Meditação sobre a breguice

Com este texto estreei em Ocidentalismo.org.

Há alguns anos, formulei uma definição pessoal de breguice: é o sinal de que se dá mais atenção ao prestígio das coisas, isso é, ao valor que outras pessoas dão às coisas, do que às coisas mesmas. Ou, em termos mais vulgares, e um pouco mais restritivos, achamos que brega é “o fulano que só gosta disso porque está na moda”. Podemos tirar o aspecto restritivo se entendermos “moda” como as preferências dos amigos.

Assim como ninguém admite que é invejoso, ninguém admite que é brega — exceto, é claro, de mentirinha, como se a charmosa breguice do grande sofisticado que se permite uns prazeres vulgares fosse comparável à tal da “inveja boa” (que a língua portuguesa em priscas eras já chamava de “admiração”). Um sujeito que faz pose de sofisticado como eu pode confessar que ouve Alizée na academia; uns dirão até que isso me “humaniza”, como se fraqueza de gosto fosse definição de humanidade.

O parágrafo anterior pode parecer uma digressão, mas não é. Qualquer um dirá que gostar de Alizée não é brega se você gostar espontaneamente dela, se você tiver um “desejo autêntico”, espontâneo, original. (Espero que ao menos entendam, enfim, que eu não gostaria de Alizée se ela fosse parecida com a Wilza Carla.)

Porém, o desejo espontâneo e autêntico tem tanto prestígio que é a coisa mais fingida desse mundo. Há uma competição universal pela demonstração de autenticidade, que em 1982 levava a mais fake e teatral das criaturas a perguntar a seu interlocutor se estava apenas kissing to be clever. Hoje é o contrário: o clima de hiper-ironia, de meta-meta-meta-meta-meta-ironia é também um clima de not kissing to not look stupid, de preservar a aparência de espontaneidade zen demonstrando não ficar impressionado com nada. Se você conseguir demonstrar que aquilo que está fazendo emana do próprio umbigo, não será brega; se baixar a guarda e entregar-se, já entrou em território perigoso. E não custa observar que prestigiar imensamente o desejo espontâneo e querer aparentar autoconsciência reflexiva não é uma receita para a felicidade.

Uma solução está na Inglaterra mítica da minha fantasia (pois nunca fui à Inglaterra), em que as pessoas demonstram um sentido profundo de adequação às coisas. Lembro de um programa de TV em que a professora inglesa de boas maneiras ensinava à aluna que a maneira certa de comer aspargo era com as mãos, porque o aspargo escorregava dos talheres. Você poderia, como ela, pensar que as gentes chiques do mundo não comem com as mãos, e que a famosa elegância é medida pela capacidade de comer as coisas mais escorregadias com talheres. Nisso se vê o que eu disse no começo: a breguice está em dar tanto prestígio à pose, à aparência, a uma concepção de elegância, que se deixa de prestar atenção às coisas mesmas, como um simples aspargo.

Levando a comparação a outro plano, chegamos ao lema de Edmund Husserl: “rumo às coisas mesmas!” O que seriam as coisas mesmas? Como vou saber que cheguei às “coisas mesmas”? Parece que seriam as coisas para além ou aquém de sua existência, com o perdão da palavra, intersubjetiva. Existe também aí o risco de definir inconscientemente as coisas como aquilo que só você perceberá a respeito delas. É inevitável querermos que as percepções que julgamos exclusivas nossas sirvam para definir nossa identidade — mesmo que isso não passe de uma versão mais abstrata e mais sofisticada de querer ser definido pelas suas roupas. E quando falo em definir identidades, falo em dar prestígio a objetos. Você define que o aspecto de maior prestígio das coisas é aquele aspecto que só você conhece e depois reclama para si, diante das outras pessoas, o prestígio de ter conhecido as coisas mesmas. Se só você conhece, há de ser autêntico; se é autêntico, não é brega.

