu – dizerem o que pensam, com o único compromisso de não escrever em nome da humanidade ou de um universal abstrato.

(Ok, originalmente havia mais um sujeito, mas ele se desligou do projeto assim que começou a confusão na PUC.)

Quem quiser ver os artigos do site antigo pode clicar no primeiro link da nossa lista.

Aliás, como vocês podem ver, o site novo ainda está em construção. Mas provavelmente estará todo direitinho em breve.

Preciso ainda dizer que nada disto teria sido possível sem a ajuda de Marcelo De Polli, vulgo Wundermeister von Nuremberg, que resolveu todos os problemas tecnológicos – e ainda há de resolver alguns, espero.

Big Brother

Gostaria de fazer uma pequena observação sobre a forma inesperada como aos poucos a distopia de “1984″ se torna presentemente um fato.

O que era para ser algo terrível, humilhante e desumanizador, concebido como símbolo da destruição de qualquer possibilidade de dignidade pessoal, foi transmutado em um programa de televisão de grande sucesso, e ainda com o requinte de utilizar um nome que remete diretamente ao significado original, o qual pelo nível cultural deficiente de grande parte dos espectadores, provavelmente permanece ignorado na maior parte dos casos. Qual o significado disso? A existência e o sucesso desse programa são simultaneamente agente e sintoma de poderosas mudanças culturais e de valores. A realidade dominada pelo Grande Irmão já chegou, e não à força, mas através de uma transformação moral, na qual as pessoas são premiadas por sua vulgaridade. As pessoas competem para serem pagas para serem observadas participando de situações indignas e degradantes, para dramatizarem em pequena escala uma realidade que Orwell evidentemente descreveu como temível e abjeta. E toda uma geração cresce confortável com isso.

Absurdos dos copyrights

Ao contrário do que imaginam alguns ingênuos, copyrights nada têm a ver com direito de propriedade. Pelo contrário, essa tem sido uma das principais ferramentas utilizadas pelo Estado para restringir o direito de propriedade.

Por exemplo, se compro um CD, adquiro o direito de propriedade sobre ele. Mas a existência de copyright sobre as músicas daquele CD restringe o meu direito, impedindo, por exemplo, que eu salve uma delas e a envie a outra pessoa, via internet.

Isso significa que esse “segundo direito de propriedade” sobre coisas intangíveis (como músicas) viola o direito de propriedade propriamente dito, sobre as coisas que alguém legalmente adquira (pela homesteading rule).

O exemplo do CD é apenas o mais corriqueiro, de uma série de abusos cometidos em nome da proteção aos copyrights.

A BBC relata um caso tipicamente absurdo de violação aos direitos de propriedade. Uma loja de CDs na Europa que foi forçada pela indústria musical a parar de vender CDs comprados fora da Europa (acarretando um aumento geral nos preços dos CDs), sob a alegação de que a importação de CDs viola os copyrights das gravadoras européias. O último parágrafo da reportagem parece tirado diretamente de um site de piadas que resolvesse ironizar os exageros dos copyrights inventando uma história absurda, a revelar que, nessa matéria, tudo aquilo que se imagina como reductio ad absurdum dos argumentos em favor de tal “proteção” acaba por acontecer na realidade:

“The BPI is also investigating online retailer Amazon to see whether it is importing CDs from outside Europe. ‘If we find a net retailer is importing music from outside Europe, then they are infringing copyright law,’ a spokesman said.”

Isso não é tudo. Há um extenso artigo na revista do NY Times sobre as restrições ao uso de informações, cobranças malucas de direitos autorais e coisas do gênero:

“Siva Vaidhyanathan, a media scholar at New York University, calls anecdotes like this ‘copyright horror stories,’ and there have been a growing number of them over the past few years. Once a dry and seemingly mechanical area of the American legal system, intellectual property law can now be found at the center of major disputes in the arts, sciences and — as in the Diebold case — politics. Recent cases have involved everything from attempts to force the Girl Scouts to pay royalties for singing songs around campfires to the infringement suit brought by the estate of Margaret Mitchell against the publishers of Alice Randall’s book ‘The Wind Done Gone’ (which tells the story of Mitchell’s ‘Gone With the Wind’ from a slave’s perspective) to corporations like Celera Genomics filing for patents for human genes. The most publicized development came in September, when the Recording Industry Association of America began suing music downloaders for copyright infringement, reaching out-of-court settlements for thousands of dollars with defendants as young as 12. And in November, a group of independent film producers went to court to fight a ban, imposed this year by the Motion Picture Association of America, on sending DVD’s to those who vote for annual film awards.”

