Meditação de Páscoa

Os apóstolos viram Jesus ser torturado e morto. Mas não decidiram vingar-se. Não quiseram criar uma milícia, nem fundar um grupo terrorista. Não juraram derrubar Pilatos, Herodes, nem o Império Romano.

Talvez porque Jesus tenha realmente ressuscitado e mudado o foco.

Uma razão por que nunca cogitei o suicídio

Com o tema do suicídio obviamente na alma, eu tentava explicar a uma amiga ateia as razões de eu nunca ter considerado, nem por um segundo, dar fim à minha estadia terrestre. Na verdade, antes mesmo de continuar, acho que aí está uma das melhores razões para ser grato aos amigos: muitas vezes, eles fazem com que você esclareça para si próprio aquilo que pensa, aquilo que serve de motivação.

Ela, ateia, me apresentava o suicídio como uma possibilidade reconfortante. Se tudo ficasse ruim demais, era sempre possível desaparecer, retirar-se. Ela supunha que, por ser católico, a principal razão para eu jamais ter cogitado o suicídio era o medo do inferno. Não mesmo: muitas coisas há que a Igreja diz serem pecado mortal, e que no entanto… Se o medo do inferno fosse assim tão persuasivo, talvez eu fosse uma pessoa melhor. Porque não tenho nada contra o medo do inferno em si, e acho que ele pode ser um bom começo. Acho igualmente que quem brada não fazer nada por causa do medo está apenas com medo de parecer medroso. Aristóteles explica na Retórica que o medo é o contrário da confiança e, se isso é verdade, então a minha motivação para nunca ter procurado o suicídio está mais próxima dela.

Explico eu então, sempre grato à amiga. É verdade que ser católico influencia a minha motivação, no sentido de que a cosmovisão de qualquer pessoa influencia suas motivações. No meu caso, a influência que detectei foi a seguinte: acredito que, por piores que as coisas fiquem, se você agir com sinceridade e tiver boa vontade, se for capaz de resistir aos desejos de vingança, Deus, de algum modo, nesta vida ou na outra, vai dar bom termo às situações, não como uma espécie de Grande Titereiro, mas como um ser onisciente e misericordioso que retribuirá a sua boa vontade, um pouco como você gostaria de confortar os personagens das obras dramáticas a que assiste. Também sempre me impressionou muito a noção de que a nossa vida não é nossa: não demos a nós mesmos nossa existência, e ela não nos pertence. Ganhamos uma vida e devemos uma morte. Não fui eu que inventei essa ideia. É claro que ela pode ser manipulada de várias maneiras, inventando uma “causa de Deus” que se confunda com a do Império Austro-Húngaro ou com a ditadura do proletariado e que, em última instância, seja usada para convencer alguém a entregar a própria vida. Mas o fato de uma ideia poder ser usada para o mal não a falsifica. Aliás, perceber que a verdade pode ser usada para o mal, que é possível oprimir com a verdade, foi-me indispensável. Infelizmente, essa não foi das coisas que percebi lendo livros.

Mas bem. O ressentimento imediato que alguém pode ter dessa minha visão estaria na ausência de autonomia. E de fato eu creio muito pouco em autonomia. É preciso perguntar: autonomia em relação a quê, ou a quem? A ideia mesma de autonomia em si me parece uma piada, porque ninguém deu existência a si próprio e já começa sua carreira neste mundo com uma tremenda dívida de gratidão para com um bocado de gente. Aqui eu começo a ver que os meus pressupostos já se denunciam. Só enxergo as pessoas dentro de alguma relação, que pode ser com os outros, com Deus, com quem for. Você pode trocar suas referências, admirando umas pessoas numa época da vida, depois admirando outros, e achar que isso é autonomia, mas estruturalmente nada mudou.

É por pensar assim e por ter confiança (isso não é a famosa virtude sobrenatural da fé) que nunca cogitei o suicídio, nem quando me aconteceram as piores coisas que já me aconteceram. Pode ser que eu deva o pensar e o sentir assim a meus pais, que me transmitiram desde cedo a ideia de que o cosmos é um lugar fundamentalmente bom, um tanto como na parábola do filho pródigo. Não que, com isso, eu queira culpar os pais das pessoas que pensam e sentem de modo diverso; essas pessoas podem perfeitamente ter herdado de terceiros suas ideias, exatamente quando, ao julgar que derrubavam todos os ídolos, apenas adquiriam novos, mais insidiosos, mais despercebidos.

