Esperando o novo acordo ortográfico

Difícil é gostar do acordo ortográfico, e eu nunca vi uma única pessoa que o defendesse além dos gramáticos que o fizeram. É como se esses gramáticos tivessem inventado um imposto que beneficiasse o próprio ego, sabendo que, graças a uma imposição, milhões de pessoas no mundo inteiro agora poderão cometer novos erros ou policiar-se para não cometê-los. A súbita mão do fantasma oculto de Evanildo Bechara quer guiar-nos.

Eu mesmo não gosto do acordo ortográfico porque acho que a estabilidade da língua escrita é um bem que facilita a comunicação entre as gerações. Gostaria de mostrar a meus netos edições facsimilares de Os Lusíadas e deixá-los espantados com o fato de que séculos nos separam de Camões, mas não o idioma. Gostaria de não ter de “transliterar” Camões, ou de transliterar o mínimo. E se eu fosse escolher uma ortografia, seria aquela, a etimológica, que Fernando Pessoa usou para escrever Mensagem.

Também me parece evidente que não serão algumas mudanças ortográficas que vão ajudar a “unificar” o idioma. Não há como não sentir o gosto do português europeu quando lemos que alguém está a fazer alguma coisa, e não fazendo, e isso é só o começo. Há as diferenças de vocabulário – um amigo meu foi morar em Portugal quando criança e nunca se esqueceu da primeira vez que um adulto se referiu a ele como “o putinho”.

Eu trabalho com tradução e tenho de entregar meus textos com o acordo ortográfico. Comprei o corretor da Priberam e tudo bem. Mas só sei enunciar uma regra: não se acentua mais ditongo aberto em posição paroxítona. O resto é o corretor que faz. Ou então consulto o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, vulgo VOLP, vôupi (circunflexo pode?). Não posso deixar de pensar naquele diálogo de Platão (Fédon? Fedro?) em que Sócrates recusa a escrita porque vai acabar com sua memória. Nesse caso específico, eu poderia alegar que, pelo menos no que diz respeito à colocação de hífens, eu nunca jamais soube colocá-los, e não é agora que vou saber.

João Pereira Coutinho vem dizer na Folha que não se muda a língua por decreto. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, digo eu que se muda sim, e eis a experiência a demonstrá-lo amplamente. As editoras adotam o acordo, a imprensa adota o acordo, os concursos públicos adotam o acordo (e o brasileiro que não escreve profissionalmente só escreve em prova de concurso), o ENEM adota o acordo e por isso a escola adota o acordo etc. etc. etc. É duro admitir, mas a maleabilidade da língua portuguesa no Brasil a decretos está intimamente ligada à fraqueza da sociedade civil.

Complemento ainda com o seguinte, que já devo ter dito por aqui. Você entra numa Faculdade de Letras e lá estão os linguistas. Há lá os linguistas que só estudam as estruturas e o uso e tal, e são gente boníssima. Nunca falam da prescrição gramatical e aprendi um bocado com essas pessoas, que me mostraram que o que Chomsky tem de palhaço falando de política, tem de gênio falando de linguagem. Mas há também um bom grupo de professores que passam o dia falando mal da Nomenclatura Gramatical Brasileira, vulga NGB, e do ensino nas escolas. Ora, a NGB foi instituída por uma portaria do então Ministério da Educação e Cultura em 1959. Logo, a questão é de fato jurídica. Claro que alguém pode se perguntar se é função do Estado decidir regras de acentuação ou definir o que é um substantivo, mas isso, enfim, é uma questão de como as coisas deveriam ser, e não de como elas são.

Então, como diriam os paulistas, esses professores que só fazem falar mal da NGB (e eles nem estão errados no que dizem) também fazem outra coisa, que é falar de como as coisas deviam ser. E esse processo já deve ter algumas décadas. O establishment linguístico, digamos assim, não tem defensores ideológicos, não tem seus intelectuais orgânicos. Quem dá aula em cursinho e ensina a língua tal como cobrada em provas também tem lá suas críticas e não fala disso porque, bem, ganha-se por hora, e se o aluno fosse fazer Letras não precisava de cursinho.

