Getúlio Vargas contra as reformas ortográficas

O grifo é meu, e o autor foi meu tio-avô.

Uma coisa que pouca gente apreciou devidamente é a feição admirável com que Getúlio Vargas dominava a língua. Escrevia claro, sucinto, preciso, sem uma palavra a mais, num estilo limpo e desataviado. As notas que preparava para seus discursos eram admiravelmente arquitetadas e formuladas. Nunca se acostumou às reformas ortográficas, usando sempre as velhas formas de escrever.

José Sette Câmara. Agosto 1954. São Paulo: Siciliano, 1994. p. 20

Como elaborar sua filosofia política

Uma das minhas expressões favoritas da língua inglesa é to put your money where your mouth is, ou arcar com os custos daquilo que se propõe. E como qualquer idioma pode ser enganador, eu doravante proponho que, em vez de alguém dizer-se socialista, social-democrata ou monarquista, troque as palavras “sou a favor de” pelas palavras “quero pagar com meu dinheiro”. Vejam só os resultados.

“Sou a favor de BLABLABLA para todos.” = “Quero pagar com meu dinheiro para que uma casta privilegiada administre a distribuição de BLABLABLA para todos.”

“Sou a favor da monarquia.” = “Quero pagar com meu dinheiro pelas férias de gente que tem sobrenome comprido.”

“Sou a favor de que todos contribuam.” = “Quero pagar com meu dinheiro para que outras pessoas sejam forçadas a pagar e assim meu custo seja diminuído. Porque eu até quero pagar, mas bem pouquinho, só para calar minha consciência.”

Há hífens entre os neurônios dos lingüistas

Gastei um bom tempo nos últimos dias lendo sobre o acordo ortográfico. Por razões profissionais, preciso não só conhecê-lo como aplicá-lo. É sim o caso de tapar o nariz. Prevejo que um dia, já velho, decidirei escrever usando apenas a antiga ortografia etimológica, aquela que o Fernando Pessoa queria preservar. Ele estava coberto de razão. A ortografia etimológica nos recordava o tempo todo que não estamos em pleno ar, soltos no espaço, que a língua pode ser viva mas não tem experiências fora do corpo como nas “projeções astrais”, nem gosta de ser abduzida por extraterrestres – como agora. Viemos do grego e do latim; já sinto ganas de escrever physica, o que já remete à physis, a natureza; “física” parece apenas uma matéria da escola em que gente feia fala de fios sem massa e superfícies sem atrito.

Agora, o que mais admira e consterna nesse grave – olha o latim; “grave” no sentido de “tumular” – momento da nação é a qualidade dos argumentos usados em favor do acordo orthographico. Deparei-me com a justificativa de que o hífen deve morrer “quando se perdeu, em certa medida, a noção de composição”.

Vou confessar que nunca jamais soube usar o hífen e simplesmente consultei o dicionário em caso de dúvidas. Devo dizer, aliás, que consulto o Houaiss online várias vezes ao dia, todos os dias, o que não só recomendo como até considero prova de amor à língua. Por isso, não estou preocupado tanto em aprender a regra quanto em saber que o Houaiss está atualizado. A regra não vai fazer sentido mesmo, não se deve perder tempo. Se uma regra lingüística faz sentido, ela não precisa ser ratificada por governos. Ninguém legisla que o plural em português é formado primariamente pelo acréscimo de um “s” final.

E é aqui que retomo o mio da feada. Como se pode dizer que a noção de composição foi perdida em uma palavra? Certamente os lingüistas que elaboraram as regras jamais perderam a noção de que pára-quedas (ou paraquedas) e girassol são palavras compostas. A noção de composição nunca parece ter sido critério nem para hifenizar nem para não hifenizar. Além disso, eu não perdi a noção de composição. Tenho licença para hifenizar o que eu quiser? Devo passar a escrever “gira-sol”?

Contra a reforma ortográfica

Aquilo que escrevi sobre a insistência em ensinar gramática na verdade nasceu do meu desejo de falar de outra coisa, a bilionésima reforma ortográfica da língua portuguesa, reforma que pretendo desprezar absolutamente sempre que puder.

Vejam, não é o caso de discutir o que faz sentido ou não. Não estou discordando dos métodos da reforma, mas da necessidade de reforma. Já vi o dono de uma editora brasileira dizendo que se beneficiaria da reforma porque assim poderia vender seus livros didáticos em Angola. Então a reforma será feita para atender aos interesses dos empresários? Também já vi um burocrata dizer que graças à reforma diversos documentos de reuniões oficiais entre Brasil e Portugal poderão ter uma única versão. Então a reforma será feita para atender aos interesses da burocracia?

