Feminismo errando o alvo

As mulheres feministas reclamam de transformação da mulher em objeto. Vá lá. Mas essa reclamação é muito, digamos, incompleta.

É incompleta pelo seguinte. Quando você pensa em mulher-objeto, pensa numa mulher numa revista masculina, em que ela é apresentada de forma doce, inofensiva e oferecida. Mas essas fotos, como as mulheres sabem muito bem, só impressionam os homens. De modo geral, as mulheres não só desprezam as modelos das revistas masculinas, como na melhor das hipóteses acham que devem ter a magnanimidade de tolerar que seu namorado ou marido olhe esse tipo de revista. Para a mulher, isso é um sinal de tosquice.

No entanto, as mulheres vêem muito mais revistas e muito mais fotografias do que os homens. Revistas e fotografias com outras mulheres superproduzidas, supermaquiadas. Essas outras mulheres, essas modelos, ocupam justamente o papel de modelos: ideais a que as leitoras aspiram. São esses ideais — de magreza, de elegância, de glamour — que oprimem as mulheres. A moça na capa da Playboy já está desprezada de antemão. A moça na capa da Vogue, pelo contrário, vai direto para o pedestal.

Mais interessante é que os ideais masculinos de força, dignidade e heroísmo podem ser realizados em qualquer idade, a qualquer momento. Pode-se ser o Clint Eastwood sempre. Não se pode ser sempre a modelo da revista. Nem a modelo da revista pode ser a modelo da revista sempre.

E muito mais interessante é o seguinte: esse ideal feminino contemporâneo foi inventado por mulheres e por gays. Não conheço um único homem que declare uma preferência pela versão glamourosa e produzida da sua namorada. Todos preferem as mulheres em versões simples, muito mais girl next door do que bombshell. Sem contar que nós, homens, nunca fomos fãs da anorexia atual.

As feministas dizem que são oprimidas pela “sociedade patriarcal”. Mas nunca os homens heterossexuais esperaram que elas fossem modelos de glamour, eternamente jovens, permanentemente na moda, cheias de pose, tivessem opiniões politicamente corretas e pesassem no máximo 50 quilos.

Anorexia e desejo mimético

René Girard (claro) fala sobre anorexia e bulimia. Na verdade, eu comprei o livrinho Anorexie et désir mimétique, uma tradução para o francês do texto linkado (uma conferência apresentada em Stanford), mais prefácio de Mark Anspach e uma entrevista com Girard ao final, em que se fala até de Kate Moss, Carla Bruni & Sarkozy. No texto linkado, a parte mais interessante talvez seja a que Girard diz que já vivemos há muito tempo numa “cultura da anorexia”, que isso se vê, na arquitetura, na retirada progressiva das ornamentações; na pintura, no sumiço da perspectiva, da forma, e hoje até mesmo da cor; na poesia, no desaparecimento da rima, da métrica e, por que não?, do próprio conteúdo: os artistas querem apenas demonstrar sua suprema indiferença e com isso sua grande superioridade. Já o ecletismo pós-moderno, em que predomina o consumo e regurgitação indiscriminada de estilos diversos, corresponderia a uma fase bulímica.

Tradução juramentada: monopólio e corrupção

Publicado originalmente em OrdemLivre.org.

Trabalho com tradução há alguns anos e, como vivo no Rio de Janeiro, sempre ouço falar de uma entidade mítica chamada “o concurso para tradutor juramentado aqui do Rio”. Sucede que havia anos a Junta Comercial do Rio de Janeiro não abria um concurso para tradutor juramentado. “Havia” porque finalmente saiu o edital. A partir da próxima segunda, 3 de agosto de 2009, os tradutores do Rio poderão concorrer ao cargo de tradutor público.

Em que difere o trabalho de um tradutor “público” do trabalho de um tradutor “não-público”? Primeiro, difere no tipo de material traduzido. Tradutores em geral traduzem materiais em geral, e tradutores públicos traduzem documentos, do clássico diploma até um contrato. Mas também podem traduzir materiais oficiais de cunho mais literário. Segundo, e mais importante, o trabalho do tradutor público tem “fé pública”. É como se o governo brasileiro atestasse a veracidade daquela tradução.