Esses professores ainda não estão satisfeitos com o acordo atual. Eu sei que antes de morrer verei novas modificações. Há quem queira acabar com todos os acentos, há de tudo. O mesmo fantasma que há alguns anos subitamente lançou sua mão voltará, apenas com outro nome. Não se trata, como falei, de um fantasma oculto, mas de um espírito de permanente reforma, animado por aquele progressismo ressentido que acha que a “ciência” é a maneira mais elegante de esconder uma sensibilidade pobre e a sensação de estar “excluído”, mesmo que o governo dê escola, professor, lanche e transporte. Só não dá – espero que alguém se eleja prometendo isso! – a vontade de estudar e de passar mais tempo na biblioteca do que na cantina.

Registros

Sempre que vou ao teatro, ouço o presente do indicativo usado para referir uma ação que acontece naquele momento. Isso é bizarro porque na fala, na famosa vida real, nós usamos o gerúndio para isso. Por exemplo, ninguém diz “eu como”, mas “eu estou comendo”. O presente “eu como” refere uma ação habitual. “Você come chocolate?” significa “Você tem o hábito de comer chocolate?”.

De início eu pensava que isso era um dubladismo, isso é, um vício adquirido pelos tradutores a partir do consumo de filmes dublados, e todos nós, na infância e na adolescência, consumimos filmes dublados. Depois, quando crescemos e viramos tradutores, passamos a consumir o inglês diretamente e a deixar o português como língua que só se usa para trabalhar e para comprar pão. Mas observo que mesmo textos escritos em português estão cheios de presentes do indicativo com o valor que mencionei acima. Por quê? É coisa típica do registro literário escrito, mas é também do diálogo dramático? Por que as pessoas têm a exigência nominal de diálogos realistas, mas aceitam essa peculiaridade? É por que elas têm mau ouvido?

Estou traduzindo uma peça de teatro, com diálogos que não tem pretensões barrocas, e não consigo escrever assim. Preciso usar o registro real, que escuto todos os dias. Mas já começo a me questionar.

A socialização do prestígio & a elitização sem precedentes

Vamos imaginar que a ideia de educação universal começou com a premissa de que todos deveriam ter acesso aos tesouros da humanidade. Vamos só imaginar, porque essa premissa é completamente falsa: a educação universal é um projeto do Estado-nação moderno, voltado para a competitividade e para a padronização; a educação universal é o paralelo pedagógico da Revolução Industrial.

Aquela premissa, porém, é o que nominalmente anima os burocratas e os educadores. O leitor pode chocar-se, pensar que não, que efetivamente anima, mas eu digo que não, e dou minhas razões. Fiz faculdade de Letras, e posso garantir que metade da faculdade foi dedicada à crítica do “ensino nas escolas”, da “gramática tradicional” e ao combate ao famoso “preconceito linguístico”. O que está por trás disso é o seguinte: não gostamos da gramática, não queremos ofender ninguém, então vamos dizer que a cultura de todo mundo é igualmente boa. Assim, você, que achava que ia para a escola para aprender a conversar com Fernando Pessoa, com Machado de Assis, agora não vai aprender nada, exceto que conversar com o Zé das Couves é tão bom quanto conversar com Fernando Pessoa e com Machado de Assis. E, se você achar que não, bom, você é elitista, você está eivado de preconceito linguístico.

