Auden 1 x Guénon 0

14. The Way (from The Quest)
W. H. Auden

Fresh addenda are published every day
To the encyclopedia of the Way.

Linguistic notes and scientific explanations
And texts for schools with modernized spelling and illustrations.

Now everyone knows the hero must choose the old horse,
Abstain from liquor and sexual intercourse,

And look out for a stranded fish to be kind to:
Now everyone thinks he could find, had he a mind to,

The way through the waste to the chapel in the rock
For a vision of the Triple Rainbow or the Astral Clock

Forgetting his information comes mostly from married men
Who liked fishing and a flutter on the horses now and then

And how reliable can any truth be that is got
By observing oneself and then just inserting a Not?

A força da cristandade

“Talvez vocês notem a abóbada suntuosa como um estandarte, com suas franjas e seus enfeites? Isso ainda não é nada. Abaixo dessa abóbada, há uma minúscula hóstia branca, certamente invisível do lugar onde vocês estão. Bom! Não esperem de mim que eu me perca aqui em frases comoventes e enternecedoras; aquilo que eu penso disto que me é mil vezes mais caro que a vida não lhes diz respeito, eu não tenho minimamente a intenção de convertê-los ou de enchê-los de palavras edificantes; eu desejo me fazer entender por qualquer homem razoável, quer dizer, capaz de aceitar honestamente os resultados de uma experiência… Há, então, essa minúscula hóstia. E há, ainda, perdidos aqui e ali, nessa multidão enorme, algumas pessoas que certamente passam despercebidas de vocês, alguns velhos padres tímidos, alguns homens, algumas mulheres, algumas crianças – sábios ou não, que importa! Não os procurem entre aqueles que mostram as córneas e estiram a língua, com caretas extasiadas. Aquilo que eles têm no coração raramente se exprime em seus traços, e ademais eles nem sabem o que têm no coração; Deus o sabe. Entre a hóstia branca e essa humanidade tão pouco digna da atenção dos observadores e da objetiva das câmeras, há uma troca misteriosa; eis tudo que conta, é assim eu tenho a honra de lhes dizer. De qualquer maneira que vocês expliquem o fato, ele se impõe, ele sempre se impôs no decurso dos tempos. Tão logo se encontrem ameaçados, não os tesouros da Igreja ou seu prestígio, mas sua fé, os pobres diabos insignificantes de que eu falo se tornam mártires; vocês o sabem tão bem quanto eu. Eles dizem tranqüilamente: “Não!” aos poderosos que na véspera saudavam humildemente, e então o não que eles lhes opõem é tão humilde quanto sua saudação, mas implacável, inflexível, inexorável. A doce teimosia desses predestinados fez correr mais sangue – o deles mesmos – do que todo o orgulho dos conquistadores. E, fato ainda mais surpreendente (dêem para ele a razão que lhes agrade, que me importa!), pouco a pouco vê-se fermentar a massa grosseira de que eles eram o fermento. Os devotos se tornam indulgentes, as devotas caridosas, os avaros pródigos, os casuístas simples como as crianças, os calculistas correm riscos, os prelados políticos perdem sua astúcia, e os tiranos, mestres dos palácios e das basílicas cheias de ouro, de repente ouvem com estupor, com angústia, com pavor, a velha Igreja rejuvenescida que canta no fundo das catacumbas. Oh! perdão, vocês podem me censurar o tom lírico – pois não é de forma alguma o poeta em vocês que me proponho de comover. Eu poderia também simplesmente dizer que só na provação a cristandade dá a medida exata de sua força. Não é a infelicidade que a torna forte, mas a infelicidade recoloca cada um em seu lugar, e os santos no primeiro

plano.”

(GEORGES BERNANOS, Lettres aux anglais, Gallimard, 1984, pp. 130-132.)

Iniciação satânica

3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais. 4 Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. 5 Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.

Diante de uma platéia de adolescentes, o professor diz: “E eles não queriam que os outros tivessem esse conhecimento, queriam mantê-los na ignorância, para assegurar o seu status”.

Em cada matéria que o aluno estuda, ele escuta uma variação desta lenga-lenga, sempre repetida em tom pomposo. Assim, nos seus anos de formação, ele aprende que o mundo é formado por enganadores, que qualquer pessoa vagamente importante do passado é certamente um pilantra.

Seus olhos se abriram: ele é como Deus. Ele se pôs acima de todas as instâncias. Ele julga o passado, e não é julgado por ele. O cosmos é culpado; ele pode, do alto de sua condição de criatura imaculada, consertar o cosmos – “mudar o mundo” – ou dar uma brochada cósmica e ficar dizendo que brochar é bom; assim ele cria o seu mundinho particular, onde todas as pessoas lêem Clarice Lispector.

Afinal, ele é como Deus. COMO Deus, seja para os idiotas dos seus colegas ou para si mesmo. Uma sombra orgulhosa, que só pode pichar, e não criar. O que, como vemos por todas as “manifestações estudantis”, é bastante literal.

Ou, sinteticamente, à carioca: se você tem fé naquele professorzinho que só faz acusar os outros e louvar o “senso crítico”, você é um mané, e será um mané para sempre.

