Consciência x autoridade

Parece haver um contraste natural entre consciência e autoridade. A consciência é pessoal, individual, íntima; a autoridade, impessoal, coletiva, estranha. Se identificarmos a consciência com a inteligência, que é de fato individual, qualquer um poderia dizer que o suposto impasse se resolve afirmando que pode ser inteligente seguir a autoridade, e ter razão. Porém, o que me interessa é a oposição subjetiva entre consciência e autoridade, isto é, os motivos que uma pessoa dá a si mesma para recusar uma autoridade. Esses motivos sempre parecem girar em torno de questões de consciência. Do mártir católico ao adolescente ateu que se sente constrangido em sua escola no coração do Bible Belt, ninguém quer ter a sua consciência constrangida. O mérito dos conteúdos de sua consciência é irrelevante neste momento. O que me interessa é que, toda vez que um indivíduo se insurge contra uma autoridade, essa oposição é formulada nos termos de uma consciência individual contra uma autoridade exterior que injustamente a constrange.

Se a autoridade diz representar a consciência individual, o indivíduo a acusará de ser a suprema perversão dela: uma anticonsciência que, travestida de consciência coletiva, começa por inverter a ordem das coisas ao pretender afirmar-se fora da intimidade da inteligência individual; aliás, essa pretensão só poderia mesmo surgir de um impulso totalitário. A autoridade acusará o indivíduo (caso não o ignore pura e simplesmente) de desrespeitar a hierarquia; de ser simplesmente vaidosa diante da experiência acumulada por outros e cristalizada na autoridade, que fornece nada menos do que a estabilidade do mundo: o que representaria para a ciência, enquanto empreendimento social, alguém que exigisse aceitação para dados obtidos sem o uso do método devido?

Sei que devo fazer uma ressalva e explicar o exemplo. Para mim, neste momento, os conteúdos da ciência ou da não-ciência são irrelevantes; interessa-me que o método científico é uma regra que pode ser tão exterior à consciência quanto qualquer outra regra. Não digo isso porque eu seja contrário ao método científico — não sou. Só estou interessado em regras e motivações, e penso que qualquer pessoa aceita de mão beijada a informação que vem das fontes a que confere maior prestígio. Se você (acha que) confere prestígio a uma autoridade por razões mais razoáveis do que as minhas, ainda assim confere prestígio: você abre as páginas de uma publicação e lê aquilo com boa vontade, presumindo que é verdade; e lê as páginas de outra publicação com má vontade, presumindo que é mentira.

Mas o que mais me interessa agora é a associação entre verdade e identidade. Ninguém crê que aquilo que pensa é mentira, mas verdade; mesmo que seja uma verdade provisória e aproximativa, ainda assim verdade. As pessoas também se definem — observo isso em mim mesmo — pelas verdades que possuem. Quer dizer, diante dos outros, e sob certo aspecto diante de si mesmo, a sua posse de certas verdades é tão definidora da sua identidade quanto é para outra pessoa a posse de certas roupas e acessórios. Mudar de idéia é mudar de identidade; e, quanto mais séria a idéia, mais séria a mudança de identidade. Se não fosse assim, não teríamos a impressão de que aquele que tem idéias discordantes de um consenso é mais indivíduo do que aqueles que partilham do consenso. Aderir a um consenso parece com dissolver-se; contrariar um consenso parece com afirmar a si e à primazia da consciência individual.

Feminismo errando o alvo

As mulheres feministas reclamam de transformação da mulher em objeto. Vá lá. Mas essa reclamação é muito, digamos, incompleta.

É incompleta pelo seguinte. Quando você pensa em mulher-objeto, pensa numa mulher numa revista masculina, em que ela é apresentada de forma doce, inofensiva e oferecida. Mas essas fotos, como as mulheres sabem muito bem, só impressionam os homens. De modo geral, as mulheres não só desprezam as modelos das revistas masculinas, como na melhor das hipóteses acham que devem ter a magnanimidade de tolerar que seu namorado ou marido olhe esse tipo de revista. Para a mulher, isso é um sinal de tosquice.