Admirar Fernando Pessoa e Machado de Assis é difícil. É difícil, em primeiro lugar, porque muitos de seus textos são densos. Mensagem exige conhecimento da história portuguesa e intensidade reflexiva. Como explicar versos misteriosos como “Os deuses vendem quando dão”? Por que “o mito é o nada que é tudo”? Machado, em grande parte, exige uma certa maturidade, uma capacidade de olhar para si. Bentinho não é muito melhor nem muito pior do que a maioria de nós, e Dom Casmurro é muito mais do que o possível adultério de Capitu: seguindo uma dica de Antonio Fernando Borges, que, sem saber, guiou minha última leitura do romance, há um ano, percebi que o livro é proustiano antes de Proust, que é uma piada amarga a respeito da seletividade da memória, sem no entanto deixar de despertar compaixão no leitor. O único problema de dar Dom Casmurro para adolescentes é que esse tipo de livro só costuma ser devidamente apreciado quando já é tarde demais e já se sente alguma identificação com o narrador…

Mas, como bom brasileiro, divago. O que quero dizer é que o trabalho intelectual, como todo trabalho, dá preguiça, e olha eu sendo um clichê de brasileiro de novo. Junte à preguiça o fato de que gente de prestígio internacional, como Paulo Freire, vem sugerir que aquilo que você já tem é no mínimo tão bom quanto aquilo que você poderia ter e que os outros, aquela odiosa e opressora elite, já têm. Isso ativa a sua inveja. Então é possível ser tão bom quanto a elite sem fazer nada? Note-se que isso é uma concepção paranoica e equivocada da elite, mas que é comum. Já disse isto no passado: ao frequentar a UFRJ, que tem pessoas das mais diversas camadas sociais, descobri que os mais pobres julgam que os mais ricos leem Machado de Assis como quem folheia uma revista Caras, o que me dava ganas de dar aos meus interlocutores tapinhas condescendentes nas costas. Nossa elite econômica é quase tão inculta quanto seus empregados.

A ideia de educação foi assim contaminada pela preguiça e pela inveja. Nessa disputa de classes, porém, só há perdedores. Primeiro, porque é só um lado que está lutando. Hoje em dia, a elite já manda os filhos estudarem fora do Brasil, ou em escolas americanas e britânicas, ou em escolas que habilmente vão ignorando a correção política e que custam pequenas fortunas. Por outro lado, aqueles indivíduos que são efetivamente movidos pela curiosidade intelectual e que têm grande inteligência existem em todas as classes e progridem a despeito do meio, sempre. Talvez pudessem progredir mais, mas não é um professor dizendo que “nós vai” é apenas um registro sem prestígio por causa da dominação classista que vai impedi-los. Assim, o desejo de uma classe acadêmica e burocrática preguiçosa e invejosa de obter para si o prestígio que julga que uma certa elite possui acaba levando a uma elitização sem precedentes: se você não tiver a sorte de nascer pelo menos nos estratos superiores da classe média, ou de nascer dotado de inteligência e motivação, ou de preferência os dois, pode pelo menos agradecer ao burocrata que inventou a tal da aprovação automática.

Enquanto isso, podemos assistir ao distanciamento cada vez maior entre língua escrita e língua falada; ao uso cada vez mais amplo do pronome “que” sem qualquer preposição (“a pessoa que eu fui na palestra que eu fui”, isso é, “a pessoa com quem eu fui na palestra a que eu fui”), e a tudo aquilo que já faz do português culto um idioma verdadeiramente esotérico, ao menos no Brasil. O bom uso do idioma tornou-se uma qualidade tão rara que, na minha experiência, é usada até como critério de atratividade sexual por algumas mulheres.

Duas vozes de Odorico Paraguaçu

Suponha que você vá ler o texto “Um estadista sensitivo”, de Ítalo Moriconi, sobre Joaquim Nabuco. Logo na primeira página você vai encontrar uma citação de Tristão de Athayde, o velho Dr. Alceu, o Frei Betto de sua época, ou o Leonardo Boff, ou um misto dos dois. Dr. Alceu descreve seu encontro com Joaquim Nabuco:

