A irrelevância da poesia

Um dos versos mais famosos de Auden é “Poetry makes nothing happen”, “a poesia não produz nenhum acontecimento”. Certamente isso acontece porque ninguém lê poesia. E se já se falava em “The Auden Generation” quando Auden tinha apenas 26 anos, o próprio jamais viveu de seus versos. Exceto, é claro, indiretamente, pelos convites que surgiram. Mas da venda de livros, nunca.

Creio já ter observado que nas livrarias existem duas seções: “literatura”, que na verdade significa “ficção”, e “poesia”, invariavelmente uma única estante escondida. Creio também já ter dito aqui que já ouvi de uma editora que a vendagem média de um livro de poesia no Brasil é de 500 exemplares. Lembro de estar com Bruno Tolentino um dia depois de ele ter ganhado o Jabuti por O mundo como Idéia e perguntar sobre as vendas: pouco mais de 800 exemplares um ano após o lançamento.

É por isso que nem me surpreendo quando vejo que um blog do Jornal Extra (não creio que seria diferente em blogs mais “de elite”) faz a lista dos “60 livros mais importantes da literatura brasileira” e não inclui nenhuma obra de poesia – ainda que inclua, vejam o desplante, a Prosa completa de Carlos Drummond de Andrade. A idéia de que as crônicas reunidas de Drummond possam rivalizar em importância (mesmo sendo de gêneros diferentes) com Claro enigma ou A vida passada a limpo é deveras exótica.

O leitor já me conhece e sabe que não quero dizer que é “injusto” o mercado de poesia ser tão pequeno, que não quero nem espero que o governo tome qualquer atitude etc. O que me espanta, e não pára de me espantar, é que até mesmo para a “elite cultural” a poesia é totalmente irrelevante.

Talvez haja mais filatelistas no Brasil do que compradores de livros de poesia.

O divórcio

O divórcio era só uma questão de tempo,
até que algum dos dois caísse na cilada
de declarar que já não havia mais nada,
fingindo que a vida era mais que fingimento,

preferindo dormir e acordar ao relento
a ter de enfrentar, toda santa madrugada,
o mesmo velho corpo da pessoa amada,
já carcomido por essa questão do tempo.

Longuíssimos vazios e brancas paredes
ambos tinham à sua frente; mas enquanto
pudessem crer que aquele branco assinalava

a possibilidade de sentir mais sede,
de julgar-se heróis, mais intensos ou mais santos,
não era o fingimento que lhes perturbava.

Animula

Um de meus poemas favoritos – pelos ritmos.

Vemo-nos em 2009.

Animula
T.S. Eliot (1928)

‘Issues from the hand of God, the simple soul,’
To a flat world of changing lights and noise,
To light, dark, dry, damp, chilly or warm,
Moving between the legs of tables and of chairs
Rising or falling,
Grasping at kisses and toys,
Advancing boldly, sudden to take alarm,
Retreating to the corner of arm and knee,
Eager to be reassured, taking pleasure
In the fragrant brilliance of the Christmas tree
Pleasure in the wind, the sunlight and the sea’
Studies the sunlit pattern on the floor.
And running stays around a silver tag:
Confounds the actual and the fanciful,
Content with playing cards and kings and queens,
What the fairies do and what the servants say.
The heavy burden of the growing soul
Perplexes and offends more, day by day,
Week by week, offends and perplexes more.
With the imperatives of “so it seems”
And may and may not, desire and control.
The pain of living and the drug of dreams
Curl up the small soul in the window seat
Behind the Encyclopaedia Britannica.
Issues from the hand of time, the simple soul,
Irresolute and sefish, misshapen, lame
Unable to fare forward or retreat,
Fearing the warm reality, the offered good,
Denying the importunity of the blot,
Shadow of its own shadow, spectre of its own gloom,
Leaving disordered papers in a dusty room;
Living first in silence after the viaticum,
Pray for Guiterriez, avid of speed and power
For Boudin, blown to pieces,
For this one, who made a great fortune
And that one who went his own way.
Pray for Floret by the boorhound slain between the yew trees,
Pray for us now and at the hour of our birth.

Língua e discriminação

As pessoas que dizem que o uso da norma culta é um fator de discriminação estão absolutamente certas. Eu discrimino pessoas por seu uso da norma culta, ou melhor, por seu desprezo pelo uso dela. Por exemplo, escrever e falar em bom português – bom apenas? Que digo? Kalós kai agathós! – o tempo todo, e não apenas quando “o contexto” pede, não chega a tornar uma mulher atraente, mas o desleixo no falar e escrever pode chegar a torná-la repulsiva. A menos que você esteja no nível da Ana Beatriz Barros (ah, mas eu creio que ela escreva direitinho), cuide das vírgulas e nunca represente todas as oclusivas guturais surdas pela letra “k”.

Todos discriminamos os outros segundo os critérios que achamos mais importantes ou de que gostamos mais. Admito que, a rigor, poderíamos até escrever usando apenas o alfabeto fonético, mas eu gosto do idioma e por isso não gosto de quem não gosta dele. Além disso, ao contrário de uma roupa ou mesmo de uma tatuagem, o bom uso do idioma depende de um ato voluntário e continuado, não de um ato pontual que vai transmitir algo sobre sua identidade.

Tem gente que vai me discriminar por eu, sei lá, ser católico ou esnobar todas as cervejas populares brasileiras. Na verdade, quando alguém reclama da discriminação, só pode estar reclamando de duas coisas: ou não faz parte do grupo que o esnoba, ou queria que os seus próprios critérios é que validassem o esnobismo. “Discriminemos não A, mas B”. Por isso, mesmo que os lingüistas falem e escrevam, e que as pessoas de pendores sociológicos falem da arbitrariedade da norma culta como critério de discriminação, só posso dizer que é hora de acordar para o reles fato de que todos os critérios de discriminação pessoal são mais ou menos arbitrários, e que eles definem as companhias que você espera partilhar. Vós que transformais os métodos da lingüística em princípios doutrinais podeis ficar com a Secretaria das Culturas e tudo aquilo que aguarda aval antropológico; eu fico com Machado de Assis, com Fernando Pessoa.

Durante o intervalo…

Sou aluno universitário, tenho provas e trabalhos para entregar no fim de ano. E, como todo mundo, ainda preciso descansar um pouco. As séries americanas – meu modelo para o novo formato do “domingo com poesia” também fazem interrupções em suas temporadas.

Vou tirar essa semana e a próxima para dedicar-me ao grego, ao latim, a lingüística. Enquanto isso, sugiro que vocês dêem uma olhada nos sites de quatro poetas promissores.

Sorriso interior


Sorriso interior
Cruz e Sousa

O ser que é ser e que jamais vacila
nas guerras imortais entra sem susto,
leva consigo esse brasão augusto
do grande amor, da nobre fé tranqüila.

Os abismos carnais da triste argila
ele os vence sem ânsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

O ser que é ser transforma tudo em flores…
E para ironizar as próprias dores
canta por entre as águas do Dilúvio!

Este foi um dos meus poemas favoritos na adolescência. Hoje, considero-o tão paradoxal, com tantas qualidades e defeitos evidentes, que não consigo nem amá-lo mais tanto, nem tirá-lo da galeria dos favoritos.

A primeira qualidade evidente do poema é sua fluência. Nenhuma frase é convoluta, antinatural, incluindo as complexidades mais comuns da escrita e até da fala. O primeiro verso da primeira estrofe é um longo sujeito seguido de duas orações. Já a segunda estrofe começa com uma estrutura de tipo tópico-comentário (“meu irmão, ele arrumou um emprego”). As pausas sintáticas e os fins dos versos coincidem amigavelmente. Sob esse aspecto, o poema é uma pequena jóia.

Todavia, começamos a olhar os adjetivos e a ver problemas. “Guerras imortais”? Você pode querer dizer que a guerra é infinita, mas a existência de guerras infinitas supõe um cosmos perpétuo e perpetuamente em guerra. Nem o dono do sorriso interior pode vencer e portanto “matar” essas “guerras imortais”? E o “sorriso justo”? O próprio ato de sorrir supõe algo além da justiça, que é a mera retribuição. Sorrir supõe generosidade, abundância. Por isso é até difícil imaginar um sorriso que demonstrasse justiça. Os “abismos carnais” também ficariam melhor sem a redundância da “triste argila”.

Esses problemas com os adjetivos denotam escolhas apressadas, guiadas pela sonoridade (essa, impecável) e pela “aura” que as palavras e expressões apresentam. Impossível não pensar em Augusto dos Anjos, que também escreveu diversos poemas ritmicamente impressionantes e que não significam rigorosamente nada. Existe a tentação de dizer que esse é um defeito brasileiro, apaixonar-se por um vocabulário sem compreendê-lo, mas me parece que essa nossa especificidade já foi imitada por outros povos. O talento acaba prejudicado pela falta de rigor do ambiente. Como costumo dizer, falta repressão. Assim como é óbvio que ninguém nunca ridicularizou muitos “poetas” de hoje, o que lhes faria um grande bem, também parece provável que ninguém tenha chamado Cruz e Sousa num canto e perguntado: “O que você quer dizer com isso, rapaz?”

Ainda assim, o que há de tão adorável neste poema? Certamente uma lembrança da adolescência, em que algumas pessoas – como eu, e normalmente homens – sonham com uma espécie de existência metafísica punk, vendo-se supremamente bons, supremamente bem-resolvidos, supremamente pacíficos, supremamente sábios, “cantando por entre as águas do Dilúvio”. Talvez não haja época da vida em que esteja mais marcada a diferença (completamente imaginária) entre “eu”, essa coisa pura e incorruptível, essa promessa de esperança, e “eles”, que já demonstraram tão abundantemente seus fracassos. Ou seja: o poema “Sorriso interior” é adolescente na medida em que é a projeção tosca de uma auto-imagem perfeita. Os adjetivos desajeitados e pedantes são redimidos pela beleza sonora – exatamente, também, como um adolescente pode ser encantador apesar (ou até por causa) de toda sua arrogância.

O peregrino

Tinha a expectativa de encontrar
algo nobre, como as intenções
que julgava ter: como um luar
de placidez sobre os furacões,
aquela indiferença divina
que só se aprende e nunca se ensina.

Não teve sorte, sendo quem era.
Chegou ao topo, não se disputa.
Mas olhando acima das quimeras
julgou que nada havia, que a luta
sequer tinha existido um dia,
e eis que um furacão o consumia.

* O Domingo com poesia faz um pequeno intervalo e eu os deixo com mais um produto do meu inconstante daimon.

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