Rei Lear, versão 2009

Publicado originalmente em OrdemLivre.org.

Um rei decide se aposentar e dividir o reino entre as três filhas, premiando-as por sua capacidade de bajulá-lo. Duas delas, Regan e Goneril, bajulam-no; Cordélia, a mais nova, diz que o ama como uma filha deve amar um pai. E pronto. Repleta de abusos contra as regras de governo, essa é a premissa da peça Rei Lear, de Shakespeare.

As regras abusadas são as regras de sucessão. Dividir o reino segundo caprichos tão pequenos é algo que nem eles podem fazer — não sem pagar o preço. Além disso, os reis não podem simplesmente se retirar. É sua figura que dá unidade ao país. Nele, um rei sempre será o rei, e sua mera presença representará um conflito com as autoridades de facto.

Os conflitos são o preço mencionado, e não tardam. Como Lear ainda insiste em ser um fardo para as filhas, carregando um séquito de dezenas de cavaleiros arruaceiros, ninguém quer hospedá-lo. As filhas bajuladoras não hesitam em pôr o pai na rua, e isso durante uma tempestade – um óbvio símbolo natural da situação política.

Lear se surpreende, mas será que o espectador, que já viu duas filhas abusarem do pai e rei que pedia elogios, tem o direito de se surpreender? É comum que os espectadores julguem que Lear fica louco no meio da peça, após ser expulso, mas é claro que desde o início ele não estava bem. Estava possuído por aquilo que os gregos chamavam de hybris, o desejo de desprezar as instituições estabelecidas e reinventar todas as regras. A hybris cria a hibridização, a indefinição dos papéis, e, com isso, os conflitos. O rei ainda é rei? As filhas contra o pai serão ainda filhas?

Ao final, Lear é resgatado, ou quase, por Cordélia. A instituição que Lear desprezou é que vem em seu socorro. A hybris, porém, deixa seu estrago, que é sempre a destruição do mundo. As irmãs que traíram o pai insano desde a primeira cena traem seus maridos e traem uma à outra. Um desses maridos manda matar Lear e Cordélia. A peça termina num festival de assassinatos.

Rei Lear poderia ser readaptada para 2009. A Constituição de um país, seu grande acordo coletivo, a qual mesmo os governantes estão submetidos, proíbe que sequer se cogite a reeleição. Porém, o presidente já tem urnas, vindas do exterior, para fazer um plebiscito a esse respeito. Como Lear, ele quer mexer nas regras de sucessão. Deposto por sua hybris, seu desejo de reinventar os papéis, o presidente é expulso do país, mas retorna secretamente e reaparece numa embaixada estrangeira. Lear era rei e não era; o presidente é presidente e não é. Dentro do país, o não-presidente tem contra si um mandado de prisão; mas, na embaixada estrangeira, não é um refugiado político. Seu papel é totalmente indefinido. À moda do séquito do Rei Lear, o séquito do presidente deposto não quer nem dividir a comida com seus anfitriões. Como na peça Rei Lear, há convulsões civis. Ao contrário do Rei Lear, porém, o soberano que desprezou as regras não dá sinal de que percebe o que fez. Não há Cordélia. A hybris avança e, nesse caso, o estrangeiro ajuda. O que faltará para o morticínio?

O que é maturidade política?

Publicado originalmente em OrdemLivre.org.

Texto inspirado por On War and Apocalypse, de René Girard.

Há mais ou menos oito anos eu trabalhava numa empresa de internet. Um belo dia, um dos meus colegas começou a falar veementemente contra um político brasileiro, famoso por sua corrupção. Sem crer nem descrer da corrupção do político, pedi que um de seus crimes fosse enumerado. Apenas um. Ou que ele me apresentasse um dado qualquer. Se o político roubou, quanto roubou? Não tive resposta. Mas a certeza de meu amigo também não pareceu ficar abalada.

Não digo o nome do político para preservar o argumento. Considerando o senso comum brasileiro, se eu dissesse a alguém que por um momento apostei na inocência dele, até meus amigos passariam a achar que não estou bem da cabeça. Repito que nem aposto, nem desaposto: só queria algo mais concreto. Uma acusação mais profissional, digamos assim. Não tenho por que ficar abalado com a presunção de culpa. Sei que a desaprovação de quem acusa assim, amadoristicamente, é a mera reprovação da turba de linchadores que descobre um desertor. E que esse desertor é o próximo candidato ao linchamento. Afinal, se chega a cogitar que o culpado é inocente, deve ser culpado também.

Essa é uma constante da vida brasileira. A imprensa levanta fatos. Solta acusações. Nada acontece. Barbárie? Não, claro que não. Barbárie é querer fazer justiça sem o Poder Judiciário. Se o Poder Judiciário é corrupto, é outra história. Mas é claro que é corrupto. Assim como eu sou corrupto, e você também, e todos nós que temos certeza da corrupção de outra pessoa sem sequer saber exatamente o que foi que ela fez. Ficar admirado com a corrupção humana (e o governo é uma coisa humana) é ingênuo demais. Isso, na melhor das hipóteses. Porque admira-se com a corrupção aquele que se julga puro. Puro o suficiente para dirigir as vidas alheias. As vidas corruptas. A minha vida. Não quero, obrigado.

Mas voltemos. É fácil ver que a longa sequência de acusações que não dão em nada cria uma frustração. Eugen Rosenstock-Huessy diz em A origem da linguagem que a ordem cria uma “taça de tempo” que é preenchida pelo relatório. “Faça.” “Fiz.” Cada acusação é como uma ordem ao governo. “Puna.” Porém, o governo não aceita ser pautado pelo jornalismo. Posso compreender. Só não posso deixar de observar que a expectativa fica no ar, e do ar nunca sai. Quase nada acontece. Poucas vezes há investigação. Meu colega não sabia qual o crime do político. Acostumou-se a vê-lo acusado tantas vezes que, mesmo que nada acontecesse, já sabia que ele era culpado. As autoridades competentes nada disseram.

Quem deve cair em descrédito? A autoridade que se recusa a ser o braço dos linchadores, ou o linchador que levanta falso testemunho? Para o linchador, a autoridade não preenche a taça de tempo. Suas palavras de ordem caem no vácuo. A linguagem se despedaça. Nada significa nada. Para a autoridade, o linchador é um mero possesso que não deve ser levado a sério.

A situação fica ainda mais grave por causa do seguinte. Enquanto todos falavam da corrupção de um outro político, o bairro onde moro sofreu uma onda de eventos extraordinários de violência: em poucos dias, tivemos um arrastão num túnel e um sequestro numa cobertura. De onde vem a famosa sensação de impunidade? Da percepção clara de que os culpados não são punidos. Todos tinham certeza de que o político era culpado. Até — talvez mais do que qualquer um — o ladrão deveria ter essa certeza. “Sou culpado, mas também o figurão, e nada acontece com ele; se acontecer comigo, é uma maldade arbitrária.” A punição seguida dos culpados (com ou sem aspas) acabaria com a sensação de impunidade. Haveria um deslocamento da violência que provavelmente beneficiaria as pessoas comuns, que não precisariam mais disputar seus pequenos e grandes bens com pequenos ladrões.

Então, temos muita maturidade política porque nos recusamos a fazer com que o governo se torne braço armado de linchadores, ou não temos maturidade política nenhuma porque nos recusamos a aceitar que a única maneira de ter paz social é satisfazer a esses linchadores?

Guerra e apocalipse

A First Things liberou um trecho da tradução inglesa do último livro de René Girard:

On September 11, people were shaken, but they quickly calmed down. There was a flash of awareness, which lasted a few fractions of a second. People could feel that something was happening. Then a blanket of silence covered up the crack in our certainty of safety. Western rationalism operates like a myth: We always work harder to avoid seeing the catastrophe. We neither can nor want to see violence as it is. The only way we will be able to meet the terrorist challenge is by radically changing the way we think. Yet, the clearer it is what is happening, the stronger our refusal to acknowledge it. This historical configuration is so new that we do not know how to deal with it. It is precisely a modality of what Pascal saw: the war between violence and truth. Think about the inadequacy of our recent avant-gardes who preached the nonexistence of the real.

E devo observar que a leitura desse trecho aumentou a força do clarão que tem sido para mim, desde quinta, a leitura de The Triumph of Love, de Geoffrey Hill.

Contra a competição desenfreada, claro

Publicado originalmente em OrdemLivre.org.

Você está no trânsito, com o carro parado no sinal. Alguém encosta em fila dupla e, quando o sinal abre, passa na sua frente. Cheio de raiva, você, se já foi aos EUA, pensa que lá seria muito difícil isso acontecer (não digo impossível, mas eu nunca vi) e sente saudades daquelas placas que dizem, por exemplo, “Quem está na faixa da esquerda é OBRIGADO a virar à esquerda”. Com um suspiro, você pensa no valor da ordem. E em como ela torna a vida mais fácil. “Se todos respeitassem as regras!”

É verdade que em muitos casos nós temos as regras, e que, como no caso do código de trânsito, essas regras nem são tão ruins assim. O que nos falta é a aplicação das regras. É o desrespeito a elas que mantém a nós, brasileiros, nesse estado, digamos, pré-civilizacional, como que pré-cultural. É fácil e, dependendo do nível de ressentimento, até um escape gostosinho falar mal do Brasil, ressaltando esse aspecto. Mas não sei se a razão exata de isso ser tão ruim já foi apresentada, e vou tentar uma resposta.

Os liberais gostam muito de louvar a competitividade. Muita gente que não gosta do capitalismo fala mal da competição, e de ter que competir. Cada grupo tem razão e, sem saber, num certo sentido estão até de acordo.

O liberal não está defendendo a competição de todos contra todos em todas as áreas. Não conheço um liberal que defenda, por exemplo, que as regras de trânsito sejam um impedimento a uma competição supostamente saudável por espaço, faixas e velocidades, nem que acredite, darwinianamente, que os carros mais adaptados, isto é, jipes de duas toneladas, devam executar a seleção natural contra os populares. O liberal pode ser contra a obrigatoriedade do cinto de segurança, mas certamente não é contra respeitar as filas. A fila, em todos os casos, é uma regra que limita a competição. O liberal não pretende competir no trânsito; quem compete em carro é piloto de corrida — e as corridas também têm suas regras. Realmente, uma sociedade em que se tem de competir no trânsito, em que você considera cada pessoa como um potencial rival em diversas situações cotidianas é uma sociedade de competição desenfreada. Se todos enxergam a todos como rivais em todas as situações — o motorista ao lado, o dono do bar que pode te enganar, o policial que pode te achacar, o gerente do banco que parece fazer algo semelhante ao policial, o burocrata que age como se você estivesse roubando o tempo dele etc. — é a chave para a violência irrestrita.

Se você produzir algo, outra pessoa — legitimada pela lei ou não — virá e tomará. Sem a segurança proporcionada por regras claras e duramente aplicadas, tudo parece transitório, e nada é garantido; nunca se pode parar de competir, e é por isso que se diz que “o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”. Na verdade, todos gostamos de levar vantagem em tudo, mas acho que quase todos não têm o desejo sincero de levar essa vantagem às custas de outras pessoas. É a insegurança que cria a sensação de constrangimento; ou você toma o lugar do outro ultrapassando, ou nunca chega. E é por isso também que, no Brasil, as pessoas que se resignam e cumprem a lei acabam falando de si mesmas como se fossem santas, os grandes bodes expiatórios de uma sociedade violenta. Sob um certo aspecto, são mesmo.

Preciso dizer que essa é uma sociedade insuportável, em que o ressentimento e o desejo de vingança amesquinham a alma das pessoas? Ter de competir por tudo, o tempo todo, é insuportável.

Acabar com a competitividade, por sua vez, é utópico. O próprio discurso do mundo melhor é apenas uma arma retórica na competição por certos benefícios. Isso não quer dizer que o homem não tenha um desejo de cooperar. Na verdade, talvez esse desejo talvez seja tão grande quanto o de competir. É só observar o quanto as pessoas não se ressentem — até gostam — de pagar por aquilo que consideram honesto e bem feito. Eu, que mexo com textos, coopero com quem me paga; coopero com aqueles a quem pago. Não me considero rival do dono da sorveteria que frequento.

Mas eu tenho rivais profissionais. Posso me iludir o quanto quiser achando que “ser melhor” não significa “ser melhor do que alguém”; isso não muda nada. Nem muda o fato de que todos nós, excetuando uns poucos verdadeiramente santos, gostamos de vencer. Assim como nas corridas entre pilotos, porém, também há regras para a nossa competição. Não posso matar meus rivais, nem bater neles, nem gostaria de usar o aparato estatal contra eles (fazendo lobby pela obrigatoriedade de diplomas, por exemplo). Não posso sabotar seus trabalhos, não posso dar um curso com informações falsas, e também não me sentiria bem escondendo a existência de um bom dicionário.

O que é claro é que, se eu dirigisse e não tivesse de competir com outros motoristas, nem tivesse de competir com lojistas desonestos, nem tivesse de entregar uma parte tão grande do meu dinheiro a um governo que muitas vezes sequer explicita que está me cobrando impostos, eu teria mais energia para competir a boa competição, sem um desgaste tão grande.

É a famosa igualdade perante a lei, isto é, a presença dessas regras, e não apenas sua mera existência no papel, que permite a “boa” competitividade, e que viabiliza os aspectos mais especificamente humanos da vida. É a falta de aplicação dessas regras que mantém o Brasil nesse estado letárgico, em que as pessoas têm um ressentimento difuso de tudo, e que sustenta o sentimento contrário à competitividade em geral. Só que, como já observei, nesse ponto os defensores e os detratores do liberalismo acabam se encontrando. Talvez só não saibam disso ainda.

Auto-estima = hetero-estima

A “auto-estima” é um dos mais vulgares mitos românticos. Mito porque é uma mentira criada para encobrir uma verdade desagradável. Romântico porque se baseia na crença de que é uma estima que tem origem no próprio indivíduo: é “auto”-estima. Para falar de auto-estima, as mulheres* vão usar frases como “gostar de si mesmo”. E umas dirão que outras se deixam manipular por ter problemas de auto-estima: “se fulana gostasse mais de si, encontraria um homem que a tratasse melhor”.

Besteira. A auto-estima nada mais é do que uma hetero-estima, uma estima que vem dos outros. Quer aumentar a auto-estima de uma mulher? Faça com que ela receba elogios de pessoas a quem ela atribui prestígio – essa última parte é muito importante. Não pode ser um elogio de qualquer pessoa. Por outro lado, palavras de reprovação de quase qualquer pessoa podem ter um efeito negativo. “Até XXXX me acha gorda / feia / burra”. Sim, bem-vinda, esse é o inferno mesmo: o elogio valioso é escasso e de efeito rápido, a reprovação é abundante e de efeito duradouro.

Pense na expressão “auto-estima” e entenda o famoso “poder do mito”.

*Falo em “mulheres” porque não me parece que seja muito macho ter preocupações com “auto-estima”. Se você acha que não, leitora, imagine o efeito deplorável que teria sobre você uma declaração do seu namorado a respeito de seus próprios problemas de auto-estima.

Consciência x autoridade

Parece haver um contraste natural entre consciência e autoridade. A consciência é pessoal, individual, íntima; a autoridade, impessoal, coletiva, estranha. Se identificarmos a consciência com a inteligência, que é de fato individual, qualquer um poderia dizer que o suposto impasse se resolve afirmando que pode ser inteligente seguir a autoridade, e ter razão. Porém, o que me interessa é a oposição subjetiva entre consciência e autoridade, isto é, os motivos que uma pessoa dá a si mesma para recusar uma autoridade. Esses motivos sempre parecem girar em torno de questões de consciência. Do mártir católico ao adolescente ateu que se sente constrangido em sua escola no coração do Bible Belt, ninguém quer ter a sua consciência constrangida. O mérito dos conteúdos de sua consciência é irrelevante neste momento. O que me interessa é que, toda vez que um indivíduo se insurge contra uma autoridade, essa oposição é formulada nos termos de uma consciência individual contra uma autoridade exterior que injustamente a constrange.

Se a autoridade diz representar a consciência individual, o indivíduo a acusará de ser a suprema perversão dela: uma anticonsciência que, travestida de consciência coletiva, começa por inverter a ordem das coisas ao pretender afirmar-se fora da intimidade da inteligência individual; aliás, essa pretensão só poderia mesmo surgir de um impulso totalitário. A autoridade acusará o indivíduo (caso não o ignore pura e simplesmente) de desrespeitar a hierarquia; de ser simplesmente vaidosa diante da experiência acumulada por outros e cristalizada na autoridade, que fornece nada menos do que a estabilidade do mundo: o que representaria para a ciência, enquanto empreendimento social, alguém que exigisse aceitação para dados obtidos sem o uso do método devido?

Sei que devo fazer uma ressalva e explicar o exemplo. Para mim, neste momento, os conteúdos da ciência ou da não-ciência são irrelevantes; interessa-me que o método científico é uma regra que pode ser tão exterior à consciência quanto qualquer outra regra. Não digo isso porque eu seja contrário ao método científico — não sou. Só estou interessado em regras e motivações, e penso que qualquer pessoa aceita de mão beijada a informação que vem das fontes a que confere maior prestígio. Se você (acha que) confere prestígio a uma autoridade por razões mais razoáveis do que as minhas, ainda assim confere prestígio: você abre as páginas de uma publicação e lê aquilo com boa vontade, presumindo que é verdade; e lê as páginas de outra publicação com má vontade, presumindo que é mentira.

Mas o que mais me interessa agora é a associação entre verdade e identidade. Ninguém crê que aquilo que pensa é mentira, mas verdade; mesmo que seja uma verdade provisória e aproximativa, ainda assim verdade. As pessoas também se definem — observo isso em mim mesmo — pelas verdades que possuem. Quer dizer, diante dos outros, e sob certo aspecto diante de si mesmo, a sua posse de certas verdades é tão definidora da sua identidade quanto é para outra pessoa a posse de certas roupas e acessórios. Mudar de idéia é mudar de identidade; e, quanto mais séria a idéia, mais séria a mudança de identidade. Se não fosse assim, não teríamos a impressão de que aquele que tem idéias discordantes de um consenso é mais indivíduo do que aqueles que partilham do consenso. Aderir a um consenso parece com dissolver-se; contrariar um consenso parece com afirmar a si e à primazia da consciência individual.

Feminismo errando o alvo

As mulheres feministas reclamam de transformação da mulher em objeto. Vá lá. Mas essa reclamação é muito, digamos, incompleta.

É incompleta pelo seguinte. Quando você pensa em mulher-objeto, pensa numa mulher numa revista masculina, em que ela é apresentada de forma doce, inofensiva e oferecida. Mas essas fotos, como as mulheres sabem muito bem, só impressionam os homens. De modo geral, as mulheres não só desprezam as modelos das revistas masculinas, como na melhor das hipóteses acham que devem ter a magnanimidade de tolerar que seu namorado ou marido olhe esse tipo de revista. Para a mulher, isso é um sinal de tosquice.

No entanto, as mulheres vêem muito mais revistas e muito mais fotografias do que os homens. Revistas e fotografias com outras mulheres superproduzidas, supermaquiadas. Essas outras mulheres, essas modelos, ocupam justamente o papel de modelos: ideais a que as leitoras aspiram. São esses ideais — de magreza, de elegância, de glamour — que oprimem as mulheres. A moça na capa da Playboy já está desprezada de antemão. A moça na capa da Vogue, pelo contrário, vai direto para o pedestal.

Mais interessante é que os ideais masculinos de força, dignidade e heroísmo podem ser realizados em qualquer idade, a qualquer momento. Pode-se ser o Clint Eastwood sempre. Não se pode ser sempre a modelo da revista. Nem a modelo da revista pode ser a modelo da revista sempre.

E muito mais interessante é o seguinte: esse ideal feminino contemporâneo foi inventado por mulheres e por gays. Não conheço um único homem que declare uma preferência pela versão glamourosa e produzida da sua namorada. Todos preferem as mulheres em versões simples, muito mais girl next door do que bombshell. Sem contar que nós, homens, nunca fomos fãs da anorexia atual.

As feministas dizem que são oprimidas pela “sociedade patriarcal”. Mas nunca os homens heterossexuais esperaram que elas fossem modelos de glamour, eternamente jovens, permanentemente na moda, cheias de pose, tivessem opiniões politicamente corretas e pesassem no máximo 50 quilos.

Anorexia e desejo mimético

René Girard (claro) fala sobre anorexia e bulimia. Na verdade, eu comprei o livrinho Anorexie et désir mimétique, uma tradução para o francês do texto linkado (uma conferência apresentada em Stanford), mais prefácio de Mark Anspach e uma entrevista com Girard ao final, em que se fala até de Kate Moss, Carla Bruni & Sarkozy. No texto linkado, a parte mais interessante talvez seja a que Girard diz que já vivemos há muito tempo numa “cultura da anorexia”, que isso se vê, na arquitetura, na retirada progressiva das ornamentações; na pintura, no sumiço da perspectiva, da forma, e hoje até mesmo da cor; na poesia, no desaparecimento da rima, da métrica e, por que não?, do próprio conteúdo: os artistas querem apenas demonstrar sua suprema indiferença e com isso sua grande superioridade. Já o ecletismo pós-moderno, em que predomina o consumo e regurgitação indiscriminada de estilos diversos, corresponderia a uma fase bulímica.

Em que Yeats explica o mecanismo do bode expiatório

The Leaders of the Crowd
W. B. Yeats

They must to keep their certainty accuse
All that are different of a base intent;
Pull down established honour; hawk for news
Whatever their loose fantasy invent
And murmur it with bated breath, as though
The abounding gutter had been Helicon
Or calumny a song. How can they know
Truth flourishes where the student’s lamp has shone,
And there alone, that have no Solitude?
So the crowd come they care not what may come.
They have loud music, hope every day renewed
And heartier loves; that lamp is from the tomb.

A origem (cristã) do ateísmo contemporâneo

O que segue abaixo é um trecho da longa entrevista feita por João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello com René Girard.

Não custa recordar que as origens de um movimento cultural podem não ter nada a ver com os objetos que interessam a esse movimento, isto é, o fato de o ateísmo contemporâneo ter (ou não) uma origem cristã nada diz a respeito da existência ou da inexistência de Deus. Mas pode dizer muito sobre a motivação de quem entra na guerra cultural.

***

René Girard. Um longo argumento do princípio ao fim. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000. pp 205-208

A despeito da importância antropológica da Bíblia, houve, nos dois últimos séculos, um claro processo de “abandono” da leitura dos textos bíblicos. Como o senhor vê esse processo e quais as razões para que ele ocorra?

Hoje se publicam mais livros sobre a Bíblia do que nunca, mas o que assinalam é verdade: a Bíblia nunca esteve tão pouco presente em nossa história. É preciso ver tal situação de uma perspectiva nietzscheana-heideggeriana: “o retraimento de Deus”. Acho que a expressão heideggeriana “o retraimento de Deus” é na verdade antinietzscheana, já que a “morte de Deus” é ainda muito cristã para ele. Afinal, o Deus que morre é Cristo. E uma vez que Deus morre, a idéia de ressurreição tem de vir logo em seguida: como vimos, é o que acontece no aforismo 125 de A gaia ciência, um dos textos mais impressionantes de Nietzsche, no qual ele consegue dizer coisas que vão além de sua própria indagação. A morte de Deus e a pergunta acerca de como podemos oferecer reparação por essa morte levaram Nietzsche à idéia do assassinato fundador. A noção heideggeriana de retraimento dos deuses constitui um esforço para negar a primazia do Deus bíblico ainda presente na fórmula nietzscheana. A fórmula proposta por Heidegger significa que a religião em geral está perdendo espaço, não só o Deus cristão; o que é verdade. A antiga ordem sacrificial pagã está desaparecendo por causa do Cristianismo! Este parece estar morrendo com as religiões que faz perecer, visto ser considerado apenas mais uma religião mítica em termos sacrificiais. O Cristianismo não é apenas uma das religiões destruídas, é o agente dessa destruição. A morte de Deus é, em todos os sentidos, um fenômeno cristão. O ateísmo moderno corresponde a uma invenção cristã. Inexiste ateísmo no mundo antigo, excetuando-se o epicurismo, que era limitado e cuja negação dos deuses não era particularmente incisiva, beligerante. Não negava Deus contra alguma coisa ou alguém, não exibindo o forte caráter negativo do ateísmo moderno.

O desaparecimento da religião é um fenômeno cristão por excelência, pois. Quando falo de desaparecimento, refiro-me à religião como algo que associamos à ordem sacrificial. E a religião assim entendida continuará a desaparecer em todo o mundo. Conversei com um estudioso de sânscrito a esse respeito: tal processo também está ocorrendo na Índia e, embora bem mais lento por lá, vem acelerando-se. O retraimento de todos os deuses é o primeiro fenômeno transreligioso. Outro fenômeno dessa magnitude que estamos presenciando sem nos darmos conta é o fundamentalismo. E é interessante observar que os fundamentalistas não tomam conhecimento dos fundamentalistas de outras religiões. São inteiramente autocentrados, interessando-se apenas pelo seu próprio fundamentalismo e lutando pela extinção de outras formas de religião. Por exemplo, parece-nos inconcebível uma Internacional fundamentalista, embora possamos imaginar uma ateísta. Mas, a meu ver, ambos são aspectos da mesma destruição da religião, destruição essa que é essencialmente uma decorrência do Cristianismo, pelo fato de desacreditar o sacrifício. Sem acreditarmos em sua eficácia, este não pode existir. Graças ao Cristianismo, não mais acreditamos.

Em sua opinião, portanto, apesar das aparências, o mundo tem-se tornado cada vez mais cristão, ainda que a Bíblia não seja mais lida?

Sim. E, de certa forma, esse fato torna o fenômeno bem mais paradoxal, pois é mais fácil resgatarmos princípios bíblicos quando não sabenis que o são. O niilismo moderno é uma mentira. Após a Segunda Guerra e a dissolução da URSS, ou seja, com a queda do regime comunista, quando nossos intelectuais julgaram liquidado todo e qualquer princípio absoluto, estavam errados: a vitimologia ou a defesa das vítimas se tornou sagrada: é o princípio absoluto. Ninguém jamais atacará tal princípio. Então, podemos dizer que todos temos essa crença cristã. Alguma vez já viram um desconstrucionista ou um foucaultiano fazendo o tipo de genealogia que Nietzsche tinha em mente? Ele visava a uma desconstrução do Cristianismo, por ele entendido – de forma acertada – como a defesa das vítimas. Nossos niilistas modernos querem desconstruir tudo, exceto a defesa das vítimas, causa por eles abraçada. Silenciosamente, rejeitam o Nietzsche pró-nazismo. Constituem, na verdade, um tipo muito peculiar de niilistas; negam tudo, exceto a defesa da vítima. Noutras palavras, não poderiam ser mais cristãos, embora, é claro, neguem o Cristianismo, numa autocontradição cada vez mais óbvia.

Os princípios cristãos de fato prevaleceram e continuam a prevalecer?

Continuam a prevalecer muitas vezes de forma distorcida, caricatural, quando a defesa da vítima, por exemplo, gera novas perseguições. Só podemos perseguir indivíduos ou grupos quando temos a justificativa de ser contra qualquer prática persecutória, de perseguir apenas para combater perseguições! Em suma, só podemos perseguir perseguidores. Daí a popularidade da propaganda, hoje maior do que nunca. Mas se trata de um uso dessa difusão em nada relacionado ao uso feito pelo Cristianismo: a princípio, a propaganda concernia às verdades cristãs a serem propagadas. Hoje em dia, ocorre um fenômeno muito pouco cristão em seu verdadeiro propósito, pois precisamos provar que nosso oponente é um perseguidor, para justificar nosso desejo de persegui-lo. Ora, a propaganda cristã visa a abolir a possibilidade de perseguições! Daí a verdade cristã, sem a autocrítica capaz de mostrar nossas tendências violentas, ser tão inquisitorial quanto a própria Inquisição.

Trata-se de um processo muito eficiente: valores cristãos são difundidos sem provocar nenhum skándalon.

Sim e não. Sempre há o skándalon. Trata-se de um processo bastante complexo, porque o mundo moderno está ficando cada vez mais cristão, por um lado, e cada vez menos, por outro. Cumpre enfatizar amgos aspectos, e foi o que tentei fazer, por intermédio de Nietzsche. Hoje, o chamado multiculturalismo defende com veemência as minorias oprimidas. Tomando assim o partido das vítimas, os multiculturalistas convenientemente rejeitam o mecanismo do bode expiatório. Em resumo, são cristãos. Ao mesmo tempo, contudo, acreditam em vingança. Vingança contra toda a cultura ocidental. Não percebem que repetem e acentuam, em nível mundial, a metamorfose anterior da cultura, o Renascimento e o Iluminismo.

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