O cenário do encontro não podia ser mais propício ao esplendor da revelação da mais bela flor masculina da nossa gente, já cercada de uma auréola de que o adolescente ouvira muito falar. (…) O cenário foi a praia de Botafogo, recentemente modernizada mas ainda totalmente deserta. Crepúsculo ainda claro. Ninguém na calçada do mar. Morando então ali por perto, na Rua Senador Vergueiro, costumava eu à tarde, vez por outra, ir passear o lirismo da adolescência já inquieta por aquelas avenidas novas, sem vivalma. (…) vejo ao longe dois vultos que se aproximavam (…) logo reconheci Eliah Root, o famoso delegado norte-americano e o nosso Nabuco. Fiquei siderado. O busto alevantado (…) um rosto aberto, iluminado por dentro de uma luz interior que completava a luminosidade do crepúsculo nos cabelos, olhos serenos e olímpicos, o chapéu, indispensável na época, mas na mão, o que já representava uma audácia (…) Em tudo uma grandeza, uma serenidade, uma harmonia, uma paz e tanta simplicidade humana que até hoje, quando me sinto perturbado e duvidoso de nossa gente, volto depressa àquela imagem imorredoura em minha memória, e retomo o caminho da confiança em nosso futuro. Nabuco continua a ser, para mim, o grande reconciliador nas horas de dúvida e desalento. Um país que produziu um exemplar humano como aquele, na mais bela harmonia de corpo e espírito, não pode deixar de ir para a frente e para o alto!

E após o estilo, digamos, afetado, oco, esparramado, que nos faz imaginar um grande sermão dado pela Hebe Camargo.

O autor do ensaio, Ítalo Moriconi, também fala sobre Nabuco:

A metáfora da moléstia de Nabuco é portanto índice de uma pedagogia centrada num paradigma que teoriza e pratica a formação como implantação no Brasil de valores civilizatórios europeus e norte-americanos selecionados em função de sua universalidade.

E agora vemos que a Hebe Camargo tem um diploma, e fala para as suas espectadoras no meio da sala de aula.

Como modelo da Hebe, e do Dr. Alceu, e de Ítalo Moriconi, ao som do mar e à luz do céu profundo, fulgura o grande, o eterno Odorico Paraguaçu.

Minha enésima vituperação contra o modo como o Ministério da Educação vilipendia a língua portuguesa


Você está vendo esse livro? Ele não teve revisor. Não consta nos créditos. E isso é deveras perceptível. Um livro excelente, soterrado pelo péssimo uso do português.

***

A impressão que tenho, francamente, é que algo entre 99% e 99,9% dos livros brasileiros de direito e economia — escritos originalmente em português ou traduzidos — foram escritos por pessoas cuja cultura começa e termina no Sony Entertainment Television e cujo uso do português se resume aos rápidos contatos com garçons. O português não é língua de cultura da elite cultural do Brasil, e isso é deveras evidente. O português é só uma língua que se fala por um acidente comezinho do dia-a-dia.

Digo-vos, senhores, quem é o culpado; o culpado mesmo, não um mero bode expiatório. O culpado é o Ministério da Educação. Primeiro inventa-se que a criançada tem de saber distinguir entre um completivo nominal e um adjunto adnominal; que é preciso saber classificar uma oração subordinada reduzida de gerúndio (e se vocês soubessem que cousa simples está ocultada por esse termo técnico pomposo…); faz-se provas pedindo mil e uma classificações. O problema, é claro, é que a inteligência não opera sobre o vazio. Quando eu, já burro e velho, efetivamente aprendi essas coisas, foi junto com o grego (se você chegou agora, formei-me em grego antigo na UFRJ — na tenra idade de 33 anos) e junto com mil teorias de sintaxe, algumas realmente fascinantes. E eu já tinha traduções publicadas, já tinha lido todos os romances de Machado, a obra de Camões e muito muito muito mais. Repleta de exemplos, minha inteligência captou algo.