No entanto, as mulheres vêem muito mais revistas e muito mais fotografias do que os homens. Revistas e fotografias com outras mulheres superproduzidas, supermaquiadas. Essas outras mulheres, essas modelos, ocupam justamente o papel de modelos: ideais a que as leitoras aspiram. São esses ideais — de magreza, de elegância, de glamour — que oprimem as mulheres. A moça na capa da Playboy já está desprezada de antemão. A moça na capa da Vogue, pelo contrário, vai direto para o pedestal.

Mais interessante é que os ideais masculinos de força, dignidade e heroísmo podem ser realizados em qualquer idade, a qualquer momento. Pode-se ser o Clint Eastwood sempre. Não se pode ser sempre a modelo da revista. Nem a modelo da revista pode ser a modelo da revista sempre.

E muito mais interessante é o seguinte: esse ideal feminino contemporâneo foi inventado por mulheres e por gays. Não conheço um único homem que declare uma preferência pela versão glamourosa e produzida da sua namorada. Todos preferem as mulheres em versões simples, muito mais girl next door do que bombshell. Sem contar que nós, homens, nunca fomos fãs da anorexia atual.

As feministas dizem que são oprimidas pela “sociedade patriarcal”. Mas nunca os homens heterossexuais esperaram que elas fossem modelos de glamour, eternamente jovens, permanentemente na moda, cheias de pose, tivessem opiniões politicamente corretas e pesassem no máximo 50 quilos.

Anorexia e desejo mimético

René Girard (claro) fala sobre anorexia e bulimia. Na verdade, eu comprei o livrinho Anorexie et désir mimétique, uma tradução para o francês do texto linkado (uma conferência apresentada em Stanford), mais prefácio de Mark Anspach e uma entrevista com Girard ao final, em que se fala até de Kate Moss, Carla Bruni & Sarkozy. No texto linkado, a parte mais interessante talvez seja a que Girard diz que já vivemos há muito tempo numa “cultura da anorexia”, que isso se vê, na arquitetura, na retirada progressiva das ornamentações; na pintura, no sumiço da perspectiva, da forma, e hoje até mesmo da cor; na poesia, no desaparecimento da rima, da métrica e, por que não?, do próprio conteúdo: os artistas querem apenas demonstrar sua suprema indiferença e com isso sua grande superioridade. Já o ecletismo pós-moderno, em que predomina o consumo e regurgitação indiscriminada de estilos diversos, corresponderia a uma fase bulímica.

Em que Yeats explica o mecanismo do bode expiatório

The Leaders of the Crowd
W. B. Yeats

They must to keep their certainty accuse
All that are different of a base intent;
Pull down established honour; hawk for news
Whatever their loose fantasy invent
And murmur it with bated breath, as though
The abounding gutter had been Helicon
Or calumny a song. How can they know
Truth flourishes where the student’s lamp has shone,
And there alone, that have no Solitude?
So the crowd come they care not what may come.
They have loud music, hope every day renewed
And heartier loves; that lamp is from the tomb.

A origem (cristã) do ateísmo contemporâneo

O que segue abaixo é um trecho da longa entrevista feita por João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello com René Girard.

Não custa recordar que as origens de um movimento cultural podem não ter nada a ver com os objetos que interessam a esse movimento, isto é, o fato de o ateísmo contemporâneo ter (ou não) uma origem cristã nada diz a respeito da existência ou da inexistência de Deus. Mas pode dizer muito sobre a motivação de quem entra na guerra cultural.

***

René Girard. Um longo argumento do princípio ao fim. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000. pp 205-208

A despeito da importância antropológica da Bíblia, houve, nos dois últimos séculos, um claro processo de “abandono” da leitura dos textos bíblicos. Como o senhor vê esse processo e quais as razões para que ele ocorra?