A matéria também trata do movimento de reação a esses abusos. Apesar do nome infeliz (Copy Left), alguns desses críticos têm coisas interessantes a dizer, que os distanciam dos idiotas que, nos jornais brasileiros, ficam a pregar contra os copyrights em nome da socialização dos meios de produção – e que, por conseqüência, só fazem os defensores dos copyrights parecerem mais sensatos do que são.

Fé & razão

Sabedora de minha adesão ao catolicismo, uma moça me perguntou: “O que você acha desse negócio do Papa dizer que as camisinhas não funcionam para prevenir a AIDS?” Na hora, respondi que não tinha o menor interesse por esse assunto, pois minha última namorada me deixou há tempo suficiente para eu não ter dilemas de moral sexual, ou melhor, não viver draminhas de poeta barroco.

Mas ela não se comoveu. Só queria mesmo a minha opinião, porque achava “um absurdo o Papa dizer uma coisa dessas”. Perguntei por que era absurdo. “Porque a ciência diz que a camisinha previne a AIDS”. Ora, o Papa não está usando o parecer de outros cientistas ao dizer isso? Por que pressupor que “a ciência” é um bloco unitário, uníssono e unânime? Será que ela nunca ouviu falar que os cientistas discordam entre si? Então. O Papa deve ter pego uns cientistas que têm umas provas contra a camisinha. Controvérsia é normal. Controvérsia com partidarismo, mais ainda. Pretensão à imparcialidade absoluta é coisa de doente mental. No máximo a pessoa pode tentar ser honesta e sincera. E olhe lá.

A melhor resposta então seria: “Olha, você não sabe nada de camisinha e está apenas acreditando nos cientistas. É uma preferência pessoal. Deixe-me em paz. Eu posso preferir o Papa e seus cientistas, se quiser.” Porque há muitas coisas que desconhecemos e simplesmente confiamos na opinião alheia. Eu confio na minha dermatologista. Por quê? Não sei bem. Ela parece inteligente. É muito simpática. E eu não entendo nada de dermatologia. Minha interlocutora também não entende nada de dermatologia. Mas deve confiar na sua dermatologista. Por mais “esclarecido” que alguém se julgue, continua vivendo de fé, por uma simples limitação humana: não é possível examinar todos os assuntos.

A questão é que a autoridade “da ciência” é hoje aceita como aparentemente era a autoridade da Igreja há séculos atrás. A maioria esmagadora das pessoas ou é incapaz ou não desejaria se envolver com seriedade na menor querela teológica, e por isso simplesmente aceita: há um purgatório, um inferno, um céu etc. Da mesma maneira, poucos dentre nós têm a disposição de realizar um teste com camisinhas com todo o rigor científico – isto é, incluindo as mais variadas taras.

(Não resisto ainda a pensar o seguinte: se o uso de camisinhas aumentou e o número de casos de AIDS também, talvez possamos concluir que a camisinha seja uma das causas da AIDS.)

Se alguém duvida de que esta entidade chamada “a ciência” hoje possui uma autoridade maior do que a da pitonisa de Delfos, pode considerar um único fato. Experimente dizer em um jantar qualquer que o Sol gira em torno da Terra. Você será chamado de palhaço e idiota. Agora, todos vêem, todos os dias, o Sol dar a volta no céu. Todos vêem, todos os dias, a Terra paradinha onde está, e o Sol se movendo. “Ah, mas isso é só uma impressão.” Não é não. Você não aprendeu na escola que “o movimento depende do referencial”?

Mensagem de Natal

O mundo vai mal. Quem não sabe? Por toda parte – inclusive n’ O Indivíduo – encontramos explicações para “o que está acontecendo” e tentativas de descrever a nossa miséria.

Soluções, por sua vez, são um pouco mais escassas – mas quase sempre categóricas. Cada um escolhe a parte do mundo moderno que mais lhe dói e deduz de sua eliminação a solução universal. O embate entre as várias correntes cria uma expectativa: “algo” precisa acontecer que dê fim a estas dores e acusações. É a plenitude dos tempos.

Mas o que acontecerá quando “algo” chegar? Será que todas estas expectativas serão atendidas? Ao que parece, a chegada de “algo” à Judéia há 2001 anos frustrou muita gente. A verdadeira pergunta, então, é: o que EU farei quando “algo” chegar? Será que em vez de esperar que Cristo aja como Papai Noel e me dê aquilo que EU quero, não é melhor preparar-me para aquilo que ELE quer?

