As dicas dos parentes e amigos de Jane Austen

W.H. Auden escreveu em algum ensaio que não entendia “por que as pessoas que não sabiam o que fazer da vida decidiam tornar-se escritores. Por que não advogados ou dentistas?” Por que, caro senhor Auden, a todos parece fácil escrever. Também parece fácil traduzir. Outro dia, como eu comentasse alguma dificuldade com um termo, e acrescentasse que já tinha procurado alguns dos tradutores que mais respeito, ouvi um inocente “E por que você não consulta alguma pessoa americana? Eu conheço alguns americanos.” Felizmente não precisei responder; mas o leitor pode ficar sabendo que eu apenas diria que, assim como eu mesmo não sei mais do que o Dicionário Houaiss ou o Caldas Aulete, o americano médio não sabe mais do que o Oxford ou o Merriam-Webster.

Encerro o desabafo e volto à literatura. A todos parece fácil escrever. Sentar-se no computador, despejar um romance, possuído como Cassandra; se o público gostar, isso é aleatório e imprevisível, como se a diferença na qualidade entre uma lanchonete de aeroporto e o melhor restaurante fosse aleatória e não o fruto de cuidado. E isso tem a ver com algo que, de modo geral, é muito difícil para as pessoas, não apenas brasileiras: a dificuldade extrema em descrever para si as razões de gostar ou de desgostar de algo. Se elas tivessem uma pequena ideia do trabalho que dá descrever para si as próprias preferências, a razão destas preferências, e, após a descrição, tentar modificar algumas dessas preferências, elas teriam uma apreciação melhor do trabalho do artista.

Jane Austen teve o bom humor de reunir essas dicas todas e redigir um pequenino projeto de romance, o que dá uma boa ideia da distância entre aquilo que as pessoas imaginam gostar e aquilo de que elas efetivamente gostam. As dicas só fazem pensar na criança que imagina que todas as coberturas juntas em cima do sorvete produzirão algo que seja não apenas palatável, mas a suma delícia.

O projeto foi escrito em 1816, Jane Austen já tinha publicado quatro romances que lhe deram fama e sustento (não exatamente fortuna): Orgulho e Preconceito (essa tradução, de Alexandre Barbosa de Souza, é excelente), Razão e sensibilidade, Mansfield Park e aquele que deve ser o maior de todos, Emma (diz a lenda que Ivo Barroso traduziu, só não foi ainda publicado). (Os outros dois romances conhecidos, Persuasão e A abadia de Northanger, foram publicados após sua morte.)

Leia o original.

Cenário rural, Heroína filha de clérigo, alguém que após viver muito tempo no mundo retirou-se dele para um vicariato, com uma pequena fortuna. – Ele, o melhor homem que se pode imaginar, perfeito de caráter, temperamento e maneiras – sem a mais mínima mácula ou peculiaridade a impedir que ele seja a companhia mais agradável possível a sua filha o ano inteiro. – Heroína também personagem sem mácula, – perfeitamente boa, com muita ternura e sentimento, e, claro, muito espirituosa – prendadíssima, compreende as línguas modernas e (de modo geral) tudo que as moças mais prendadas aprendem, mas com um dote especial para a Música – seu passatempo favorito – e toca igualmente bem o piano e a harpa – e canta maravilhosamente. Sua aparência é muito bonita – olhos escuros e rosto rechonchudo [essa era a descrição da própria Jane Austen]. – O livro deve começar descrevendo pai e filha – que, ao conversar, terão falas longas e linguajar elegante – num tom de emoção séria e sublime. – O pai será induzido, diante do fervoroso pedido da filha – a relatar-lhe os acontecimentos pregressos de sua vida. Essa narrativa tomará a maior parte do primeiro volume – e também todas as circunstâncias de seu apego à mãe dela e seu casamento, e compreenderá suas viagens marítimas como Capelão de um distinto personagem naval da Corte, e sua própria ida posterior à Corte, o que o levou a conhecer diversos personagens e colocou-o em diversas situações interessantes, concluindo com suas opiniões sobre o desperdício das rendas dos dízimos, e com o fato de ter enterrado suas própria mãe (a tão chorada avó da Heroína) como consequência de o Sumo Sacerdote da Paróquia em que ela morreu ter-se recusado a oferecer a seus restos as devidas condolências. O pai será bastante literato, Entusiasta da Literatura, inimigo de ninguém exceto de si mesmo – ao mesmo tempo em que é zelosíssimo no cuidado de seus deveres pastorais, um modelo de sacerdote exemplar. – A amizade da Heroína será procurada por uma moça da vizinhança, de talentos e malícia, com olhos e pele clara, mas, tendo um grau considerável de argúcia, a Heroína evitará sua convivência.

Desse cenário procederá a história, que conterá uma impressionante variedade de aventuras. A Heroína e seu pai nunca passam mais de quinze dias no mesmo lugar, porque ele é expulso de seu vicariato pelas vis artes de um rapaz sem princípios nem coração, desesperadamente apaixonado pela Heroína, que a persegue com paixão incansável. – Mal assentam-se num país da Europa e precisam deixá-lo e ir a outro – sempre travando novas amizades, sempre obrigados a deixá-las. – Isso, é claro, exibirá uma grande variedade de personagens – mas não haverá mistura; a cena sempre mudará de um grupo de pessoas para outro – mas tudo que é bom será imaculado sob todos os aspectos – e não haverá qualquer fraqueza ou defeito, exceto nos maus, que serão completamente depravados e infames, sem que reste neles praticamente nenhum indício de humanidade. – No início da trama, durante seus primeiros deslocamentos, a Heroína tem de conhecer o Herói – alguém obviamente perfeito – , que só será impedido de dirigir-se a ela por algum excesso de polidez. – Onde quer que ela vá, alguém se apaixona por ela, e ela recebe repetidas propostas de casamento – que ela repassa integralmente ao pai, muitíssimo zangado porque ele não foi procurado primeiro. – Muitas vezes raptada pelo Anti-Herói, mas resgatada por seu pai ou pelo Herói – muitas vezes obrigada a sustentar a si e ao pai com seus talentos, e a trabalhar pelo pão; continuamente enganada e ludibriada em seu trabalho, reduzida a pele e ossos, e volta e meia à inanição. – Por fim, expulsos da sociedade civilizada, tendo o pobre abrigo do mais humilde casebre recusados, são forçados a retirar-se para Kamchatka, onde seu pobre pai, absolutamente desgastado, vendo o fim aproximar-se, jogar-se no chão, e após quatro ou cinco horas de ternos conselhos e admoestações a sua triste filha, expira, numa bela efusão de entusiasmo literário, entremeada de invectivas contra os controladores dos dízimos. – A Heroína permanece inconsolável por algum tempo – mas depois lentamente se dirige para sua terra natal – estando por pelo menos vinte vezes prestes a cair nas mãos do Anti-Herói – e, finalmente, no exato instante em que vira uma esquina para evitá-lo, cai nos braços de ninguém menos do que o Herói, que, despojando-se dos escrúpulos que outrora o impediam, estava naquele momento partindo em busca dela. – Dá-se o mais terno e completo esclarecimento, e eles ficam juntos e felizes. – Ao longo de toda a obra, a Heroína gozará das companhias mais elegantes e viverá em grande estilo. O nome da obra não será Emma, mas algo do mesmo estilo de Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito.

Projeto de romance segundo sugestões de diversas pessoas, 1816

O fim do mundo segundo Bruno Tolentino, ou: Prometeu já não furta o relâmpago

Hoje Bruno Tolentino completaria 70 anos, e eu estou traduzindo Achever Clausewitz, de René Girard.

Logo, só existe um poema no qual eu consigo pensar.

A imitação da música, 98
Bruno Tolentino. O mundo como Ideia, p. 441.

Prometeu já não furta o relâmpago.
Ícaro não aspira a um céu invinto.
Anteu não quer a terra nem o Olimpo.
Há um pretenso heroísmo cujo pântano

é um mundo aleatório como o instinto.
Vai surgindo outro sonho, outro esperanto
em Babel, uma torre confiscando
as altitudes que não vão subindo,

vão-se encolhendo e se resignando
às superposições do gesto ímpio.
Nem há mais, assombrados pelos campos,

um enigma, uma esfinge, um deus surgindo
sob as conjurações dos pirilampos.
Não: há um vazio, um lento labirinto.

Dez domingos com poesia de uma vez

Uma das razões de os “domingos com poesia” terem escasseado aqui (além de eu estar mais interessado em teatro do que em poesia) é a Anatomia do poema, seção que escrevi nos três primeiros números da Dicta&Contradicta. Agora que os editores puseram na internet o conteúdo das duas primeiras edições, convido vocês a ler nada menos do que dez comentários que escrevi sobre dez poemas diferentes.

Dicta #1 (poemas sobre amor)

Transforma-se o amador na cousa amada, de Luís de Camões
Eros e Psiquê, de Fernando Pessoa
Soneto do maior amor, de Vinícius de Moraes
Em despeito do amor profano, de Baltazar Estaço
A vida toda de costas, de Bruno Tolentino

Dicta #2 (poemas sobre morte)

Glosa sobre a Ilíada, de Mimnermo
Despojo triste, corpo mal nascido, de António Ferreira
Apóstrofe à carne, de Augusto dos Anjos
A morte absoluta, de Manuel Bandeira
Uma criatura, de Machado de Assis

Mas há muita coisa boa para se ler nesses dois primeiros números agora na web. Não percam.

A irrelevância da poesia

Um dos versos mais famosos de Auden é “Poetry makes nothing happen”, “a poesia não produz nenhum acontecimento”. Certamente isso acontece porque ninguém lê poesia. E se já se falava em “The Auden Generation” quando Auden tinha apenas 26 anos, o próprio jamais viveu de seus versos. Exceto, é claro, indiretamente, pelos convites que surgiram. Mas da venda de livros, nunca.

Creio já ter observado que nas livrarias existem duas seções: “literatura”, que na verdade significa “ficção”, e “poesia”, invariavelmente uma única estante escondida. Creio também já ter dito aqui que já ouvi de uma editora que a vendagem média de um livro de poesia no Brasil é de 500 exemplares. Lembro de estar com Bruno Tolentino um dia depois de ele ter ganhado o Jabuti por O mundo como Idéia e perguntar sobre as vendas: pouco mais de 800 exemplares um ano após o lançamento.

É por isso que nem me surpreendo quando vejo que um blog do Jornal Extra (não creio que seria diferente em blogs mais “de elite”) faz a lista dos “60 livros mais importantes da literatura brasileira” e não inclui nenhuma obra de poesia – ainda que inclua, vejam o desplante, a Prosa completa de Carlos Drummond de Andrade. A idéia de que as crônicas reunidas de Drummond possam rivalizar em importância (mesmo sendo de gêneros diferentes) com Claro enigma ou A vida passada a limpo é deveras exótica.

O leitor já me conhece e sabe que não quero dizer que é “injusto” o mercado de poesia ser tão pequeno, que não quero nem espero que o governo tome qualquer atitude etc. O que me espanta, e não pára de me espantar, é que até mesmo para a “elite cultural” a poesia é totalmente irrelevante.

Talvez haja mais filatelistas no Brasil do que compradores de livros de poesia.

O divórcio

O divórcio era só uma questão de tempo,
até que algum dos dois caísse na cilada
de declarar que já não havia mais nada,
fingindo que a vida era mais que fingimento,

preferindo dormir e acordar ao relento
a ter de enfrentar, toda santa madrugada,
o mesmo velho corpo da pessoa amada,
já carcomido por essa questão do tempo.

Longuíssimos vazios e brancas paredes
ambos tinham à sua frente; mas enquanto
pudessem crer que aquele branco assinalava

a possibilidade de sentir mais sede,
de julgar-se heróis, mais intensos ou mais santos,
não era o fingimento que lhes perturbava.