A cada vez que se faz uma reforma, ortográfica ou gramatical, prejudica-se a continuidade do idioma e o argumento sempre usado por professores escolares de que as regras vêm do uso dos grandes autores perde credibilidade. Pegue qualquer edição antiga de Machado de Assis: separar sujeito de predicado por vírgula é bastante normal. A grafia das palavras, se você tiver sorte de pegar uma edição suficientemente antiga, remeterá às suas raízes latinas, e você notará a semelhança ortográfica maior com outros idiomas. Isso sim faz com que você perceba que o idioma está “vivo”, cravado na realidade do passado latino e do presente neolatino – o que é bem diferente de simplesmente dizer “a língua é viva” quando se quer justificar alguma bobagem.

A reforma ortográfica é a tecnocracia lingüística. São estudiosos e professores que, sem jamais ter escrito uma página memorável, querem “melhorar” o idioma. Por isso ela tem o cheiro do ressentimento típico dos intelectuais, que desejam ter alguma espécie de poder. E, na verdade, já que a educação está organizada em ministérios e comissões oficiais, não há nada de estranho nisso.

Parem de ensinar gramática

Fazendo faculdade de letras, não se passa uma semana sem que uma professora de língua portuguesa não discuta os problemas do ensino, para o qual ela tem as soluções. Quem é leitor habitual aqui já sabe que eu penso que o primeiro problema é o ensino ser controlado pelo governo, por isso vou poupar o leitor. Mas parece haver, além do problema de princípio, um problema de método. Não consigo perceber qual a utilidade de se ensinar gramática nas escolas. Se os alunos tivessem que aprender latim e/ou grego, até haveria utilidade, pois o ensino de uma língua ajudaria o ensino da outra. Como isso não acontece, o aluno é obrigado a aprender um monte de regras e classificações vazias e tem pouco contato com o uso literário (isto é, melhor) da língua. De nada adianta saber a diferença entre o adjunto adnominal e o complemento nominal, ou apontar uma oração subordinada substantiva apositiva (coisa que só aprendi muito depois da escola, já que sempre abominei o estudo da gramática tanto quanto abominava a química orgânica e a física do fio sem massa e da superfície sem atrito) sem ser capaz de escrever claramente.

Notem que eu falei “claramente”, não “corretamente”. A situação hoje é muito grave. Recentemente li dois resumos de teses de mestrado, escritas pelos próprios aprovadíssimos candidatos, em que o sujeito vinha com crase, isto é, algo comparável a dizer à Maria saiu em vez de a Maria saiu. As pessoas não sabem escrever, a pontuação tornou-se totalmente esotérica, e as empresas ficam contratando professores para ensinar regrinhas de gramática. Infelizmente, o uso claro da língua é como dirigir: você não pode pensar muito, ou vai causar um acidente. Fala-se e escreve-se no dia-a-dia da mesma maneira que se calcula uma freada. Uma dose maciça de leitura comentada de Machado de Assis ajudaria mais a escrever melhor do que estudar gramática. Isso e ensinar às pessoas que existe uma coisa chamada dicionário. Não é preciso saber a regência de todos os verbos: basta consultar o dicionário, raios. Eu consulto literalmente todos os dias.

A solução, pois, é simplesmente ler e escrever muito até se impregnar do idioma. Depois de muita, muita impregnação, pode-se analisá-lo, e não é razoável supor que as pessoas já têm o domínio da língua materna. Têm-no num nível extremamente básico, de sintaxe não-padrão. Há uma canção do inefável Anjinho e seus teclados que começa com o verso “a menina que eu estou gostando dela”. A diferença entre só dizer “a menina que eu estou gostando dela” e dizer “a menina de quem eu gosto” é a mesma que há entre só poder conversar com Anjinho e seus teclados e poder conversar com Camões e Machado de Assis.

Aliás, francamente, nada seria mais eficaz do que usar o famoso “preconceito lingüístico” para ensinar português. Na hora em que as pessoas tiverem pavor de ser confundidas com um boçal que fala em agregar valor, otimizar processos e se comunica através de PowerPoint, com um pseudo-poeta que pavoneia sua ignorância da métrica, com um militante de esquerda perverso que acha que a conjugação verbal é uma invenção burguesa e, por que não?, com blogueiros que mandam “beijos no coração”, aí sim o nível da linguagem comum vai melhorar um pouco.

Mas os professores só discutem como reformar o ensino da gramática a partir das novas teorias. Admito que as novas teorias são melhores do que a norma gramatical brasileira. Falar em sintagma preposicional, argumento externo e predicador faz mais sentido, ou ao menos é mais econômico. Mas ninguém cogita abolir o ensino da gramática em nível infanto-juvenil e trocá-lo por uma impregnação do que a língua tem de melhor. Ninguém acha que é melhor escrever como Graciliano Ramos do que discutir com o professor da escola uma filigrana de classificação.

Interpretando expressões comuns 2

Não há como resistir a tentação de dar minha contribuição à lista iniciada por Pedro…

Você é pretensioso. – Você ousa achar que sabe algo que eu não sei, e isso é um absurdo.

Vamos decidir democraticamente. – Que tal se a gente parar de discutir idéias e ao invés disso fizer um concurso de popularidade?

Precisamos melhorar a educação no Brasil. – Precisamos emitir mais diplomas para mais pessoas.

Precisamos proteger o grupo XXX de discriminação. – Precisamos criar a ilusão de que quem não der dinheiro para mim odeia o grupo XXX.

Precisamos regulamentar a profissão XXX. – Precisamos entravar ao máximo possível o acesso à profissão XXX para aumentar os privilégios de quem tiver autorização para exercê-la.

Se eu deixar você fazer isso vou ter que deixar todo mundo. – Não existe nenhum motivo coerente para esta regra existir mas eu gosto dela.

Sua opinião também é válida. – Vou ignorar completamente a sua opinião.

Essas são as tendências mais modernas nos EUA e na Europa. – Eu li na revista Veja que uma vez em 1976 alguém tentou isso no Canadá.

Todo mundo sabe que XXX. – Eu não faço a menor idéia de por que estou defendendo que XXX seja verdade.

E, last but not least:

Há que se endurecer sem perder a ternura. – Há que se perder a ternura mas sem admitir abertamente.

Interpretando expressões comuns

Esta é uma pequena lista, compilada desordenadamente, de clichês e suas interpretações. Contribuições para uma futura publicação podem ser enviadas para por e-mail.

Você é autoritário – você não concorda comigo.

Você tem a mente aberta — você concorda comigo.

Abra sua mente — passe a pensar exatamente como eu. (Recomendo responder abra você a sua.)

Ele é uma pessoa esclarecida — ele pensa exatamente como eu.

Forças populares — nós mesmos.

Demandas sociais — os objetivos do nosso partido. O mesmo que anseios da sociedade.

XXX é um patrimônio do povo brasileiro — alguns políticos e burocratas desejam enriquecer com XXX.

XXX é um direito de todos — quero obter um produto ou serviço sem ter que pagar.

Estou indignado com… — todo mundo vive de maracutaia, menos eu? Quero a minha parte, nem que seja por concurso!

Basta — esse negócio de os efeitos se seguirem às causas é muito opressor! Tudo deveria fluir de nossos corações lindinhos.

Vamos abrir o debate — vamos fazer isso de qualquer jeito, só vamos comunicar com um pouco de antecedência.

Desejamos ouvir a sociedade — desejamos ouvir nossos correligionários.

Tenho direito a um plano de carreira — quero aumentos de salário sem ter que trabalhar mais ou melhor.

Distorções da linguagem política

Continuando um post anterior, Parket T. Moon, citado por Tom Palmer:

Muitas vezes, a linguagem obscurece a verdade. Com maior freqüência do que percebemos, nossos olhos são cegados para os fatos… por truques da língua. Quando usamos a simples palavra “França”, pensamos na França como uma unidade, uma entidade. Quando, a fim de evitar uma desagradável repetição, usamos um pronome para designar um país, como em “a França enviou suas tropas para conquistar Túnis”, atribuímos não apenas unidade como também personalidade ao país. As palavras mesmas escondem os fatos fazem das relações internacionais um drama glamuroso em que os atores são nações antropomorfizadas, e com grande facilidade esquecemos dos homes e mulheres de carne e osso que são os atores de verdade. Como seria diferente se não existisse uma palavra como “França”, e tivéssemos que dizer que trinta e oito milhões de homens, mulheres e crianças de diversos interesses e crenças, que habitam 218.000 milhas quadradas! Assim, poderíamos descrever a expedição a Túnis de maneira mais precisa, como esta: alguns destes trinta e oito milhões mandaram outros trinta mil conquistar Túnis. Esta maneira de apresentar o fato imediatamente sugere uma questão, ou uma série de questões. Quem são os poucos? Por que mandaram os trinta mil a Túnis? E por que eles obedeceram?

Daí que eu diga: se a pergunta “você lutaria para que o Brasil continue com a Amazônia?” passa a ser formulada como “você lutaria para que o governo federal brasileiro continue a achar que ocupa a Amazônia?”, ela muda completamente…

Odorico revive em Fernando Pimentel

Sei que já denunciei o culto da tosquice, mas confesso sentir uma atração perversa pela linguagem pomposa utilizada na política e nos ambientes corporativos. Abomino quase tanto quanto me espanto com a capacidade de preferir a expressão inflada à mais simples e direta. E, como penso muito nisto, decidi começar a documentar a débacle da nossa linguagem pública, fazendo sempre referência ao grande ícone destes abusos: Odorico Paraguaçu, prefeito de Sucupira na novela e série de TV O bem-amado, que bem poderia ser lançada em DVD.

O herdeiro de Odorico da vez é Fernando Pimentel, prefeito de Belo Horizonte, que publicou um artigo hoje em O Globo. Tudo bem, sei que provavelmente foi um assessor qualquer que escreveu o texto, que Pimentel apenas assinou; mas ele assinou, publicou e merece todo o crédito. Vamos então aos melhores momentos.

Promover uma educação de qualidade deve ser o objetivo de qualquer governo, seja municipal, estadual ou federal. Mas é ilusão deixar essa tarefa apenas com poder público e educadores.

O desafio terá que ser vencido coletivamente, por toda a sociedade.

O objetivo então é do governo, mas é toda a sociedade que tem que se empenhar nele?

Melhor seria, obviamente, que o “poder público” se abstivesse e, mesmo que não venha a se abster, fizesse a mais importante concessão da história do Brasil: retirasse do Ministério da Educação o poder de regular toda a educação do Brasil. Este é um estímulo que nossos burocratas poderiam oferecer à sociedade: criem seus cursos, seus diplomas, façam como acharem melhor.

Falta agora garantir a permanência na escola, transformandoa em local atrativo, que ofereça ensino de qualidade e também prepare o aluno para as demandas do mundo moderno.

“As demandas do mundo moderno” é um dos clichês preferenciais há mais de 100 anos. E até hoje estou tentando entender que demandas são essas. Será que esperam que a escola ensine a mandar SMS do celular? Não, claro que não. “As demandas do mundo moderno” é só uma daquelas expressões perfeitamente vazias cuja função é encerrar discussões e obter licenças para se fazer algo. O burocrata quer tomar mais dinheiro do pagador de impostos (“contribuinte” é a mãe dele) e por isso tasca em sua cabeça a “necessidade de atender às demandas do mundo moderno”.

Agora, vejam que maravilha de vacuidade o parágrafo seguinte:

A escola tem que acompanhar o ritmo da sociedade. Puxado pela tecnologia, o mundo passa por uma revolução cotidiana, com reflexos no fluxo de informações e no tipo de conhecimento adquirido. São mudanças que exigem ampla readequação de conteúdos, práticas e metodologias de ensino. Além de sintonizados com as novas tecnologias, escolas, professores e alunos devem estar conectados com a construção de novos valores de sociabilidade e ética.

“Reflexos no fluxo”, pura poesia, puro Mallarmé, puro simbolismo, veludosas vozes etc. De “a escola” até “escolas” não há um único significado apontável, a menos que aceitemos literalmente que a cada dia há uma nova revolução; mas a única revolução diária não tem nada a ver com a tecnologia, e sim com o movimento aparente do Sol.

A última frase, porém, é puro Stálin, puro Goebbels: “professores e alunos devem estar conectados com a construção de novos valores de sociabilidade e ética”. O mais bonito é observar como a frase já supõe que o que acontecerá em sala de aula não será decidido nem por alunos nem por professores: o burocrata, provavelmente, é que vai decidir quais são os tais valores com que eles devem estar “conectados”.

É o caso de perguntar: essa vacuidade toda, que tem propriedades hipnóticas, serviu só para tornar a mente do leitor dócil à última afirmação? Pergunto a sério: isto é acidental ou proposital?

Minha frase favorita, porém, é esta aqui:

Educação de qualidade depende basicamente da formação e da motivação do material humano envolvido no processo de ensino.

Ou, em português, a educação depende de professores e alunos capacitados e motivados. “Material humano envolvido no processo de ensino” é de gargalhar. O truque de fazer com que qualquer substantivo seja precedido de “processo de” é velho, mas sempre funciona.