A necessidade de “fé pública” é deveras curiosa. O tradutor público não é investido de um poder sobrenatural — quer dizer, o tradutor público não é infalível no mesmo sentido em que um católico como eu crê que o Papa é infalível em certas questões e sob certas condições. Não: o tradutor público, assim como qualquer tradutor, depende de conhecimento, bom senso, experiência, talento e bons dicionários. O fato de o governo brasileiro querer atestar a fé pública de traduções é um tanto acintoso aos demais tradutores. Não conheço ninguém que se considere acima das críticas — na verdade, os melhores tradutores que conheço são os primeiros a dizer que toda tradução tem erros, e isso deve incluir as traduções de fé pública — , mas a sugestão de que o seu trabalho não é digno de credibilidade por parte do público é deveras ofensiva. Na melhor das hipóteses, o termo “fé pública” é muito mal escolhido. Veio da mesma fornada que “contribuinte”, que significa alguém que paga algo contra a sua vontade.

É claro que todo tradutor está colocando sua reputação em jogo a cada tradução. A fé pública está sendo conquistada todos os dias. Exceto para os tradutores que já a conquistaram num concurso.

No entanto, a “fé pública” com aspas, garantida pelo governo, é muito mais lucrativa do que aquela que se conquista trabalhando e competindo por clientes. Basta considerar os preços.

Um tradutor não-famoso e relativamente iniciante ganha entre R$18 e R$25 para traduzir cerca de 2100 caracteres de um livro para uma editora (com os medalhões eruditíssimos é tudo diferente, mas estes são pouquíssimos). Ganha mais se o livro for técnico. Se for traduzir pequenos documentos, textos promocionais etc, pode cobrar por palavra e ganhar mais, é verdade. Não sei quanto se ganha para traduzir artigos estrangeiros para os grandes veículos. Mas julgo que não seja muito.

Um tradutor juramentado tem seu preço fixado. Para começar, sua lauda é de 1000 caracteres. E o valor mais barato que encontrei para essa lauda veio da Junta Comercial de São Paulo: R$36,70. É quase o dobro do preço médio para uma lauda que é menos da metade.

Ser um tradutor juramentado é, portanto, deveras lucrativo. E é claro que os tradutores juramentados têm todo o interesse em manter o número de concorrentes o menor possível — por que será que a Junta Comercial do Rio de Janeiro demorou tantos anos para realizar um concurso? Além disso, ao menos para o idioma inglês, a demanda é tanta que a tradução juramentada enriquece na plena ilegalidade. Isto porque, segundo diz o Art. 14 do Cap. II do Decreto nº 13.609, de 21 de outubro de 1943, que regulamenta a profissão, “É pessoal o ofício de tradutor público e intérprete comercial e não podem as respectivas funções ser delegadas sob pena de nulidade dos atos praticados pelo substituto e de perda do ofício.” É sabido aqui no Rio que diversas empresas prestam serviços de tradução juramentada — algum tradutor que não chega a ver 50% daquele valor de tabela faz a parte da tradução e o profissional dotado de “fé pública” faz a parte da juramentação. Resta saber se ao menos é ele mesmo quem carimba. Devo dizer que eu mesmo já recebi uma encomenda de um pequeno trabalho de tradução juramentada. Ofereciam-me R$16 por 2000 caracteres. Pergunto-me como é que os tradutores juramentados contabilizam estes serviços prestados. Será isso um caso para o fisco, para o Ministério Público, ou ambos?

Leio por aí que foi a Associação Brasileira de Tradutores que convenceu a Junta Comercial do Rio de Janeiro a realizar o bendito concurso, e não apenas por ele ser um “desejo”, mas também uma “necessidade”. Mas uma necessidade de quem? Aparentemente o excesso de demanda já havia sido contornado pelo emprego de, para usar uma imagem de Nelson Rodrigues, remadores de Ben-Hur.

