A origem (cristã) do ateísmo contemporâneo

O que segue abaixo é um trecho da longa entrevista feita por João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello com René Girard.

Não custa recordar que as origens de um movimento cultural podem não ter nada a ver com os objetos que interessam a esse movimento, isto é, o fato de o ateísmo contemporâneo ter (ou não) uma origem cristã nada diz a respeito da existência ou da inexistência de Deus. Mas pode dizer muito sobre a motivação de quem entra na guerra cultural.

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René Girard. Um longo argumento do princípio ao fim. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000. pp 205-208

A despeito da importância antropológica da Bíblia, houve, nos dois últimos séculos, um claro processo de “abandono” da leitura dos textos bíblicos. Como o senhor vê esse processo e quais as razões para que ele ocorra?

Hoje se publicam mais livros sobre a Bíblia do que nunca, mas o que assinalam é verdade: a Bíblia nunca esteve tão pouco presente em nossa história. É preciso ver tal situação de uma perspectiva nietzscheana-heideggeriana: “o retraimento de Deus”. Acho que a expressão heideggeriana “o retraimento de Deus” é na verdade antinietzscheana, já que a “morte de Deus” é ainda muito cristã para ele. Afinal, o Deus que morre é Cristo. E uma vez que Deus morre, a idéia de ressurreição tem de vir logo em seguida: como vimos, é o que acontece no aforismo 125 de A gaia ciência, um dos textos mais impressionantes de Nietzsche, no qual ele consegue dizer coisas que vão além de sua própria indagação. A morte de Deus e a pergunta acerca de como podemos oferecer reparação por essa morte levaram Nietzsche à idéia do assassinato fundador. A noção heideggeriana de retraimento dos deuses constitui um esforço para negar a primazia do Deus bíblico ainda presente na fórmula nietzscheana. A fórmula proposta por Heidegger significa que a religião em geral está perdendo espaço, não só o Deus cristão; o que é verdade. A antiga ordem sacrificial pagã está desaparecendo por causa do Cristianismo! Este parece estar morrendo com as religiões que faz perecer, visto ser considerado apenas mais uma religião mítica em termos sacrificiais. O Cristianismo não é apenas uma das religiões destruídas, é o agente dessa destruição. A morte de Deus é, em todos os sentidos, um fenômeno cristão. O ateísmo moderno corresponde a uma invenção cristã. Inexiste ateísmo no mundo antigo, excetuando-se o epicurismo, que era limitado e cuja negação dos deuses não era particularmente incisiva, beligerante. Não negava Deus contra alguma coisa ou alguém, não exibindo o forte caráter negativo do ateísmo moderno.

O desaparecimento da religião é um fenômeno cristão por excelência, pois. Quando falo de desaparecimento, refiro-me à religião como algo que associamos à ordem sacrificial. E a religião assim entendida continuará a desaparecer em todo o mundo. Conversei com um estudioso de sânscrito a esse respeito: tal processo também está ocorrendo na Índia e, embora bem mais lento por lá, vem acelerando-se. O retraimento de todos os deuses é o primeiro fenômeno transreligioso. Outro fenômeno dessa magnitude que estamos presenciando sem nos darmos conta é o fundamentalismo. E é interessante observar que os fundamentalistas não tomam conhecimento dos fundamentalistas de outras religiões. São inteiramente autocentrados, interessando-se apenas pelo seu próprio fundamentalismo e lutando pela extinção de outras formas de religião. Por exemplo, parece-nos inconcebível uma Internacional fundamentalista, embora possamos imaginar uma ateísta. Mas, a meu ver, ambos são aspectos da mesma destruição da religião, destruição essa que é essencialmente uma decorrência do Cristianismo, pelo fato de desacreditar o sacrifício. Sem acreditarmos em sua eficácia, este não pode existir. Graças ao Cristianismo, não mais acreditamos.

Em sua opinião, portanto, apesar das aparências, o mundo tem-se tornado cada vez mais cristão, ainda que a Bíblia não seja mais lida?