O resto do artigo é propaganda de sua gestão em Belo Horizonte e a reafirmação de que a educação é importante para o Brasil virar uma nação desenvolvida etc. Bobagem pura. Primeiro porque fora do mundo militar o Estado nunca desenvolveu nada nem ninguém; quem traz progresso são indivíduos privados que não dependem da aprovação do Homer Simpson que não pode ser demitido. Segundo porque vincular a educação de indivíduos a objetivos de desenvolvimento nacional é loucura. A educação de indivíduos é tangível e idealmente acontece com acompanhamento próximo e atenção às aptidões particulares. Pode-se conversar com indivíduos e ver os bons ou maus frutos de sua educação e/ou auto-educação. Agora, o desenvolvimento da nação só pode ser medido por índices na melhor das hipóteses arbitrários e perfeitamente manipuláveis. A fantasia e a mentira são imprescindíveis para a sustentação de burocratas que pretendem “governar” milhões de pessoas.

Fiquemos com o prefeito de Sucupira, em visita à ONU:

O fim do subjuntivo?

É possível que a morte do subjuntivo tenha começado em São Paulo: mais de uma pessoa já me disse que uma das marcas da fala daquela cidade é o famoso “você quer que eu faço” no lugar de faça. Mas aqui no Rio já até me acostumei a ouvir falar assim, e a ouvir o pretérito perfeito do modo indicativo tomar o lugar da locução de particípio com auxiliar no subjuntivo: “talvez ele foi” no lugar de “talvez ele tenha sido”. Como de hábito, atribuí a causa à influência inglesa – sim, tenho mania de atribuir quase todos os maus usos que vejo ao fato de o inglês ser quase a nossa verdadeira língua de cultura e o português ser a língua que usamos para comprar pão – , porque as equivalências entre os tempos verbais nas duas línguas não são tão imediatas quanto ensinam nos cursos. Afinal, mesmo que o inglês obviamente possa expressar o modo subjuntivo, não há marcas peculiares que o distingam. Se digo maybe he was an honest man, escrevo e falo was exatamente como no passado simples: he was an honest man. Só que a tradução da primeira frase é “talvez ele fosse / tenha sido um homem honesto”, e a da segunda é “ele foi / era um homem honesto”. Mais curioso ainda é que tenho a impressão de que se o verbo fosse “querer” não haveria erro de tradução, nem mau uso do tempo verbal português; não consigo imaginar ninguém dizendo “talvez ele quis” no lugar de “talvez ele quisesse”.

Pois bem. Eu considerava que isto tudo era um fenômeno oral, e que não chegaria à versão escrita do que consideramos “português culto”, até que ontem o colunista Luiz Garcia, do Globo, iniciou sua coluna com um fantástico “talvez… é”. O revisor não corrigiu, e hoje, quando o jornal costuma publicar correções e erratas de ontem, não saiu nada sobre o “talvez é”. Vejam, nunca achei, ao contrário dos nossos professores, que a leitura habitual de jornais e revistas fosse importante para adquirir um bom domínio da língua escrita, porque a linguagem jornalística tende a ser padronizada e inexpressiva. Porém, tenho que admitir que é muito difícil nela encontrar um erro de português, e por isso me surpreendi com o erro no texto assinado.

Luiz Garcia

O Globo, 20 de Abril de 2007, com link para PDF da página

Agora preciso perguntar: foi um erro mesmo? O aparecimento deste “talvez é” é apenas a aceitação do que é supostamente inevitável?

Francamente, não acho que devamos dar tanto peso, no nosso uso pessoal da linguagem, ao argumento do “uso consagrado”, porque isso é tão imbecil quanto fazer algo só porque todo mundo faz. Claro que a linguagem depende sobretudo do uso comum, mas ela é um pouco semelhante às roupas: necessárias e dizem algo a seu respeito, nem que seja só que você não está muito interessado em escolhê-las. Sua escolha de palavras e estruturas também mostra se você é ou não ou amante da precisão e da própria linguagem. Por isso não queria que o subjuntivo morresse. Pouco me importa que o inglês só distinga o subjuntivo pelo contexto, exceto nas pessoas do singular no passado; importa que todo modo de expressão é um jogo entre informação – aquilo que você não sabe – e redundância – aquilo que você já sabe – , em que esta confirma aquela. O contexto é, por sua natureza, um modo indireto de dar informações, e por isso fica melhor no papel de redundância que no de informação. Vamos deixá-la com o verbo, em torno do qual nossa expressão se ordena.

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