Mas aquele “primeiro” do parágrafo anterior pede um “segundo”, e lá vai: uma discussão como a do “preconceito linguístico” peca muito mais por sua extemporaneidade do que por sua estupidez intrínseca. Estupidez intrínseca porque, bem, todo mundo discrimina todo mundo segundo algum critério. Não gosto de quem não se preocupa em falar bem, ou pelo menos claramente. Se você acha que a cortesia de se fazer entender pelos outros é opressão burguesa, obrigado, nossa conversa acabou. E se você não vê o mais mínimo bem em poder falar com Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Gonçalves Dias etc., não tínhamos assunto mesmo. Passando à extemporaneidade, lá vai: essa discussão só agrava o erro inicial, que é presumir que existe alguma necessidade fundamental em dominar regras de gramática de maneira explícita e autoconsciente. Eu penso na teoria que diz que a preposição é o núcleo do sintagma preposicional toda vez que faço o paralelismo da preposição, mas discriminar um economista por não saber do que estou falando seria tão injusto quanto ele me discriminar por eu não saber o que é Curva de Philips (mas eu sei). Em suma, enfatizar tanto a gramática é tão imbecil quanto ficar reclamando dela. O efeito das duas atitudes é o mesmo: as pessoas falam e escrevem como se nunca tivessem conhecido a língua portuguesa.

Solução? Não sou a favor de grandes métodos obrigatórios, mas é difícil não observar que aumentar as aulas de literatura e de redação e diminuir — sim, isso mesmo, diminuir o número de aulas de gramática é fundamental. Nem que seja para acabar com esse negócio de qualquer palhaço vagamente letrado ficar corrigindo a ortografia alheia e se achando o Alexandre Herculano do Baixo Grajaú. Sem contato com a língua, os economistas continuarão escrevendo como economistas, e os advogados como advogados, e estou dizendo isso porque não consegui pensar num insulto pior. Se você é a exceção, então deve ser inteligente o bastante para saber que esse texto não se dirige a você. Ou se dirige também: se você gosta do português, contribua para acabar com o monopólio do Ministério da Educação, que só dá a seus súditos uma mistura sórdida de papinha literária de letrinhas de música e regras gramaticais que ajudam tanto a falar e a escrever bem quanto uma aula de Física ajuda a andar de bicicleta. Quer dizer, se você já for muito bom, essa aula pode até te deixar melhorzinho. Mas é só.

A querela da “presidenta”, para não falar das rimas

Sou tradutor. Literário. Passo o dia inteiro com o Houaiss aberto, perguntando-me: posso dizer isso? Tal uso é legítimo? Uso o seguinte critério: se algo está no Houaiss, então pode, pronto, acabou.

Por isso, digo de uma vez: “presidenta” está no Houaiss. Vamos nos poupar da discussão sobre o particípio presente do latim. Não falamos latim. Falamos português. Sou totalmente a favor de não esquecermos nossas raízes, mas peraí, sou ainda mais a favor da sensatez.

Agora, se Dilma Roussef quer, apenas para usar um feminino opcional, abrir as portas para que a mesma regra crie suplentas, gerentas, tenentas e serventas (e por que não pessoas diferentas? Seria a diferença na diferença, a revolução dentro da revolução) e ainda expor-se a todos os adjetivos rimados com “-enta”, bom, boa sorte. O mojo dos humoristas televisivos brasileiros já se foi há bastante tempo, então realmente ela está segura.

E não vamos esquecer dos dentistos e dos ortopedistos.

Moral da história: parodiando São Paulo (1 Cor VI, 12), tudo lhe é permitido, mas nem tudo lhe é conveniente. Ou conveniento.

Pruridos elitistas ou cinismo necessário?

Todos os dias eu começo a escrever um texto sobre o discuro eleitoral e eleitoreiro, mas todos os dias eu paro no meio, porque tenho dificuldades de acreditar que as pessoas esperam que um falatório entre dezenas de milhões de pessoas seja o equivalente a um sereno diálogo platônico cujos personagens são tecnocratas da mais alta estirpe. Antes de ter opinião sobre qualquer candidato, não posso deixar de observar que é impossível que uma eleição com dezenas de milhões de eleitores seja travada entre reis-filósofos feitos à imagem e semelhança da auto-imagem de pureza imaculada e sofrida que as classes médias intelectuais têm de si. Existe uma contradição bizarra nesse desejo, porque de um lado você quer ser membro de uma elite para mostrar que não é como o povão, mas na hora de votar você gostaria que o povão agisse como você.