Sim. E, de certa forma, esse fato torna o fenômeno bem mais paradoxal, pois é mais fácil resgatarmos princípios bíblicos quando não sabenis que o são. O niilismo moderno é uma mentira. Após a Segunda Guerra e a dissolução da URSS, ou seja, com a queda do regime comunista, quando nossos intelectuais julgaram liquidado todo e qualquer princípio absoluto, estavam errados: a vitimologia ou a defesa das vítimas se tornou sagrada: é o princípio absoluto. Ninguém jamais atacará tal princípio. Então, podemos dizer que todos temos essa crença cristã. Alguma vez já viram um desconstrucionista ou um foucaultiano fazendo o tipo de genealogia que Nietzsche tinha em mente? Ele visava a uma desconstrução do Cristianismo, por ele entendido – de forma acertada – como a defesa das vítimas. Nossos niilistas modernos querem desconstruir tudo, exceto a defesa das vítimas, causa por eles abraçada. Silenciosamente, rejeitam o Nietzsche pró-nazismo. Constituem, na verdade, um tipo muito peculiar de niilistas; negam tudo, exceto a defesa da vítima. Noutras palavras, não poderiam ser mais cristãos, embora, é claro, neguem o Cristianismo, numa autocontradição cada vez mais óbvia.

Os princípios cristãos de fato prevaleceram e continuam a prevalecer?

Continuam a prevalecer muitas vezes de forma distorcida, caricatural, quando a defesa da vítima, por exemplo, gera novas perseguições. Só podemos perseguir indivíduos ou grupos quando temos a justificativa de ser contra qualquer prática persecutória, de perseguir apenas para combater perseguições! Em suma, só podemos perseguir perseguidores. Daí a popularidade da propaganda, hoje maior do que nunca. Mas se trata de um uso dessa difusão em nada relacionado ao uso feito pelo Cristianismo: a princípio, a propaganda concernia às verdades cristãs a serem propagadas. Hoje em dia, ocorre um fenômeno muito pouco cristão em seu verdadeiro propósito, pois precisamos provar que nosso oponente é um perseguidor, para justificar nosso desejo de persegui-lo. Ora, a propaganda cristã visa a abolir a possibilidade de perseguições! Daí a verdade cristã, sem a autocrítica capaz de mostrar nossas tendências violentas, ser tão inquisitorial quanto a própria Inquisição.

Trata-se de um processo muito eficiente: valores cristãos são difundidos sem provocar nenhum skándalon.

Sim e não. Sempre há o skándalon. Trata-se de um processo bastante complexo, porque o mundo moderno está ficando cada vez mais cristão, por um lado, e cada vez menos, por outro. Cumpre enfatizar amgos aspectos, e foi o que tentei fazer, por intermédio de Nietzsche. Hoje, o chamado multiculturalismo defende com veemência as minorias oprimidas. Tomando assim o partido das vítimas, os multiculturalistas convenientemente rejeitam o mecanismo do bode expiatório. Em resumo, são cristãos. Ao mesmo tempo, contudo, acreditam em vingança. Vingança contra toda a cultura ocidental. Não percebem que repetem e acentuam, em nível mundial, a metamorfose anterior da cultura, o Renascimento e o Iluminismo.

A rainha e a felicidade

Lucas, 9, 23-25: Em seguida dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará. Pois, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se, ou prejudicar-se a si mesmo?

Sempre falo de meus sentimentos antimonarquistas, e realmente a idéia de uma sucessão dinástica no governo de um país me parece um tanto escandalosa. Ainda assim, não consigo deixar de sentir uma tremenda simpatia pela rainha Elizabeth II da Inglaterra. Numa época em que as pessoas valorizam tremendamente os próprios desejos, e adoram se gabar de fazer as coisas de qualquer jeito e de ser “populares” (o que sempre me soa como uma desculpa esfarrapadíssima para a própria preguiça), é bom ter um ícone mundial da renúncia e da austeridade.

Aliás, se me pedissem para apontar o verdadeiro dogma do nosso tempo, aquela opinião inquestionável que paira acima dos debates e que é usada para encerrá-los, diria imediatamente que é o seguinte: não há nada mais importante do que a felicidade pessoal, e a felicidade pessoal só pode ser obtida pela realização dos próprios desejos. Afinal, diante de olhares de reprovação, qualquer um pode ganhar seus interlocutores ao convencê-los de que “realmente queria” alguma coisa. Se há um “desejo verdadeiro”, tudo é permitido; aliás, tudo é obrigatório, e as pessoas que acharem que não certamente são recalcadas, infelizes, nunca fizeram sexo na vida, odeiam a raça humana e no fundo são homossexuais enrustidos.