Se Cristo olhasse nos MEUS olhos em uma praia da Galiléia, o que eu faria? Será que eu estaria pronto? Será que minha casa está construída sobre a rocha? Será que não gastei todos os meus tijolos jogando-os nas casas dos vizinhos?

Pelo nosso calendário litúrgico, Cristo nasceu novamente. Quem ele encontrará? Pessoas com listas de desejos ou dedicados discípulos? É o excesso de desejos e a falta do cumprimento da vontade do Mestre que piora a situação – e cá estou eu também a explicar a “crise do mundo moderno”. Mas com uma ressalva: não há solução fora do interior de cada um, onde Cristo pode colocar a única coisa necessária, a paz que ultrapassa todo entendimento. Podemos dizer: “Mestre, salve-me” e mostrar dedicação; mas não podemos dizer: “Mestre, salve o mundo, que vai mal pelas razões expostas acima”.

Que Cristo, então, inspire mais uma vez os homens de boa vontade a buscar somente a Paz – a Paz no coração, não nos noticiários – , que os inspire a fazer tudo para merecê-la, que Ele a dê, e que Deus seja louvado nas alturas por todo o sempre. Amém.

Mensagem de Natal

Ontem eu pensava sobre como, na infância, eu imaginava o menino Jesus, e sobre como a imagem do presépio parece despertar um verdadeiro sentimento de piedade nas pessoas. Mesmo aqueles que não são cristãos abrandam a alma e desejam, nesta época do ano, ser pessoas melhores do que no resto do ano. A imagem do presépio e a lembrança do nascimento do menino Jesus parecem catalisar este sentimento na alma de todos.

Um abrandamento da alma e um doce curvar-se diante de Deus são condições fundamentais para a apreensão da verdade. Se o Cristo que nasce é o Logos divino, o Intelecto Agente divino encarnado, devemos também preparar o nosso intelecto paciente para recebê-lo. Só quando nos preparamos para aceitá-Lo é que podemos repousar, como a alma de Santo Agostinho.

Eu poderia ficar aqui reclamando de como o mundo está em crise etc. Mas não pude deixar de me maravilhar ao perceber a analogia entre o sentimento despertado pela visão do presépio, do menino Jesus, e o estado de alma necessário para que a Palavra Encarnada de Deus não seja jogada em solo duro, mas em solo fértil, e germine.

Faço votos de que, neste Natal, a inspiração trazida pelo nascimento do menino Jesus transforme mais um pouco a alma de cada um, preparando-a para receber a Verdade – que é o que o mundo precisa, e não de paz, como tantos pensam.

Entrevista com René Girard

René Girard lê O Indivduo

por Pedro Sette Câmara e Alvaro Velloso de Carvalho, com a participação de Olavo de Carvalho. Fotos de Sergio de Biasi.

No dia 17 de novembro de 2000, pude assistir a uma conferência de René Girard na Faculdade da Cidade do Rio de Janeiro. Logo após o evento, consegui marcar para o dia seguinte uma pequena entrevista com ele, feita no Hotel Glória em conjunto com Alvaro Velloso de Carvalho, meu companheiro aqui no Indivíduo, e o filósofo Olavo de Carvalho, que há muito fala de Girard em suas aulas. (PSC)

Ciência & Violência

Olavo de Carvalho: Embora o senhor tenha sido o primeiro que conseguiu reconciliar ciências humanas e catolicismo, o pensamento católico do século XX parece não ter exercido a mínima influência sobre a sua obra. Como se explica isso?

René Girard: Sou antes de tudo um cientista social, e foi normal que passasse à margem dos debates filosóficos e teológicos que envolveram os pensadores católicos. Interesso-me pela Bíblia principalmente como documento sociológico. Por isso eles acabaram me olhando com desconfiança, vendo em mim uma espécie de lobo em pele de cordeiro, sem perceber que minha obra, embora não tenha o menor intuito doutrinal ou apologético, abre novas e insuspeitadas perspectivas apologéticas para o catolicismo, na medida em que mostra a sua superioridade moral. Vivemos numa sociedade em que todos pensam que os Evangelhos são um mito e que todos os mitos são falsos; minha obra demonstra que só é possível compreender a falsidade dos outros mitos à luz dos Evangelhos e que eles não podem ser apenas mitos.(1)

Olavo de Carvalho: No seu sistema, a violência punitiva aparece sempre como um ato coletivo, um ato das massas, e no seu último livro o senhor diz ter deixado de acreditar na possibilidade de uma sociedade não-violenta. O senhor acredita que ao menos na alma do indivíduo humano exista uma espécie de recinto protegido, não contaminado pela violência?

René Girard: Isso depende da sua concepção do pecado original. Um agostiniano, um predestinacionista, diria que não. Mas eu espero que sim. É evidente que tanto na escala individual quanto na coletiva as paixões são substancialmente as mesmas – inveja, orgulho, etc. -, mas no coletivo elas são potencializadas pela força multiplicadora do mecanismo mimético.

Um longo argumento do princpio ao fim

O demônio estatal

Como ainda diz Girard em seu ensaio Are the Gospels Mythical?, este modo de funcionar da sociedade expressa o domínio de Satanás sobre ela. Pois, até o advento de Jesus Cristo, era Satanás quem expulsava Satanás. Era ele, o espírito acusador, quem extirpava o mal em nome do mal, quem impedia o cataclismo maior com um menor, e escrevia a história – os mitos – assumindo o partido do acusador. A religião cristã assume o partido da vítima – o Cristo -, e afirma sua inocência, ressaltando que não era preciso matá-lo.

Pedro Sette Câmara: O Sr. concordaria com a afirmação de que a ideologia politicamente correta, buscando a proteção estatal de todas minorias contra todos, representa uma tentativa de Satanás de expulsar Satanás novamente?

René Girard: Sim. O que é interessante nesse fenômeno é que ele só poderia acontecer numa civilização que já recebeu a influência do cristianismo. Como o mecanismo do bode expiatório já foi revelado, não retornamos diretamente a ele, isto é, não acusamos diretamente a vítima de alguma coisa, não dizemos diretamente que ela é culpada. Mas o mecanismo do bode expiatório continua a funcionar, de forma diferente: o movimento politicamente correto acusa seus adversários de criar bodes expiatórios, acusam-nos de vitimar os outros. Esta é uma espécie de cristandade ao contrário: eles pegam o que resta da influência da cristã, o que resta da linguagem cristã, mas para fins opostos, para perpetuar o mecanismo de sacrifício do bode expiatório.

Pedro Sette Câmara: Tenho aqui uma entrevista sua, de 1996, em que o Sr.defende a intervenção internacional na Bósnia, dizendo que ela ocorre não com fins imperialistas, mas apenas com o objetivo de parar a matança de inocentes. Após afirmar que a violência é o fundamento das sociedades, o Sr. ainda subscreveria essa posição? Ou o Sr. crê que o cristianismo possa também servir como fundamento para a organização da sociedade?

René Girard: O cristianismo nunca teve esse propósito. Ele não tem o objetivo de organizar a sociedade.

Pedro Sette Câmara: Mas e aquela posição, o Sr. a manteria?

René Girard: Eu não adotaria ainda hoje uma posição inteiramente favorável à intervenção na Bósnia. É difícil dizer para onde caminha o mundo hoje, com a possibilidade do fim das soberanias nacionais. Se você olhar casos como o da prisão de Pinochet, verá que todo o procedimento é inteiramente avesso ao direito internacional. O que se passa é que a legislação internacional entrou em colapso – e o que se seguirá daí?

Alguns dirão que é uma nova forma de imperialismo americano – mesmo que não haja desígnios para isso, porque o imperialismo pode funcionar mesmo sem um objetivo direto nesse sentido. Por exemplo, quando Putin falou em particular com Chirac, recentemente, ele lhe disse que De Gaulle não agiria como ele, não aceitaria acompanhar a política externa americana sem questionamentos.

Ora, poderíamos apoiar esse tipo de intervenção se soubéssemos que a comunidade internacional sempre intervirá pelos motivos certos – mas não dá para apostar nisso.

O que me preocupa é o potencial dessa situação para criar novos bodes expiatórios, como vimos claramente nos casos de Milosevic e Pinochet: é fácil odiar os dois, estando de longe, sem conhecer as situações específicas, sem ouvir um único argumento a favor dos dois, seguindo a onda de ódio da multidão.

O reino da mentira

Pedro Sette Câmara: O Sr. teria dito que acha que, se tivesse de realizar seu trabalho acadêmico hoje, não conseguiria fazê-lo dentro de uma universidade. O Sr. disse isso mesmo?

René Girard: Sim, é verdade. Se eu fosse jovem hoje, e tivesse de entrar em uma universidade, ficaria muito preocupado. Quando eu comecei, nos anos 50, 60, a situação poderia já não ser ideal, mas era boa, era diferente. Havia erros, mas as pessoas eram honestas, ou pelo menos estavam tentando ser honestas. Hoje, no meio universitário, as pessoas não estão mais nem tentando ser honestas. Está tudo – ao que parece, no mundo inteiro – infestado pela ideologia, e a universidade se transformou em um espaço de propaganda política.

Aborto: os inocentes pedidos pelo secularismo moderno

Alvaro Velloso de Carvalho: No livro Quand ces choses commenceront, o senhor faz observações interessantes sobre o aborto e a maneira como sua legalização representa uma regressão em relação a conquistas do cristianismo. Poderia comentar algo mais a respeito? (2)

René Girard: Nos Estados Unidos, ainda há uma discussão do assunto, mas na Europa, por exemplo, praticamente não existe dissenso nesse ponto. Recentemente, escrevi um artigo para uma revista católica européia e mencionei o aborto. Uma amiga ficou chocada!

Alvaro Velloso de Carvalho: O aborto nunca é visto num contexto bíblico, ou mesmo em um contexto antropológico mais amplo, certo?

René Girard: Sim, exato. Mesmo aqueles que argumentam contra o aborto nem sempre têm essa perspectiva, porque encaram a Bíblia de maneira excessivamente rígida.

A proteção à criança, a proteção ao recém-nascido é essencial na Bíblia. O sacrifício de Isaac marca a diferença entre o Deus antigo e o Deus novo: é o Deus antigo que pede a Abraão que ele sacrifique seu filho, e quando Abraão vai fazê-lo, o Deus novo impede o sacrifício da criança, e o substitui pelo sacrifício de um animal. O fim do infanticídio ritual é uma das marcas da nossa civilização, e estamos perdendo isso.

Recentemente, vi um livro em que o autor, de cujo nome não me lembro, dizia que o aborto era o sacrifício da criança, e ele tomava partido a favor desse sacrifício. Isso é o mais horroroso a que se pode chegar!

Fica a impressão de que as antigas fatalidades primitivas, descartadas provisoriamente pela luz profética e evangélica, estão ressurgindo. Na Bíblia, a proteção à criança vem junto com a proteção aos deficientes, aos leprosos, aos aleijados. Essas são as vítimas preferenciais nas sociedades antigas, e entendemos que devemos protegê-las. Hoje continuamos a proteger os aleijados, os deficientes, mas no centro de tudo há uma espécie de câncer se desenvolvendo, do retorno ao infanticídio. Este é um argumento decisivo, que poucos levam em consideração: os defensores do aborto estão procurando fazer a nossa sociedade retornar à barbárie pré-cristã.

Links relevantes

Notas:

(1) Comentário à parte, por Pedro Sette Câmara: somente esta observação já é suficiente para destruir a obra inteira de um Joseph Campbell, que nivela todas as religiões.

(2) Trechos referidos do livro Quand ces choses commenceront, editado pela Arléa em 1996, uma compilação de entrevistas de Girard com o jornalista Michel Treguer sobre os aspectos mais importantes de sua obra:

Neste ponto, estamos em uma situação absolutamente trágica. É perfeitamente verdadeiro que, em um plano humano, o do planning racional, o aborto e todas as medidas para limitar os nascimentos são tão justificadas quanto possível. Dir-se-ia que o mundo moderno encurrala os homens – seja à renúncia heróica, à castidade, à sobriedade, à pobreza, àquilo que outrora chamávamos ‘santidade’ – seja à queda cega em direção ao caos e à morte… E isto numa época na qual compreendemos cada vez menos a positividade da renúncia. O combate dos cristãos ‘progressistas’ para reconciliar o cristianismo com a sociedade atual me parece defasado com relação àquilo que pressentem os seres extirpados pela modernidade. Essa maneira de confundir a Igreja Católica com um partido político desatualizado com os anseios de seus eleitores é uma perda do senso religioso.

E, em outra parte do mesmo livro:

A atitude da Igreja Católica, ou, melhor dizendo, a do Vaticano – hoje em dia muito isolado no seio mesmo do catolicismo – desconsiderada por uma boa parte de seu clero, ridicularizada pelo universo inteiro, bode expiatório quase oficial da mídia e de toda a intelligentsia mundial, tem algo de heróico, ainda mais que esse heroísmo não é reconhecido. Nós somos cada vez menos capazes de saudar ou mesmo de respeitar as verdadeiras dissidências. No fundo, o que encoleriza o mundo é o fato de que, longe de provar a hipocrisia que sempre se reprova nela, longe de se mostrar ‘política’, sobre este ponto a Igreja se apega firmemente à sua doutrina de sempre. Ela permanece fiel à sua atitude fundamental, que consiste em pôr uma certa definição da graça e do pecado acima de todos os imperativos puramente mundanos, de qualquer ordem que sejam eles.