Valsa dos rentistas

*Há mais de dois anos, creio que antes de o negócio das biografias ser discutido no Congresso, O Globo publicou um texto meu exatamente sobre esse assunto, chamado “Rentismo de imagem”.

No fim da adolescência, entre os 18 e os 19 anos, passei um ano e meio morando em Nova York. As saudades do Rio de Janeiro eram grandes, e uma música que eu gostava de ouvir, quando não ia, feito uma besta, comer bolo de aipim e tomar guaraná na Rua 46, a “rua dos brasileiros”, era “Valsa de uma cidade”, na gravação de Caetano Veloso. Minha mãe também gostava. Ouvíamos em CD, que isso foi antes do mp3, num sonzinho pequeno que ficava na divisória entre a cozinha – era uma daquelas cozinhas americanas abertas – e a sala. Da janela, víamos o Hudson com imensos blocos de gelo flutuando, a neve caindo… E nós escutando: “Rio de Janeiro, gosto de você…”

Esses momentos tão sentimentais me vieram à cabeça agora, aqui no Rio de Janeiro, em plena Copacabana, quando me lembrei dos argumentos imbecis que li a respeito das biografias não-autorizadas. Segundo a Folha, o mesmo Caetano Veloso, em seu perfil no Twitter, teria sugerido que o biografado deveria receber pelas biografias não-autorizadas. Wilson Simonal disse que “tudo o que se usa, paga” (sic), frase que gramaticalmente reconstruída provavelmente deve ser interpretada como “deve-se pagar por tudo aquilo que se usa”. Pedro Luís (esse no conozco; meu interesse ativo por música popular cessou nessa época de NY), diz que “Todo mundo que é ingrediente do sucesso deve ser remunerado. (…) E o assunto do produto, não?”

Eis que voltamos à música de Antônio Maria e Ismael Netto, a “Valsa de uma cidade”. Deveriam eles ter pago royalties à prefeitura do Rio para poder compor sobre o calçadão da orla? Se não me engano, “Drão”, de Gilberto Gil, é sobre ou para sua ex-mulher Sandra – cadê o dinheiro da Sandra? Será que Machado de Assis não deveria aliás indenizar a cidade porque em Dom Casmurro o mar, violento, mata um dos personagens principais? (Não vou nem falar que aquele maldito misógino comparou os olhos de Capitu à “vaga do mar lá fora”, ou seja, deu-lhe um olhar assassino.)

Preciso continuar?

Vejam, caros músicos. Se é justo que vocês recebam quando o assunto são vocês mesmos, podem dar o exemplo é começar a remunerar os assuntos que usaram.

Governo não é literatura

Lembro de ver, nos anos 1990, Gustavo Dahl falando da “importância estratégica” do cinema. Para ele, Hollywood era quase o ministério da Cultura americano – e os EUA, numa frase imortal de Olavo de Carvalho, “uma espécie de União Soviética de direita”. Sem querer discutir todas as acepções do termo, nem o que isso pode significar em tempos de NSA, devo dizer que é dessa cena que me lembro quando penso no que Paulo Coelho tem dito a respeito da delegação brasileira presente na Feira de Frankfurt.

Como a imprensa tem divulgado, Paulo Coelho, o autor brasileiro mais vendido de todos os tempos (sobretudo por causa de O alquimista), recusou-se a participar da delegação por achar que outros autores com força comercial deveriam ter sido convidados.

Colocando à parte as minhas próprias inclinações pessoais, e tentando raciocinar em termos – olha a farofa na boca! – “geopolíticos”, não é difícil imaginar que, se o objetivo do governo brasileiro é aumentar a projeção da cultura brasileira, então parece boa ideia investir em autores que vendam bem. Nesse ponto, parece ter razão o coordenador da programaçao brasileira ao dizer à Folha, na matéria já linkada:

“Em sua maioria, são autores que estão despertando amplo interesse em editores internacionais, […] que vêm se abrindo para as mais diferentes vertentes da nossa literatura contemporânea, para além da literatura mais palátavel ao gosto comum.”