Comentário de Santo Antão ao imperador Constantino sobre as mídias sociais

Os santos que abalaram o mundo

Há alguns anos li metade do livro Os santos que abalaram o mundo, de René Füllöp-Miller. O livro é divivido em cinco capítulos, cada qual sobre um santo diferente. O primeiro fala de Santo Antão e termina com uma anedota muito interessante.

Quando o imperador Constantino se converte ao cristianismo, fica sabendo que há no deserto um eremita muito santo, Santo Antão, e manda perguntar a ele como é que se faz para ser cristão, agora que ele resolveu aderir. O imperador quer saber o que é que deve fazer. Santo Antão diz que o importante é o seguinte, e vou botar em blockquote porque, apesar da relativa breguice, pela desnecessidade, ganha-se em ênfase:

…no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido. (Mateus 12, 36)

Mas é claro que você pode achar que o Deus onisciente não estava pensando nas mídias sociais. (Ou que Deus não existe, ou que não é onisciente, mas eu espero que você entenda que não é disso que estou falando.)

Qual homem não choraria?

Quis est homo qui non fleret,
matrem Christi si videret
in tanto supplicio?

Stabat mater dolorosa
juxta Crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.

Cuius animam gementem,
contristatam et dolentem
pertransivit gladius.

O quam tristis et aflicta
fuit illa benedicta,
mater Unigeniti!

Quae moerebat et dolebat,
pia Mater, dum videbat
nati poenas inclyti.

Quis est homo qui non fleret,
matrem Christi si videret
in tanto supplicio?

Quis non posset contristari
Christi Matrem contemplari
dolentem cum Filio?

Pro peccatis suae gentis
vidit Iesum in tormentis,
et flagellis subditum.

Vidit suum dulcem Natum
moriendo desolatum,
dum emisit spiritum.

(…)

Quando corpus morietur,
fac, ut animae donetur
paradisi gloria. Amen.

Fetos mutilados zumbis esquartejando os membros da Planned Parenthood

Cheguei a um ponto em que creio que nem os terroristas islâmicos são fundamentalmente islâmicos. Quer dizer, claro que são islâmicos, mas eu não acredito nem por um segundo que o fato de serem islâmicos seja a causa principal de serem terroristas (como se a o fato de a maioria dos muçulmanos não ser terroristas já não tivesse demonstrado isso, mas bem).

Estou dizendo tudo isso porque hoje cedo tive uma ideia, que pode ser lançada ao cosmos para que alguém a estude, ou talvez eu mesmo, no futuro. Seria preciso reunir uma grande bibliografia e por isso vou falar algumas coisas de orelhada agora. O ideal seria ter um ano ou dois para entregar à pesquisa.

Bem. Já ouvi algumas vezes que até os anos 1960 ou 1970 ninguém no mundo islâmico se lembrava de que as cruzadas existiram. Foi só depois dessa época (não por acaso, a época em que, se não me engano, começou a influência da intelectualidade europeia moderna sobre os países árabes) que surgiu o ressentimento difuso contra o Ocidente por causa das cruzadas. E, claro, há também no mundo islâmico diversos ressentimentos internos. Aqui deste lado do planeta lembramos mais dos atentados de NY, de Madri e de Londres, mas houve muito mais atentados por lá mesmo (do Egito à Índia, sem contar os atentados contra as forças de ocupação americanas).

Foucault e a revolução iraniana

Passemos aos EUA dos anos 1990. De repente, todo mundo sofreu abusos sexuais na infância. E começam as investigações, os processos. Todo homem adulto passa a ser visto como pedófilo em potencial.

Há coisa de uns dois anos, acho, surgiu no Brasil a narrativa do bullying, barbarismo que indica os valentões que intimidam as outras crianças. Isso acontece, claro. Assim como as cruzadas aconteceram, e também os abusos sexuais. Mas a narrativa, a transformação do bullying em problema social diagnosticado, reconhecido e oficial (o jornal O Globo de hoje põe na capa que 84,5% dos alunos das escolas foram “afetados” pelo bullying, metade tendo sofrido e metade conhecendo alguém que sofreu) cria a impressão de um vale de lágrimas e de horrores e alimenta os ressentimentos das vítimas. As quais poderiam estar passando relativamente bem e ter praticamente esquecido o que sofreram.

Eis aonde quero chegar: antes de cada ataque, surgiu uma narrativa que colocava certas pessoas como vítimas de uma violência absurda, e que assim legitimava sua vingança. Eu não estou nem dizendo que essa narrativa seja intrinsecamente falsa. Na verdade, aí é que está o impasse trágico. Contar uma verdade, expor uma narrativa de violência, parece produzir mais violência, e acirrar a disposição para o duelo contra o agressor. Mas por que deveríamos deixar de dizer uma verdade?

citei aqui, vale a pena repetir:

I and the public know
What all schoolchildren learn:
Those to whom evil is done
Do evil in return.