O leitor pode esperar que eu vá em algum momento lançar uma condenação a alguma dessas atitudes, porque, mesmo que tenha concordado (provisoriamente que seja) com minha definição, afetar autenticidade e vestir opiniões como camisas parecem coisas bregas demais. Mas brega mesmo seria não admitir a natureza obrigatoriamente — olha a palavra de novo — intersubjetiva da breguice. Não existe uma breguice em si, substantiva e subsistente, uma qualidade da qual o ente participe. Você pode passar por sofisticado em qualquer meio de pessoas que não percebam suas estratégias. Por isso é que, em última análise, a única pergunta é quem está olhando.

Paraguai eterno

Eu tinha começado a escrever esse post semana passada, durante o jogo da seleção brasileira, para dizer que não podia nem ir ao cinema, e que isso não acontecia em feriado nenhum, exceto nas noites de Natal e de Ano Novo. Mas não me interessa dizer que isso é um absurdo e uma inversão etc. porque talvez não seja: aquilo que motiva as pessoas a ver um jogo de futebol é bem diferente daquilo que as motiva a festejar o Natal e o Ano-Novo.

Não me lembro se já disse isso aqui, a busca sugeriu que não, mas desenvolvi a hipótese de que a mobilização extrema provocada pelo escrete nacional se deve às saudades da Guerra do Paraguai. Diz a lenda, ou dizem os historiadores, que nada nunca mobilizou tanto o Brasil quanto a Guerra do Paraguai. Girardianamente, vou dizer que foi a nossa oportunidade de praticar uma violência unânime contra alguém e de assim afirmar nossa identidade. “Aqui não é o Paraguai.” Só que, se havia ideais na guerra, não ficaram; não ficou nada que pudesse valer como fundamento de uma identidade. O americano sabe que é americano por causa da Guerra de Independência e da Guerra de Secessão, mas a Guerra do Paraguai não nos legou uma identidade. Para piorar, ainda lemos nos livros de História da escola que Solano López era uma espécie de Elizabeth I que foi massacrada pelos hunos lacaios dos ingleses.

Estou quase fazendo uma digressão. O que quero dizer é que temos saudades dessa violência fundadora que nunca aconteceu. A Copa oferece uma versão suave dela, controlada — e eu mesmo, por favor, jamais sonharia em propor um banho de sangue terapêutico. Mas o fato permanece: enquanto o desfile de Sete de Setembro for ridicularizado e a memória das vitórias políticas e militares brasileiras inexistir, os dias de jogos da seleção nas Copas do Mundo continuarão a ser feriados forçados.

Uma tradição de há séculos

Sobre a decisão de ontem do STF, de manter a Lei de Anistia, e ao lado de quaisquer considerações jurídicas, que não sou capaz de tecer, apenas recordo que a própria Lei de Anistia já era parte da grande tradição brasileira de evitar conflitos. Compramos nossa independência por 2 milhões de libras em vez de entrar em guerra com Portugal. Derrubamos a monarquia e fizemos a república em poucas horas — o próprio imperador queria evitar derramamento de sangue. Demos um golpe militar e acabamos com ele. Antes que o leitor indignado venha me acusar de menosprezar a violência envolvida nesses atos, vamos recordar com que violência os EUA e as colônias espanholas ganharam sua independência, e a França mudou de regime (algumas vezes, até ficar cansada). O fato é que, no Brasil, a violência é ocasional, molecular; tirando a Farroupilha, vai das revoltas da Regência às bombas da guerrilha — respondidas com torturas militares — e às ocupações de morros pelo tráfico.