O mais triste e grave nessa situação é a mesma coisa que é a mais triste e grave em diversas situações análogas. Quando o Estado se mete a fazer algo que não lhe compete, quando fixa preços e obriga os consumidores a usar aqueles serviços, criando um monopólio, é o próprio Estado que se torna a causa da corrupção. Se um tradutor aceita trabalhar para um juramentador, é porque isso é melhor do que não ter trabalho; mas o juramentador está numa posição artificialmente vantajosa e tirar partido dela acaba sendo necessário até mesmo para não empatar o fluxo de documentos de que depende a vida das pessoas. Por isso, pode-se até falar em corrupção endêmica no Brasil; mas, quando o governo cria monopólios de tradução, não se pode ignorar que essa corrupção tem uma origem e poderia, sim, ser extinta como num passe de mágica.

Em que Yeats explica o mecanismo do bode expiatório

The Leaders of the Crowd
W. B. Yeats

They must to keep their certainty accuse
All that are different of a base intent;
Pull down established honour; hawk for news
Whatever their loose fantasy invent
And murmur it with bated breath, as though
The abounding gutter had been Helicon
Or calumny a song. How can they know
Truth flourishes where the student’s lamp has shone,
And there alone, that have no Solitude?
So the crowd come they care not what may come.
They have loud music, hope every day renewed
And heartier loves; that lamp is from the tomb.

A diferença entre crentes e ateus

What a piece of work is man! How noble in reason! How infinite in faculty! In form and moving how express and admirable! In action how like an angel! In apprehension how like a god! The beauty of the world! The paragon of animals! And yet, to me, what is this quintessence of dust?

Hamlet, II, ii

Em termos de experiência, pergunto-me qual será a diferença fundamental e real entre crentes e descrentes, entre religiosos e ateus. As semelhanças são muito fáceis de apontar. Ambos dirão que apenas se submetem à verdade; ambos dirão que seguem suas consciências; ambos dirão, mais ainda, que o que os diferencia do outro lado é o estar certo, o ter razão; também dirão que são humildes, uns porque aceitam Deus, outros porque aceitam os limites do conhecimento humano; e não se deve esquecer que uns considerarão os outros a praga da humanidade. Nisto tudo crentes e descrentes podem ser iguais. Mas qual será o fundamento subjetivo de sua diferença? Haverá uma atitude fundamental que distinga um grupo do outro?

Claro que falo como crente. E não posso empreender uma investigação destas sem boa vontade para com o lado descrente. Essa boa vontade me obriga ao seguinte: devo supor que um ateu é tão sinceramente ateu quanto eu sou católico; que, assim como não julgo a mim mesmo um imbecil, também não vou julgá-lo imbecil; que não serei condescendente, e que tentarei colocar para mim mesmo a pergunta: “Se eu fosse parar de crer, ou se fosse pensar que não há Deus, como chegaria a isso, sem qualquer desonestidade? O que me levaria até esse estado?” Claro que qualquer um pode apontar que provavelmente a minha consciência já não é tão pura a ponto de servir de modelo; mas eu só posso dizer que ao “amar ao próximo como a mim mesmo” vou tentar considerá-lo como eu me consideraria.

O empreendimento me parece quase impossível, para dizer a verdade. Ou melhor: parece que só é possível chegar a uma hipótese e esperar que os ateus não se sintam mal representados, como se a minha hipótese contivesse sua condenação implícita. Aliás, também admito que eu gostaria de chegar a uma enunciação dessa diferença que fosse retoricamente aceitável tanto para crentes quanto para descrentes.

O melhor que consegui até agora foi o seguinte: diante da complexidade do mundo, o crente pressente a existência de uma inteligência transcendental, ao passo que, para o ateu, esse pressentimento é um passo indevido, uma projeção de quem observa o mundo. O crente, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga tratar-se da obra de outra inteligência; o ateu, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga que o domínio dessa vastidão virá com o tempo. Parece que as duas atitudes refletem duas posições a respeito de uma possível ciência universal. De um lado, o crente pergunta ao ateu: “E quando ficar evidente que a ciência universal é impossível, você passará a crer?” E o ateu pergunta: “E se a ciência universal acontecer, você deixará de crer?” É um tanto irresistível observar que, dita assim, a posição atéia parece se basear não num prometeanismo voluntarista, mas num prometeanismo inevitável: a transcendência não será mais necessária porque conquistá-la é só uma questão de tempo.

E por aqui encerro por enquanto, porque o projeto pede que se caminhe lentamente.