Acompanhar a vida inevitavelmente pública de diversas personalidades é vê-las pulando de desejo em desejo, sem jamais renunciar a essa busca; acompanhar a produção cultural é reencontrar constantemente a história da pessoa que, cansada da vida de renúncia, decidiu realizar seus próprios desejos e sentir-se especial, abandonando seu emprego, sua família, ou ambos. O dever é algo aceitável, desde que não entre em conflito com o desejo pessoal; se o cumprimento do dever por alguém afeta seus próximos, estes são sempre retratados como justamente ressentidos. Ninguém diz: seu ressentimento não passa de uma frescura. Se seu pai morreu por uma causa, orgulhe-se e honre sua memória, em vez de ficar choramingando pelos carinhos que você mesmo deixou de receber.

Pode-se argumentar que uma pessoa com espírito de dever e renúncia sempre atrai free riders, aproveitadores. É verdade. Mas, como diz Sócrates no Górgias, é melhor sofrer a injustiça do que praticar a injustiça. E, francamente, descontando os ideais de santidade, um belo ideal a que todos deveriam almejar (supondo que queiram vidas razoáveis) é o de conseguir fazer sacrifícios sem contrariedade ou ressentimento.

Porque, em meio a tantos escândalos, em meio a tantas vilezas perpetradas pela mídia, a rainha Elizabeth II sempre transmite austeridade e essa renúncia, essa impressão de cumprir o dever sem preocupar-se com os próprios desejos, não tenho como não admirá-la. Sim, eu sei que ela é milionária, que vive num palácio, mas não estou falando de riqueza; qualquer pessoa pode transmitir essa dignidade. Falo da rainha porque todos a conhecem.

Tudo isto tem a ver também com o fato de alguém ser um modelo. Hoje muitas pessoas querem ser modelos; não apenas querem ter a profissão de modelo, ou alguma profissão em que haja forte exposição própria, como querem ser, na expressão que Shakespeare pôs na boca de Henrique V, makers of manners, os inventores dos costumes, aqueles que não imitam, mas são imitados. Mas ser um modelo de quê? Naturalmente, um modelo de realização dos próprios desejos, e não, como a rainha Elizabeth II, um aparente modelo de renúncia aos próprios desejos em nome de coisas mais relevantes.

… e o vento levou

Publicado originalmente em OrdemLivre.org.

Num texto anterior, observei que a legislação de direito autoral coincide com um tipo de uso das tecnologias de comunicação, o qual é determinado pelos incentivos que elas estabelecem naturalmente. Xerocar um livro inteiro tem um custo de tempo, de espaço físico, e de dinheiro; repassar um livro inteiro num arquivo tem um custo ínfimo de tempo, quase nada de espaço em HD e zero de dinheiro. Parar de ouvir um LP com Claudio Arrau tocando Beethoven e passar a ouvir um LP com Michael Jackson representa o custo de levantar, tirar um disco da vitrola, pegar o outro etc. Parar de ouvir Claudio Arrau e passar a ouvir Michael Jackson no meu telefone celular requer, se não me engano, três toques na tela. Quatro se eu tiver de destravá-la, talvez. E, mesmo que sejam cinco, eu só usei o polegar. A ênfase é a seguinte: nos formatos antigos, por causa deles mesmos e não de uma forte conspiração malvada capitalista, os produtores de conteúdo tinham quase todo o controle. Hoje, são os usuários que têm o controle. Essas observações não são ideológicas, não refletem minha posição liberal.

Até agora os principais argumentos liberais contra o direito autoral e a propriedade intelectual são os seguintes: um objeto intelectual reproduzido não é perdido por aquele de quem a cópia se originou. Ao dizer a você o que eu penso, não perco meu pensamento. Ao enviar um arquivo, não deixo de possuir o arquivo. Mas ao dar a alguém meu chocolate, deixo de ter o chocolate. Além disso, como os usos de nossos corpos são ordenados por coisas que estão em nossas mentes (também conhecidas como “idéias”), querer limitar o uso dos corpos seria em alguma medida equivalente à escravidão. Se eu conseguisse aprender o passo do moonwalk de Michael Jackson, proibir-me de usar meu corpo dessa maneira seria equivalente a escravizar-me. Michael Jackson, se vivo, poderia continuar fazendo o moonwalk; eu não o estaria privando de rigorosamente nada. E se eu tivesse o conhecimento para produzir um processador de computador, também proibir-me de construí-lo seria equivalente à escravidão, já que o inventor do processador não perderia seu próprio conhecimento. Por outro lado, os defensores dos direitos autorais e da propriedade intelectual (inclusive liberais) argumentam principalmente que, sem a concessão de monopólios sobre a produção intelectual, não haveria incentivos para que houvesse produção intelectual, e assim não haveria progresso nem inovação e o mundo acabaria na idade das trevas. Ok, fui irônico, mas é que eu defendo a primeira posição.

Hoje existe o seguinte dilema: quando produzir cópias era caro, a legislação de direito autoral parecia adequada, razoável e, até certo ponto, redundante em relação à realidade; seria um pouco como proibir as pessoas de nadar o Atlântico de costas. Agora que todos temos computadores, internet e quase tudo existe em arquivo digital, a legislação de direito autoral parece, mais do que anacrônica, amplamente inaplicável. Você pode dizer que lei é lei e pronto; eu digo que de fato é melhor preservar um ordenamento jurídico ruim do que não ter nenhum; mas nós sabemos que, neste caso, não é isso que está em jogo, e sim o lucro dos produtores de conteúdo. Só que, para descobrir como lucrar produzindo conteúdo na era da possibilidade da cópia irrestrita e sem custo, ater-se à legislação é muito pouco produtivo. Importante é entender como funcionam e como são usadas as tecnologias que se valem da cópia irrestrita e sem custo. Porque mesmo que você creia no direito autoral e na propriedade intelectual de um ponto de vista moral, e também creia que a concessão de monopólio sobre produções intelectuais é um incentivo fundamental para a manutenção da civilização e de tudo que é bom, a sua situação é hoje semelhante a de um religioso que condena o sexo antes do casamento monogâmico heterossexual perpétuo. Você é anacrônico. Talvez nem mesmo você siga seus próprios princípios. E não custa observar que o lucro nunca esteve em ir contra os desejos das pessoas. Ainda mais quando elas simplesmente não conseguem levar a sério nem por um segundo as suas crenças. Eu conheço a sensação de ter uma crença e achar que ela é contrária à da maioria. Posso até sentir um certo orgulho. Mas não acho que vou ficar rico por causa disso.

Também é verdade que as pessoas mais prejudicadas pelo surgimento de novas tecnologias são aquelas que ganhavam dinheiro com os métodos que, a partir daquele momento, passaram a ser chamados “tradicionais” ou, em alguns casos, “artesanais”, embora se possa reter um certo prestígio e com isso manter a viabilidade comercial. Mas é duro ser alfaiate quando se pode comprar roupas industrializadas. Gutenberg inventou a imprensa móvel e arrasou a profissão dos copistas. Sim, o mais sofisticado calígrafo foi esmagado por um aparelho que pode ser operado por qualquer idiota capaz de soletrar e apertar uma chapa. Agora as grandes empresas de mídia agonizam. Já vimos isso antes; não é novidade; mas admito que estar no lugar delas parece péssimo. Desde seu ponto de vista, parece que estão vendo uma civilização levada pelo vento. O que falta a elas é o espírito de Scarlett O’Hara, que conseguiu se adaptar às novas situações.

Olhando essa nova situação, parece unânime (também eu concordo) que será cada vez mais difícil que existam sucessos planetários como Michael Jackson. Quanto mais gente puder trocar arquivos irrestritamente a custo baixíssimo, mais segmentação haverá. Isso sugere que cada vez mais produtores de conteúdo vão ganhar dinheiro (de algum modo), mas cada vez menos esse dinheiro virá em quantidades faraônicas. Se alguma das grandes empresas de comunicação da atualidade vai conseguir manter seus lucros, não será nos tribunais. Mas, como sempre aconteceu, antecipando aquilo que os consumidores desejam.

Getúlio Vargas contra as reformas ortográficas

O grifo é meu, e o autor foi meu tio-avô.

Uma coisa que pouca gente apreciou devidamente é a feição admirável com que Getúlio Vargas dominava a língua. Escrevia claro, sucinto, preciso, sem uma palavra a mais, num estilo limpo e desataviado. As notas que preparava para seus discursos eram admiravelmente arquitetadas e formuladas. Nunca se acostumou às reformas ortográficas, usando sempre as velhas formas de escrever.

José Sette Câmara. Agosto 1954. São Paulo: Siciliano, 1994. p. 20

Indignação ou inveja?

Publicado originalmente em OrdemLivre.org.

Desde sábado corre na imprensa a notícia de que o mordomo de Roseana Sarney recebe um salário de R$12 mil do Senado. Também correm as notícias dos atos sigilosos do Senado, assim como correram a farra das passagens e o mensalão. São coisas que causam justa revolta. Mas vamos juntar isso com um outro dado.

Conheço muitas pessoas que estudam ou estudaram para concursos públicos. Sem recriminá-las — até porque eu creio que existem funções legítimas e necessárias do Estado, e é melhor que sejam desempenhadas por pessoas boas e qualificadas — , não posso deixar de observar que, de modo geral, o objetivo delas, e dos demais concurseiros, era obter a segurança, a estabilidade e a boa remuneração do cargo. Seu objetivo era muito mais receber do que dar; mesmo que elas todas trabalhem dignamente, não me parece que estejam realizando uma vocação que encontra no serviço público seu ambiente ideal. Em todas as vezes que tentaram convencer-me a estudar para um concurso, também foram ressaltadas as benesses do cargo. Que boa parte das pessoas considere inteiramente natural que privilégios sejam conquistados por concursos é coisa que me admira e que, francamente, me faz até crer em sua legitimidade; eis, afinal, a famosa vontade popular.

O que me põe a pulga atrás da orelha é ver como essa crença na naturalidade dos privilégios adquiridos se junta à revolta contra as passagens dos deputados e o mordomo de senadora. Servidores concursados e servidores eleitos são pagos com o mesmíssimo dinheiro dos impostos. Por que não se faz cara feia quando, à mesa com familiares e amigos, alguém anuncia as vantagens do cargo para o qual está estudando, mas há revolta quando se descreve ou descobre as benesses de que desfrutam os deputados e senadores?

Pergunto-me também se essa atitude não está associada a outras. Quem mora no Rio de Janeiro sabe que o estilo carioca de dirigir dá novos sentidos à famosa frase de Sartre: “o inferno são os outros”. O motorista que fecha o cruzamento é o mesmo que se revolta com o cruzamento fechado por outro motorista. O motoqueiro que bate no retrovisor do seu carro sequer pára para ver o que aconteceu — e obviamente ele sentiu o baque mais do que o motorista do carro. É difícil crer que o vizinho que faz barulho e atira coisas pela janela e pelo vão central do prédio (moro no segundo andar, e tendo a crer que do terceiro em diante praticamente só há hooligans) queira ouvir barulho e ver lixo caindo dentro de sua casa.

Tudo isso denuncia não apenas a descrença no bem comum como, num nível muito menos abstrato, o desrespeito pelo outro que está a seu lado. O motorista que fecha o cruzamento pode enxergar as pessoas de cuja vida roubará alguns minutos. O vizinho que joga coisas e faz barulho encontra o outro vizinho no elevador. O concurseiro que só quer benesses está atrás do dinheiro dos impostos pagos por muita gente que ele não conhece, mas também do dinheiro dos seus amigos e parentes.

Diante disso, já é possível ouvir o contra-argumento: “faço porque todo mundo faz”. Se ninguém respeita o outro, e sequer tem idéia do bem comum, então respeitar o outro e fazer pequenos sacrifícios (para nem falar de grandes) em nome do bem comum significa ficar em séria desvantagem. Mas, sem nem mesmo recorrer à moral religiosa, para responder a esse argumento basta recordar o que diz Sócrates no diálogo Górgias, de Platão: “É melhor sofrer a injustiça do que praticar a injustiça”. A má conduta alheia jamais deve ser usada para justificar a má conduta própria. Talvez ela seja um atenuante, mas só. De todo modo, permanece no fundo a motivação de apenas receber e nunca dar.

Por isso, retomando o assunto principal, proponho a seguinte pergunta: como poderia alguém que abertamente se declara interessado apenas nas benesses de um cargo público repreender aqueles que recebem benesses maiores? A diferença é apenas de grau, não de substância. Se fosse necessário entender melhor e mais especificamente essa revolta, não seria necessário distinguir entre a justa indignação por um abuso e a inveja de quem só espera conquistar o direito a certas benesses?