W. H. Auden, September 1, 1939

Isso tudo, creio, é o reino do Anticristo. Como já falei, se Cristo é a vítima que diz: “Pai, perdoa-os”, o Anticristo é a vítima que volta para se vingar. Hoje em dia, todos se vêem como vítimas que julgam ter adquirirido o direito de praticar alguma violência: os gays e os cristãos, as vítimas de bullying e os pobres, os muçulmanos e os judeus. A ênfase está em “que julgam ter adquirido o direito de praticar alguma violência”. E claro que isso é uma generalização, que não se aplica a todos os indivíduos. Na verdade, se você sentir uma profunda indignação ao ler isso, creio que estará demonstrando que a generalização se aplica exatamente a você.

Por isso também me parece fútil procurar as causas dessas atitudes no conteúdo específico de alguma ideologia, ou de uma religião. A estrutura básica é a de uma narrativa que corre paralela à da Paixão de Cristo e que parte de uma situação como aquela descrita no versículo 16 do Salmo 22 (lido ontem, na liturgia do Domingo de Ramos): “Pois cães me rodeiam; um ajuntamento de malfeitores me cerca…”

Estamos diante de um impasse trágico porque as violências sofridas pelos grupos não são imaginárias, mas reais, e o fundo judaico-cristão da nossa cultura é um convite a que violências sejam desenterradas ininterruptamente. Se você quiser ver uma diferença entre a sociedade arcaica e a nossa, pode ler a Odisseia. O grande herói Ulisses pilha cidades e mata um bocado de gente sem que a narrativa (e até nós mesmos!) demonstre a menor reprovação. Hoje seria impossível escrever uma história assim sem que no mínimo algum leitor ou crítico a chamasse de “niilista”. Se o personagem de prestígio da Antiguidade era o herói que matava sem remorsos, o personagem de prestígio da nossa cultura é a vítima inocente, ou percebida como inocente. Mas mesmo nós, após 2000 anos de cristianismo, não estamos prontos a oferecer a outra face. Queremos ver a vítima inocente voltando para se vingar, isso é, para “fazer justiça”.

Neste momento devo dizer que, se eu tivesse interesse pelo género dos filmes de terror, escreveria uma história em que bebês abortados ressuscitariam com metralhadoras e tomariam Nova York. Fetos mutilados zumbis assassinos esquartejando os membros da Planned Parenthood. O subtítulo, seguindo o estilo acadêmico, seria: Retaliar e retalhar. Se você riu ou sentiu algo ao ler isso, foi o desejo de vingança que se movimentou e, quem sabe, começou a ser purgado.

Agora, voltando, o pior disso tudo que estou dizendo é que minha hipótese pode ter comprovação empírica. Quando uma nova narrativa de vitimação adquirir prestígio — por ser, por exemplo, sancionada pela comunidade de psicanalistas — , surgirá um novo grupo de pessoas dispostas à violência vingativa, a qual terá, obviamente, o nome de “justiça”. A extensão do estrago dependerá dos meios disponíveis, e vocês podem tirar daí as piores consequências que conseguirem imaginar. Eu mesmo já estou rezando para não estar por perto quando a primeira dessas vítimas vingativas adquirir uma bomba atômica que caiba numa valise.

*Este texto não foi escrito com a intenção de servir de comercial para o curso de James Alison (chamado justamente “A vítima que perdoa” — nada melhor para a Semana da Paixão), mas, se eu estivesse em SP, tentaria fazê-lo.

Uma meditação atrasada pela festa da Anunciação

Há alguns anos, estava eu numa aula, e eis que o professor, após enumerar suas críticas à Igreja, enumerando veementemente todas as suas faltas e fraquezas, sem poupar ataques pessoais aos Papas, diz assim: “A Igreja não é mestra? Tem que ensinar!”

A Igreja é mestra, magistra. Mas também é mãe, mater. E falar mal da mãe em público, bem, não é algo exatamente digno de quem recebeu a missão de ser o sal da terra e a luz do mundo.

Lavemos nossas bocas, tiremos a trave etc.