A origem (cristã) do ateísmo contemporâneo

O que segue abaixo é um trecho da longa entrevista feita por João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello com René Girard.

Não custa recordar que as origens de um movimento cultural podem não ter nada a ver com os objetos que interessam a esse movimento, isto é, o fato de o ateísmo contemporâneo ter (ou não) uma origem cristã nada diz a respeito da existência ou da inexistência de Deus. Mas pode dizer muito sobre a motivação de quem entra na guerra cultural.

***

René Girard. Um longo argumento do princípio ao fim. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000. pp 205-208

A despeito da importância antropológica da Bíblia, houve, nos dois últimos séculos, um claro processo de “abandono” da leitura dos textos bíblicos. Como o senhor vê esse processo e quais as razões para que ele ocorra?

Hoje se publicam mais livros sobre a Bíblia do que nunca, mas o que assinalam é verdade: a Bíblia nunca esteve tão pouco presente em nossa história. É preciso ver tal situação de uma perspectiva nietzscheana-heideggeriana: “o retraimento de Deus”. Acho que a expressão heideggeriana “o retraimento de Deus” é na verdade antinietzscheana, já que a “morte de Deus” é ainda muito cristã para ele. Afinal, o Deus que morre é Cristo. E uma vez que Deus morre, a idéia de ressurreição tem de vir logo em seguida: como vimos, é o que acontece no aforismo 125 de A gaia ciência, um dos textos mais impressionantes de Nietzsche, no qual ele consegue dizer coisas que vão além de sua própria indagação. A morte de Deus e a pergunta acerca de como podemos oferecer reparação por essa morte levaram Nietzsche à idéia do assassinato fundador. A noção heideggeriana de retraimento dos deuses constitui um esforço para negar a primazia do Deus bíblico ainda presente na fórmula nietzscheana. A fórmula proposta por Heidegger significa que a religião em geral está perdendo espaço, não só o Deus cristão; o que é verdade. A antiga ordem sacrificial pagã está desaparecendo por causa do Cristianismo! Este parece estar morrendo com as religiões que faz perecer, visto ser considerado apenas mais uma religião mítica em termos sacrificiais. O Cristianismo não é apenas uma das religiões destruídas, é o agente dessa destruição. A morte de Deus é, em todos os sentidos, um fenômeno cristão. O ateísmo moderno corresponde a uma invenção cristã. Inexiste ateísmo no mundo antigo, excetuando-se o epicurismo, que era limitado e cuja negação dos deuses não era particularmente incisiva, beligerante. Não negava Deus contra alguma coisa ou alguém, não exibindo o forte caráter negativo do ateísmo moderno.

O desaparecimento da religião é um fenômeno cristão por excelência, pois. Quando falo de desaparecimento, refiro-me à religião como algo que associamos à ordem sacrificial. E a religião assim entendida continuará a desaparecer em todo o mundo. Conversei com um estudioso de sânscrito a esse respeito: tal processo também está ocorrendo na Índia e, embora bem mais lento por lá, vem acelerando-se. O retraimento de todos os deuses é o primeiro fenômeno transreligioso. Outro fenômeno dessa magnitude que estamos presenciando sem nos darmos conta é o fundamentalismo. E é interessante observar que os fundamentalistas não tomam conhecimento dos fundamentalistas de outras religiões. São inteiramente autocentrados, interessando-se apenas pelo seu próprio fundamentalismo e lutando pela extinção de outras formas de religião. Por exemplo, parece-nos inconcebível uma Internacional fundamentalista, embora possamos imaginar uma ateísta. Mas, a meu ver, ambos são aspectos da mesma destruição da religião, destruição essa que é essencialmente uma decorrência do Cristianismo, pelo fato de desacreditar o sacrifício. Sem acreditarmos em sua eficácia, este não pode existir. Graças ao Cristianismo, não mais acreditamos.

Em sua opinião, portanto, apesar das aparências, o mundo tem-se tornado cada vez mais cristão, ainda que a Bíblia não seja mais lida?

Sim. E, de certa forma, esse fato torna o fenômeno bem mais paradoxal, pois é mais fácil resgatarmos princípios bíblicos quando não sabenis que o são. O niilismo moderno é uma mentira. Após a Segunda Guerra e a dissolução da URSS, ou seja, com a queda do regime comunista, quando nossos intelectuais julgaram liquidado todo e qualquer princípio absoluto, estavam errados: a vitimologia ou a defesa das vítimas se tornou sagrada: é o princípio absoluto. Ninguém jamais atacará tal princípio. Então, podemos dizer que todos temos essa crença cristã. Alguma vez já viram um desconstrucionista ou um foucaultiano fazendo o tipo de genealogia que Nietzsche tinha em mente? Ele visava a uma desconstrução do Cristianismo, por ele entendido – de forma acertada – como a defesa das vítimas. Nossos niilistas modernos querem desconstruir tudo, exceto a defesa das vítimas, causa por eles abraçada. Silenciosamente, rejeitam o Nietzsche pró-nazismo. Constituem, na verdade, um tipo muito peculiar de niilistas; negam tudo, exceto a defesa da vítima. Noutras palavras, não poderiam ser mais cristãos, embora, é claro, neguem o Cristianismo, numa autocontradição cada vez mais óbvia.

Os princípios cristãos de fato prevaleceram e continuam a prevalecer?

Continuam a prevalecer muitas vezes de forma distorcida, caricatural, quando a defesa da vítima, por exemplo, gera novas perseguições. Só podemos perseguir indivíduos ou grupos quando temos a justificativa de ser contra qualquer prática persecutória, de perseguir apenas para combater perseguições! Em suma, só podemos perseguir perseguidores. Daí a popularidade da propaganda, hoje maior do que nunca. Mas se trata de um uso dessa difusão em nada relacionado ao uso feito pelo Cristianismo: a princípio, a propaganda concernia às verdades cristãs a serem propagadas. Hoje em dia, ocorre um fenômeno muito pouco cristão em seu verdadeiro propósito, pois precisamos provar que nosso oponente é um perseguidor, para justificar nosso desejo de persegui-lo. Ora, a propaganda cristã visa a abolir a possibilidade de perseguições! Daí a verdade cristã, sem a autocrítica capaz de mostrar nossas tendências violentas, ser tão inquisitorial quanto a própria Inquisição.

Trata-se de um processo muito eficiente: valores cristãos são difundidos sem provocar nenhum skándalon.

Sim e não. Sempre há o skándalon. Trata-se de um processo bastante complexo, porque o mundo moderno está ficando cada vez mais cristão, por um lado, e cada vez menos, por outro. Cumpre enfatizar amgos aspectos, e foi o que tentei fazer, por intermédio de Nietzsche. Hoje, o chamado multiculturalismo defende com veemência as minorias oprimidas. Tomando assim o partido das vítimas, os multiculturalistas convenientemente rejeitam o mecanismo do bode expiatório. Em resumo, são cristãos. Ao mesmo tempo, contudo, acreditam em vingança. Vingança contra toda a cultura ocidental. Não percebem que repetem e acentuam, em nível mundial, a metamorfose anterior da cultura, o Renascimento e o Iluminismo.

A rainha e a felicidade

Lucas, 9, 23-25: Em seguida dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará. Pois, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se, ou prejudicar-se a si mesmo?

Sempre falo de meus sentimentos antimonarquistas, e realmente a idéia de uma sucessão dinástica no governo de um país me parece um tanto escandalosa. Ainda assim, não consigo deixar de sentir uma tremenda simpatia pela rainha Elizabeth II da Inglaterra. Numa época em que as pessoas valorizam tremendamente os próprios desejos, e adoram se gabar de fazer as coisas de qualquer jeito e de ser “populares” (o que sempre me soa como uma desculpa esfarrapadíssima para a própria preguiça), é bom ter um ícone mundial da renúncia e da austeridade.

Aliás, se me pedissem para apontar o verdadeiro dogma do nosso tempo, aquela opinião inquestionável que paira acima dos debates e que é usada para encerrá-los, diria imediatamente que é o seguinte: não há nada mais importante do que a felicidade pessoal, e a felicidade pessoal só pode ser obtida pela realização dos próprios desejos. Afinal, diante de olhares de reprovação, qualquer um pode ganhar seus interlocutores ao convencê-los de que “realmente queria” alguma coisa. Se há um “desejo verdadeiro”, tudo é permitido; aliás, tudo é obrigatório, e as pessoas que acharem que não certamente são recalcadas, infelizes, nunca fizeram sexo na vida, odeiam a raça humana e no fundo são homossexuais enrustidos.

Acompanhar a vida inevitavelmente pública de diversas personalidades é vê-las pulando de desejo em desejo, sem jamais renunciar a essa busca; acompanhar a produção cultural é reencontrar constantemente a história da pessoa que, cansada da vida de renúncia, decidiu realizar seus próprios desejos e sentir-se especial, abandonando seu emprego, sua família, ou ambos. O dever é algo aceitável, desde que não entre em conflito com o desejo pessoal; se o cumprimento do dever por alguém afeta seus próximos, estes são sempre retratados como justamente ressentidos. Ninguém diz: seu ressentimento não passa de uma frescura. Se seu pai morreu por uma causa, orgulhe-se e honre sua memória, em vez de ficar choramingando pelos carinhos que você mesmo deixou de receber.

Pode-se argumentar que uma pessoa com espírito de dever e renúncia sempre atrai free riders, aproveitadores. É verdade. Mas, como diz Sócrates no Górgias, é melhor sofrer a injustiça do que praticar a injustiça. E, francamente, descontando os ideais de santidade, um belo ideal a que todos deveriam almejar (supondo que queiram vidas razoáveis) é o de conseguir fazer sacrifícios sem contrariedade ou ressentimento.

Porque, em meio a tantos escândalos, em meio a tantas vilezas perpetradas pela mídia, a rainha Elizabeth II sempre transmite austeridade e essa renúncia, essa impressão de cumprir o dever sem preocupar-se com os próprios desejos, não tenho como não admirá-la. Sim, eu sei que ela é milionária, que vive num palácio, mas não estou falando de riqueza; qualquer pessoa pode transmitir essa dignidade. Falo da rainha porque todos a conhecem.

Tudo isto tem a ver também com o fato de alguém ser um modelo. Hoje muitas pessoas querem ser modelos; não apenas querem ter a profissão de modelo, ou alguma profissão em que haja forte exposição própria, como querem ser, na expressão que Shakespeare pôs na boca de Henrique V, makers of manners, os inventores dos costumes, aqueles que não imitam, mas são imitados. Mas ser um modelo de quê? Naturalmente, um modelo de realização dos próprios desejos, e não, como a rainha Elizabeth II, um aparente modelo de renúncia aos próprios desejos em nome de coisas mais relevantes.

… e o vento levou

Publicado originalmente em OrdemLivre.org.

Num texto anterior, observei que a legislação de direito autoral coincide com um tipo de uso das tecnologias de comunicação, o qual é determinado pelos incentivos que elas estabelecem naturalmente. Xerocar um livro inteiro tem um custo de tempo, de espaço físico, e de dinheiro; repassar um livro inteiro num arquivo tem um custo ínfimo de tempo, quase nada de espaço em HD e zero de dinheiro. Parar de ouvir um LP com Claudio Arrau tocando Beethoven e passar a ouvir um LP com Michael Jackson representa o custo de levantar, tirar um disco da vitrola, pegar o outro etc. Parar de ouvir Claudio Arrau e passar a ouvir Michael Jackson no meu telefone celular requer, se não me engano, três toques na tela. Quatro se eu tiver de destravá-la, talvez. E, mesmo que sejam cinco, eu só usei o polegar. A ênfase é a seguinte: nos formatos antigos, por causa deles mesmos e não de uma forte conspiração malvada capitalista, os produtores de conteúdo tinham quase todo o controle. Hoje, são os usuários que têm o controle. Essas observações não são ideológicas, não refletem minha posição liberal.