Hoje se publicam mais livros sobre a Bíblia do que nunca, mas o que assinalam é verdade: a Bíblia nunca esteve tão pouco presente em nossa história. É preciso ver tal situação de uma perspectiva nietzscheana-heideggeriana: “o retraimento de Deus”. Acho que a expressão heideggeriana “o retraimento de Deus” é na verdade antinietzscheana, já que a “morte de Deus” é ainda muito cristã para ele. Afinal, o Deus que morre é Cristo. E uma vez que Deus morre, a idéia de ressurreição tem de vir logo em seguida: como vimos, é o que acontece no aforismo 125 de A gaia ciência, um dos textos mais impressionantes de Nietzsche, no qual ele consegue dizer coisas que vão além de sua própria indagação. A morte de Deus e a pergunta acerca de como podemos oferecer reparação por essa morte levaram Nietzsche à idéia do assassinato fundador. A noção heideggeriana de retraimento dos deuses constitui um esforço para negar a primazia do Deus bíblico ainda presente na fórmula nietzscheana. A fórmula proposta por Heidegger significa que a religião em geral está perdendo espaço, não só o Deus cristão; o que é verdade. A antiga ordem sacrificial pagã está desaparecendo por causa do Cristianismo! Este parece estar morrendo com as religiões que faz perecer, visto ser considerado apenas mais uma religião mítica em termos sacrificiais. O Cristianismo não é apenas uma das religiões destruídas, é o agente dessa destruição. A morte de Deus é, em todos os sentidos, um fenômeno cristão. O ateísmo moderno corresponde a uma invenção cristã. Inexiste ateísmo no mundo antigo, excetuando-se o epicurismo, que era limitado e cuja negação dos deuses não era particularmente incisiva, beligerante. Não negava Deus contra alguma coisa ou alguém, não exibindo o forte caráter negativo do ateísmo moderno.

O desaparecimento da religião é um fenômeno cristão por excelência, pois. Quando falo de desaparecimento, refiro-me à religião como algo que associamos à ordem sacrificial. E a religião assim entendida continuará a desaparecer em todo o mundo. Conversei com um estudioso de sânscrito a esse respeito: tal processo também está ocorrendo na Índia e, embora bem mais lento por lá, vem acelerando-se. O retraimento de todos os deuses é o primeiro fenômeno transreligioso. Outro fenômeno dessa magnitude que estamos presenciando sem nos darmos conta é o fundamentalismo. E é interessante observar que os fundamentalistas não tomam conhecimento dos fundamentalistas de outras religiões. São inteiramente autocentrados, interessando-se apenas pelo seu próprio fundamentalismo e lutando pela extinção de outras formas de religião. Por exemplo, parece-nos inconcebível uma Internacional fundamentalista, embora possamos imaginar uma ateísta. Mas, a meu ver, ambos são aspectos da mesma destruição da religião, destruição essa que é essencialmente uma decorrência do Cristianismo, pelo fato de desacreditar o sacrifício. Sem acreditarmos em sua eficácia, este não pode existir. Graças ao Cristianismo, não mais acreditamos.

Em sua opinião, portanto, apesar das aparências, o mundo tem-se tornado cada vez mais cristão, ainda que a Bíblia não seja mais lida?

Sim. E, de certa forma, esse fato torna o fenômeno bem mais paradoxal, pois é mais fácil resgatarmos princípios bíblicos quando não sabenis que o são. O niilismo moderno é uma mentira. Após a Segunda Guerra e a dissolução da URSS, ou seja, com a queda do regime comunista, quando nossos intelectuais julgaram liquidado todo e qualquer princípio absoluto, estavam errados: a vitimologia ou a defesa das vítimas se tornou sagrada: é o princípio absoluto. Ninguém jamais atacará tal princípio. Então, podemos dizer que todos temos essa crença cristã. Alguma vez já viram um desconstrucionista ou um foucaultiano fazendo o tipo de genealogia que Nietzsche tinha em mente? Ele visava a uma desconstrução do Cristianismo, por ele entendido – de forma acertada – como a defesa das vítimas. Nossos niilistas modernos querem desconstruir tudo, exceto a defesa das vítimas, causa por eles abraçada. Silenciosamente, rejeitam o Nietzsche pró-nazismo. Constituem, na verdade, um tipo muito peculiar de niilistas; negam tudo, exceto a defesa da vítima. Noutras palavras, não poderiam ser mais cristãos, embora, é claro, neguem o Cristianismo, numa autocontradição cada vez mais óbvia.