Isso para nem falar de questões jurídicas objetivas. Se o tema do aborto passou a dominar o falatório, ninguém nem se pergunta que poder o presidente da república tem para mudar a legislação nesse sentido, e eu creio, do alto do meu pouco conhecimento, que o congresso é que pode interferir nessa questão. Mais ainda, os dois candidatos já demonstraram ser a favor do aborto. Você pode votar em um ou em outro, mas não, pelo amor de Deus, por suas afetações religiosas ou para combater a grande ameaça abortista. É razoável pedir que os candidatos se comprometam a não fazer certas coisas, mas como vamos pedir que eles mudem suas convicções? Será tão difícil perceber que quem mente nisso mentirá depois? Será realmente tão difícil fazer com que a eleição não seja um contrato da mentira?

Pode ser que, ao dizer isso, eu mesmo demonstre sofrer do mal que acusei nos outros no primeiro parágrafo. Pode ser que eu queira um rei-filósofo. Mas acho que só quero que a relação entre as palavras e as coisas sejam um pouco menos comprometida. Frequentemente acusam-me de cinismo por dizer que sou cético em relação ao Estado; por apontar que sempre presumem, ao dizer que cabe ao Estado fazer x ou y, uma certa superioridade moral sua que me parece, digamos, descabida. Fato é que realmente se coloca uma questão: ou você vai duvidar totalmente dos candidatos, e abster-se até de pensar no assunto; ou vai acreditar no que dizem, o que é manifestamente irracional; ou vai cinicamente admitir que uma coisa é o que eles vão fazer, e outra coisa é como eles vão ganhar votos. A primeira alternativa é confortável, mas tem um alto preço, que é o de desautorizar-se para a discussão. A segunda é viável se você estiver disposto a admitir que votar num partido é semelhante a torcer para um time: como é algo que se faz por identificação emocional, é algo que liga a máquina da perpétua autolegitimação. A terceira pode ser a mais razoável, mas paga-se por ela o preço de assumir definitivamente uma postura elitista, olhando de cima os tolinhos que crêem em políticos. Essa postura, aliás, a curto prazo, parece ao menos obrigar a uma estóica indiferença perante o mero fato de o povão votar como vota. (E, a médio prazo, a observar que as únicas pessoas que pensam em “bem comum” são umas poucas, e que não têm muito a perder porque não têm muita coisa mesmo.)

Sei que existe um Brasil estável e institucional que sente apenas de leve as ondas políticas (não que esse Brasil não tenha problemas), e que por isso não é cabível um supremo desprezo no estilo Vovó Ricarda Dawkins diante do Estado. Mas também não é cabível que se espere que gente que se esforçou para ser mais responsável intelectualmente consiga olhar o discurso eleitoral, com todas as mentiras, boatos, afetações e fingimentos como algo mais do que um circo grotesco.

Onde vamos parar?

Diversas coisas – estou concluindo a faculdade, vejam só – têm-me mantido afastado do blog. Mas agora eu preciso falar da minha perplexidade. Acabo de ver Ferreira Gullar dizendo (no Globo de hoje) que a poesia de Salgado Maranhão tem “sinergia”. Ferreira Gullar! O que virá depois? Vamos um dia dizer que a poesia de Fulano “agrega valor” e “otimiza processos”? Vamos dar aulas de poesia usando apresentações de PowerPoint e aquele laser vermelho?

O leitor pode pensar que não passo de um purista que quer manter o reino da poesia e da crítica intocado pelo vil linguajar dos gerentes. Em muitos sentidos, é isso mesmo. “Agregar valor” pode entrar numa obra literária de duas maneiras legítimas: como zombaria e como expressão de um personagem que não se entende bem com as palavras.

Não podemos também deixar de cogitar que Ferreira Gullar estava na verdade sendo polido e gozando da cara de todos ao falar em “sinergia”. Se “sinergia” é uma espécie de complementaridade (eu queria dizer “concorrência”, mas ninguém lembra mais que há um sentido de “concorrência” que equivale a “correr juntos”) virtuosa de vários objetos para um mesmo fim, toda poesia tem “sinergia”, e dizer que essa palavra descreve a poesia de alguém é tão expressivo quanto dizer que a poesia de alguém é feita de linguagem.

