Como elaborar sua filosofia política

Uma das minhas expressões favoritas da língua inglesa é to put your money where your mouth is, ou arcar com os custos daquilo que se propõe. E como qualquer idioma pode ser enganador, eu doravante proponho que, em vez de alguém dizer-se socialista, social-democrata ou monarquista, troque as palavras “sou a favor de” pelas palavras “quero pagar com meu dinheiro”. Vejam só os resultados.

“Sou a favor de BLABLABLA para todos.” = “Quero pagar com meu dinheiro para que uma casta privilegiada administre a distribuição de BLABLABLA para todos.”

“Sou a favor da monarquia.” = “Quero pagar com meu dinheiro pelas férias de gente que tem sobrenome comprido.”

“Sou a favor de que todos contribuam.” = “Quero pagar com meu dinheiro para que outras pessoas sejam forçadas a pagar e assim meu custo seja diminuído. Porque eu até quero pagar, mas bem pouquinho, só para calar minha consciência.”

Há hífens entre os neurônios dos lingüistas

Gastei um bom tempo nos últimos dias lendo sobre o acordo ortográfico. Por razões profissionais, preciso não só conhecê-lo como aplicá-lo. É sim o caso de tapar o nariz. Prevejo que um dia, já velho, decidirei escrever usando apenas a antiga ortografia etimológica, aquela que o Fernando Pessoa queria preservar. Ele estava coberto de razão. A ortografia etimológica nos recordava o tempo todo que não estamos em pleno ar, soltos no espaço, que a língua pode ser viva mas não tem experiências fora do corpo como nas “projeções astrais”, nem gosta de ser abduzida por extraterrestres – como agora. Viemos do grego e do latim; já sinto ganas de escrever physica, o que já remete à physis, a natureza; “física” parece apenas uma matéria da escola em que gente feia fala de fios sem massa e superfícies sem atrito.

Agora, o que mais admira e consterna nesse grave – olha o latim; “grave” no sentido de “tumular” – momento da nação é a qualidade dos argumentos usados em favor do acordo orthographico. Deparei-me com a justificativa de que o hífen deve morrer “quando se perdeu, em certa medida, a noção de composição”.

Vou confessar que nunca jamais soube usar o hífen e simplesmente consultei o dicionário em caso de dúvidas. Devo dizer, aliás, que consulto o Houaiss online várias vezes ao dia, todos os dias, o que não só recomendo como até considero prova de amor à língua. Por isso, não estou preocupado tanto em aprender a regra quanto em saber que o Houaiss está atualizado. A regra não vai fazer sentido mesmo, não se deve perder tempo. Se uma regra lingüística faz sentido, ela não precisa ser ratificada por governos. Ninguém legisla que o plural em português é formado primariamente pelo acréscimo de um “s” final.

E é aqui que retomo o mio da feada. Como se pode dizer que a noção de composição foi perdida em uma palavra? Certamente os lingüistas que elaboraram as regras jamais perderam a noção de que pára-quedas (ou paraquedas) e girassol são palavras compostas. A noção de composição nunca parece ter sido critério nem para hifenizar nem para não hifenizar. Além disso, eu não perdi a noção de composição. Tenho licença para hifenizar o que eu quiser? Devo passar a escrever “gira-sol”?

Contra a reforma ortográfica

Aquilo que escrevi sobre a insistência em ensinar gramática na verdade nasceu do meu desejo de falar de outra coisa, a bilionésima reforma ortográfica da língua portuguesa, reforma que pretendo desprezar absolutamente sempre que puder.

Vejam, não é o caso de discutir o que faz sentido ou não. Não estou discordando dos métodos da reforma, mas da necessidade de reforma. Já vi o dono de uma editora brasileira dizendo que se beneficiaria da reforma porque assim poderia vender seus livros didáticos em Angola. Então a reforma será feita para atender aos interesses dos empresários? Também já vi um burocrata dizer que graças à reforma diversos documentos de reuniões oficiais entre Brasil e Portugal poderão ter uma única versão. Então a reforma será feita para atender aos interesses da burocracia?

A cada vez que se faz uma reforma, ortográfica ou gramatical, prejudica-se a continuidade do idioma e o argumento sempre usado por professores escolares de que as regras vêm do uso dos grandes autores perde credibilidade. Pegue qualquer edição antiga de Machado de Assis: separar sujeito de predicado por vírgula é bastante normal. A grafia das palavras, se você tiver sorte de pegar uma edição suficientemente antiga, remeterá às suas raízes latinas, e você notará a semelhança ortográfica maior com outros idiomas. Isso sim faz com que você perceba que o idioma está “vivo”, cravado na realidade do passado latino e do presente neolatino – o que é bem diferente de simplesmente dizer “a língua é viva” quando se quer justificar alguma bobagem.

