Então a poesia não tem utilidade?

Este texto foi escrito para a revista Outros Baratos, do sebo Baratos da Ribeiro, distribuída na FLIP de 2006 e também no próprio sebo.

Quem acha que a poesia não tem utilidade, ou que é um fim em si mesma também deve achar que o ser humano não tem alma. Ler um livro de poemas pode se parecer, desde fora, com não fazer nada; e, se você não é aluno ou professor de literatura, talvez a leitura não tenha nenhum efeito benéfico tangível sobre a sua carreira.

Mas isso não quer dizer que a poesia não atenda a uma série de finalidades, mesmo para o leitor comum, a primeira das quais é a necessidade de entretenimento. Você não leria os dez cantos de Os Lusíadas se eles fossem chatos – embora, é claro, haja trechos chatos. Alguns poemas podem ser obscuros; isso não os torna chatos, porque jogos mentais podem ser divertidos. Diversão não é só beber e rebolar; e a diversão é uma finalidade, uma necessidade da alma que pode ser satisfeita de maneiras tão diversas quanto as sensibilidades.

A poesia também pode ter uma finalidade didática. No mesmo exemplo, aprendemos muito da história de Portugal com o relato de Vasco da Gama nos Cantos III a V. E como é bom poder recordar esta história usando fórmulas interessantes como “aconteceu da mísera e mesquinha / que depois de ser morta foi rainha” em vez de lutar contra um livro didático escrito numa linguagem vazia que se esquece tão logo se termina a leitura. A poesia é uma arte da linguagem, e quem quer que já tenha tido que ler algo mal escrito do início ao fim sabe o valor que tem a capacidade de se prender a atenção. E a finalidade didática por parte do artista é, muitas vezes, perfeitamente consciente e intencional; afinal, se os leitores podem dizer que aprenderam algo com uma obra de arte, por que o autor não poderia dizer que pretendeu ensinar? Não esqueçamos, aliás, que revelar, mostrar e apontar são modalidades de ensinar – e que ensinar não precisa ser a suposta inculcação de verdades com aspas.

Apenas estas duas finalidades por si, entreter e ensinar, já são exemplo suficiente de que a poesia pode ser perfeitamente útil – mas útil para a alma. Ler poesia não aumenta seu conforto material, nem economiza tempo; mas ajuda a descansar, serve de bálsamo para o espírito, produz motivações importantes, cria disposições para aprender certas coisas e até mesmo as ensina.

Insuspeitas analogias entre poesia e sexo, e mais

Acho que muita gente tem a mesma impressão que eu: o volume do falatório a respeito de sexo na imprensa e em livros é inversamente proporcional à quantidade e sobretudo à qualidade do sexo que é feito. Se tomarmos a parte da qualidade, temos uma analogia com a situação atual da poesia: nunca houve tantas oficinas literárias, tantas pessoas que desejam ser escritores (e Auden se perguntava por que alguém que não sabe o que fazer da vida invariavelmente decide se tornar escritor, em vez de médico ou advogado); nunca, em toda a minha vida, ouvi tantas vezes a frase “ele/ela é poeta” ao ser apresentado a uma pessoa, mas o que essas pessoas escrevem varia entre o tétrico e o tenebroso, sendo seu principal tema a própria poesia – ou, para usar seu próprio linguajar – o “fazer poético”. O segundo tema mais recorrente, certamente não por acaso, é sexo. Sabe lá Deus porque a descrição de partes pudendas, desejos e atos libidinosos em palavras que acabam antes da margem é tão importante para tantas pessoas; mas eu não estou nem aí, também. O que me interessa aqui é avaliar porque os noviços do Parnaso escrevem tanto sobre a própria poesia e como isto diminui a qualidade de suas obras.

Em Fundamentos antropológicos da psicoterapia, Viktor Frankl expõe duas teorias para explicar a frigidez, a hiper-reflexão e a hiper-intenção. No caso da primeira, o orgasmo não é atingido porque o sexo se torna objeto de excessiva reflexão, que acaba exercendo um efeito paralisante. No caso da segunda, o orgasmo não é atingido porque é desejado como um bem em si mesmo, quando na verdade é apenas uma decorrência do desejo que se sente pela outra pessoa e do ato sexual que é a expressão desse desejo. Do mesmo modo, na obra de arte, a beleza é atingida não por ser buscada em si, mas porque se deseja fazer justiça a um determinado objeto a partir de um material – no caso da poesia, as palavras. Mesmo nos poemas mais “estetistas”, como On seeing the Elgin Marbles for the first time ou o Torso arcaico de Apolo (vá um pouco para baixo para ver), a beleza surge como o efeito da nitidez com que os assuntos são tratados: as impressões de Keats sobre os mármores do Partenon, a estátua de Apolo vista por Rilke. A justiça corresponde, no plano do objeto, à sinceridade no plano do sujeito.

Ok, mas e a “poesia pura” de gente como Eliot? Vou falar de Eliot só porque é o exemplo que conheço. Não conheço bem Mallarmé para poder falar, mas aviso que acho a idéia de “arte pela arte” de uma imbecilidade atroz, o que explicarei futuramente. Bem, mesmo que tenhamos um poema cujo compromisso é antes com sua própria forma do que com um determinado assunto, basta lembrar que, até um certo ponto, a autoconsciência escancarada não configura “hiperintencionalidade poética”. Um poema como The waste land pode ser um poço de referências, mas justamente por isso é que nele não apenas a poesia considerada como experiência individual é considerada, e sim grande parte da história cultural do ocidente. Uma coisa, enfim, é fazer colagens e testar ritmos; outra é “desconstruir a linguagem” apenas separando radicais e brincando com homonímias – o que não requer nenhum talento especial.

Assim, falta aos aspirantes a poetas hoje a seguinte reflexão: “por que este poema é bom? Por que eu gosto dele?” Aparentemente eles gostam da sensação que um certo poema lhes causa, e tentam repeti-la, aumentá-la etc; mas, como na hiper-intenção; e podemos falar muito sobre o orgasmo, mas para produzirmos um os métodos são inteiramente diversos. Se levassem a sério o questionamento, veriam que um poema é bom por causa de certas qualidades prosódicas (como metro, ritmo, rima), por causa da perfeição de certas imagens, e sobretudo por causa da adequação entre forma e conteúdo.

Por fim, a inspiração que o poeta sente corresponde, de certo modo, ao efeito final no leitor; o trabalho – a “transpiração” da famosa frase, atribuída a poetas tão distintos – no poema mesmo, enquanto objeto de linguagem, corresponde ao canal de transmissão dessa inspiração. Se nem para coisas banais como “traga-me por favor uma lata de coca-cola e não de guaraná” eu sou capaz de adivinhar a mensagem a menos que ela me seja transmitida claramente, quanto mais no caso da inspiração poética. E mais: se o poeta quer apontar para algo que em si é contraditório ou problemático, isto não quer dizer que seu poema possa ser também contraditório ou problemático, ainda que, naturalmente, não vá ser um objeto perfeito, a perfeição sendo um atributo exclusivamente divino. Mas o poeta precisa ter – mais uma vez – sinceridade para admitir qual é o problema que o aflige, e capacidade para expressá-lo de uma vez; vide como exemplo quase todos os poemas barrocos.

Assim, falta aos aspirantes a poetas que assumam a poesia como ofício, que se disponham a escrever sobre qualquer tema, que assumam o compromisso de produzir obras interessantes, em vez de ficar obcecados com o próprio umbigo e esperando pela inspiração. Não realizar este trabalho corresponde a, em termos bíblicos, não “vigiar”; e pode ser que, quando a musa bater à porta, encontre uma pessoa incapaz de avisar aos outros que a musa chegou.

Escassez contra a banalidade

Style and Faith

Harold Bloom disse que ele é “o maior poeta inglês vivo”, mas Geoffrey Hill aparentemente não recebeu mais que três menções em papel no Brasil – epígrafes nos últimos livros de Bruno Tolentino e uma figuração numa lista de poetas contemporâneos da língua inglesa em uma edição da revista Poesia Sempre.

Não é de admirar: com 74 anos completos em 18 de junho, o poeta, ensaísta e professor de literatura e religião (aposentado em 31 de agosto) da Boston University nunca foi unanimidade. Seus últimos livros, Without Title (2005) e Scenes from Comus (2006), foram considerados obscuros mesmo por alguns de seus maiores fãs entre os críticos ingleses e americanos. Hill, no entanto, afirmou em sua entrevista à Paris Review que a poesia deve às vezes ser difícil, como resistência às simplificações que empobrecem a linguagem.

Dadas suas inclinações religiosas, também não é difícil imaginá-lo preocupado com a prestação de contas que fará de cada palavra (Mateus 12, 36). Por isso a “escassez” é uma de suas marcas formais mais distintivas. Se a teoria da informação de Shannon e Weaver diz que a redundância contribui para a inteligibilidade, Hill tanto deseja obter o máximo de significado por palavra, poundianamente falando, que sacrifica sem escrúpulos confirmações e reafirmações. A forma nasce de uma atitude, ou, para usar suas próprias palavras sobre os autores discutidos em seu último livro de ensaios, Style and Faith, “o estilo é a fé”.

Selected Poems

As preocupações religiosas não se traduzem na lenga-lenga que se poderia esperar sobre alma, pecado, Deus etc. Hill está mais interessado no fato de que somos feitos de carne e no sofrimento físico. Em seu segundo e talvez mais memorável livro, King Log, o poema inicial, “Ovídio no Terceiro Reich” fala das “antigas valas de sangue” e o último, “O cancioneiro de Sebastian Arrurruz” já traz no título o trocadilho com as flechas (arrows), que tanto mataram São Sebastião como são as armas tradicionais de Eros: o personagem-narrador descreve prazeres e desejos relacionados à mulher que o abandonou, numa espécie de anti-Vita Nuova. Da esfera política à pessoal, vai-se formando uma voz que busca não a justiça cósmica e coletiva, mas a justiça como realização individual.

O maior poema da língua portuguesa

Quem me conhece pessoalmente sabe que eu adoro fazer afirmações categóricas a respeito das coisas, ainda que dali a duas semanas eu venha a afirmar categoricamente o contrário. Tudo bem; detesto desculpas astrológicas, mas assim são os geminianos. O que importa, agora, é que hoje fiquei com muita vontade de fazer uma séria afirmação categórica: o maior poema da língua portuguesa – ao menos o maior soneto – é “Transforma-se o amador na cousa amada”, de Camões.

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co’a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.

Agora, é claro, vamos explicar porque este é o maior poema da língua. Na primeira estrofe, temos uma bela síntese poética de uma doutrina de Aristóteles: “a alma é de certo modo tudo”. E por que é assim? Bem, tudo o que existe é objeto de conhecimento. O conhecimento se dá na alma. Logo, para um objeto poder ser conhecido, ele tem que primeiro existir como objeto de conhecimento possível ou potencial na alma. Se eu conheço o laptop onde escrevo, se conheço minha namorada, se conheço o cajuzinho que comi nesta tarde, é porque eles antes mesmo de se apresentarem para mim já existiam como formas que minha alma poderia apreender, isto é, eles estavam potencialmente nela. Concentrando minha atenção em um objeto, minha alma fica cheia dele; e “amar” não deve ser entendido de outra forma senão como uma forma de concentrar a alma em algo. Quem ama sua namorada pensa muito nela. Quem ama as virtudes pensa muito nelas. Se podemos dizer que nosso corpo é aquilo que comemos, também podemos dizer que nossa alma é aquilo que pensamos.

Mas Camões sabe que esta linda doutrina traz um problema: se o amador se transforma naquilo que ama, isto é, se há uma identificação entre desejante e desejado, porque persiste o desejo de posse? Esta posse já não existiria na transformação do amador? Camões desloca esse desejo para o corpo, mas – tecnicamente, de um ponto de vista filosófico – é na alma que se dá o desejo. O desejo pode, porém, nascer no corpo, e está, certamente, ligado a ele de modo intrínseco: existindo sob a forma de um corpo, a pura alma não se vendo em lugar nenhum, o indivíduo deseja um outro corpo, deseja satisfazer corporalmente o desejo que existe em sua alma – “como a matéria simples busca a forma”.

A “matéria simples” é possivelmente a matéria desprovida de determinações, de qualidades; a forma é justamente essa determinação ou qualidade. Assim, o corpo, que é em princípio passivo e determinável em relação a alma (e não há qualquer platonismo em dizer isto), busca algo que o determine, e se alguém duvida disso pode lembrar que as pessoas que não têm uma motivação para viver (qualquer motivação) acabam vivendo menos ou pior.

Ainda seria possível comentar o poema de muitas outras maneiras. Mas, para perceber sua grandeza, basta ver como Camões apresenta claramente um ponto de Aristóteles sobre a alma, e depois o paradoxo que ele sugere. Isto nos quartetos. Nos tercetos, a solução; não, é claro, uma solução filosófica rigorosa, mas uma sugestão “existencial” que pode ser interpretada da maneira correta pelos homens de boa vontade.