O brasileiro inverossímil

Entendo perfeitamente que, por questões de formato, não é justo comparar uma novela brasileira de 200 capítulos com 6 capítulos semanais com uma série dramática americana de 24 capítulos anuais exibidos ao longo de 8 meses. Mas, mesmo nos poucos programas brasileiros em que há uma proporção mais folgada entre prazo e produção, aparece o mesmo problema, problema que parece ser inerente a toda a dramaturgia brasileira de que consigo me lembrar: os personagens nunca são lá muito inteligentes. São, na melhor das hipóteses, pessoas de inteligência mediana o suficiente para não ofender os mais burrinhos nem repugnar muito aqueles que pararam de ler Arnaldo Jabor logo depois que o primeiro dente nasceu.

Claro, você pode dizer, provavelmente com razão, que o público brasileiro associa a inteligência à maldade, à manipulação; afinal, se tudo o que se concebe é alguma espécie de vantagem pessoal, algum modo de se aproveitar de todas as situações, para que alguém usaria sua inteligência senão para fazer isso, senão para submeter um protagonista tão imbecil quanto bondoso e simpático a uma série de infortúnios e ser derrotado no final apenas porque o bem sempre vence?

E eu teria a dizer a mesma coisa que digo sempre, e que é a razão pela qual sou liberal (há uns saltos aqui, eu sei; mas você pode me acompanhar): tenho vontade de dar marretadas nas atitudes condescendentes que nascem do pressuposto de que “o público”, “os outros” são inevitavelmente assim ou assado, como se apenas quem fala do público tivesse alguma liberdade, e o público fosse um objeto inerme, governado por mecanismos que ignora, absolutamente incapaz de fazer qualquer coisa além de tentar morder a cenoura pendurada à sua frente. Se produtores e roteiristas não apresentam espetáculos com personagens brasileiros inteligentes, isso acontece porque eles simplesmente não querem.

Ou então a idéia de um brasileiro realmente inteligente, articulado e suficientemente bom nunca lhes ocorreu porque está muito além de suas categorias. Daí só ficamos com duas hipóteses: ou eles têm uma séria deficiência imaginária, ou a idéia de um brasileiro realmente inteligente, articulado e suficientemente bom é por si mesma inverossímil.

Só restaria, então, apelar para Aristóteles, mas não o da Poética: não é verossímil que tudo aconteça sempre de maneira verossímil.

Duas entrevistas de Tom Stoppard

No programa de um sujeito chamado Charlie Rose.

O vídeo tem uma hora, e os primeiros 30 minutos são com Tom Stoppard.

Esta entrevista aconteceu quando sua peça The Invention of Love estava sendo montada na Broadway. A peça fala de A. E. Housman, poeta e latinista inglês e está cheia de discussões filológicas. Mas, como sabemos, ser “difícil” é a coisa mais democrática que existe. Condescendência é tirania.

Das peças de Stoppard que li (nunca vi nenhuma), é a minha favorita.

Aqui Tom Stoppard só aparece aos 19m35s, mas é a melhor entrevista. Sugestão: deixe o YouTube ir carregando o vídeo até o final e depois pule até a parte que interessa. Foi o que eu fiz.

Stoppard fala mais de sua então mais recente produção encenada em NY, The Coast of Utopia. Talvez os leitores já tenham reparado que pus, há um bom tempo, um link para o site da peça aí na barra. Também traduzi dois trechos da trilogia – a qual, aliás, está à venda na Livraia Cultura: Voyage, Shipwreck, Salvage.

E se você ficar tão vidrado no assunto dos revolucionários russos quanto eu fiquei, certamente vai querer isto – o livro que inspirou Tom Stoppard.