A reforma ortográfica é a tecnocracia lingüística. São estudiosos e professores que, sem jamais ter escrito uma página memorável, querem “melhorar” o idioma. Por isso ela tem o cheiro do ressentimento típico dos intelectuais, que desejam ter alguma espécie de poder. E, na verdade, já que a educação está organizada em ministérios e comissões oficiais, não há nada de estranho nisso.

Parem de ensinar gramática

Fazendo faculdade de letras, não se passa uma semana sem que uma professora de língua portuguesa não discuta os problemas do ensino, para o qual ela tem as soluções. Quem é leitor habitual aqui já sabe que eu penso que o primeiro problema é o ensino ser controlado pelo governo, por isso vou poupar o leitor. Mas parece haver, além do problema de princípio, um problema de método. Não consigo perceber qual a utilidade de se ensinar gramática nas escolas. Se os alunos tivessem que aprender latim e/ou grego, até haveria utilidade, pois o ensino de uma língua ajudaria o ensino da outra. Como isso não acontece, o aluno é obrigado a aprender um monte de regras e classificações vazias e tem pouco contato com o uso literário (isto é, melhor) da língua. De nada adianta saber a diferença entre o adjunto adnominal e o complemento nominal, ou apontar uma oração subordinada substantiva apositiva (coisa que só aprendi muito depois da escola, já que sempre abominei o estudo da gramática tanto quanto abominava a química orgânica e a física do fio sem massa e da superfície sem atrito) sem ser capaz de escrever claramente.

Notem que eu falei “claramente”, não “corretamente”. A situação hoje é muito grave. Recentemente li dois resumos de teses de mestrado, escritas pelos próprios aprovadíssimos candidatos, em que o sujeito vinha com crase, isto é, algo comparável a dizer à Maria saiu em vez de a Maria saiu. As pessoas não sabem escrever, a pontuação tornou-se totalmente esotérica, e as empresas ficam contratando professores para ensinar regrinhas de gramática. Infelizmente, o uso claro da língua é como dirigir: você não pode pensar muito, ou vai causar um acidente. Fala-se e escreve-se no dia-a-dia da mesma maneira que se calcula uma freada. Uma dose maciça de leitura comentada de Machado de Assis ajudaria mais a escrever melhor do que estudar gramática. Isso e ensinar às pessoas que existe uma coisa chamada dicionário. Não é preciso saber a regência de todos os verbos: basta consultar o dicionário, raios. Eu consulto literalmente todos os dias.

A solução, pois, é simplesmente ler e escrever muito até se impregnar do idioma. Depois de muita, muita impregnação, pode-se analisá-lo, e não é razoável supor que as pessoas já têm o domínio da língua materna. Têm-no num nível extremamente básico, de sintaxe não-padrão. Há uma canção do inefável Anjinho e seus teclados que começa com o verso “a menina que eu estou gostando dela”. A diferença entre só dizer “a menina que eu estou gostando dela” e dizer “a menina de quem eu gosto” é a mesma que há entre só poder conversar com Anjinho e seus teclados e poder conversar com Camões e Machado de Assis.

Aliás, francamente, nada seria mais eficaz do que usar o famoso “preconceito lingüístico” para ensinar português. Na hora em que as pessoas tiverem pavor de ser confundidas com um boçal que fala em agregar valor, otimizar processos e se comunica através de PowerPoint, com um pseudo-poeta que pavoneia sua ignorância da métrica, com um militante de esquerda perverso que acha que a conjugação verbal é uma invenção burguesa e, por que não?, com blogueiros que mandam “beijos no coração”, aí sim o nível da linguagem comum vai melhorar um pouco.

Mas os professores só discutem como reformar o ensino da gramática a partir das novas teorias. Admito que as novas teorias são melhores do que a norma gramatical brasileira. Falar em sintagma preposicional, argumento externo e predicador faz mais sentido, ou ao menos é mais econômico. Mas ninguém cogita abolir o ensino da gramática em nível infanto-juvenil e trocá-lo por uma impregnação do que a língua tem de melhor. Ninguém acha que é melhor escrever como Graciliano Ramos do que discutir com o professor da escola uma filigrana de classificação.