Se Gullar estava sendo irônico, pois, tenho de perguntar se um dia não vamos poder descansar um pouco de tanta ironia.

Emendando-me

Deixo o post abaixo, com a tag de strikethrough, como registro da besteira que disse e que dois leitores tiveram a bondade de apontar. Na verdade, pode haver investigação por parte do tribunal e julgamento sumário, uma vez que o julgamento sumário é caracterizado pela ausência do “amplo direito de defesa”, incluída aí a possibilidade de questionar aquilo que a investigação tenha apurado.

O site que mais consulto é o Houaiss. Vou consultar regências, vou ver se as acepções em que quero usar as palavras são autorizadas, e vou procurar sinônimos. Hoje eu queria algum sinônimo para “inquisitivo”, e queria ver se havia algum substantivo sinônimo de “inquisição” que não tivesse a conotação de “Santo Ofício”. Pois o verbete do Houaiss para “inquisição” registra, na sua segunda acepção, o seguinte (é preciso assinar o UOL para ter acesso; e o grifo é meu, claro):

2 Rubrica: história da religião.
tribunal eclesiástico instituído pela Igreja católica no começo do sXIII com o fito de investigar e julgar sumariamente pretensos hereges e feiticeiros, acusados de crimes contra a fé católica; Santo Ofício [Os condenados eram enviados ao Estado, para serem sentenciados.]

Caro Dicionário Houaiss: se há investigação, não há julgamento sumário.

Português culto, idioma esotérico

Acabo de ver um artigo cuja manchete fala na “vista dramática” de um hotel. O pior não é ver a língua portuguesa, no Brasil, assumindo cada vez mais anglicismos; o pior é ver que esses anglicismos vêm de usos toscos e publicitários do inglês.

A reclamação a respeito da influência estrangeira em uma língua neolatina, por sua vez, pode soar perfeitamente ridícula. Não era o português de sessenta anos atrás perfeitamente afrancesado, cheio de “coisas as mais diferentes”? Mais ainda, sendo o latim e o grego línguas mortas e estrangeiras, não seria absolutamente arbitrário apreciar a influência delas, e detestar a influência de outras? Nesse caso particular, eu diria que a resposta é que não, porque são línguas que estão na base da nossa, e conhecê-las nos recorda de que o português não existe no ar, voando, como um absoluto sem relativos, uma coisa-em-si auto-originada.

O que me causa ressentimento, isso sim, é gostar do português e ver que, cada vez mais, as classes mais escolarizadas do Brasil só utilizam o idioma para executar as tarefas mais comezinhas do dia-a-dia, sem que o português seja efetivamente uma língua de cultura, de que se possa valer para expressar o que há de (ao menos um pouco) mais sutil no pensamento. Fôssemos bárbaros a fundar o Condado Portucalense, sem que tivéssemos na bagagem Camões, Sá de Miranda, Alexandre Herculano, Gonçalves Dias, Camilo Castelo Branco, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Bruno Tolentino etc. etc. etc., vá lá; mas nem sequer estamos trocando Machado de Assis por Shakespeare, e sim Machado de Assis por Friends — e não é nem o caso de dizer que eu desgoste de séries americanas — e por literatura de avião. Não é, de fato, o caso de dizer que os brasileiros menos incultos têm sido atraídos para a alta cultura de língua inglesa, mas apenas para a cultura de massas de língua inglesa, que de fato é melhor do que a nossa.

O que me causa temor, por fim, é que um dia o português rico se torne, no Brasil, uma espécie de idioma esotérico, falado por cultores vetustos, uns nos corredores do Itamaraty, outros em torno das mesas da livraria Leonardo da Vinci, outros ainda em antigos sebos, e que seja preciso um Dante que escreva “em língua vulgar” uma grande obra, para que só então a posteridade, ou uma mínima parte dela, veja o que perdeu.

%d blogueiros gostam disto: