Minha terra tem esquerdas

Minha terra tem esquerdas

que reclamam sem parar;

e os vermelhos esperneiam

tanto aqui como acolá.

Há tempos li uma crônica ótima no jornal português Público. Tive a inspiração de guardá-la no meu HD, e o tempo mostrou que a origem da inspiração era boa: o texto foi retirado do ar. Depois descobri que o jornal só mantém os arquivos durante sete dias. Não façamos referências a velas de defunto. Enjoy.

Saudades de Esquerda

Por HELENA MATOS

Originalmente em

http://jornal.publico.pt/2003/09/20/EspacoPublico/O02.html

A frase começou a ser dita cada vez com mais frequência: “Dantes era bem melhor!” Depois, como se tal fosse a coisa mais natural do mundo, uma espécie de consequência inevitável do confronto com o presente, começaram a deixar cair: “Isto é pior que o fascismo!” Em seguida entraram no processo de reabilitação da ditadura. Mas este “remake” do “Ó tempo volta para trás, dá-me tudo o que perdi” não é entoado por vozes como Kaúlza de Arriaga ou Rosa Casaco. Nada disso! É a esquerda, gente que sempre fez profissão de fé de antifascismo, alguns deles perseguidos pela PIDE, quem agora produz este nostálgico discurso. O próprio Manuel Alegre veio recentemente legitimar esta recuperação da ditadura declarando ao PÚBLICO: “Vivemos num clima mais perverso do que aquele que vivemos na ditadura. É muito desagradável dizer isto, mas é mais perverso: porque, na ditadura, eu sabia quem era o inimigo, sabia os riscos que corria, e, quando era preso, sabia por que é que era. Era uma situação clara. Neste momento, é uma situação perversa.”

Estas declarações de Manuel Alegre exprimem, por um lado, a extraordinária desorientação a que o PS chegou com o caso Pedroso e, por outro, são reveladoras da incapacidade de uma esquerda que se formou na oposição ao salazarismo de aceitar a realidade da democracia por que tanto lutou e as inevitáveis mudanças que o tempo acarreta.

Este tipo de discurso começou a fazer-se ouvir, primeiro, nos sectores derrotados no 25 de Novembro de 1975. Alguns pretendiam que a situação saída desse golpe reinstituíra no país algo semelhante ao que se vivia antes do 25 de Abril de 1974. Mas ficavam-se geralmente por umas frases de lirismo “kitsch” sobre essa data – o tempo em que os sonhos se desfizeram; o fim dos dias em que tudo era possível… De qualquer forma não diziam ainda que o fascismo tinha sido melhor. Não só se mantinha viva como até em muitos casos se exacerbava o que fora a resistência à ditadura e, por outro lado, a estratégia de comunicação da esquerda afecta ao PCP passava sobretudo por agitar o espantalho do retorno do fascismo a qualquer alteração legislativa. O PS, durante os governos de Cavaco Silva, também ocasionalmente invocou o regresso do fascismo mas apostou mais no denegrir do presente, o “cavaquistão”.

Anos depois, um dos sinais óbvios de que o PS tinha perdido a dinâmica do poder e consequentemente a vontade de fazer o presente aconteceu durante a última campanha autárquica, quando João Soares escolheu, num total desacerto com o tempo e o lugar, o “slogan” “Fascismo nunca mais”! para ganhar a Câmara de Lisboa. E agora que não só está na oposição como a sofrer o imenso desgaste do caso Casa Pia, o PS irmanou-se aos saudosos do PREC e outros vencidos da vida e, todos a uma só voz, choram de saudades dos bons velhos tempos. Exactamente esses em que Portugal foi uma ditadura. Ter-se-ão tornado fascistas? De modo algum, mas têm saudades desse tempo em que dividiam o mundo em bons e maus. Sendo que eles eram sempre bons fizessem o que fizessem. Durante a ditadura, a censura e a própria repressão policial permitiram a muitos iludirem a sua mediocridade imaginando sucessos e reconhecimento público que efectivamente não mereciam. Por isso, quando chegou a democracia e já não tinham o censor a dar-lhes importância nem a polícia a impedir-lhes as actividades e ficaram sós perante o público, o povo e, sobretudo, perante si mesmos, começaram por amaldiçoar o mercado, a competitividade e a concorrência. Em seguida, fizeram discursos sobre esse tempo em que todos se conheciam. Em que havia valores e ideais. Em que se faziam espectáculos de qualidade…

Depois, face a um presente cuja mudança não acompanham, face à chegada de novas gerações de políticos, autores, jornalistas…, começaram a sentir saudades daquele lápis azul que lhes dava tanta importância. Daquele censor seu espectador, leitor, ouvinte… enfim seguidor atento. Daí a balbuciarem que queriam a sua ditadura de volta foi um passo.

É certo que as democracias são injustas. É certo que podem estar detidos inocentes. É certo que as novelas da TVI têm mais audiência que as séries da RTP2. Mas não há qualquer comparação entre democracia e ditadura. Estas últimas são naturalmente perversas. Porque conferem um ignominioso estatuto de excepcionalidade a quem as governa mas também a quem se lhes opõe. Todos nós ouvimos falar da farsa que foi o julgamento dos membros do regime no caso Ballet Rose. Mas a farsa não acabava aí. A farsa é a ilusão de normalidade numa ditadura. Para o ditador, para aqueles que o rodeiam e para os que se lhe opõem. Por exemplo, caso um qualquer dirigente da oposição, durante a ditadura, tivesse sido acusado de abuso sexual de menores nunca ninguém acreditaria porque se tratava duma invenção da PIDE. Caso durante a ditadura um qualquer oposicionista fosse acusado de ter desviado dinheiro, isso seria sempre uma calúnia. Caso durante a ditadura um militante comunista ou de extrema-esquerda fosse acusado de ter assassinado alguém que consideravam dissidente, traidor ou informador da polícia, restava sempre a possibilidade de ter sido a PIDE… Por isso têm saudades desse tempo em que, como nas histórias infantis, os maus eram sempre maus e os bons sempre bons. Têm saudades desse tempo em que eles que agora assim falam, artistas, profissionais liberais e jornalistas de oposição, se sentiam investidos duma superioridade quase aristocrática. Ridicularizavam os censores e desprezavam os polícias. E estes últimos sabiam bem que nos calabouços não se tratava da mesma forma um trabalhador rural ou um frequentador da Brasileira.

É desse mundo em que tudo era perversamente familiar, em que a cunha da União Nacional coexistia, do outro lado, com o apoio cego e incondicional a quem se declarasse correlegionário, é desse mundo em que cada um sabia que o seu estatuto não seria beliscado, antes reforçado pela outra parte, de que a esquerda hoje tem saudades. É desse mundo em que a vida de cada um era condicionada e julgada pelo que se dizia ser e não pelo que de facto se era e fazia que a esquerda quer de volta. Tudo isto é muito triste e não creio que a culpa seja do fado.

Quotas raciais e escravidão

Elio Gaspari está desenvolvendo com afinco a própria capacidade de desenvolver comparações flagrantemente desonestas.

Toda semana, sem falta, ele faz uma comparação entre algum crítico (por mais brando e moderado que seja) do sistema de quotas e algum defensor da escravidão, para tentar demonstrar como os argumentos contra as quotas são mera repetição do discurso da “elite” contra a ascensão social dos negros.

Tirei a seguinte pérola de sua coluna de ontem (perdoem a transcrição longa; detesto ficar transcrevendo bobagem, mas a falácia da argumentação é tamanha que vale a pena registrá-la):

‘O ministro da Educação, Tarso Genro, deu sua opinião sobre o sistema de cotas para beneficiar os estudantes negros que, tendo sido aprovados nos exames vestibulares, não conseguiram se classificar:

“Sou totalmente favorável, mas elas são totalmente insuficientes. Um grande processo de inclusão é que vai resolver em definitivo essa questão.”

‘Não disse nada de novo. Em maio de 1870, o deputado Rodrigo da Silva dizia o seguinte do projeto da Lei do Ventre Livre:

“Não teremos necessidade, por exemplo, de auxiliar estabelecimentos de educação que recebam as crianças escravas libertas pelos seus senhores ou pelas sociedades humanitárias?

Não será um embaraço para o aumento das libertações a falta de estabelecimentos desta ordem?”

‘A idéia segundo a qual a medida A é insuficiente, pois a patuléia precisa da medida B, muito mais abrangente, faz parte do patrimônio retórico do andar de cima. Destina-se a deixar o andar de baixo sem A nem B.’

Agora vejamos: que relação pode haver entre a observação (perfeitamente razoável, diga-se) de que o sistema de quotas não é suficiente para melhorar a qualidade de vida da população negra, com outra que, sob pretexto de criticar insuficiências da Lei do Ventre Livre, acaba por defender a permanência do status quo?

Há, é fato, uma aparente similitude, decorrente da identidade de estrutura dos argumentos. Mas, substancialmente, trata-se de coisas radicalmente diversas.

Primeiro, porque afirmar que o sistema de quotas é insuficiente não equivale, necessariamente, a repudiar sua aplicação.

Segundo, e muito mais importante, porque não há nenhuma relação entre a abolição da escravidão (i.e., a abolição de uma das maiores brutalidades já institucionalizadas na história da humanidade, pela qual se reduzia o ser humano à condição de animal) e a criação de privilégios para uma determinada raça.

Ocorre que, repetida ad nauseum, tal comparação acaba por ter um efeito paralisante sobre as inteligências. Feita a aproximação, por mais absurda e incoerente que seja, entre a argumentação a favor da escravidão e a argumentação contra as quotas, está criado um poderoso instrumento de repressão psicológica à argumentação contrária às quotas, uma vez que qualquer crítico dessa política temerá passar por defensor da escravidão.

Está criado, assim, mais um daqueles lugares-comuns a que os imbecis opiniosos recorrem para não precisarem se esforçar para pensar. Já se vêem, na seção de cartas do Globo, inúmeros leitores afirmando, simplesmente, que a resistência à idéia de quotas (que, geralmente, decorre apenas do apego sensato à idéia de igualdade de condições e da salutar resistência à instituição de privilégios odiosos por meio de leis) equivale à defesa da escravidão. Outra não é a intenção do Gaspari.

Religiosidade egocêntrica

Madre Teresa de Calcutá costumava dizer que o objetivo de cada dia de sua vida era “fazer algo bonito para Deus”. Quer dizer: apresentar-se como digno do amor de Deus; doar-se como legítimo representante da grandeza divina na Terra.

Repito essas palavras porque me parece que toda a “espiritualidade” contemporânea consiste, exatamente, em fazer o oposto: esperar algo bonito de Deus.

A idéia, fundamental na moral religiosa, segundo a qual cabe ao homem fazer de sua própria vida algo digno da condição humana, de modo a tornar-se apresentável diante de Nosso Senhor, foi substituída, naquilo que hoje se entende por religião, pela idéia de que cabe a Deus atender a nossas exigências mais comezinhas, especialmente de modo a garantir uma vida próspera. Quer dizer, não é mais Deus que exige do homem uma vida digna; é o homem que exige de Deus que atenda a todos os seus caprichos.

Assim sendo, se algum ponto da moral cristã agride a sensibilidade moderna, que se mude a moral! Se algum ponto da doutrina teológica se tornou incompreensível para a mentalidade contemporânea, vamos “modernizar” a teologia!

Em nenhum momento essa completa inversão de prioridades ficou mais evidente do que no caso das reformas litúrgicas. Já não se pretendia que a Missa fosse a reedição sacramental do sacrifício do Cristo; pretendia-se, apenas, que ela ficasse divertida e interessante, de modo a angariar fiéis. Pouco importava se, com as mudanças, toda a sacralidade se perdesse.

Ainda nessa linha, e recorrendo a exemplos mais caricaturais, vale a pena ler o artigo de Alan Wolfe na “Prospect Magazine” de janeiro, intitulado “Dieting for Jesus”. Wolfe traça um perfil dos protestantes americanos ditos “conservadores” e mostra o caráter peculiar que a religião – mesmo aquela considerada tradicional – assumiu nos EUA. O seguinte parágrafo ilustra bem suas conclusões:

“Nenhum outro aspecto de sua fé é tão importante para os protestantes conservadores quanto a adoração: orações, visíveis e freqüentes, são o que os atrai para a igreja. Mas a adoração na América Protestante conservadora raramente envolve esforços introspectivos para honrar um ser supremo cujas preocupações sejam transcendentais. ‘Deus, dê-me um resultado positivo no exame de Raio-X quando eu fizer uma mamografia semana que vem’, ou ‘Deus, ajude o comitê a achar um novo pastor para a igreja’ são algumas das formas de orações mais comuns numa igreja Batista em New Jersey. No grupo feminino de uma igreja evangélica nos subúrbios de New York, cada participante tem a chance de pedir a Deus que responda a suas preocupações, e, à medida que ela o faz, as outras tomam notas, de modo a poderem rezar por suas amigas durante a semana. Essas preocupações são qualquer coisa menos transcendentais: a maior parte envolve dinheiro, saúde, e imóveis, junto com problemas da própria igreja. Nós não devemos duvidar do significado que a adoração tem para os cristãos conservadoreas. Mas também não devemos ignorar o fato de que, a julgar pela maneira como os crentes se expressam nas orações, essas são pessoas que acreditam que Deus ajuda aqueles que se concentram em si mesmos.”

Note-se que não há nada de errado em pedir coisas nas orações. O problema não é esse. O problema é o foco de atenção das orações, inteiramente voltadas para a satisfação dos próprios caprichos.

O autor do artigo vê nisso um sinal positivo de que ninguém precisa se preocupar com eventuais pretensões teocráticas dos protestantes americanos. Mas essa questão é de importância menor (até porque não há pretensões teocráticas, mas diversos aspectos das crenças protestantes, notadamente no que diz respeito à escatologia, influenciam diretamente a política). O que realmente importa é o que a pesquisa revela sobre o egocentrismo da “espiritualidade” contemporânea, o que, nem de longe, é exclusividade do protestantismo americano.

Um obituário atrasado: Neil Postman, 1931-2003

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Alvaro citou em seu post recente um professor do Departamento de Comunicação e Cultura da New York University. Como eu estudei neste departamento durante o ano acadêmico de 1995-96, o post me trouxe lembranças e resolvi visitar seu site para ver como andavam as coisas.

Fiquei surpreso ao ver, logo na primeira página, o anúncio de que Neil Postman, seu diretor, morreu em outubro de 2003.

Se algum dia fosse escrita alguma obra do tipo Os anos de aprendizagem de Pedro Sette Câmara, Postman estaria lá, ocupando boa parte da minha mente no início da minha tortuosa e nunca terminada carreira universitária. Olhando em retrospecto, eu discordaria de muitas de suas posições, como seu idealismo filosófico e sua visão à la Joseph Campbell da religião. Mas ele não era nem filósofo nem teólogo, e sim um “teórico da comunicação”, um sujeito que discutia a relação entre tecnologia e cultura.

Eu sei que pessoas de bem podem ter crises de caspa ao ouvir falar disso porque logo pensam em Pierre Bourdieu e Jean Baudrillard. Mas o trabalho de Postman não tinha nada a ver com profundas leituras simbólicas das novas realidades: ele era uma espécie de continuador “são” da obra de Marshall McLuhan, aproveitando os insights deste em livros-ensaios muito bem escritos, de leitura bastante direta, sem trechos particularmente obscuros (vá ler Deleuze para entender o que é um “trecho particularmente obscuro”).

O primeiro que li, para a matéria “Perspectives on Communication”, em setembro de 1995, foi The Disappearance of Childhood. A tese do livro é simples: a idéia de infância que temos hoje é uma construção vitoriana, baseada na restrição do acesso das crianças a determinadas informações. Como a televisão destrói estas restrições, a idéia de infância como um tempo de pureza e inocência deixa de fazer sentido. Com um argumento tão conservador, não admira que ele próprio admitisse que era “o pior esquerdista do mundo”.

O livro mais famoso que Postman escreveu foi Amusing Ourselves to Death, cuja tese também é simples: o meio da televisão é inadequado ao conteúdo das notícias. Ninguém pode fingir que tem respostas emocionais adequadas ao telejornal: “Morreram hoje 20 pessoas em um atentado em Jerusalém. Corta. O tempo está bom em Nebraska. Corta. Ronaldinho tem uma nova namorada.”

Meu livro favorito dele, porém, é Technopoly. Deixo aqui um trecho:

A relação entre a informação e os mecanismos que devem controlá-la é bem fácil de descrever: a tecnologia aumenta o estoque de informações disponíveis. Com o aumento do estoque, os mecanismos de controle ficam sobrecarregados. São necessários mecanismos de controle adicionais para lidar com as novas informações. Quando os novos mecanismos de controle são eles mesmos técnicos, eles, por sua vez, acabam por aumentar o estoque de informação. Quando o estoque de informação não pode mais ser controlado, ocorre um colapso da tranqüilidade psíquica e do propósito social. Sem defesas, as pessoas não têm como encontrar um sentido em suas experiências, vão perdendo a memória, e têm dificuldade para imaginar futuros razoáveis.

E isto foi escrito em 1991, pelo menos três anos antes de a internet ser massivamente utilizada nos Estados Unidos.

By this Sun of York

Após muitos e-mails perguntando “quando O Indivíduo será atualizado de novo?”, posso finalmente responder que ele foi atualizado por mim mesmo no dia 23 de janeiro.

Muitas pessoas podem se perguntar porque paramos durante tantos meses. Simples: há outras coisas na vida, as quais podem tomar muito tempo. Além destas, a simples chatice de atualizar um site todo em html certamente contribuiu para o período de férias. Por isso agora vamos funcionar no formato de blog, aproveitando as facilidades do Movable Type.

Uma outra novidade é que O Indivíduo está retornando ao seu projeto original: ser um veículo para três sujeitos – Alvaro Velloso de Carvalho, Sergio de Biasi e eu – dizerem o que pensam, com o único compromisso de não escrever em nome da humanidade ou de um universal abstrato.

(Ok, originalmente havia mais um sujeito, mas ele se desligou do projeto assim que começou a confusão na PUC.)

Quem quiser ver os artigos do site antigo pode clicar no primeiro link da nossa lista.

Aliás, como vocês podem ver, o site novo ainda está em construção. Mas provavelmente estará todo direitinho em breve.

Preciso ainda dizer que nada disto teria sido possível sem a ajuda de Marcelo De Polli, vulgo Wundermeister von Nuremberg, que resolveu todos os problemas tecnológicos – e ainda há de resolver alguns, espero.

Big Brother

Gostaria de fazer uma pequena observação sobre a forma inesperada como aos poucos a distopia de “1984″ se torna presentemente um fato.

O que era para ser algo terrível, humilhante e desumanizador, concebido como símbolo da destruição de qualquer possibilidade de dignidade pessoal, foi transmutado em um programa de televisão de grande sucesso, e ainda com o requinte de utilizar um nome que remete diretamente ao significado original, o qual pelo nível cultural deficiente de grande parte dos espectadores, provavelmente permanece ignorado na maior parte dos casos. Qual o significado disso? A existência e o sucesso desse programa são simultaneamente agente e sintoma de poderosas mudanças culturais e de valores. A realidade dominada pelo Grande Irmão já chegou, e não à força, mas através de uma transformação moral, na qual as pessoas são premiadas por sua vulgaridade. As pessoas competem para serem pagas para serem observadas participando de situações indignas e degradantes, para dramatizarem em pequena escala uma realidade que Orwell evidentemente descreveu como temível e abjeta. E toda uma geração cresce confortável com isso.

Absurdos dos copyrights

Ao contrário do que imaginam alguns ingênuos, copyrights nada têm a ver com direito de propriedade. Pelo contrário, essa tem sido uma das principais ferramentas utilizadas pelo Estado para restringir o direito de propriedade.

Por exemplo, se compro um CD, adquiro o direito de propriedade sobre ele. Mas a existência de copyright sobre as músicas daquele CD restringe o meu direito, impedindo, por exemplo, que eu salve uma delas e a envie a outra pessoa, via internet.

Isso significa que esse “segundo direito de propriedade” sobre coisas intangíveis (como músicas) viola o direito de propriedade propriamente dito, sobre as coisas que alguém legalmente adquira (pela homesteading rule).

O exemplo do CD é apenas o mais corriqueiro, de uma série de abusos cometidos em nome da proteção aos copyrights.

A BBC relata um caso tipicamente absurdo de violação aos direitos de propriedade. Uma loja de CDs na Europa que foi forçada pela indústria musical a parar de vender CDs comprados fora da Europa (acarretando um aumento geral nos preços dos CDs), sob a alegação de que a importação de CDs viola os copyrights das gravadoras européias. O último parágrafo da reportagem parece tirado diretamente de um site de piadas que resolvesse ironizar os exageros dos copyrights inventando uma história absurda, a revelar que, nessa matéria, tudo aquilo que se imagina como reductio ad absurdum dos argumentos em favor de tal “proteção” acaba por acontecer na realidade:

“The BPI is also investigating online retailer Amazon to see whether it is importing CDs from outside Europe. ‘If we find a net retailer is importing music from outside Europe, then they are infringing copyright law,’ a spokesman said.”

Isso não é tudo. Há um extenso artigo na revista do NY Times sobre as restrições ao uso de informações, cobranças malucas de direitos autorais e coisas do gênero:

“Siva Vaidhyanathan, a media scholar at New York University, calls anecdotes like this ‘copyright horror stories,’ and there have been a growing number of them over the past few years. Once a dry and seemingly mechanical area of the American legal system, intellectual property law can now be found at the center of major disputes in the arts, sciences and — as in the Diebold case — politics. Recent cases have involved everything from attempts to force the Girl Scouts to pay royalties for singing songs around campfires to the infringement suit brought by the estate of Margaret Mitchell against the publishers of Alice Randall’s book ‘The Wind Done Gone’ (which tells the story of Mitchell’s ‘Gone With the Wind’ from a slave’s perspective) to corporations like Celera Genomics filing for patents for human genes. The most publicized development came in September, when the Recording Industry Association of America began suing music downloaders for copyright infringement, reaching out-of-court settlements for thousands of dollars with defendants as young as 12. And in November, a group of independent film producers went to court to fight a ban, imposed this year by the Motion Picture Association of America, on sending DVD’s to those who vote for annual film awards.”

A matéria também trata do movimento de reação a esses abusos. Apesar do nome infeliz (Copy Left), alguns desses críticos têm coisas interessantes a dizer, que os distanciam dos idiotas que, nos jornais brasileiros, ficam a pregar contra os copyrights em nome da socialização dos meios de produção – e que, por conseqüência, só fazem os defensores dos copyrights parecerem mais sensatos do que são.