O milagre da multiplicação dos teólogos

De repente, não mais que de repente, passa um filme no cinema sobre a paixão de Cristo e as pessoas começam a discutir religião. Não se vê, entre elas, ninguém que procure estudar a religião; também não parece haver pessoas que tentem praticar a religião. Mas isto não se pode discutir, seria difícil estabelecer um critério: há aquelas pessoas que crêem que jamais ir à missa é mais cristão do que ir à missa sem ter vontade; há aquelas pessoas que crêem no “seu” cristianismo, inventado de acordo com suas preferências (que elas crêem ser “ideais”), em vez de crer no Cristianismo que nos foi transmitido pela Igreja.

Mas basta de palavras amargas. O que importa é que o filme é miraculoso: após assisti-lo, todos já sabem tudo sobre o Cristianismo. Aquelas mesmas pessoas que não freqüentam a Igreja dizem palavras eloqüentes sobre o verdadeiro sentido do Cristianismo. Outros falam sobre as experiências definidoras da ascensão mística – “quem nunca fez tal coisa não é realmente cristão”. Há ainda aqueles que, negando a natureza divina de Cristo, acham que devemos louvá-lo justamente por ter sido “só um homem”, criando um monofisitismo peculiar que, é claro, só poderia prosperar naquela Terra que trocou o nome de Santa Cruz pelo de uma árvore qualquer. E não custa lembrar que “floresta”, em grego, é “hyle”, que também significa… Pensem em Aristóteles.

Lutero, eis teus filhos. A classe média, média a não mais poder, crê piamente que basta prestar bastante atenção no próprio estômago para encontrar o justo critério para julgar não só simples filmes, mas também civilizações inteiras. Eles sabem mais que o Papa; mais que São Paulo; mais que os Evangelistas. É um milagre, um milagre. Ainda hei de encontrá-los curando os cegos da Av. Nossa Senhora de Copacabana.

Chamando todos os católicos

O milagre dos pães e peixes, que é o Evangelho do Domingo Laetare

Hoje é o Domingo Laetare, o “domingo da alegria”, o domingo do meio da quaresma, em que os paramentos roxos são trocados por paramentos cor-de-rosa.

Tive a ventura de assistir à missa de hoje no Outeiro da Glória – uma missa tridentina. Para quem está chegando agora, explico: uma missa como era antigamente, antes da missa nova, esta que está aí em todas as igrejas. Uma missa que foi utilizada pela Igreja por séculos, em latim, aquela “com o padre de costas para o povo”.

Acho que a missa de hoje foi a mais bonita a que já assisti. Tivemos canto gregoriano; e quem gosta de gregoriano sabe que ele tanto pode ser celestial quanto tedioso. Claro que a variação está ligada à fé dos cantores, e ao momento do canto. O gregoriano na missa é a coisa certa no lugar certo; o gregoriano no CD ou em uma “apresentação” é uma curiosidade deslocada, igual a uma peça de arte antiga em um museu moderno. Não há mais contexto, e a obra se torna quase ininteligível; na missa, na missa de hoje, vimos que a tradição está viva.

O sermão também foi ótimo. Quem é católico e freqüenta a igreja sabe como é difícil ouvir um sermão simples e simplesmente católico, dizendo que pecado é pecado, que pecado é ruim, e que o negócio é parar com esse negócio de pecado. Só isso. Foi o que o celebrante fez, após explicar que na Europa este domingo coincide
com o início da primavera – de fato ontem às 3h48 AM o Sol entrou em Áries – e que as primeiras rosas que aparecem são ofertadas nas igrejas. Um gesto simples e comovente.

Na epístola, por acaso (segundo o calendário antigo, respeitado na missa tridentina), um comentário de São Paulo pareceu aniquilar a questão do Islam frente ao Cristianismo: “Mas que diz a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre.” (Gálatas IV, 30)

Agora, eu estou dizendo isto tudo pela seguinte razão: quero convidar as pessoas para assistirem a esta missa. Ela não acontece sempre, mas apenas uma vez por mês. É perfeitamente lícita: o Outeiro da Glória tem indulto para a celebração da missa tridentina. Portanto, não se acanhe. Se quiser saber quando a próxima missa irá acontecer (eu mesmo ainda não sei), mande-me um e-mail: pedro@oindividuo.com.

Ataque ao cristianismo

Para quem acha que é exagero dizer que a intenção de proibir o filme do Mel Gibson equivale a um ataque ao próprio cristianismo, vale lembrar, como lembra John Zmirak, em excelente artigo na “American Conservative”, que boa parte dos ataques ao filme são motivados não por uma preocupação com o anti-semitismo deste filme especificamente, mas, sim, pela idéia de que todo o cristianismo é, em si mesmo, anti-semita. Nessa linha, já se tentou até expurgar o Evangelho de São João…

‘But Gibson did not go far enough for his enemies. They seem in fact implacable—though that does not stop self-hating Christians from trying. Some biblical scholars suggest the Gospel of John be edited or excised from the scriptural canon because it is “inherently anti-Semitic.” In 2003, some theologians associated with the U.S. Catholic Bishops colluded with several Jewish leaders to produce a document that effectively declared that Christianity was meant only for gentiles, not for Jews, so the Church should stop evangelizing them. When prominent Jewish Catholics, among others, pointed out such statements by Jesus as “Go nowhere among the Gentiles … but go rather to the lost sheep of the house of Israel.” (Matt. 10:5) and “I was sent only to the lost sheep of the house of Israel” (Matt. 15:24), the document was quietly dropped. Appropriately, the architect of that document was Eugene Fisher, the same man who helped the ADL orchestrate an attack on “The Passion” —based on the preliminary, stolen script. The bishops had to back away from that one, too, under threat of legal action.

(…)

‘It is clear that the same spirit motivates the campaign against Gibson’s film, the attacks on Pius XII, and similar assaults against Christianity in public life. It’s more than just a rejection of Jesus’ claim to be the Messiah—a shocking assertion that requires the divine gift of faith to accept. It is an attack on Christian culture root and branch, an assertion that the Christian faith is a dangerous poison that must be purged from the earth to ensure social progress and the safety of other religions. This position, which most Jews would surely reject, is the basic assumption of contemporary secularism, which knows no race or creed.’

The Passion contra infiéis e gentios

The Passion of The ChristNós pregamos o Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas para os eleitos Ele é a força e sabedoria de Deus. (1 Cor I, 23)

Primeiro ponto: a idéia de que The Passion é um filme anti-semita é pura desonestidade.

Os Evangelhos contam que Anás e Caifás, mais um punhado de judeus reunidos em turba numa praça de Jerusalém, foram os responsáveis pela morte de Cristo. Não Maimônides. Não o Dr. Freud. Não Jerry Seinfeld. Nenhum outro judeu foi responsabilizado pela paixão de Cristo; inclusive, se houver dúvida, há uma passagem em que Jesus isenta os filhos dos pecados dos pais, e uma afirmação oficial da Igreja Católica contra a idéia da culpa coletiva.

Além disso, se o filme de Mel Gibson é “anti-semita”, então A Lista de Schindler é um filme essencialmente anti-germânico. Este e todos os filmes sobre a Segunda Guerra. Afinal, todos eles mostram os alemães em geral como uns malvadões. Mas ninguém pensa que todos os alemães são nazistas – assim como nem todos os judeus são deicidas. Se o argumento de anti-semitismo fosse válido, precisaria ser demonstrado por terríveis ondas de anti-germanismo (afinal, quantos filmes existem sobre campos de concentração nazistas? Centenas?), que já teriam varrido como tsunamis os alemães da face da Terra.

Não custa recordar também que Jesus, Maria e os apóstolos eram judeus. Mas isso os acusadores sabem muito bem: eles são é maliciosos mesmo.

Em suma, o argumento de que mostrar que um judeu é mau faz de você um anti-semita por metonímia ou é pura boçalidade ou é pura canalhice. Naturalmente, não foram todos os judeus que o proferiram.

Segundo ponto: a idéia de que The Passion é um filme “violento demais” é desonesta e demonstra ignorância.

É desonesta porque o filme não é mais violento do que outros filmes a respeito dos quais ninguém nunca reclamou. Basta ler esta matéria do WorldNetDaily.

Demonstra ignorância porque muitos santos recomendaram que aqueles que desejavam se aproximar de Deus meditassem sobre a paixão de Cristo. Meditar sobre a paixão não é atingir o nirvana, sonhar com um mundo melhor, ficar tendo idéias metafísicas, ou lendo Kierkegaard. Meditar sobre a paixão é ficar pensando: “quanto dói ter uma coroa de espinhos na cabeça? Quanto dói uma chicotada? E dezenas delas? E ser pregado? E eu seria macho de agüentar isso tudo? Eu tenho medo até de dentista!” Se você ler O Castelo Interior, de Santa Teresa d’Ávila, por exemplo, vai ver meditações deste tipo. E se ler os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola vai encontrar coisas semelhantes, com várias sugestões de sofrimentos que o cristão pode impingir a si mesmo para imitar o Cristo (chicotear-se etc).

Portanto, The Passion é business as usual no mundo cristão. Quem não sabe está por fora.

Pergunta aos protestantes, ou: o que “a Palavra” não diz

Acho que é razoável dizer que a maioria das denominações protestantes – senão todas – tem em comum a seguinte característica: enquanto os católicos (e mesmo os ortodoxos, se não me engano) privilegiam a interpretação das Escrituras feita pelo Magistério da Igreja, os protestantes privilegiam a leitura direta da Bíblia, deixando as interpretações para a consciência individual do leitor. Sempre que você vai conversar com um protestante, ele fala “a Palavra diz isso”, “a Palavra diz aquilo”.

Pois bem. Tem uma coisa que “a Palavra” não diz, e isto é a seleção dos livros que entram na Bíblia. Em nenhum momento do Antigo ou do Novo Testamento está escrito: “São canônicos apenas os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João; os outros são falsos”. Como saber então, baseando-se apenas “na Palavra”, quais são os autênticos textos dos apóstolos, profetas etc?

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