Interpretando expressões comuns 2

Não há como resistir a tentação de dar minha contribuição à lista iniciada por Pedro…

Você é pretensioso. – Você ousa achar que sabe algo que eu não sei, e isso é um absurdo.

Vamos decidir democraticamente. – Que tal se a gente parar de discutir idéias e ao invés disso fizer um concurso de popularidade?

Precisamos melhorar a educação no Brasil. – Precisamos emitir mais diplomas para mais pessoas.

Precisamos proteger o grupo XXX de discriminação. – Precisamos criar a ilusão de que quem não der dinheiro para mim odeia o grupo XXX.

Precisamos regulamentar a profissão XXX. – Precisamos entravar ao máximo possível o acesso à profissão XXX para aumentar os privilégios de quem tiver autorização para exercê-la.

Se eu deixar você fazer isso vou ter que deixar todo mundo. – Não existe nenhum motivo coerente para esta regra existir mas eu gosto dela.

Sua opinião também é válida. – Vou ignorar completamente a sua opinião.

Essas são as tendências mais modernas nos EUA e na Europa. – Eu li na revista Veja que uma vez em 1976 alguém tentou isso no Canadá.

Todo mundo sabe que XXX. – Eu não faço a menor idéia de por que estou defendendo que XXX seja verdade.

E, last but not least:

Há que se endurecer sem perder a ternura. – Há que se perder a ternura mas sem admitir abertamente.

Interpretando expressões comuns

Esta é uma pequena lista, compilada desordenadamente, de clichês e suas interpretações. Contribuições para uma futura publicação podem ser enviadas para por e-mail.

Você é autoritário – você não concorda comigo.

Você tem a mente aberta — você concorda comigo.

Abra sua mente — passe a pensar exatamente como eu. (Recomendo responder abra você a sua.)

Ele é uma pessoa esclarecida — ele pensa exatamente como eu.

Forças populares — nós mesmos.

Demandas sociais — os objetivos do nosso partido. O mesmo que anseios da sociedade.

XXX é um patrimônio do povo brasileiro — alguns políticos e burocratas desejam enriquecer com XXX.

XXX é um direito de todos — quero obter um produto ou serviço sem ter que pagar.

Estou indignado com… — todo mundo vive de maracutaia, menos eu? Quero a minha parte, nem que seja por concurso!

Basta — esse negócio de os efeitos se seguirem às causas é muito opressor! Tudo deveria fluir de nossos corações lindinhos.

Vamos abrir o debate — vamos fazer isso de qualquer jeito, só vamos comunicar com um pouco de antecedência.

Desejamos ouvir a sociedade — desejamos ouvir nossos correligionários.

Tenho direito a um plano de carreira — quero aumentos de salário sem ter que trabalhar mais ou melhor.

Distorções da linguagem política

Continuando um post anterior, Parket T. Moon, citado por Tom Palmer:

Muitas vezes, a linguagem obscurece a verdade. Com maior freqüência do que percebemos, nossos olhos são cegados para os fatos… por truques da língua. Quando usamos a simples palavra “França”, pensamos na França como uma unidade, uma entidade. Quando, a fim de evitar uma desagradável repetição, usamos um pronome para designar um país, como em “a França enviou suas tropas para conquistar Túnis”, atribuímos não apenas unidade como também personalidade ao país. As palavras mesmas escondem os fatos fazem das relações internacionais um drama glamuroso em que os atores são nações antropomorfizadas, e com grande facilidade esquecemos dos homes e mulheres de carne e osso que são os atores de verdade. Como seria diferente se não existisse uma palavra como “França”, e tivéssemos que dizer que trinta e oito milhões de homens, mulheres e crianças de diversos interesses e crenças, que habitam 218.000 milhas quadradas! Assim, poderíamos descrever a expedição a Túnis de maneira mais precisa, como esta: alguns destes trinta e oito milhões mandaram outros trinta mil conquistar Túnis. Esta maneira de apresentar o fato imediatamente sugere uma questão, ou uma série de questões. Quem são os poucos? Por que mandaram os trinta mil a Túnis? E por que eles obedeceram?

Daí que eu diga: se a pergunta “você lutaria para que o Brasil continue com a Amazônia?” passa a ser formulada como “você lutaria para que o governo federal brasileiro continue a achar que ocupa a Amazônia?”, ela muda completamente…