Se isso é verdade, é preciso dizer que Paulo Coelho se equivoca duplamente ao dizer:

“Eu duvido que sejam todos escritores profissionais. Dos 70 escritores convidados (LISTA AQUI), eu conheço apenas 20, então os outros 50 nunca ouvi falar. Presumo que sejam amigos de amigos de amigos. Nepotismo.”

São todos escritores. Na pior das hipóteses, era só colocar o nome deles no Google. E, se há escritores comerciais que ele não conhece, então talvez seja ele que esteja defendendo seus próprios amigos. O pior é que eu até simpatizo com essa atitude; com meu temperamento intempestivo, teria feito a mesma coisa.

O argumento contrário ao pró-comercial diria que autores que vendem bem não “precisam” de apoio do governo. Acho que existe um equívoco aí. Qual é o propósito da delegação? Como o governo vai medir o sucesso ou o fracasso de seu investimento? E, por favor, não venham falar que literatura não é mercadoria na feira de Frankfurt. A feira de Frankfurt é como uma Bienal do Livro (só que anual) em que agentes e editoras do mundo inteiro vão negociar direitos autorais. Não venham falar que feira não deve ter mercadoria.

Feira, mercadoria, mercado. Vejam, agora trazendo as minhas convicções pessoais, eu não vejo nada de errado com o que essas palavras indicam. O dinheiro do governo não é criado pelas musas, mas pela atividade econômica das pessoas. A minha pergunta é: se você está tirando dinheiro das pessoas para realizar um investimento, não é razoável (nem que seja como atenuante) ser prudente com o investimento? Ou o objetivo do governo não é aumentar a projeção do Brasil no exterior?

Agora, fosse eu jornalista, nem precisaria ir a Frankfurt para investigar o seguinte. Quanto dinheiro o governo gastou? E as editoras privadas, gastaram quanto? Quantos negócios foram fechados por interferência do governo, quantos por esforços privados, quais os valores? Os critérios, pois é, não são literários. São econômicos. Governo não é literatura. Talvez verifiquemos que o governo não deveria apoiar quem vende pouco porque os resultados seriam pífios, nem deveria apoiar quem vende muito porque essas pessoas realmente não precisam de ajuda…

Galeão & Cumbica

Nossa presidente Dilma Rousseff propôs cinco pactos, diz-me a imprensa. De um deles, já teria desistido, ou ao menos estaria reavaliando o que deseja fazer. Os outros quatro pactos são um primor: um fala em responsabilidade fiscal, e os outros só falam em gastos. Aliás, o pacto da mobilidade urbana fala em 50 bilhões de reais saídos diretamente do Tesouro.

Presidente, se a senhora apregoa a responsabilidade fiscal, o que vai cortar para transferir dinheiro para aquelas metas? Podemos dar sugestões? Podemos fazer passeatas pedindo a redução dos salários e das aposentadorias da burocracia? Podemos iniciar a discussão prática de onde cortar? A senhora vai anunciar quando o prazo para propostas? Eu, por exemplo, sem pensar muito, acho que a verba publicitária do governo pode ser violentamente reduzida (bota violentamente nisso), que cada deputado pode viver com um salário, talvez uns dois assessores e zero passagens (ele trabalha em Brasília, que faça contato com as bases via Skype como todos nós), zero planos especiais, zero etc., o que vale, é claro, para os demais cargos da burocracia, que manteriam, é claro, o direito de criar suas organizações privadas de classe.

Afinal, presidente, se a senhora está propondo responsabilidade fiscal e aumento de gastos ao mesmo tempo, faz isso por quê? Por ser idiota ou por acreditar na nossa ilimitada idiotice? Veja que sou receptivo às duas propostas, e sei que uma não exclui a outra. Também sei que a política é o domínio do marketing, e que o marketing é o domínio da neurolinguística, e me pergunto se a senhora não está apenas provocando estímulos contraditórios para nos deixar estupefatos e atônitos enquanto os absurdos se perpetuam.

Nesse nível de discussão, francamente, só consigo pensar em Roberto Campos, que dizia que o Brasil tinha duas saídas: Galeão e Cumbica.

Velho do Restelo 1 x 0 Dilma Rousseff

lusiadas

Abro o Diário do Balneário e me deparo com a informação de que nossa presidente Dilma Rousseff ontem chamou a oposição de “Velho do Restelo” (vai o link para o Estadão porque achei primeiro). Confesso, não sou de rir sozinho diante de notícias, dou no máximo um sorrisinho, até porque o riso é mimético e demanda a presença de outras pessoas, mas essa mancada me fez gargalhar.

O Velho do Restelo é um personagem que aparece nos Lusíadas após a partida das naus de Vasco da Gama. Se é verdade que Vasco da Gama é o herói dos Lusíadas, também é verdade que Camões, que conheceu a colonização portuguesa onde ela acontecia, na África e na Ásia, e não apenas na metrópole, inseriu esse personagem para fazer um contraponto à euforia das navegações. O Velho do Restelo observa que sem as mãos jovens os velhos e as crianças ficam desprotegidos (contra invasões) e descuidados. Diz que as navegações são fruto da “glória de mandar” e da “vã cobiça”. Na verdade, o Velho do Restelo confirma avant la lettre toda a ideia de que as navegações eram uma forma maldosa de exploração, toda a narrativa da esquerda contemporânea.

Mais ainda, Os Lusíadas pode ser uma obra de ficção, mas é uma obra baseada em fatos reais, e que adquire ainda mais relevância quando colocada em seu contexto histórico e político, e não apenas literário. Se ela foi publicada em 1572, apenas seis anos depois Portugal sofreria a maior derrota de sua história, causada justamente pela euforia de Dom Sebastião, jovem monarca que se julgou capaz de enfrentar sozinho os mouros e cujo corpo desapareceu no Alcácer. Se o Velho do Restelo tivesse sido ouvido, não teria havido sebastianismo, nem União Ibérica, e o mundo hoje seria muito diferente. Nunca conheci um professor de literatura portuguesa que não observasse isso e que não demonstrasse simpatia pelo Velho do Restelo. Até por amor a Portugal.

Se quiserem me taxar de ideológico pelo que vou dizer, sei lá, mas o que eu espero de um presidente é que dê ouvidos ao Velho do Restelo. Que aja com prudência e que evite o excesso de confiança em suas políticas. E também gostaria, já que estou falando disso, que a própria oposição pudesse ser vagamente comparável àquele “velho de aspecto venerando”. Isso mostra as duas mancadas da presidente: não só ela não é Vasco da Gama nem deveria tentar ser, como falta muito fubá à oposição para merecer a comparação com o Velho.

É verdade também que Camões pode ter tido uma pequenina participação na débacle portuguesa de 1578. Afinal, foi ele quem disse, ao fim dos Lusíadas, que Dom Sebastião realizaria feitos ainda mais esplendorosos do que seus antecessores. Mas, vejam a ironia: Camões provavelmente disse isso, uma inserção considerada tardia, para ver se conseguia algo com o governo. Outra sugestão de que os poderosos não deveriam permitir que os bajuladores os deixassem cheios de si mesmos e antes procurassem a companhia dos críticos.

O mito do comércio equilibrado

Noite dessas, jantava eu com um bom amigo a serviço do governo federal, e conversávamos sobre a estranha ideia de que o comércio entre países deve ser equilibrado – isso é, que o país A deve vender para o país B o mesmo tanto que B vende para A. Logo comentei, recordando outro jantar, que um empresário reclamava de como os burocratas acham que o comércio é feito entre países, e não entre empresas. O amigo rapidamente trouxe uma história verídica: tendo as autoridades brasileiras comunicado às autoridades de um pequeno país do oriente a sua preocupação com o fato de o Brasil vender muito mais para aquele país do que dele comprava, recebeu como resposta que não havia motivo nenhum de preocupação: se os empresários de lá estavam contentes em importar produtos brasileiros, então tudo bem; aliás, se fossem parar de importar os produtos brasileiros, então de quem importariam?

