Religiosidade egocêntrica

Madre Teresa de Calcutá costumava dizer que o objetivo de cada dia de sua vida era “fazer algo bonito para Deus”. Quer dizer: apresentar-se como digno do amor de Deus; doar-se como legítimo representante da grandeza divina na Terra.

Repito essas palavras porque me parece que toda a “espiritualidade” contemporânea consiste, exatamente, em fazer o oposto: esperar algo bonito de Deus.

A idéia, fundamental na moral religiosa, segundo a qual cabe ao homem fazer de sua própria vida algo digno da condição humana, de modo a tornar-se apresentável diante de Nosso Senhor, foi substituída, naquilo que hoje se entende por religião, pela idéia de que cabe a Deus atender a nossas exigências mais comezinhas, especialmente de modo a garantir uma vida próspera. Quer dizer, não é mais Deus que exige do homem uma vida digna; é o homem que exige de Deus que atenda a todos os seus caprichos.

Assim sendo, se algum ponto da moral cristã agride a sensibilidade moderna, que se mude a moral! Se algum ponto da doutrina teológica se tornou incompreensível para a mentalidade contemporânea, vamos “modernizar” a teologia!

Em nenhum momento essa completa inversão de prioridades ficou mais evidente do que no caso das reformas litúrgicas. Já não se pretendia que a Missa fosse a reedição sacramental do sacrifício do Cristo; pretendia-se, apenas, que ela ficasse divertida e interessante, de modo a angariar fiéis. Pouco importava se, com as mudanças, toda a sacralidade se perdesse.

Ainda nessa linha, e recorrendo a exemplos mais caricaturais, vale a pena ler o artigo de Alan Wolfe na “Prospect Magazine” de janeiro, intitulado “Dieting for Jesus”. Wolfe traça um perfil dos protestantes americanos ditos “conservadores” e mostra o caráter peculiar que a religião – mesmo aquela considerada tradicional – assumiu nos EUA. O seguinte parágrafo ilustra bem suas conclusões:

“Nenhum outro aspecto de sua fé é tão importante para os protestantes conservadores quanto a adoração: orações, visíveis e freqüentes, são o que os atrai para a igreja. Mas a adoração na América Protestante conservadora raramente envolve esforços introspectivos para honrar um ser supremo cujas preocupações sejam transcendentais. ‘Deus, dê-me um resultado positivo no exame de Raio-X quando eu fizer uma mamografia semana que vem’, ou ‘Deus, ajude o comitê a achar um novo pastor para a igreja’ são algumas das formas de orações mais comuns numa igreja Batista em New Jersey. No grupo feminino de uma igreja evangélica nos subúrbios de New York, cada participante tem a chance de pedir a Deus que responda a suas preocupações, e, à medida que ela o faz, as outras tomam notas, de modo a poderem rezar por suas amigas durante a semana. Essas preocupações são qualquer coisa menos transcendentais: a maior parte envolve dinheiro, saúde, e imóveis, junto com problemas da própria igreja. Nós não devemos duvidar do significado que a adoração tem para os cristãos conservadoreas. Mas também não devemos ignorar o fato de que, a julgar pela maneira como os crentes se expressam nas orações, essas são pessoas que acreditam que Deus ajuda aqueles que se concentram em si mesmos.”

Note-se que não há nada de errado em pedir coisas nas orações. O problema não é esse. O problema é o foco de atenção das orações, inteiramente voltadas para a satisfação dos próprios caprichos.

O autor do artigo vê nisso um sinal positivo de que ninguém precisa se preocupar com eventuais pretensões teocráticas dos protestantes americanos. Mas essa questão é de importância menor (até porque não há pretensões teocráticas, mas diversos aspectos das crenças protestantes, notadamente no que diz respeito à escatologia, influenciam diretamente a política). O que realmente importa é o que a pesquisa revela sobre o egocentrismo da “espiritualidade” contemporânea, o que, nem de longe, é exclusividade do protestantismo americano.

Fé & razão

Sabedora de minha adesão ao catolicismo, uma moça me perguntou: “O que você acha desse negócio do Papa dizer que as camisinhas não funcionam para prevenir a AIDS?” Na hora, respondi que não tinha o menor interesse por esse assunto, pois minha última namorada me deixou há tempo suficiente para eu não ter dilemas de moral sexual, ou melhor, não viver draminhas de poeta barroco.

Mas ela não se comoveu. Só queria mesmo a minha opinião, porque achava “um absurdo o Papa dizer uma coisa dessas”. Perguntei por que era absurdo. “Porque a ciência diz que a camisinha previne a AIDS”. Ora, o Papa não está usando o parecer de outros cientistas ao dizer isso? Por que pressupor que “a ciência” é um bloco unitário, uníssono e unânime? Será que ela nunca ouviu falar que os cientistas discordam entre si? Então. O Papa deve ter pego uns cientistas que têm umas provas contra a camisinha. Controvérsia é normal. Controvérsia com partidarismo, mais ainda. Pretensão à imparcialidade absoluta é coisa de doente mental. No máximo a pessoa pode tentar ser honesta e sincera. E olhe lá.

A melhor resposta então seria: “Olha, você não sabe nada de camisinha e está apenas acreditando nos cientistas. É uma preferência pessoal. Deixe-me em paz. Eu posso preferir o Papa e seus cientistas, se quiser.” Porque há muitas coisas que desconhecemos e simplesmente confiamos na opinião alheia. Eu confio na minha dermatologista. Por quê? Não sei bem. Ela parece inteligente. É muito simpática. E eu não entendo nada de dermatologia. Minha interlocutora também não entende nada de dermatologia. Mas deve confiar na sua dermatologista. Por mais “esclarecido” que alguém se julgue, continua vivendo de fé, por uma simples limitação humana: não é possível examinar todos os assuntos.

A questão é que a autoridade “da ciência” é hoje aceita como aparentemente era a autoridade da Igreja há séculos atrás. A maioria esmagadora das pessoas ou é incapaz ou não desejaria se envolver com seriedade na menor querela teológica, e por isso simplesmente aceita: há um purgatório, um inferno, um céu etc. Da mesma maneira, poucos dentre nós têm a disposição de realizar um teste com camisinhas com todo o rigor científico – isto é, incluindo as mais variadas taras.

(Não resisto ainda a pensar o seguinte: se o uso de camisinhas aumentou e o número de casos de AIDS também, talvez possamos concluir que a camisinha seja uma das causas da AIDS.)

Se alguém duvida de que esta entidade chamada “a ciência” hoje possui uma autoridade maior do que a da pitonisa de Delfos, pode considerar um único fato. Experimente dizer em um jantar qualquer que o Sol gira em torno da Terra. Você será chamado de palhaço e idiota. Agora, todos vêem, todos os dias, o Sol dar a volta no céu. Todos vêem, todos os dias, a Terra paradinha onde está, e o Sol se movendo. “Ah, mas isso é só uma impressão.” Não é não. Você não aprendeu na escola que “o movimento depende do referencial”?

Mensagem de Natal

O mundo vai mal. Quem não sabe? Por toda parte – inclusive n’ O Indivíduo – encontramos explicações para “o que está acontecendo” e tentativas de descrever a nossa miséria.

Soluções, por sua vez, são um pouco mais escassas – mas quase sempre categóricas. Cada um escolhe a parte do mundo moderno que mais lhe dói e deduz de sua eliminação a solução universal. O embate entre as várias correntes cria uma expectativa: “algo” precisa acontecer que dê fim a estas dores e acusações. É a plenitude dos tempos.

Mas o que acontecerá quando “algo” chegar? Será que todas estas expectativas serão atendidas? Ao que parece, a chegada de “algo” à Judéia há 2001 anos frustrou muita gente. A verdadeira pergunta, então, é: o que EU farei quando “algo” chegar? Será que em vez de esperar que Cristo aja como Papai Noel e me dê aquilo que EU quero, não é melhor preparar-me para aquilo que ELE quer?

Se Cristo olhasse nos MEUS olhos em uma praia da Galiléia, o que eu faria? Será que eu estaria pronto? Será que minha casa está construída sobre a rocha? Será que não gastei todos os meus tijolos jogando-os nas casas dos vizinhos?

Pelo nosso calendário litúrgico, Cristo nasceu novamente. Quem ele encontrará? Pessoas com listas de desejos ou dedicados discípulos? É o excesso de desejos e a falta do cumprimento da vontade do Mestre que piora a situação – e cá estou eu também a explicar a “crise do mundo moderno”. Mas com uma ressalva: não há solução fora do interior de cada um, onde Cristo pode colocar a única coisa necessária, a paz que ultrapassa todo entendimento. Podemos dizer: “Mestre, salve-me” e mostrar dedicação; mas não podemos dizer: “Mestre, salve o mundo, que vai mal pelas razões expostas acima”.

Que Cristo, então, inspire mais uma vez os homens de boa vontade a buscar somente a Paz – a Paz no coração, não nos noticiários – , que os inspire a fazer tudo para merecê-la, que Ele a dê, e que Deus seja louvado nas alturas por todo o sempre. Amém.

Mensagem de Natal

Ontem eu pensava sobre como, na infância, eu imaginava o menino Jesus, e sobre como a imagem do presépio parece despertar um verdadeiro sentimento de piedade nas pessoas. Mesmo aqueles que não são cristãos abrandam a alma e desejam, nesta época do ano, ser pessoas melhores do que no resto do ano. A imagem do presépio e a lembrança do nascimento do menino Jesus parecem catalisar este sentimento na alma de todos.

Um abrandamento da alma e um doce curvar-se diante de Deus são condições fundamentais para a apreensão da verdade. Se o Cristo que nasce é o Logos divino, o Intelecto Agente divino encarnado, devemos também preparar o nosso intelecto paciente para recebê-lo. Só quando nos preparamos para aceitá-Lo é que podemos repousar, como a alma de Santo Agostinho.

Eu poderia ficar aqui reclamando de como o mundo está em crise etc. Mas não pude deixar de me maravilhar ao perceber a analogia entre o sentimento despertado pela visão do presépio, do menino Jesus, e o estado de alma necessário para que a Palavra Encarnada de Deus não seja jogada em solo duro, mas em solo fértil, e germine.

Faço votos de que, neste Natal, a inspiração trazida pelo nascimento do menino Jesus transforme mais um pouco a alma de cada um, preparando-a para receber a Verdade – que é o que o mundo precisa, e não de paz, como tantos pensam.