“Orgulho” por contágio

Leio no G1 a notícia do menino que foi suspenso por cinco dias na escola por usar um terço e penso imediatamente em Antígona. Ele fazia o que achava certo, a escola também. O apego de cada um àquilo que considera certo só vai reforçar o apego do outro. E, caro leitor, considere o seguinte: se “aquilo” é certo ou não é irrelevante para o impasse trágico. Do nosso ponto de vista confortável e tranquilo, podemos nos dar ao luxo de querer arbitrar a questão e ainda ter a ingenuidade de achar que nosso laudo arbitral deveria ser enfiado goela abaixo das partes envolvidas, que sequer nos convocaram. Não sejamos nós também contagiados pela disputa.

É por isso que não vou falar, como Antígona, em “leis não-escritas”, nem no sacro direito de usar um terço, até porque eu acredito que 1. se a escola é pública, deveria haver a liberdade de usar um terço ou uma camiseta de Aleister Crowley; 2. se a escola é privada, deveria haver o direito de usar só o que a escola considerar aceitável e quem não gostar que procure outra escola; 3. qualquer violência física fica terminantemente proibida e deve ser reprimida em qualquer caso.

Todas as pessoas que são reprimidas por suas crenças, quaisquer que sejam, tendem a imitar o repressor, transformando sua crença numa identidade estrondosa, numa camiseta berrante, numa caricatura. Poderíamos pensar num grupo terrorista que defendesse as leis não-escritas de Antígona, sem que isso fizesse de Creonte, ou do aparelho estatal como um todo, o mocinho da história. Não há mocinhos, não há bandidos, só existe a epidemia de violência, que pode ser melhor ou pior administrada, sobretudo para evitar o backlash, que é aquilo que os comunistas chamam de “revolução”: a recusa de todos os paliativos.

Eu recomendaria que o menino que quer usar o terço não se sinta “orgulhoso” dele, como diz. Eu mesmo não entendo o orgulho identitário, nem creio que ele seja orgulho de fato; acho que é só uma posição marcada num cabo de guerra. Gostaria que o menino se esforçasse para não ficar com raiva, para não sentir que sua violência contra a escola é legitimada, e que se esforçasse para ser melhor e para mostrar que o cristianismo não é seu direito de expor um símbolo, mas algo efetivamente vivido. É verdade que é duro resistir a isso; é verdade que todos os reprimidos (ou que se julgam reprimidos, dá na mesma) estão querendo afirmar-se violentamente, e que a narrativa de “eu era oprimido, agora vou fazer o que eu quiser, quem não gostar que se dane” é o mito fundador do século XXI. Mas, enfim, estar no mundo sem ser do mundo etc.

Mensagem de Natal

Lembro de quando o Papa João Paulo II começou seus pedidos de desculpas. Achei absurdo. Pensava que a Igreja tinha de manter-se altiva, e botar na mesa suas realizações. Hoje acho o contrário. Alegro-me com o pedido de desculpas e acho que valorizar a religião por “contribuições civilizacionais” é não entender nada, porque “de que adianta a um homem ganhar o mundo se ele perder sua alma?” (Mateus XVI, 26). O mundo precisa de reconciliação, mas não é possível recomendar a reconciliação sem no mínimo dar o exemplo.

Essa reconciliação não pode vir, também, se não houver uma aceitação do próprio mal. Boa parte do catolicismo de internet, em que obviamente me incluo, pode ser resumido a um embate de identidades públicas sob a aparência de um debate. Ou, para lembrar Bruno Tolentino, sob a parecência de um debate. Neste ponto, os grupos opostos e rivais se tornam idênticos: quanto mais agarram-se às suas supostas diferenças, mais parecidos ficam. Foi este o sentido da minha piada de ontem: entre um panfleto católico “ultraconservador” que fale contra o mundo moderno e textos que defendam o feminismo contra o machismo, o ressentimento é igual e só as palavras são diferentes. Com isso, é óbvio que não digo que o conteúdo de um ou de outros sejam invalidados; só digo que cada um dos grupos simplesmente postula a bondade intrínseca da sua própria identidade, identidade essa cada vez mais sutil, e tira daí as consequências.

Hoje em dia tendo a considerar os discursos dos movimentos de minorias como uma ultrassensibilidade à ideia de violência, ultrassensibilidade que decorre da própria ideia cristã. Afinal, o que eles fazem é denunciar formas de violência que nós outros nem sabíamos que existiam, que nem cogitávamos. Seguindo o princípio de que quem decide se houve agressão ou não é o agredido, como dizer que eles estão errados? No entanto, não posso deixar de observar que esse é um dos discursos mais antigos do mundo. Ninguém bota a mão no peito e diz: “eu sou o agressor”. Todos estão sempre reagindo a uma agressão prévia, inserindo-se num ciclo de violência que só não é infinito porque a raça humana é finita.

What huge imago made
A psychopatic god:
I and the public know
What all schoolchildren learn,
Those to whom evil is done
Do evil in return.