Em seu aspecto mais básico, a questão é bastante simples: não havendo desonestidade, toda relação comercial é equilibrada. Um compra, o outro vende. Um dá o produto ou serviço, o outro dá o dinheiro. Naquele jantar, logo observamos que, se eu compro uma TV da Sony, não acho que tenho uma relação desequilibrada com a Sony porque ela não comprou os meus serviços. Eu, que sou tradutor, logo imagino o caos provocado se eu fosse ao supermercado que frequento e dissesse que, tendo gastado lá tantos dinheiros naquele mês, agora esperava que o supermercado gastasse os mesmos tantos dinheiros com meus serviços de tradução. Morando aqui em Copacabana, bairro repleto de turistas, talvez eu pudesse servir de intérprete algumas horas todo mês a fim de “equilibrar” essa relação.

Dirão as gentes mais à esquerda que o país não é uma pessoa. Serão aquelas mesmas gentes que dizem que o governo não deve praticar austeridade para sanar dívidas, como faria uma pessoa. E, sendo o governo o produtor do dinheiro, e o maior cliente em muitas economias, admito que possa haver aí alguma complicação, embora o leitor há de convir que o exemplo dado pelos burocratas que assim agem só faz gerar ressentimento. Quisera eu convencer o cartão de crédito de que a solução para a minha elevada fatura é uma ampliação do crédito – e que a negação disso é alarmismo, pessimismo, opressão, maldade.

Mas tergiverso, ou quase. Se o país não é uma pessoa, daí não se segue que o comércio entre países deva ser “equilibrado”, porque, recordando o amigo empresário, só para começar, não é entre países que o comércio acontece, mas entre empresas e consumidores. O país, ou melhor, o governo, está apenas taxando, fiscalizando e aporrinhando. E está violando, com essa crença, a ancestral lei das vantagens comparativas, que diz que produz-se segundo a especialidade. Nossas excelsas autoridades recusam-se a dar vantagens comparativas para o Brasil mantendo um dos piores ambientes de negócios do mundo, e por essa razão as atividades mais lucrativas aqui em grande parte são as mesmas de há séculos: as extrativistas. O mesmo princípio de vantagens comparativas vale para pessoas, sob a forma de custo de oportunidade: se eu fosse parar de traduzir para construir os móveis que utilizo, bem.

Agora, digo-vos uma coisa. Se quiserdes conhecer tragédias de pessoas que foram e são forçadas por seus governos a pagar mais por produtos, a fim de favorecer descaradamente algum empresário local, simplesmente porque governos julgaram que deveriam “equilibrar as balanças comerciais”, isso ao mesmo tempo em que mantinham um ambiente de negócios viciados, basta que reinterpreteis o que sai nos suplementos de economia dos jornais. E se, depois disso, não vierdes nem mesmo uma pequena inclinação para o liberalismo comercial, então só posso dizer: ou tendes um coração de pedra, ou estais a ganhar com esse sistema.

Homofobia, o novo racismo

Nos anos 1990, quem era contra as cotas universitárias para negros era imediatamente tachado de racista por aqueles que eram a favor das cotas. Passou o tempo e isso mudou. Hoje muita gente é contra as cotas, e ninguém no mainstream diz que essas pessoas são racistas. Pode até haver uma acusação de racismo dirigida a esse ente vago chamado “a sociedade”, mas não há acusação de racismo direta.

O termo “homofóbico” hoje equivale ao “racista” dos anos 1990. Eu mesmo sou a favor do casamento civil gay, mas não posso ser a favor de que qualquer pessoa contrária a ele seja tachada de “homofóbica” – palavra que, aliás, nunca consegui entender. Fobia não é medo? Mas bem. Seria igualmente ridículo se eu chamasse os militantes do homossexualismo de “religiofóbicos” ou “Cristofóbicos”.

Três dias seguidos a mesma sentença – na primeira página do jornal

Num lance que, francamente, considero um dos mais cômicos desde minha alfabetização, meu querido Diário do Balneário – que também atende pelo codinome de O Globo – colocou, durante três dias seguidos, ao menos até agora, em sua primeira página – sim, na primeira página – a mesma sentença. Ei-la, senhores: “Vaticano enfraquece documento da Rio+20.”

Não, não foram informações diferentes sobre um mesmo assunto. Não foi a sequência de uma história em pleno desenvolvimento no mundo dos fatos. Foi apenas a mesmíssima sentença: “Vaticano enfraquece documento da Rio+20”. No primeiro dia, a sentença veio modalizada por um “até”. Até o Vaticano! Mas como assim? Será que o Diário do Balneário queria dizer que todo mundo foi lá e deu uma enfraquecida no documento, inclusive o Vaticano? Será que o Diário queria dar um tom dramático, shakesperiano, como alguém que perguntasse: até tu, Vaticano?

Mas o fato extraordinário – realmente um homem mordendo um cachorro – é a repetição da mesma informação na primeira página durante três dias seguidos. E a sentença se refere ao seguinte fato, também reportado no mesmo jornal: no documento final da Rio+20, em vez de aparecer a expressão “direitos reprodutivos”, aparece “saúde reprodutiva”.

Não creio que vão me chamar de louco e enraivecido especulador se eu observar que, caramba!, isso realmente deve ter incomodado alguém dentro do jornal. Terá sido um editor, um sócio talvez, que agora se sente chamado a lutar pelas grandes causas da humanidade, tendo esse sentimento sido despertado em seu peito por tão augusta conferência para a qual ele não foi chamado? Alguém que, de tanto tocar um sininho para chamar a empregada, só consegue compreender que o único mal do mundo é ter de sofrer as consequências de suas concupiscências? Ou terá sido alguma senhorita que, sendo ela própria testemunha de que a adoção das visões mais politicamente sustentáveis costuma corresponder à entrada naquela mesma elite a que pertence o editor? Esses personagens são interessantes, mesmo – e não vejo ninguém tentando retratá-los. O Brasil passa por uma troca de elites, é uma situação digna de O Leopardo de Lampedusa, e onde estão nossos romancistas?

Interessante também é que o jornal não conta como aconteceu essa pressão. É algo também muito curioso. Será que o Papa ameaçou os líderes presentes na Rio+20 com a excomunhão? Será que os líderes presentes, após uma conversão em massa ao catolicismo, quiseram mostrar serviço a seus confessores? Hoje o jornal menciona um discurso de Dom Odilo Scherer, que foi nomeado pelo Vaticano seu representante para a conferência. Se um discurso de Dom Odilo Scherer bastou para mudar um documento da ONU e para fazer os jornalistas de O Globo repetirem a sua revolta indignada por três dias seguidos na primeira página do jornal, o que posso fazer além de imaginar uma exortação digna de Jesus expulsando os demônios, que agora se contorcem confusos? Ou, se houver algum jornalista lendo este texto, será que você pode me explicar como foi que o Vaticano alterou o documento final da Rio+20?

Gracejos à parte, não é nem um pouco difícil imaginar qualquer editor explicando que, mesmo tendo repetido por três dias seguidos a mesma sentença em sua primeira página, o jornal não tem ideologia, não tem uma agenda, está apenas informando etc. etc. etc. Caro editor, você pode, dependendo da sua inteligência, ou do quanto já não distingue a sua cara da sua cara de pau, realmente esperar que os leitores acreditem nisso, o que eu julgaria algo que admira e consterna.

Por outro lado, eu mesmo creio que é preciso observar a polarização ideológica cada vez maior do Brasil. Nossas percepções da imprensa estão se americanizando, no sentido de que a ideia de um veículo vagamente neutro já não tem qualquer credibilidade, de nenhum dos lados do espectro – e, nesse sentido, a tríplice acusação de O Globo é apenas um exemplo cômico e caricato. No que diz respeito à religião especificamente, devo dizer que sou suficientemente de classe média para transitar nos extremos das classes sociais sem me impressionar tanto, e cada vez fica mais evidente que a religião hoje é quase uma coisa de pobre, algo que marca (ou estigmatiza, comme vous voulez) aqueles que têm de lutar pela sobrevivência e que os distingue daqueles que tocam sininho para chamar a empregada ou que querem vir a tocar, não importando a opinião que tenham de repetir para que isso se concretize. Estamos a um passo de pensar, como os americanos, em termos de religiosos broncos versus ateus & agnósticos esclarecidos. Que uma elite que aliena e esnoba sem peso na consciência a maior parte da população se julgue a grande defensora do povo, eis algo que, dependendo do dia, me provoca riso ou pesar, recordando-me ora Molière, ora Dostoiévski.