Até agora os principais argumentos liberais contra o direito autoral e a propriedade intelectual são os seguintes: um objeto intelectual reproduzido não é perdido por aquele de quem a cópia se originou. Ao dizer a você o que eu penso, não perco meu pensamento. Ao enviar um arquivo, não deixo de possuir o arquivo. Mas ao dar a alguém meu chocolate, deixo de ter o chocolate. Além disso, como os usos de nossos corpos são ordenados por coisas que estão em nossas mentes (também conhecidas como “idéias”), querer limitar o uso dos corpos seria em alguma medida equivalente à escravidão. Se eu conseguisse aprender o passo do moonwalk de Michael Jackson, proibir-me de usar meu corpo dessa maneira seria equivalente a escravizar-me. Michael Jackson, se vivo, poderia continuar fazendo o moonwalk; eu não o estaria privando de rigorosamente nada. E se eu tivesse o conhecimento para produzir um processador de computador, também proibir-me de construí-lo seria equivalente à escravidão, já que o inventor do processador não perderia seu próprio conhecimento. Por outro lado, os defensores dos direitos autorais e da propriedade intelectual (inclusive liberais) argumentam principalmente que, sem a concessão de monopólios sobre a produção intelectual, não haveria incentivos para que houvesse produção intelectual, e assim não haveria progresso nem inovação e o mundo acabaria na idade das trevas. Ok, fui irônico, mas é que eu defendo a primeira posição.

Hoje existe o seguinte dilema: quando produzir cópias era caro, a legislação de direito autoral parecia adequada, razoável e, até certo ponto, redundante em relação à realidade; seria um pouco como proibir as pessoas de nadar o Atlântico de costas. Agora que todos temos computadores, internet e quase tudo existe em arquivo digital, a legislação de direito autoral parece, mais do que anacrônica, amplamente inaplicável. Você pode dizer que lei é lei e pronto; eu digo que de fato é melhor preservar um ordenamento jurídico ruim do que não ter nenhum; mas nós sabemos que, neste caso, não é isso que está em jogo, e sim o lucro dos produtores de conteúdo. Só que, para descobrir como lucrar produzindo conteúdo na era da possibilidade da cópia irrestrita e sem custo, ater-se à legislação é muito pouco produtivo. Importante é entender como funcionam e como são usadas as tecnologias que se valem da cópia irrestrita e sem custo. Porque mesmo que você creia no direito autoral e na propriedade intelectual de um ponto de vista moral, e também creia que a concessão de monopólio sobre produções intelectuais é um incentivo fundamental para a manutenção da civilização e de tudo que é bom, a sua situação é hoje semelhante a de um religioso que condena o sexo antes do casamento monogâmico heterossexual perpétuo. Você é anacrônico. Talvez nem mesmo você siga seus próprios princípios. E não custa observar que o lucro nunca esteve em ir contra os desejos das pessoas. Ainda mais quando elas simplesmente não conseguem levar a sério nem por um segundo as suas crenças. Eu conheço a sensação de ter uma crença e achar que ela é contrária à da maioria. Posso até sentir um certo orgulho. Mas não acho que vou ficar rico por causa disso.

Também é verdade que as pessoas mais prejudicadas pelo surgimento de novas tecnologias são aquelas que ganhavam dinheiro com os métodos que, a partir daquele momento, passaram a ser chamados “tradicionais” ou, em alguns casos, “artesanais”, embora se possa reter um certo prestígio e com isso manter a viabilidade comercial. Mas é duro ser alfaiate quando se pode comprar roupas industrializadas. Gutenberg inventou a imprensa móvel e arrasou a profissão dos copistas. Sim, o mais sofisticado calígrafo foi esmagado por um aparelho que pode ser operado por qualquer idiota capaz de soletrar e apertar uma chapa. Agora as grandes empresas de mídia agonizam. Já vimos isso antes; não é novidade; mas admito que estar no lugar delas parece péssimo. Desde seu ponto de vista, parece que estão vendo uma civilização levada pelo vento. O que falta a elas é o espírito de Scarlett O’Hara, que conseguiu se adaptar às novas situações.

Olhando essa nova situação, parece unânime (também eu concordo) que será cada vez mais difícil que existam sucessos planetários como Michael Jackson. Quanto mais gente puder trocar arquivos irrestritamente a custo baixíssimo, mais segmentação haverá. Isso sugere que cada vez mais produtores de conteúdo vão ganhar dinheiro (de algum modo), mas cada vez menos esse dinheiro virá em quantidades faraônicas. Se alguma das grandes empresas de comunicação da atualidade vai conseguir manter seus lucros, não será nos tribunais. Mas, como sempre aconteceu, antecipando aquilo que os consumidores desejam.

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