W. H. Auden, “September 1, 1939”.

Mesmo que você hoje esteja apenas tomando aquilo que lhe é devido, as consequências disso podem ser nefastas. Talvez até eu mesmo já pareça nefasto por estar dizendo isso, por estar supostamente incitando a um conformismo e a uma perpetuação de uma situação de violência. Mas veja que não estou me dirigindo a movimentos de minorias em particular, mas também aos católicos e demais religiosos, que partilham de idêntico ressentimento. Se não rompermos o ciclo da violência, bom, não romperemos o ciclo da violência. O que é justo para você é uma violência arbitrária aos olhos dos demais.

A melhor coisa do Natal é que nada disso precisa ser assim. “Misericórdia quero, e não sacrifícios. Porque eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mateus, IX, 13). Esse sacrifício era o sacrifício ritual, o mesmo que, antropologicamente falando, continuamos a realizar quando nos juntamos com nossos amigos para falar mal daqueles que nos causam repulsa, “sacrificando” essas pessoas para que nos sintamos bem. Se o Natal marca uma nova era, então que seja a era em que, nós, pecadores, abdicamos disso e entregamos nosso ressentimento e nossa falsa concepção de pureza própria àquele que disse: “Meu jugo é suave, e meu fardo é leve” (Mateus XI, 30), e que é o Grande Desmistificador do “deus psicopata” que simplemente gerencia a violência. Nós podemos nos livrar de tudo isso. Se o lobo pode dormir com o cordeiro, o católico também pode abraçar a feminista.

Feliz Natal a todos.

Sabedoria, Cap. XI

Às vésperas do Dia de Finados, paradoxalmente (talvez), é isto que não me sai da cabeça:

22 Diante de vós o mundo inteiro é como um nada, que faz pender a balança, ou como uma gota de orvalho, que desce de madrugada sobre a terra.

23 Tendes compaixão de todos, porque vós podeis tudo; e para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens.

24 Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum.

25 Como poderia subsistir qualquer coisa, se não o tivésseis querido, e conservar a existência, se por vós não tivesse sido chamada?

26 Mas poupais todos os seres, porque todos são vossos, ó Senhor, que amais a vida.

Sobre a queima do Corão no sábado próximo

Não é algo que eu fosse fazer. Tenho amigos muçulmanos e não gostaria de ofendê-los. Também não gostaria de ofender os diversos muçulmanos que jamais me ofenderam e que eu nem sei quem são. E gostaria que não fosse necessário dizer que supor que os ataques de 11 de setembro de 2001 são diretamente devidos à prática da religião islâmica é algo digno da Vovó Ricarda Dawkins. Seria como afirmar que “A CIÊNCIA é culpada pelo Projeto Manhattan”.

Agora, não acredito nessa história de que livros são sagrados. Se você acredita nisso, por favor, escreva a seu deputado pedindo que ele lute pela descriminalização de Mein Kampf no Brasil. Eu também sou a favor da descriminalização, mas a vida é curta demais para eu querer liberar o Mein Kampf. Se eu quiser ler, leio em inglês, francês ou compro no sebo. Nem acho que os judeus brasileiros estejam hoje ameaçados pelo livro de Hitler, nem acho que sua proibição seja uma séria ameaça à liberdade de expressão que prenuncia um gigantesco totalitarismo e…

Enfim. Queimar livros não é contra a lei nos EUA. Acredito que a mais sublime lei jamais escrita pelo homem, aliás, é a primeira emenda da Constituição americana: “Este Congresso não fará leis sobre liberdade de expressão.” Melhor isso do que um Comissariado da Palavra regulando o que vamos dizer. Já pensou, Franklin Martins, Jader Barbalho, Frei Betto e Edir Macedo nomeados para a função?

Agora, a lei é, socialmente falando, sagrada. Violar a lei gera punições e tem de gerar punições. Assim se obtém ordem, paz e liberdade.

Se o reverendo maluquinho da Flórida quer queimar o Corão, você pode em represália queimar uma Bíblia, chamá-lo de maluquinho, negar-se a recebê-lo em seu restaurante, negar a admissão de seus filhos em sua universidade. Se matá-lo porque ele te ofendeu, vale recordar que o estado da Flórida tem pena de morte.

Se a ausência de punição estatal para uma blasfémia contra o Islam te desagrada, azar. Bem vindo aos Estados Unidos.

Como era de se esperar, continuamos aguardando a defesa da esquerda do reverendo maluquinho e de seu sacro direito de falar bobagem.

%d blogueiros gostam disto: