Velho do Restelo 1 x 0 Dilma Rousseff

lusiadas

Abro o Diário do Balneário e me deparo com a informação de que nossa presidente Dilma Rousseff ontem chamou a oposição de “Velho do Restelo” (vai o link para o Estadão porque achei primeiro). Confesso, não sou de rir sozinho diante de notícias, dou no máximo um sorrisinho, até porque o riso é mimético e demanda a presença de outras pessoas, mas essa mancada me fez gargalhar.

O Velho do Restelo é um personagem que aparece nos Lusíadas após a partida das naus de Vasco da Gama. Se é verdade que Vasco da Gama é o herói dos Lusíadas, também é verdade que Camões, que conheceu a colonização portuguesa onde ela acontecia, na África e na Ásia, e não apenas na metrópole, inseriu esse personagem para fazer um contraponto à euforia das navegações. O Velho do Restelo observa que sem as mãos jovens os velhos e as crianças ficam desprotegidos (contra invasões) e descuidados. Diz que as navegações são fruto da “glória de mandar” e da “vã cobiça”. Na verdade, o Velho do Restelo confirma avant la lettre toda a ideia de que as navegações eram uma forma maldosa de exploração, toda a narrativa da esquerda contemporânea.

Mais ainda, Os Lusíadas pode ser uma obra de ficção, mas é uma obra baseada em fatos reais, e que adquire ainda mais relevância quando colocada em seu contexto histórico e político, e não apenas literário. Se ela foi publicada em 1572, apenas seis anos depois Portugal sofreria a maior derrota de sua história, causada justamente pela euforia de Dom Sebastião, jovem monarca que se julgou capaz de enfrentar sozinho os mouros e cujo corpo desapareceu no Alcácer. Se o Velho do Restelo tivesse sido ouvido, não teria havido sebastianismo, nem União Ibérica, e o mundo hoje seria muito diferente. Nunca conheci um professor de literatura portuguesa que não observasse isso e que não demonstrasse simpatia pelo Velho do Restelo. Até por amor a Portugal.

Se quiserem me taxar de ideológico pelo que vou dizer, sei lá, mas o que eu espero de um presidente é que dê ouvidos ao Velho do Restelo. Que aja com prudência e que evite o excesso de confiança em suas políticas. E também gostaria, já que estou falando disso, que a própria oposição pudesse ser vagamente comparável àquele “velho de aspecto venerando”. Isso mostra as duas mancadas da presidente: não só ela não é Vasco da Gama nem deveria tentar ser, como falta muito fubá à oposição para merecer a comparação com o Velho.

É verdade também que Camões pode ter tido uma pequenina participação na débacle portuguesa de 1578. Afinal, foi ele quem disse, ao fim dos Lusíadas, que Dom Sebastião realizaria feitos ainda mais esplendorosos do que seus antecessores. Mas, vejam a ironia: Camões provavelmente disse isso, uma inserção considerada tardia, para ver se conseguia algo com o governo. Outra sugestão de que os poderosos não deveriam permitir que os bajuladores os deixassem cheios de si mesmos e antes procurassem a companhia dos críticos.

O mito do comércio equilibrado

Noite dessas, jantava eu com um bom amigo a serviço do governo federal, e conversávamos sobre a estranha ideia de que o comércio entre países deve ser equilibrado – isso é, que o país A deve vender para o país B o mesmo tanto que B vende para A. Logo comentei, recordando outro jantar, que um empresário reclamava de como os burocratas acham que o comércio é feito entre países, e não entre empresas. O amigo rapidamente trouxe uma história verídica: tendo as autoridades brasileiras comunicado às autoridades de um pequeno país do oriente a sua preocupação com o fato de o Brasil vender muito mais para aquele país do que dele comprava, recebeu como resposta que não havia motivo nenhum de preocupação: se os empresários de lá estavam contentes em importar produtos brasileiros, então tudo bem; aliás, se fossem parar de importar os produtos brasileiros, então de quem importariam?

Em seu aspecto mais básico, a questão é bastante simples: não havendo desonestidade, toda relação comercial é equilibrada. Um compra, o outro vende. Um dá o produto ou serviço, o outro dá o dinheiro. Naquele jantar, logo observamos que, se eu compro uma TV da Sony, não acho que tenho uma relação desequilibrada com a Sony porque ela não comprou os meus serviços. Eu, que sou tradutor, logo imagino o caos provocado se eu fosse ao supermercado que frequento e dissesse que, tendo gastado lá tantos dinheiros naquele mês, agora esperava que o supermercado gastasse os mesmos tantos dinheiros com meus serviços de tradução. Morando aqui em Copacabana, bairro repleto de turistas, talvez eu pudesse servir de intérprete algumas horas todo mês a fim de “equilibrar” essa relação.

Dirão as gentes mais à esquerda que o país não é uma pessoa. Serão aquelas mesmas gentes que dizem que o governo não deve praticar austeridade para sanar dívidas, como faria uma pessoa. E, sendo o governo o produtor do dinheiro, e o maior cliente em muitas economias, admito que possa haver aí alguma complicação, embora o leitor há de convir que o exemplo dado pelos burocratas que assim agem só faz gerar ressentimento. Quisera eu convencer o cartão de crédito de que a solução para a minha elevada fatura é uma ampliação do crédito – e que a negação disso é alarmismo, pessimismo, opressão, maldade.

Mas tergiverso, ou quase. Se o país não é uma pessoa, daí não se segue que o comércio entre países deva ser “equilibrado”, porque, recordando o amigo empresário, só para começar, não é entre países que o comércio acontece, mas entre empresas e consumidores. O país, ou melhor, o governo, está apenas taxando, fiscalizando e aporrinhando. E está violando, com essa crença, a ancestral lei das vantagens comparativas, que diz que produz-se segundo a especialidade. Nossas excelsas autoridades recusam-se a dar vantagens comparativas para o Brasil mantendo um dos piores ambientes de negócios do mundo, e por essa razão as atividades mais lucrativas aqui em grande parte são as mesmas de há séculos: as extrativistas. O mesmo princípio de vantagens comparativas vale para pessoas, sob a forma de custo de oportunidade: se eu fosse parar de traduzir para construir os móveis que utilizo, bem.

Agora, digo-vos uma coisa. Se quiserdes conhecer tragédias de pessoas que foram e são forçadas por seus governos a pagar mais por produtos, a fim de favorecer descaradamente algum empresário local, simplesmente porque governos julgaram que deveriam “equilibrar as balanças comerciais”, isso ao mesmo tempo em que mantinham um ambiente de negócios viciados, basta que reinterpreteis o que sai nos suplementos de economia dos jornais. E se, depois disso, não vierdes nem mesmo uma pequena inclinação para o liberalismo comercial, então só posso dizer: ou tendes um coração de pedra, ou estais a ganhar com esse sistema.

Homofobia, o novo racismo

Nos anos 1990, quem era contra as cotas universitárias para negros era imediatamente tachado de racista por aqueles que eram a favor das cotas. Passou o tempo e isso mudou. Hoje muita gente é contra as cotas, e ninguém no mainstream diz que essas pessoas são racistas. Pode até haver uma acusação de racismo dirigida a esse ente vago chamado “a sociedade”, mas não há acusação de racismo direta.

O termo “homofóbico” hoje equivale ao “racista” dos anos 1990. Eu mesmo sou a favor do casamento civil gay, mas não posso ser a favor de que qualquer pessoa contrária a ele seja tachada de “homofóbica” – palavra que, aliás, nunca consegui entender. Fobia não é medo? Mas bem. Seria igualmente ridículo se eu chamasse os militantes do homossexualismo de “religiofóbicos” ou “Cristofóbicos”.

Três dias seguidos a mesma sentença – na primeira página do jornal

Num lance que, francamente, considero um dos mais cômicos desde minha alfabetização, meu querido Diário do Balneário – que também atende pelo codinome de O Globo – colocou, durante três dias seguidos, ao menos até agora, em sua primeira página – sim, na primeira página – a mesma sentença. Ei-la, senhores: “Vaticano enfraquece documento da Rio+20.”

Não, não foram informações diferentes sobre um mesmo assunto. Não foi a sequência de uma história em pleno desenvolvimento no mundo dos fatos. Foi apenas a mesmíssima sentença: “Vaticano enfraquece documento da Rio+20”. No primeiro dia, a sentença veio modalizada por um “até”. Até o Vaticano! Mas como assim? Será que o Diário do Balneário queria dizer que todo mundo foi lá e deu uma enfraquecida no documento, inclusive o Vaticano? Será que o Diário queria dar um tom dramático, shakesperiano, como alguém que perguntasse: até tu, Vaticano?

Mas o fato extraordinário – realmente um homem mordendo um cachorro – é a repetição da mesma informação na primeira página durante três dias seguidos. E a sentença se refere ao seguinte fato, também reportado no mesmo jornal: no documento final da Rio+20, em vez de aparecer a expressão “direitos reprodutivos”, aparece “saúde reprodutiva”.

Não creio que vão me chamar de louco e enraivecido especulador se eu observar que, caramba!, isso realmente deve ter incomodado alguém dentro do jornal. Terá sido um editor, um sócio talvez, que agora se sente chamado a lutar pelas grandes causas da humanidade, tendo esse sentimento sido despertado em seu peito por tão augusta conferência para a qual ele não foi chamado? Alguém que, de tanto tocar um sininho para chamar a empregada, só consegue compreender que o único mal do mundo é ter de sofrer as consequências de suas concupiscências? Ou terá sido alguma senhorita que, sendo ela própria testemunha de que a adoção das visões mais politicamente sustentáveis costuma corresponder à entrada naquela mesma elite a que pertence o editor? Esses personagens são interessantes, mesmo – e não vejo ninguém tentando retratá-los. O Brasil passa por uma troca de elites, é uma situação digna de O Leopardo de Lampedusa, e onde estão nossos romancistas?

Interessante também é que o jornal não conta como aconteceu essa pressão. É algo também muito curioso. Será que o Papa ameaçou os líderes presentes na Rio+20 com a excomunhão? Será que os líderes presentes, após uma conversão em massa ao catolicismo, quiseram mostrar serviço a seus confessores? Hoje o jornal menciona um discurso de Dom Odilo Scherer, que foi nomeado pelo Vaticano seu representante para a conferência. Se um discurso de Dom Odilo Scherer bastou para mudar um documento da ONU e para fazer os jornalistas de O Globo repetirem a sua revolta indignada por três dias seguidos na primeira página do jornal, o que posso fazer além de imaginar uma exortação digna de Jesus expulsando os demônios, que agora se contorcem confusos? Ou, se houver algum jornalista lendo este texto, será que você pode me explicar como foi que o Vaticano alterou o documento final da Rio+20?

Gracejos à parte, não é nem um pouco difícil imaginar qualquer editor explicando que, mesmo tendo repetido por três dias seguidos a mesma sentença em sua primeira página, o jornal não tem ideologia, não tem uma agenda, está apenas informando etc. etc. etc. Caro editor, você pode, dependendo da sua inteligência, ou do quanto já não distingue a sua cara da sua cara de pau, realmente esperar que os leitores acreditem nisso, o que eu julgaria algo que admira e consterna.

Por outro lado, eu mesmo creio que é preciso observar a polarização ideológica cada vez maior do Brasil. Nossas percepções da imprensa estão se americanizando, no sentido de que a ideia de um veículo vagamente neutro já não tem qualquer credibilidade, de nenhum dos lados do espectro – e, nesse sentido, a tríplice acusação de O Globo é apenas um exemplo cômico e caricato. No que diz respeito à religião especificamente, devo dizer que sou suficientemente de classe média para transitar nos extremos das classes sociais sem me impressionar tanto, e cada vez fica mais evidente que a religião hoje é quase uma coisa de pobre, algo que marca (ou estigmatiza, comme vous voulez) aqueles que têm de lutar pela sobrevivência e que os distingue daqueles que tocam sininho para chamar a empregada ou que querem vir a tocar, não importando a opinião que tenham de repetir para que isso se concretize. Estamos a um passo de pensar, como os americanos, em termos de religiosos broncos versus ateus & agnósticos esclarecidos. Que uma elite que aliena e esnoba sem peso na consciência a maior parte da população se julgue a grande defensora do povo, eis algo que, dependendo do dia, me provoca riso ou pesar, recordando-me ora Molière, ora Dostoiévski.

Ter um bom lobby é mais importante do que ter razão

Não sei se sou contra as cotas em si. Sou contra soluções políticas que gerem ressentimentos ou que tenham a propensão a aumentar conflitos de modo geral. Não sei avaliar as cotas por esse princípio. Até porque, na verdade, ele me parece profundamente brasileiro: criar cotas, ou conceder privilégios a grupos, é a maneira brasileira de administrar conflitos. Então você quer fazer uma peça que ninguém quer assistir? Toma aqui a chupeta da Lei Rouanet, meu filho. Assim, vendo cotas, bocejo e penso: a mesma lógica aplicada a um caso diferente. Nós liberais não repetimos a frase de Bastiat que diz que o Estado é a grande ficção pela qual todos tentam viver às custas de todos?

(É claro que essa lógica levada ao extremo levará à implosão do Estado. Mas isso é outra história.)

Mas creio também que nós que por tanto tempo fomos contra as cotas negligenciamos um ponto deveras óbvio: houve a escravidão, e ela foi abolida sem que os negros recebessem qualquer reparação. Na verdade, o governo imperial ofereceu uns empréstimos aos donos de escravos para apaziguar a eles, fazendeiros, o que só demonstra que, mais importante do que ter razão, é ter um bom lobby, e isso desde sempre. O que exatamente deveria ter sido feito, eu não tenho a menor ideia, e isso me faz pensar que, bom, cotas são alguma coisa. Não sei se são uma boa coisa. Mas sei que são alguma coisa, e do outro lado não existe uma contraproposta.

Existe um paradoxo, que muito me interessa, e para o qual muitos conservadores não atentam. O cristianismo pode ser entendido como a defesa das vítimas. O conservadorismo quer um Estado que se baseie em valores cristãos. Então o Estado tem de defender as vítimas. Sim, eu sei que ao dizer isso estou dizendo que qualquer grupo que se venda como vítima (justa ou injustamente, o mérito não importa, o que importa é a percepção) vai acabar ganhando privilégios (devidos ou indevidos, não importa etc.). Mas volte ao início do parágrafo: falei em paradoxo. O politicamente correto só pode existir no mundo cristianizado. Nietzsche tinha razão. Conservadores e esquerdistas concordam que o dinheiro de quem paga impostos deve ser usado para defender vítimas. Sejam vítimas da concorrência das empresas estrangeiras ou da escravidão, a estrutura do raciocínio é a mesma.

Não terminamos aí no que diz respeito a paradoxos. Há também o negócio de que todos são iguais perante a lei, mas a lei deve tratar os desiguais na medida de sua desigualdade. (Não é a minha opinião, você abre qualquer livro de Direito e isso está lá.) Então a defesa das cotas pode se seguir mais ou menos desse segundo princípio, o mesmo princípio, aliás, que leva à existência de uma defensoria pública, porque todos têm direito de defesa, mas nem todos podem pagar advogado etc. Eu estou dizendo que isso é um paradoxo porque muitos conservadores vão defender a premissa sem aceitar a consequência. E, francamente, é esse tipo de desatenção que solapa o conservadorismo brasileiro. (Não que eu ache que a nossa esquerda se distinga pela finesse de seus raciocínios, nem que deixe de cometer o mesmo pecado, que é aceitar as premissas e recusar a conclusão.)

Porém, os conservadores têm razão ao apontar a idiotice de boa parte do discurso associado à defesa das cotas. “Consciência negra” é algo que faz tanto sentido quanto “consciência branca”. Os conservadores também têm razão em dizer, é claro, que esse tipo de discurso gera ressentimento. Sei que muita gente na esquerda pensa que o que falta é ressentimento, o que falta é combate e combatividade. Eu penso nos tumultos de Los Angeles.

De minha parte, em termos práticos, penso o seguinte. Sou contra a lei do racismo por várias razões, mas vou apresentar apenas uma. Se ela fosse cumprida à risca, teríamos um caso de fiat justitia, pereat mundus, e boa parte dos velhinhos brancos do Brasil teriam de ir para o xilindró. A esquerda fica enchendo o saco com a superlotação dos presídios (provavelmente uma causa justa) e não pode se esquivar dessa questão. Ou vamos prender todo mundo que se declara aliviado por ver que os netos não namoram negros ou vamos admitir que qualquer mudança de mentalidade demora um tempo. De minha parte, creio mesmo que o racismo é uma questão em grande parte geracional, e só tende a desaparecer. Agora, se é para fazer lei, então é para cumprir. A lei do racismo serve sobretudo para desmoralizar o Estado brasileiro.

Também penso, como liberal, que a melhor solução acabaria ajudando a todos, de todas as raças e de todas as autodescrições do censo, que é a pura liberalização. Se há mais de 100 anos o negro pudesse empreender (e não vamos esquecer da odiosa Lei de Terras imperial), e o branco pobre também, e o índio, e qualquer um; se tivéssemos um sistema jurídico que incentivasse o trabalho livre e não o lobby por privilégios, a situação dos negros seria muitíssimo diferente. Do jeito que está, como já observei, negar aos negros o direito de fazer lobby por privilégios é praticamente negar-lhes o direito a ser brasileiros. Mas o governo poderia fazer a reforma tributária, por exemplo. Seria bem mais difícil do que dar cotas para meia dúzia de negros, até porque isso significaria que o governo teria de abdicar do seu poder de pressionar e de parasitar a sociedade. Seria benéfico também porque subverteria a questão. Em vez de os negros pensarem que benefícios podem extrair do governo, poderiam relegar o governo a seu devido plano de fundo (sim, querida esquerda, a redução do governo, sua desmistificação, é isso mesmo que eu quero) e colher eles mesmos os benefícios do seu trabalho. Não era isso que a escravidão os impedia de fazer?

Maternidade opcional x paternidade obrigatória

Já sei de antemão que o que vou dizer corre um sério risco de ser mal entendido, mas mesmo assim lá vai: defender o direito ao aborto, defender aquilo que hoje chamam de (peraí que eu vou encher a boca de farofa, porque só assim é possível falar as palavras a seguir) “empoderamento” e “direitos reprodutivos” da mulher, é defender que a maternidade é opcional. No entanto, existe um movimento no Brasil para que o reconhecimento de paternidade seja obrigatório.

Daí que, pergunto eu, não podemos considerar o abandono da mulher grávida pelo engravidador como uma espécie de aborto tácito? Veja-se, por exemplo, que o homem sequer propôs que o filho fosse despedaçado vivo ou tivesse o crânio arrebentado para que um tubo de sucção pudesse mecanicamente cumprir o resto do serviço. Ele simplesmente entregou a criança à sorte, ou à mãe. Se isso é bom ou mau, vou deixar que os seus preconceitos decidam.

Não deveria o homem também gozar de (farofa, peraí) “direitos reprodutivos”, tendo pelo menos até uma certa data para avisar à mulher se deseja ou não aquela gravidez dela, e tornar-se, segundo sua opção, responsável materialmente pela criança, ou, desculpe, por aquele monte de células? Por que os (já estou quase engasgando de tanta farofa) “direitos reprodutivos” da mulher supõem o dever do homem de arcar materialmente com a decisão que, dizem os abortistas, cabe exclusivamente à mulher?

Devo recordar que eu mesmo sou violentamente contra o aborto, mas isso não me impede de observar a tremenda incoerência naquilo que se propõe. Se a mulher puder abortar, o homem também tem de poder. Não ficam dizendo (acho que até em alguma das encíclicas publicadas por algum ministro do STF) que se homem ficasse grávido haveria clínicas de aborto em cada esquina? Então por que a lei desse país machista patriarcal patriarqueiro falocêntrico capitalista selvagem opressor fica obrigando os homens a reconhecer a paternidade de crianças que eles abandonaram quando elas ainda não passavam de montes de células sem vida indistinguíveis de um tumor?

Em suma: não dá para defender que a maternidade é opcional sem que a paternidade seja opcional também. Se a sociedade adota o caminho da ausência de responsabilidade individual, propondo até que “ausência de condições psicológicas” seja razão para uma mulher justificar o aborto, eu não sei porque é que um homem não poderia alegar a mesma coisa.

Mas enfim, mas enfim, o mais importante mesmo é que vejam a minha modesta proposta como uma especulação, e não que pensem que estou a cobrar coerência, de dedo em riste, de quem já abdicou da ideia de responsabilidade individual própria. Porque eu sou que nem o Leonard Cohen. I have seen the future – it is murder.

A meia entrada, esse assunto que é um dos meus favoritos

Já comentei que a meia entrada é um absurdo que deve ser visto dentro de um contexto. Se quem produz espetáculos recebe subsídios diretos e indiretos, e pode produzir sem risco, eu na verdade me pergunto até porque é que ainda cobram ingressos. A arte brasileira não quer sair do Convênio de Taubaté.

Mas o que admira e consterna é ver gente adulta querendo dar a entender que não compreende a mais elementar das obviedades: que uma política de meia entrada terá um impacto no mercado de ingressos. Essa semana, o querido (não é ironia) Diário do Balneário falava de como os ingressos para shows no Rio de Janeiro são, veja só, os mais caros do mundo. Claro que isso em parte vem do mito de que existem preços absurdos. Você acha que um preço é “absurdo” porque desconhece a oferta e a demanda por aquele bem. Porque, como sabe qualquer pessoa que tenha de vender alguma coisa, se algum preço se mantém, é porque as pessoas estão pagando. E se as pessoas estão pagando X, por que vender por menos do que X? É por essa razão que eu sempre disse que a Apple pode fabricar iPhones a cem metros da minha casa que não vai ser por isso que eles vão mudar de preço. Grave o seguinte mantra em sua mente: preço não tem nada a ver com custo. Ou melhor, só tem a ver na medida em que, se o custo de fabricar algo é maior do que seu preço de venda, é melhor você não fabricar esse algo.

Volto à meia entrada e às ingenuidades. Claro que você pode defendê-la dentro do contexto de absurdos: subsídio pra lá, subsídio pra cá. Mesmo assim, vale a pena estudar o Convênio de Taubaté. Cai no ENEM? Enfim. Você também pode falar como um político – e quem não se lembra de Lindbergh Farias no palanque, aquele jovem demagogo? – e dizer que a meia entrada é a salvação da civilização ocidental. Que, assim, os estudantes do Brasil terão acesso à CULTURA: shows do Chiclete com Banana, da Madonna etc. No seu discurso demagogo, você, é claro, não vai tocar na questão de que, assim como uma tarifa ou uma cota interferem no preço de equilíbrio de um produto, também a política de meia entrada interfere. E se quem não lê textos de economia conhece Milton Friedman pela frase “não existe almoço grátis”, podemos reformulá-la da seguinte maneira: alguém paga por tudo que acontece. A meia entrada é só uma ilusão demagógica, na qual você acredita porque é estudante, e não existe grupo mais propenso à demagogia do que os estudantes.

Um produtor de São Paulo demonstrou, no DB, sinceridade e clareza ao dizer que os preços dos ingressos de shows internacionais são altos “porque as curvas da oferta e da demanda se cruzam muito acima”. Pode acrescentar aí a meia entrada: se é verdade que 70% a 90% dos ingressos vendidos são meia, então o preço oficial é bastante aumentado. Não é necessariamente dobrado porque o produtor poder arcar com alguma parte do aumento, embora eu ache difícil que, nesse caso…

O choramingo como valor universal

Lá estão a exigir que o Papa “exija” de Raúl Castro a libertação de todos os presos políticos de Cuba. Exigiram também que a nossa presidente Dilma Roussef fosse lá encher o saco a respeito de direitos humanos. Foge-me que alguém espere que um chefe de Estado em visita oficial vá tocar nesse tipo de assunto. Primeiro porque isso é equivalente a ser convidado à casa de alguém e dizer: “Eu sei o que você fez no verão passado.” Segundo porque é ineficaz. Se é possível creditar o chefe de Estado mais ativista da história recente, isso é, o Papa João Paulo II, com alguma eficácia, então é preciso observar que ele jamais usou a tática de bater o pé & fazer beicinho. É um tanto vergonhoso dizer, mas há outros jeitos de transmitir uma mensagem além de esfregá-la na cara do destinatário, e os meios sutis de ação também funcionam, se é que não funcionam melhor. Vamos lá, querida direita, vocês não ficam acusando a revolução gramsciana? Ao menos alguma coisa poderiam ter aprendido.

As relações internacionais são regidas (em parte) pelo princípio da não-ingerência. O Papa não vai chegar em Cuba e exigir diretamente nada, mesmo que devido, porque não lhe cabe fazer isso naquele momento. Igualmente, Raúl Castro não vai dizer: “Pô, e esse negócio de pedofilia, hein? E esses escândalos financeiros?” Igualmente, ele também não diria a Dilma Rousseff para dar uma olhada nessa história de trabalho escravo.

A declaração mais escandalosa – digamos assim – da história recente de que consigo me lembrar é o famoso discurso de Ronald Reagan em Berlim, em frente ao portão de Brandeburgo, em que ele se dirige diretamente a Gorbachev (que não era um líder alemão, mas soviético), dizendo: “Senhor Gorbachev, derrube esse muro!” (E se você tem treze anos, ele estava falando do Muro de Berlim.) Isso porque foi de um grande contra outro grande. Se a presidente fosse a Cuba fazer exigências, alguém diria que ela está bancando a valentona, ou, em porto-inglês contemporâneo, “fazendo bullying”. Até porque exigências feitas por chefes de Estado precisam ser bancadas pela força. Se o Papa demandasse a libertação de qualquer pessoa, Raúl Castro seria obrigado a recordar a famosa pergunta de Stálin: “Quantas divisões tem o Papa?”

O que me parece estar se estabelecendo é realmente a choradeira como valor universal. Espera-se que a presidente exija, espera-se que o Papa exija, espera-se que fulano se posicione, que beltrano fale. Mas e os resultados? A indignação pública contra algum mal pode não ser o meio mais eficaz de acabar com ele. No entanto, as pessoas serão hoje celebradas e receberão sua carteirinha de sócio do Clube das Pessoas Legais se baterem o pé, não se obtiverem resultados. O que, aliás, até me recorda que ninguém mais do que o então Cardeal Joseph Ratzinger contribuiu para a celeridade nos processos contra pedófilos, inclusive ordenando que fossem entregues às autoridades civis. Mas, como ele não choramingou, não fez um discursinho, você, que se diz imune ao populismo, não vai acreditar.

Sobre a privatização dos aeroportos, ou: O seu PowerPoint é uma navalha

Os aeroportos de Guarulhos, Viracopos e de Brasília são “privatizados” com recursos que vêm do BNDES. 80% dos recursos vêm do BNDES. E vão para fundos de pensão de estatais. Que compram os aeroportos do governo. Se eu entendi bem, é mais ou menos como um cidadão privado usar um cartão de crédito para pagar a fatura do outro cartão de crédito. Essa analogia me parece muito boa: no fim, é o cidadão privado que paga.

O presidente do BNDES e outras otoridades celebram a confiança na economia brasileira. Mas se os recursos vêm do BNDES, isso parece confiança no BNDES. Que tem aquela linha direta com o Tesouro Nacional. Parece mais confiança nas capacidades de o governo de arrecadar e de imprimir dinheiro. Por outro lado, eu não consigo lembrar de atividades econômicas no Brasil que não envolvam o BNDES. O Brasil é o país dos incentivos, não das recompensas: em vez de enriquecer um empresário comprando seu produto ou serviço, o povo brasileiro o enriquece incentivando seu trabalho. Como diria Clarice Lispector, se a burguesia fede, é porque seu PowerPoint é uma navalha.

Mas de repente eu me lembro de que a independência do Brasil aconteceu assim. Houve uma revolução “liberal” em Portugal, que ordenou a volta do rei e o aperto da colonização sobre o Brasil. Então o regente brasileiro libertou o Brasil do liberalismo português e logo depois implementou uma espécie de ditadura.

Não é que depois de lembrar disso tudo comece a fazer sentido. Mas é que, quando liberalismo significa manutenção do exclusivo (pacto) colonial, por que privatização não pode significar uma compra com recursos do governo por consórcios de entes paraestatais?

Sempre a polícia de preços

Talvez seja possível dizer que O Globo é um jornal mais pró-mercado, pró-liberdade econômica, do que o contrário. Estou dizendo isso dessa maneira porque provavelmente o jornal ecoa a opinião geral, de que “deve haver limites à liberdade econômica”. No entanto, volta e meia o jornal resolve encarnar o papel de polícia dos preços. Fiscais do Sarney, o quarto poder (se você é muito jovem, vá procurar o que são os, ou as, “fiscais do Sarney”).

Hoje acordo e lá está aquela matéria que sempre retorna sobre preços “abusivos” de estacionamentos. O pior é que estacionamento não é nem mesmo, digamos, um bem essencial sobre o qual alguém exerça alguma espécie de monopólio. Não é, digamos assim, como a renovação da carteira de motorista, que aqui no Rio custa uns 100 para o Detran, mais a taxa da clínica, e mais um monte de aporrinhação só para você poder continuar fazendo o que sempre fez. Estacionamento em certos lugares é um bem totalmente opcional.

De todo modo, o que não dá é ficar reclamando que o Brasil está sempre mal nos índices de liberdade econômica e depois ficar chamando a polícia do preço nos estacionamentos. O pior é que não consigo dizer que estacionamento é um negócio e compra quem quer sem sentir aquela vergonha idiota por estar dizendo o óbvio. Se eu fosse marxista, diria que isso é apenas uma estratégia do grande capital (que não há de se incomodar com o alto preço de um estacionamento) para aliciar a classe média (que sofre com o alto preço de um estacionamento).

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