Cuspido e escarrado

Sem querer dar uma de filólogo, que certamente não sou, devo dizer que fico um tanto perplexo com a segurança com que ouço dizer que a expressão portuguesa “cuspido e escarrado” – usada em frases como “ele é o retrato cuspido e escarrado do outro”, no sentido de que ele é igualzinho ao outro – teria vindo de “esculpido em Carrara”. Carrara é uma cidade italiana de onde vem um tipo de mármore, conhecido justamente como “mármore de Carrara”.

A ideia de que o “esculpido em Carrara” deu “cuspido e escarrado” parece fazer sentido por causa da semelhança sonora. E também porque costumamos pensar que o povo interpreta mal aquilo que lhe parece exótico. Esse pensamento não é todo equivocado: quem mora no Rio sabe que a praça Saens Peña também é chamada de Saens Pena, e que o bairro de Realengo veio a receber esse nome porque era indicado em placas como Real Engo. Nesse caso, o interpretar mal significa interpretar uma regra desconhecida segundo uma regra conhecida. Aqui, é claro, haveria uma deixa para discutir o objetivo da educação: ensinar novas regras, ampliar o leque de regras conhecidas, ou ficar só “falando de coisas próximas da realidade do aluno”?

Mas, tornando à expressão, já procurei fontes autorizadas que digam que a origem de “cuspido e escarrado” é “esculpido em Carrara” e não achei nenhuma. O que sei é que, em inglês, existe, com sentido idêntico ao nosso “cuspido e escarrado”, a expressão spitting image, que por sua vez é sim uma “corruptela” fonética de spit and image, “cuspe e imagem”, expressão que vem da ideia bíblica de que Deus, com seu hálito, fez o homem à sua imagem. Em francês, há o portrait craché (“retrato cuspido”), e em italiano você pode dizer que é alguém é sputato (“cuspido”) a outro alguém.

Boa parte dessas informações, aliás, consta do verbete do Houaiss para “cuspido”. O Houaiss é o grande dicionário mais recente da língua portuguesa e creio não haver pedantismo em sugerir que consultá-lo seja obrigatório. Semana passada, vi gente que dizia até que o Brasil não devia fazer Olimpíada porque tinha transformado “esculpido em Carrara” em “cuspido e escarrado”. Não me lembro quem foi, nem importa. O que importa, mesmo, é ver que uns podem falar besteira, mas outros que vão criticá-los nem se dão ao trabalho de ir ao dicionário.

Estilo brasileiro x anglo

Não é bonito citar exemplos dos livros que já traduzi, por isso vou contar com a cultura do leitor ao compartilhar esta pequena observação: se um dos defeitos mais comuns da prosa do português brasileiro, seja na ficção, no ensaio ou no jornalismo, é a pobreza vocabular, muitas vezes associada a uma pobreza de estrutura, uma incompreensão da subordinação e a um tempero de termos pomposos, um dos defeitos mais comuns da prosa de língua inglesa, nos mesmos gêneros, é a transformação da riqueza vocabular num valor em si. Sim, isso dá cor ao texto. Mas isso também serve de sinal para que o leitor perceba que entrou no terreno da ambição literária, e que o autor, mesmo que esteja escrevendo algo essencialmente informativo, está implorando para ser julgado por seu estilo. Sim, é melhor que haja uma preocupação com estilo. Só que, já diziam os romanos, há medida nas coisas. Ir ao dicionário de quando em quando é parte de qualquer leitura vagamente mais séria. Ir ao dicionário o tempo todo já começa a inviabilizar a fluência. Sem contar que começa a se formar uma sensação de barroquismo carnavalesco, de excesso de ornamentação. Auden dizia que na obra de arte (e tudo pode ser obra de arte, é só você fazer com arte) o que vem em primeiro lugar é seu objeto, seu assunto. Um lugar-comum que serve, talvez, como antídoto aos defeitos de brasileiros e de anglos: deixar que o objeto guie o estilo, até porque, no caso específico das artes da palavra, há que lembrar que a linguagem também tem função referencial, e que é preciso perguntar-se se é necessário referir (chamar a atenção para) tantas coisas.

Jogralidade infinita

De Camilo Castelo Branco, “Gracejos que matam”, no começo das Novelas do Minho:

Ordinariamente, chamam-se á franceza — espirituosos — uns sugeitos dotados de genio motejador, applaudidos com a gargalhada, e aborrecidos áquelles mesmos que os applaudem. São os caricaturistas da graciosidade.

O «espirituoso», á moderna, abrange os variados officios que, antes da nacionalisação d’aquelle extrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de caza, outros importados:

Chocarreiro — tregeiteador — arlequim — palhaço — proxinella — polichinello — maninêllo — truão — jogral — goliardo — histrião — farcista — farçola — végete — bobo — pierrot — momo — bufão — folião, etc.

Esta riqueza de synonimia denota que o bobo medieval bracejou na peninsula iberica vergonteas e enxertias em tanta copia que foi preciso dar nome ás especies.

Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga jogralidade, que era mestér vil, acendrada nos secretos crizoes do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espirito», e com o fôro maior de faculdade poderosa, caustica, implacavel.

Ainda assim o estreme espirito portuguez, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das farças: é chalaça.

Ha poucos mezes, falleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou quarenta annos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rocio. As gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que vivêra aventurosamente uns setenta annos tingidos com primoroso pincel, descontavam n’estes defeitos a sua immensa graça, e reproduziram nova edição melhorada das suas anecdotas.

Averiguado o «espirito» do homem em coisas burlescas de que fez mercancia na feira politica, liquida-se, quando muito, um folião que desbragava a penna e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este, que não deixou nome sobre-vivente para vinte quatro horas—nem o terá aqui—orça a maioria dos jograes que tenho visto, nos ultimos trinta annos, esburgar o osso da facção que lhes alquilla o engenho detrahidor, e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das rizadas.

O satyrico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o politico; mais funesto por que vulnéra melindres—coisa que o callôso peito da politica não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não apégou aqui, nem se adelgaça á feição da nossa indole, bem accentuada nas chocarrices plebeas de Gil Vicente e Antonio José.

Esperando o novo acordo ortográfico

Difícil é gostar do acordo ortográfico, e eu nunca vi uma única pessoa que o defendesse além dos gramáticos que o fizeram. É como se esses gramáticos tivessem inventado um imposto que beneficiasse o próprio ego, sabendo que, graças a uma imposição, milhões de pessoas no mundo inteiro agora poderão cometer novos erros ou policiar-se para não cometê-los. A súbita mão do fantasma oculto de Evanildo Bechara quer guiar-nos.

Eu mesmo não gosto do acordo ortográfico porque acho que a estabilidade da língua escrita é um bem que facilita a comunicação entre as gerações. Gostaria de mostrar a meus netos edições facsimilares de Os Lusíadas e deixá-los espantados com o fato de que séculos nos separam de Camões, mas não o idioma. Gostaria de não ter de “transliterar” Camões, ou de transliterar o mínimo. E se eu fosse escolher uma ortografia, seria aquela, a etimológica, que Fernando Pessoa usou para escrever Mensagem.

Também me parece evidente que não serão algumas mudanças ortográficas que vão ajudar a “unificar” o idioma. Não há como não sentir o gosto do português europeu quando lemos que alguém está a fazer alguma coisa, e não fazendo, e isso é só o começo. Há as diferenças de vocabulário – um amigo meu foi morar em Portugal quando criança e nunca se esqueceu da primeira vez que um adulto se referiu a ele como “o putinho”.

Eu trabalho com tradução e tenho de entregar meus textos com o acordo ortográfico. Comprei o corretor da Priberam e tudo bem. Mas só sei enunciar uma regra: não se acentua mais ditongo aberto em posição paroxítona. O resto é o corretor que faz. Ou então consulto o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, vulgo VOLP, vôupi (circunflexo pode?). Não posso deixar de pensar naquele diálogo de Platão (Fédon? Fedro?) em que Sócrates recusa a escrita porque vai acabar com sua memória. Nesse caso específico, eu poderia alegar que, pelo menos no que diz respeito à colocação de hífens, eu nunca jamais soube colocá-los, e não é agora que vou saber.

João Pereira Coutinho vem dizer na Folha que não se muda a língua por decreto. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, digo eu que se muda sim, e eis a experiência a demonstrá-lo amplamente. As editoras adotam o acordo, a imprensa adota o acordo, os concursos públicos adotam o acordo (e o brasileiro que não escreve profissionalmente só escreve em prova de concurso), o ENEM adota o acordo e por isso a escola adota o acordo etc. etc. etc. É duro admitir, mas a maleabilidade da língua portuguesa no Brasil a decretos está intimamente ligada à fraqueza da sociedade civil.

Complemento ainda com o seguinte, que já devo ter dito por aqui. Você entra numa Faculdade de Letras e lá estão os linguistas. Há lá os linguistas que só estudam as estruturas e o uso e tal, e são gente boníssima. Nunca falam da prescrição gramatical e aprendi um bocado com essas pessoas, que me mostraram que o que Chomsky tem de palhaço falando de política, tem de gênio falando de linguagem. Mas há também um bom grupo de professores que passam o dia falando mal da Nomenclatura Gramatical Brasileira, vulga NGB, e do ensino nas escolas. Ora, a NGB foi instituída por uma portaria do então Ministério da Educação e Cultura em 1959. Logo, a questão é de fato jurídica. Claro que alguém pode se perguntar se é função do Estado decidir regras de acentuação ou definir o que é um substantivo, mas isso, enfim, é uma questão de como as coisas deveriam ser, e não de como elas são.

Então, como diriam os paulistas, esses professores que só fazem falar mal da NGB (e eles nem estão errados no que dizem) também fazem outra coisa, que é falar de como as coisas deviam ser. E esse processo já deve ter algumas décadas. O establishment linguístico, digamos assim, não tem defensores ideológicos, não tem seus intelectuais orgânicos. Quem dá aula em cursinho e ensina a língua tal como cobrada em provas também tem lá suas críticas e não fala disso porque, bem, ganha-se por hora, e se o aluno fosse fazer Letras não precisava de cursinho.

Esses professores ainda não estão satisfeitos com o acordo atual. Eu sei que antes de morrer verei novas modificações. Há quem queira acabar com todos os acentos, há de tudo. O mesmo fantasma que há alguns anos subitamente lançou sua mão voltará, apenas com outro nome. Não se trata, como falei, de um fantasma oculto, mas de um espírito de permanente reforma, animado por aquele progressismo ressentido que acha que a “ciência” é a maneira mais elegante de esconder uma sensibilidade pobre e a sensação de estar “excluído”, mesmo que o governo dê escola, professor, lanche e transporte. Só não dá – espero que alguém se eleja prometendo isso! – a vontade de estudar e de passar mais tempo na biblioteca do que na cantina.

Registros

Sempre que vou ao teatro, ouço o presente do indicativo usado para referir uma ação que acontece naquele momento. Isso é bizarro porque na fala, na famosa vida real, nós usamos o gerúndio para isso. Por exemplo, ninguém diz “eu como”, mas “eu estou comendo”. O presente “eu como” refere uma ação habitual. “Você come chocolate?” significa “Você tem o hábito de comer chocolate?”.

De início eu pensava que isso era um dubladismo, isso é, um vício adquirido pelos tradutores a partir do consumo de filmes dublados, e todos nós, na infância e na adolescência, consumimos filmes dublados. Depois, quando crescemos e viramos tradutores, passamos a consumir o inglês diretamente e a deixar o português como língua que só se usa para trabalhar e para comprar pão. Mas observo que mesmo textos escritos em português estão cheios de presentes do indicativo com o valor que mencionei acima. Por quê? É coisa típica do registro literário escrito, mas é também do diálogo dramático? Por que as pessoas têm a exigência nominal de diálogos realistas, mas aceitam essa peculiaridade? É por que elas têm mau ouvido?

Estou traduzindo uma peça de teatro, com diálogos que não tem pretensões barrocas, e não consigo escrever assim. Preciso usar o registro real, que escuto todos os dias. Mas já começo a me questionar.

A socialização do prestígio & a elitização sem precedentes

Vamos imaginar que a ideia de educação universal começou com a premissa de que todos deveriam ter acesso aos tesouros da humanidade. Vamos só imaginar, porque essa premissa é completamente falsa: a educação universal é um projeto do Estado-nação moderno, voltado para a competitividade e para a padronização; a educação universal é o paralelo pedagógico da Revolução Industrial.

Aquela premissa, porém, é o que nominalmente anima os burocratas e os educadores. O leitor pode chocar-se, pensar que não, que efetivamente anima, mas eu digo que não, e dou minhas razões. Fiz faculdade de Letras, e posso garantir que metade da faculdade foi dedicada à crítica do “ensino nas escolas”, da “gramática tradicional” e ao combate ao famoso “preconceito linguístico”. O que está por trás disso é o seguinte: não gostamos da gramática, não queremos ofender ninguém, então vamos dizer que a cultura de todo mundo é igualmente boa. Assim, você, que achava que ia para a escola para aprender a conversar com Fernando Pessoa, com Machado de Assis, agora não vai aprender nada, exceto que conversar com o Zé das Couves é tão bom quanto conversar com Fernando Pessoa e com Machado de Assis. E, se você achar que não, bom, você é elitista, você está eivado de preconceito linguístico.

Admirar Fernando Pessoa e Machado de Assis é difícil. É difícil, em primeiro lugar, porque muitos de seus textos são densos. Mensagem exige conhecimento da história portuguesa e intensidade reflexiva. Como explicar versos misteriosos como “Os deuses vendem quando dão”? Por que “o mito é o nada que é tudo”? Machado, em grande parte, exige uma certa maturidade, uma capacidade de olhar para si. Bentinho não é muito melhor nem muito pior do que a maioria de nós, e Dom Casmurro é muito mais do que o possível adultério de Capitu: seguindo uma dica de Antonio Fernando Borges, que, sem saber, guiou minha última leitura do romance, há um ano, percebi que o livro é proustiano antes de Proust, que é uma piada amarga a respeito da seletividade da memória, sem no entanto deixar de despertar compaixão no leitor. O único problema de dar Dom Casmurro para adolescentes é que esse tipo de livro só costuma ser devidamente apreciado quando já é tarde demais e já se sente alguma identificação com o narrador…

Mas, como bom brasileiro, divago. O que quero dizer é que o trabalho intelectual, como todo trabalho, dá preguiça, e olha eu sendo um clichê de brasileiro de novo. Junte à preguiça o fato de que gente de prestígio internacional, como Paulo Freire, vem sugerir que aquilo que você já tem é no mínimo tão bom quanto aquilo que você poderia ter e que os outros, aquela odiosa e opressora elite, já têm. Isso ativa a sua inveja. Então é possível ser tão bom quanto a elite sem fazer nada? Note-se que isso é uma concepção paranoica e equivocada da elite, mas que é comum. Já disse isto no passado: ao frequentar a UFRJ, que tem pessoas das mais diversas camadas sociais, descobri que os mais pobres julgam que os mais ricos leem Machado de Assis como quem folheia uma revista Caras, o que me dava ganas de dar aos meus interlocutores tapinhas condescendentes nas costas. Nossa elite econômica é quase tão inculta quanto seus empregados.

A ideia de educação foi assim contaminada pela preguiça e pela inveja. Nessa disputa de classes, porém, só há perdedores. Primeiro, porque é só um lado que está lutando. Hoje em dia, a elite já manda os filhos estudarem fora do Brasil, ou em escolas americanas e britânicas, ou em escolas que habilmente vão ignorando a correção política e que custam pequenas fortunas. Por outro lado, aqueles indivíduos que são efetivamente movidos pela curiosidade intelectual e que têm grande inteligência existem em todas as classes e progridem a despeito do meio, sempre. Talvez pudessem progredir mais, mas não é um professor dizendo que “nós vai” é apenas um registro sem prestígio por causa da dominação classista que vai impedi-los. Assim, o desejo de uma classe acadêmica e burocrática preguiçosa e invejosa de obter para si o prestígio que julga que uma certa elite possui acaba levando a uma elitização sem precedentes: se você não tiver a sorte de nascer pelo menos nos estratos superiores da classe média, ou de nascer dotado de inteligência e motivação, ou de preferência os dois, pode pelo menos agradecer ao burocrata que inventou a tal da aprovação automática.

Enquanto isso, podemos assistir ao distanciamento cada vez maior entre língua escrita e língua falada; ao uso cada vez mais amplo do pronome “que” sem qualquer preposição (“a pessoa que eu fui na palestra que eu fui”, isso é, “a pessoa com quem eu fui na palestra a que eu fui”), e a tudo aquilo que já faz do português culto um idioma verdadeiramente esotérico, ao menos no Brasil. O bom uso do idioma tornou-se uma qualidade tão rara que, na minha experiência, é usada até como critério de atratividade sexual por algumas mulheres.

Duas vozes de Odorico Paraguaçu

Suponha que você vá ler o texto “Um estadista sensitivo”, de Ítalo Moriconi, sobre Joaquim Nabuco. Logo na primeira página você vai encontrar uma citação de Tristão de Athayde, o velho Dr. Alceu, o Frei Betto de sua época, ou o Leonardo Boff, ou um misto dos dois. Dr. Alceu descreve seu encontro com Joaquim Nabuco:

O cenário do encontro não podia ser mais propício ao esplendor da revelação da mais bela flor masculina da nossa gente, já cercada de uma auréola de que o adolescente ouvira muito falar. (…) O cenário foi a praia de Botafogo, recentemente modernizada mas ainda totalmente deserta. Crepúsculo ainda claro. Ninguém na calçada do mar. Morando então ali por perto, na Rua Senador Vergueiro, costumava eu à tarde, vez por outra, ir passear o lirismo da adolescência já inquieta por aquelas avenidas novas, sem vivalma. (…) vejo ao longe dois vultos que se aproximavam (…) logo reconheci Eliah Root, o famoso delegado norte-americano e o nosso Nabuco. Fiquei siderado. O busto alevantado (…) um rosto aberto, iluminado por dentro de uma luz interior que completava a luminosidade do crepúsculo nos cabelos, olhos serenos e olímpicos, o chapéu, indispensável na época, mas na mão, o que já representava uma audácia (…) Em tudo uma grandeza, uma serenidade, uma harmonia, uma paz e tanta simplicidade humana que até hoje, quando me sinto perturbado e duvidoso de nossa gente, volto depressa àquela imagem imorredoura em minha memória, e retomo o caminho da confiança em nosso futuro. Nabuco continua a ser, para mim, o grande reconciliador nas horas de dúvida e desalento. Um país que produziu um exemplar humano como aquele, na mais bela harmonia de corpo e espírito, não pode deixar de ir para a frente e para o alto!

E após o estilo, digamos, afetado, oco, esparramado, que nos faz imaginar um grande sermão dado pela Hebe Camargo.

O autor do ensaio, Ítalo Moriconi, também fala sobre Nabuco:

A metáfora da moléstia de Nabuco é portanto índice de uma pedagogia centrada num paradigma que teoriza e pratica a formação como implantação no Brasil de valores civilizatórios europeus e norte-americanos selecionados em função de sua universalidade.

E agora vemos que a Hebe Camargo tem um diploma, e fala para as suas espectadoras no meio da sala de aula.

Como modelo da Hebe, e do Dr. Alceu, e de Ítalo Moriconi, ao som do mar e à luz do céu profundo, fulgura o grande, o eterno Odorico Paraguaçu.