Os princípios cristãos de fato prevaleceram e continuam a prevalecer?

Continuam a prevalecer muitas vezes de forma distorcida, caricatural, quando a defesa da vítima, por exemplo, gera novas perseguições. Só podemos perseguir indivíduos ou grupos quando temos a justificativa de ser contra qualquer prática persecutória, de perseguir apenas para combater perseguições! Em suma, só podemos perseguir perseguidores. Daí a popularidade da propaganda, hoje maior do que nunca. Mas se trata de um uso dessa difusão em nada relacionado ao uso feito pelo Cristianismo: a princípio, a propaganda concernia às verdades cristãs a serem propagadas. Hoje em dia, ocorre um fenômeno muito pouco cristão em seu verdadeiro propósito, pois precisamos provar que nosso oponente é um perseguidor, para justificar nosso desejo de persegui-lo. Ora, a propaganda cristã visa a abolir a possibilidade de perseguições! Daí a verdade cristã, sem a autocrítica capaz de mostrar nossas tendências violentas, ser tão inquisitorial quanto a própria Inquisição.

Trata-se de um processo muito eficiente: valores cristãos são difundidos sem provocar nenhum skándalon.

Sim e não. Sempre há o skándalon. Trata-se de um processo bastante complexo, porque o mundo moderno está ficando cada vez mais cristão, por um lado, e cada vez menos, por outro. Cumpre enfatizar amgos aspectos, e foi o que tentei fazer, por intermédio de Nietzsche. Hoje, o chamado multiculturalismo defende com veemência as minorias oprimidas. Tomando assim o partido das vítimas, os multiculturalistas convenientemente rejeitam o mecanismo do bode expiatório. Em resumo, são cristãos. Ao mesmo tempo, contudo, acreditam em vingança. Vingança contra toda a cultura ocidental. Não percebem que repetem e acentuam, em nível mundial, a metamorfose anterior da cultura, o Renascimento e o Iluminismo.

A rainha e a felicidade

Lucas, 9, 23-25: Em seguida dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará. Pois, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se, ou prejudicar-se a si mesmo?

Sempre falo de meus sentimentos antimonarquistas, e realmente a idéia de uma sucessão dinástica no governo de um país me parece um tanto escandalosa. Ainda assim, não consigo deixar de sentir uma tremenda simpatia pela rainha Elizabeth II da Inglaterra. Numa época em que as pessoas valorizam tremendamente os próprios desejos, e adoram se gabar de fazer as coisas de qualquer jeito e de ser “populares” (o que sempre me soa como uma desculpa esfarrapadíssima para a própria preguiça), é bom ter um ícone mundial da renúncia e da austeridade.

Aliás, se me pedissem para apontar o verdadeiro dogma do nosso tempo, aquela opinião inquestionável que paira acima dos debates e que é usada para encerrá-los, diria imediatamente que é o seguinte: não há nada mais importante do que a felicidade pessoal, e a felicidade pessoal só pode ser obtida pela realização dos próprios desejos. Afinal, diante de olhares de reprovação, qualquer um pode ganhar seus interlocutores ao convencê-los de que “realmente queria” alguma coisa. Se há um “desejo verdadeiro”, tudo é permitido; aliás, tudo é obrigatório, e as pessoas que acharem que não certamente são recalcadas, infelizes, nunca fizeram sexo na vida, odeiam a raça humana e no fundo são homossexuais enrustidos.

Acompanhar a vida inevitavelmente pública de diversas personalidades é vê-las pulando de desejo em desejo, sem jamais renunciar a essa busca; acompanhar a produção cultural é reencontrar constantemente a história da pessoa que, cansada da vida de renúncia, decidiu realizar seus próprios desejos e sentir-se especial, abandonando seu emprego, sua família, ou ambos. O dever é algo aceitável, desde que não entre em conflito com o desejo pessoal; se o cumprimento do dever por alguém afeta seus próximos, estes são sempre retratados como justamente ressentidos. Ninguém diz: seu ressentimento não passa de uma frescura. Se seu pai morreu por uma causa, orgulhe-se e honre sua memória, em vez de ficar choramingando pelos carinhos que você mesmo deixou de receber.

Pode-se argumentar que uma pessoa com espírito de dever e renúncia sempre atrai free riders, aproveitadores. É verdade. Mas, como diz Sócrates no Górgias, é melhor sofrer a injustiça do que praticar a injustiça. E, francamente, descontando os ideais de santidade, um belo ideal a que todos deveriam almejar (supondo que queiram vidas razoáveis) é o de conseguir fazer sacrifícios sem contrariedade ou ressentimento.

Porque, em meio a tantos escândalos, em meio a tantas vilezas perpetradas pela mídia, a rainha Elizabeth II sempre transmite austeridade e essa renúncia, essa impressão de cumprir o dever sem preocupar-se com os próprios desejos, não tenho como não admirá-la. Sim, eu sei que ela é milionária, que vive num palácio, mas não estou falando de riqueza; qualquer pessoa pode transmitir essa dignidade. Falo da rainha porque todos a conhecem.

Tudo isto tem a ver também com o fato de alguém ser um modelo. Hoje muitas pessoas querem ser modelos; não apenas querem ter a profissão de modelo, ou alguma profissão em que haja forte exposição própria, como querem ser, na expressão que Shakespeare pôs na boca de Henrique V, makers of manners, os inventores dos costumes, aqueles que não imitam, mas são imitados. Mas ser um modelo de quê? Naturalmente, um modelo de realização dos próprios desejos, e não, como a rainha Elizabeth II, um aparente modelo de renúncia aos próprios desejos em nome de coisas mais relevantes.

Tentação & maldição

Quanto mais tento usar as lentes da teoria mimética de René Girard, mais recordo a frase que a serpente disse a Eva no Paraíso: “Sereis como deuses.” Parece que aí está, com o perdão da pomposidade, todo o problema humano.

Primeiro, o problema de ser. “Ser ou não ser, eis a questão.” A impressão de que a vida dos outros é sempre mais intensa e mais perfeita do que a nossa. De que enquanto mal suportamos a banalidade outras pessoas estão “vivendo”. Olhamos os outros como Fernando Pessoa olha a menina que come chocolates em “Tabacaria”.

Segundo, o problema do “como”. O tempo inevitavelmente à nossa frente parece prestar-se a qualquer uso. E quanto mais o tempo está para trás, mais vemos que certas possibilidades se fecharam. Se o tempo é uma folha em branco, como preenchê-la? Aquelas pessoas que “são” mais intensamente do que nós sugerem um “como”. Mas elas são elas, e nós somos nós. E nós, é claro, temos de ser originais. “Seja você mesmo”.

Terceiro, “deuses”. O plural é de grande ironia. Se há deuses, eles não são absolutos. Se não percebêssemos que a promessa da serpente era furada no “como”, o “deuses” não deixaria dúvidas. Isso, é claro, se estivéssemos prestando atenção. Muito fácil para mim dizer isso agora, e continuar caindo nessa promessa falsa a cada 15 minutos. Mas por que caímos? Porque queremos ser deuses. Ou cada um de nós quer ser um deus e fazer da sua vida a perfeita e maravilhosa sucessão de realizações de desejos puramente espontâneos. Ressentimo-nos da banalidade, de não saber escolher um programa de TV, de tudo. Os deuses “são”. Eu não sou. Há aí outra ironia: “sereis como aqueles que são”, remetendo à maneira como Deus se definiu a Moisés: “Eu sou Aquele que é”.

O contexto ainda sugere outra interpretação. Adão e Eva eram dois. “Sereis como deuses… um para o outro. Tirando o fato de que vocês não são de fato Deus, bem…” E daí vem o inferno dos relacionamentos (de todo tipo). Eu deifico certa pessoa, creio que ela “é”, que ela tem as respostas etc. E obviamente ela não tem. Então eu ainda me sinto heróico por ter derrubado aquele ídolo e parto para deificar outra pessoa. A qual faz isso comigo, e depois derruba o ídolo em que me transformou etc.

Não acaba. O demônio não é o “macaco de Deus”? Querer “ser como deuses” é querer macaquear Deus. A serpente quer transformar o homem nela mesma.