O que está em jogo no caso específico da Anistia é se vai prevalecer a versão de que homens honrados lutavam pela democracia contra tiranetes assassinos, ou se homens honrados foram eventualmente obrigados a usar meios sujos para conter guerrilheiros totalitários. O que está em jogo não é a verdade, nem nunca é a verdade, porque a verdade é sempre que gente ruim, alegando talvez até motivos razoáveis, fez coisas ruins contra outra gente ruim, que também poderia ter lá suas razões, e isso é muito complicado de aceitar, porque nossa identidade é fundada na crença de que pertencemos ao grande clube das pessoas puras o bastante para poder julgar todas as outras. A idéia de que you can’t handle the truth, como diz aquele Jack Nicholson descabelado àquele Tom Cruise engomadinho, é exatamente essa, que você não só não descende de um Adão sem pecado, como ainda deu suas contribuições.

Como exercício, o fim da Anistia aos torturadores acirraria os ânimos de uma direita que questionaria com ainda mais força o perdão dado aos terroristas. Uma pessoa pura e boa observaria que o certo seria processar todo mundo, de todos os lados. Uma pessoa não necessariamente má observaria que o Estado brasileiro não existe no vácuo, assim como nenhum outro Estado, e que fiat justitia, pereat mundus.

Solução? Não há. O Brasil fez a opção histórica de ir pagando seus tributos ao Moloch civil em prestações, em vez de pagá-los de uma só vez. Morros ocupados, torturadores e terroristas e assaltantes soltos, balas perdidas. Vamos lá, já estou ouvindo a música do Leonard Cohen na sua boca: você está vendo o futuro no país do futuro, e ele é o assassinato.

O pensamento mágico

Olhando essa capa da Veja nas bancas, senti-me um Lévi-Strauss olhando um silvícola de desenho animado, com direito a ossinho amarrado na cabeça, lábios e orelhas perfuradas, cantando seu uga-buga para hipnotizar a tribo. Ou, se preferirem, pensei (porque sempre penso, é verdade), em Édipo rei: a peste assola Tebas. Édipo manda Creonte, o cunhado, ao oráculo de Apolo. Vem a resposta: “a peste assola Tebas porque o assassino de Laio está em Tebas.” O espírito de Laio não pode descansar enquanto o culpado não for encontrado. Temos de punir o assassino de Laio.

Não é possível — ou é perfeitamente possível, e mais do que coerente — que os responsáveis pela Veja não entendam que são eles mesmos que ficam em paz com a condenação dos acusados pelo assassinato da pobre Isabella Nardoni. Colocar esse tipo de chamada na capa só reforça o pensamento mágico do primitivismo: vamos nós descarregar nossa violência contra alguém, e, quando isso nos trouxer alívio e conciliação, vamos dizer que o espírito da vítima a quem trouxemos justiça pode descansar. Vamos dizer que a nossa sede de sangue é a sede de sangue de uma alma desencarnada.

A frustração trágica nas séries americanas

Há algum tempo gosto de definir o dilema trágico da seguinte maneira: você não pode obter aquilo que mais deseja se não deixar de ser quem é. O preço dos objetos desejados é a identidade atual. O maior desejo de Édipo era encontrar o assassino de Laio, mas, se este fosse encontrado, Édipo deixaria de ser o Rei de Tebas. Creonte queria que a lei do Estado fosse a repulsa a toda espécie de inimigo. Por isso, se desistisse da proibição de enterrar Polinices, enfraqueceria sua própria autoridade. Clitemnestra foi ingênua ao pensar que poderia vingar a morte da filha matando o próprio marido e que tudo terminaria por aí…

Esse é o mesmo dilema de séries como Gossip Girl e House. Blair Waldorf e Chuck Bass não podem continuar a ser manipuladores, reis dos próprios mundos, e submeter-se a outro rei, de outro mundo. Houve um episódio em que Chuck declarou isso abertamente. O Dr. House não pode ter um relacionamento razoável com uma mulher de quem ele goste porque para isso precisa abdicar de sua personalidade cáustica — a mesma personalidade que atraiu a mulher, aliás. Esse cabo de guerra pode acontecer interiormente, na alma dos personagens, como falei até agora; mas também pode acontecer exteriormente, como na disputa entre House e Tritter, ou nas disputas permanentes de House com sua equipe, ou nas disputas entre as meninas de Gossip Girl.

O maior problema dessas séries é que seus criadores têm o talento e a intuição necessárias para criar situações legitimamente trágicas, mas parecem estar eivados de idéias românticas e por isso não conseguem ou não podem resolvê-las satisfatoriamente. Isso porque as resoluções satisfatórias seriam a morte ou a transformação do personagem.

Claro que se pode alegar que 1. se o personagem morrer, a série acabará e 2. se o personagem mudar, os espectadores deixarão de ver a série e ela acabará. Também é possível dizer que a solução normalmente encontrada para fazer a série continuar — um mero esvaziamento da situação devido a algum fator externo (e isso vale até para Deadwood) — é totalmente realista, porque em nossas vidas conseguimos arrastar por anos a fio nossos defeitos sem que eles causem problemas obviamente grandiosos. Só quando olhamos para trás é que podemos ver quanto tempo foi perdido; mas agora, nesse momento, como o céu não está caindo, então está tudo bem. Porém, essa desculpa é a de pior qualidade dramática, porque a ação dramática, como diz Aristóteles, tem começo, meio e fim (e mesmo que você seja o mais pós-modernoso dos dramaturgos, essa definição permanece como parâmetro tácito, natural à cognição humana), e ficar vendo grandes conflitos resvalarem no vácuo pode até trazer alívio na famosa vida real, mas na TV isso é deveras frustrante.

A origem da tragédia: Brasil x EUA na OMC

Que a coisa assume para quem não é governo a figura da tragédia, é óbvio: os EUA não abrem mão dos subsídios, o Brasil vai revidar, os EUA podem revidar a isso e, como em todo cabo de guerra trágico, o raio da destruição só vai aumentar. A diferença é que os EUA podem agüentar muito mais do que o Brasil, o que também é óbvio.

Dois aspectos que ainda não vi mencionados, porém, parecem não ser óbvios — ou já teriam sido mencionados.

1. Por mais que o Brasil cresça aos olhos do mundo, ainda não tem poder para enfrentar o Golias americano sozinho. Uma coisa é retaliar porque tem o direito, outra coisa é simplesmente prever as conseqüências das próprias ações. Os EUA têm os famosos “excedentes de poder” e podem mandar a OMC pastar quando lhes convém. No entanto, o Brasil sempre prefere (ou declara preferir) agir multilateralmente. Deveria ter dado um jeito de bolar um ataque concertado com outros países. Como, eu não tenho a menor idéia. Mas sei perfeitamente que um dos principais problemas do não-“primeiro-mundo” é o excesso de competitividade. A Alemanha e a França passaram séculos esfaqueando uma à outra e hoje conseguem ser mais amigas do que Brasil e Argentina… Os EUA, é claro, valem-se da fragmentação e da competitividade da periferia.

2. Infelizmente, o comércio sempre foi politizado, e a OMC é uma arena mais civilizada para as disputas comerciais. Daí é que surge um paradoxo interessante. Se a OMC tivesse poder para acabar com os subsídios americanos ao algodão, isso poderia ser pontualmente bom para os consumidores de algodão dos EUA, e poderia ser bom para os produtores de algodão de outros países, mas queremos mesmo uma instância regulatória mundial? No papel isso parece bonito, mas como será que esse órgão seria usado? O que é melhor, uma OMC superforte ou uma margem maior para a política?

Agora, por trás disso tudo, há um simples tabu, que é o da extensão da ação governamental. Se o Brasil tivesse uma legislação melhor, se os laços entre políticos e empresários fossem menos fortes, se o Estado corporativo fosse mais fraco, os produtos brasileiros poderiam competir com os americanos com muito mais facilidade. Em vez de imitar os EUA naquilo que eles fazem de ruim, que é politizar o comércio, poderíamos imitá-los naquilo que já fizeram de melhor, que é ter uma legislação mais liberal. Mas isso seria a atitude anti-trágica por excelência: admitir a virtude do adversário e imitá-la.