Mensagem de Natal

Nunca realizamos subjetivamente a experiência do bode expiatório, já perceberam? Todos o fazem, exceto nós mesmos, exceto cada um de nós, o que é impressionante. Eis um fenômeno universal e ninguém o pratica. Todos os nossos inimigos são genuínos, certificados, merecem nosso desafeto, mas os inimigos de outras pessoas são bodes expiatórios. Portanto, há algo errado com nossa atitude social, com nossas relações humanas: o fato de nunca observarmos isso em nós mesmos, considerando que essa é uma preocupação fundamentalmente cristã.

René Girard. Lições de René Girard na UniverCidade. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora, 2001.

No início de 2008, razões diversas fizeram com que meu interesse pela teoria mimética de René Girard aumentasse muitíssimo, o que se tornou óbvio para os que lêem o que escrevo. Passei a me interessar pela origem de certas atitudes, por aquilo que se chama de “formação de duplos”, isto é, o fato de que duas partes opostas que disputem o mesmo objeto tornam-se idênticas em suas atitudes. Veja o debate entre a direita e a esquerda nos blogs brasileiros: disputando o prestígio e a autoridade, uma acusa a outra de ser desonesta intelectualmente, e freqüentemente as duas partes têm razão; as duas aceitam o verossímil (segundo sua própria visão de mundo) como verdadeiro se é conveniente. O resultado dessa disputa, como de todas as disputas entre duplos, é um rastro de destruição da linguagem. Barack Obama vira marionete de bilionários iranianos; o Papa, culpado pela epidemia de AIDS na África.

O que surpreende, porém, é que a suposta solução para esse problema não passa pelo desprezo búdico das agitações mundanas e pela rejeição de todas as posições disponíveis no “mercado” ideológico. Eu mesmo continuo defendendo o Papa e o liberalismo (isto é, o estado de direito, a igualdade jurídica, um governo pequeno, limitado e sério); gostaria de acreditar que defendo essas coisas por achá-las verdadeiras e não apenas para vencer meus adversários – os quais são meus irmãos na medida em que somos humanos. Aliás, é o próprio Girard quem distingue entre “irmãos rivais” e “irmãos de verdade” em seu ensaio sobre o mito de Édipo e a história bíblica de José (em Oedipus Unbound). Isso coloca duas dimensões na atitude que eu gostaria de ter: agir por amor à verdade, agir por amor ao irmão. O que significa, se ainda não ficou claro, que tanto o esnobismo pseudo-chique quanto o tom autoritário não valem.

O nascimento de Cristo fortalece essa consciência, já presente no judaísmo. Se damos graças no dia de hoje, é simplesmente porque podemos saber que a violência e a alienação das vítimas não triunfará. Vamos nos esforçar para não fazer vítimas; para não sacrificar nem a verdade e nem os outros na hora de afirmar nossos pensamentos. A teoria mimética vai nos dizer que passamos da mediação interna, em que duas pessoas disputam um mesmo objeto imediatamente presente e que não pode ser satisfatoriamente compartilhado, para a mediação externa, em que buscamos um modelo transcendente, “fora” de nosso universo. Isso vale para Dom Quixote, que imitava Amadis de Gaula; e vale para o cristão, que busca imitar Cristo.

Em vez de buscar adotar um desejo de extinguir os desejos, o cristianismo vem propor que, primeiro, admitamos a natureza mimética do desejo. Não queremos prestígio por ele ser bom; queremos para afirmar nosso ser e nossa identidade às custas de alguém que invejamos sem querer admitir. Segundo, que simplesmente deixemos de tratar o próximo simultaneamente como modelo (aquele que queremos imitar, aquele que possui o objeto que desejamos) e obstáculo (aquele que nos impede de possuir o objeto) e passemos a tratá-lo “em Cristo”, isto é, tendo Cristo como modelo para os nossos desejos. Ter Cristo como modelo significa sacrificar a si e não aos demais; e isso acontece tanto no mero plano da atividade intelectual – o que é a honestidade senão o desejo de sacrificar as próprias opiniões e submeter-se às evidências? – como no plano da convivência – a caridade também é atribuir ao outro a mesma boa vontade que se acredita possuir.

Se há algo que eu desejo nesse Natal, é adotar essa postura.

Feliz Natal a todos.

A marca dos idiotas

The Leaders of the Crowd
W. B. Yeats

They must to keep their certainty accuse
All that are different of a base intent;
Pull down established honour; hawk for news
Whatever their loose fantasy invent
And murmur it with bated breath, as though
The abounding gutter had been Helicon
Or calumny a song. How can they know
Truth flourishes where the student’s lamp has shone,
And there alone, that have no Solitude?
So the crowd come they care not what may come.
They have loud music, hope every day renewed
And heartier loves; that lamp is from the tomb.

O “consenso cientifíco” não é a ciência. Ciência é um ato da inteligência, um ato que só pode se dar na alma individual. Por isso mesmo é que para quase todos os efeitos práticos a ciência e o consenso científico são a mesma coisa. Seria inviável esperar que todo mundo verificasse todos os assuntos, e todo mundo prefere a especialização do trabalho. Enquanto eu penso a respeito da teoria mimética, alguém se dá ao trabalho de entender a natureza do câncer. Ainda assim, o consenso científico não é a ciência, e se os dois se confundissem nem sequer poderia haver progresso científico, já que este depende de alguém que rompa com o consenso. Isso me parece um tanto óbvio. Se não é, bem, pense que um dia a inexistência de micróbios foi consenso.

Do mesmo modo, atacar o prestígio dos cientistas incessantemente não contribui para a famosa ciência, ainda que possa mexer no famoso consenso e ponha em evidência a atividade científica enquanto profissão. Ataques ao prestígio são eminentemente retóricos, e digo isso sem os desmerecer; nada se produz nesse mundo sem retórica, e até Aristóteles já afirmou que a verdade precisava da retórica. Mas também não são científicos, e matar o cientista / filósofo / escritor de prestígio de plantão não vai aumentar o conhecimento de ninguém sobre nenhum assunto. Exceto, talvez, o do médico legista e de seus estagiários.

A marca dos idiotas é exatamente essa: ficam discutindo-se uns aos outros, tornando-se cada vez mais semelhantes a si mesmos, enquanto fingem de maneiras por vezes até sofisticadas que disputam um objeto – como a ciência ou a verdade. Crêem ser sinceros na sua busca, mas apenas participal de uma frenética competição de esnobismo e pseudo-narcisismo.

Algumas pessoas podem achar que se trata de um derrotismo, ou de um cinismo, ou de um epicurismo, mas a verdade é que, enquanto você não conseguir perder muito do seu desejo de ver seu “amor à verdade” reconhecido por alguém, você não vai entender nada, e vai continuar sendo um idiota, alguém que só repete a si mesmo sem perceber.

11 anos de O Indivíduo

Hoje completam-se 11 anos da confusão na PUC do Rio que deu origem não a O Indivíduo, mas ao nosso desejo de ter um site – ou melhor, que fez o Sergio de Biasi ter a boa idéia de criar um site, comprar um domínio etc. Não é o caso de recontar pela enésima vez toda a história; se paro para falar do aniversário, é só porque acredito que há uma observação oportuna a fazer sobre mim mesmo e sobre como me posiciono em relação ao “projeto original” de O Indivíduo.

Continuo igualmente incomodado com o discurso padronizado, acadêmico ou jornalístico, que mais e mais parece fechar-se em si mesmo. Mas hoje entendo que isso, em parte, são ossos do ofício: uma linguagem padronizada também pode fazer um bem danado, e eu mesmo adoraria que alguns de meus autores favoritos tivessem a bondade de produzir um glossário padronizando os termos que eles mesmos gostam de usar. Isso, porém, não os livraria do grande risco da padronização, que é uma mudança no foco da imitação. Se você pretende compreender algo “como fulano compreendeu”, precisa esforçar-se para imitar certos atos da consciência individual testemunhados por aqueles termos, em vez de simplesmente aprender a falar de um certo modo ou adquirir certos trejeitos.

O esforço sincero e – por que não? – piedoso de compreender alguma coisa acaba trazendo a percepção de certas possibilidades da consciência e da sua própria vida, e aqui começa a reflexão que me interessa hoje. Ao colocar-se contra todos, ao ver-se marginal, o sujeito corre o risco de simplesmente tomar como verdade aquilo que considera uma versão invertida do suposto senso comum. Às direitas e às esquerdas vemos que o maior pecado continua sendo tomar o verossímil pelo verdadeiro, como é amplamente testemunhado por aquilo que se tem dito sobre Barack Obama, e, claro, ter reações emocionais em torno desse verossímil que, muitas vezes, é inverificável. Barack Obama não é o fim do mundo, nem o começo de um mundo novo, e essas duas frases são absolutamente poéticas, além de serem de mau gosto.

Esforçar-se para ser de esquerda, de direita e sobretudo para “não ser de esquerda nem de direita”, para estar “acima da manada” é um esforço para construir uma identidade pública. Embora eu mesmo goste de ter uma certa identidade pública, devo admitir que esse esforço não está relacionado ao entendimento das coisas. E devo admitir que um excelente começo para o entendimento das coisas está na busca do entendimento de si mesmo. Se você é um partidário forte de uma ideologia e gosta de se definir pela negação do lado oposto, faça a si mesmo a pergunta do caminho de Damasco: “Por que os persigo?” Talvez você perceba que a (suposta) perfeição dos seus argumentos é muito maior do que a das suas motivações.

Por isso gosto da visão do conhecimento que aparece em muitos textos antigos: como uma posse, uma capacidade que o sujeito adquire, não como algo que independe do sujeito que conhece. Como se no ponto ideal houvesse uma convergência entre teoria e arte, entre intelecção e prática, como se a prova da verdade conhecida estivesse mesmo na sua obediência. Obediência essa que vem em parte do amor e em parte da percepção inevitável de que agir de outro modo é mera futilidade. Talvez, aliás, esse amor e essa percepção sejam a mesma coisa, ou tenham a mesma origem, mas ao menos em mim se manifestam como dois sentimentos distintos. O amor pelas coisas me impulsiona e a sensação de futilidade me diz a hora de parar. É o famoso modus in rebus.

Enfim. Depois de 11 anos, minha proposta continua a mesma, mas talvez a formulação seja diferente. Não nos preocupemos tanto com a nossa identidade pública, não a ponto de nos impedir de falar sinceramente das coisas que amamos.

Falta Girard

Senhores, isto é um preconceito romântico perfeitamente explicitado (e, claro, fui eu que negritei o trecho mais relevante):

G1: Qual pode ser o impacto dessa multiplicação de “ficções pessoais” na sociedade?

PAULA: Talvez uma certa fragilidade, que decorre desse tipo de eu construído na exposição e na visibilidade, e que portanto precisa desesperadamente do olhar alheio para confirmar a sua existência. Junto com todos os alívios e as possibilidades que se abrem nessa libertação, aparece a falta de sentido, a sensação de “vazio”. Um vácuo deixado por esse espaço interior, por aquela “interioridade psicológica” que definia o que era cada sujeito e constituía a sua essência, o eixo a partir do qual se construía a subjetividade de cada um, e que agora se está deslocando em direção aos sinais emitidos pela superfície visível do corpo, da pele e das telas. Hoje parece que só é o que se vê. As diferenças entre essência e aparência se embaçaram em meio a tanto espetáculo, encenação e miragens imagéticas: não é por acaso que constantemente nos é dito que devemos cuidar da nossa imagem, como se fosse uma marca que cada um de nós deve gerenciar da forma mais eficaz possível. É preciso aparecer para ser alguém.

Vamos explicar. Acho que o leitor habitual deste blog vai apreciar a crítica – até um tanto conservadora – da famosa “sociedade do espetáculo”. Mas a minha crítica será bem outra: essa sociedade sempre existiu, porque sempre estamos querendo projetar uma imagem e sempre agimos em função da imagem que temos de nós mesmos, e isso também acontece na intimidade. O sucesso de um site como o Orkut se deve simplesmente à possibilidade de as massas fabricarem seu duplo angélico digital.

O preconceito romântico está na crença em uma espécie de “eu substancial” que exista por si, fora da interação. Nem mesmo na teologia católica isso seria possível, já que o “eu” só existe por causa de Deus e, em última instância, diante de Deus.

Portanto, é isso aí: convença-se da relatividade do seu ser e simplesmente escolha quem vai ser seu espectador e como você vai agradá-lo. É só isso que fazemos, o tempo todo.

Para vossa edificação

Eu fico falando de desejo mimético porque é o que mais me interessa no momento (e não vejo sinal de diminuição desse interesse). Então, para os anglófonos (pois é, o francês está falando inglês) interessados, dois vídeos com o próprio René Girard explicando sua teoria, cada um com dez minutos.


A propósito, vale a pena procurar por “René Girard” no YouTube.

Abismos

Nunca deixo de me impressionar, e muito, com as pessoas que se dizem impressionadas com a durabilidade da Igreja Católica e de certas posições suas, e que exigem que ela mude, como se fosse absurdo que algo não mudasse. Que acham que a Igreja é reacionária, com todo o sentido de “reação” que a palavra tem.

Não parece difícil observar que a maneira como vemos as coisas sofre diversas pressões. Pressões emocionais, culturais, o que seja, que nos levam a prestar mais atenção em alguns aspectos da realidade do que outros. No entanto, uma dessas pressões é escolhida, e vem daquilo que concluímos ser verdadeiro. Eu acho verdadeiro que existam verdades absolutas – uma meia dúzia delas – e elas informam minha experiência. Por exemplo, o princípio de identidade me leva a perceber a estabilidade da natureza humana, e a percepção de que o intelecto é uma faculdade individual me faz ver que a ordem do conhecer é distinta das demais. Distinta da ordem da persuasão. Isto é, posso perceber uma verdade sem ser capaz de persuadir os outros, e posso persuadi-los e ser persuadido com mentiras.

Quando alguém exige mudanças, parece crer que o único princípio estável é o da mutação permanente, exceto deste mesmo princípio. A partir disso tento imaginar como é a alma de alguém que não percebe as verdades e os bens estáveis. Será que ela está mentindo para si? Será que ela percebe que, se não há verdades objetivas que podem ser percebidas por qualquer pessoa, a única coisa que resta como parâmetro são nossos próprios desejos? E, se ela percebe isso, será que percebe as conseqüências absurdas, como a impossibilidade de justificar a superioridade de algum desejo?

De um lado, uma das minhas percepções mais fundamentais é de que as coisas são inevitavelmente de um jeito e não de outro, e não há muito que se possa fazer a respeito. Não é tanto uma percepção sublime e romântica do tipo “Percebes o Criador, ó mundo?” (como na “Ode à alegria” de Schiller, musicada por Beethoven), mas algo do tipo “Quem é que você está querendo enganar achando que as coisas são do jeito que você quer? Ah, você mesmo.”

Para citar outro poema, lembro da pedra que Yeats colocou no meio de um rio, “perturbando a corrente viva” (“Easter, 1916”). A idéia no poema é bem distinta da minha, mas a imagem me serve igualmente. Certamente não sou honesto o tempo todo, nem mesmo comigo, fiz muitas coisas de que me arrependo e até me desespero um pouco por saber que insistirei nos erros. Mas as coisas são de um jeito, e não de outro; não me resta muito além de me conformar com isso. A palavra “conformar”, porém, tem uma conotação negativa forte, e não gostaria que ela fosse entendida assim. Pensem em conformar no sentido de “assumir a forma”.

Não é que eu esteja dizendo que as coisas sejam intrinsecamente más e o teste definitivo de macheza esteja na sua capacidade de aceitar isso. Ao contrário, me parece que as coisas são intrinsecamente boas e eu nunca consegui me identificar com visões de mundo niilistas. Por outro lado, as coisas boas não são as coisas que eu desejo… A macheza é necessária para abandonar as idéias idiotas de que gosto, e há muitas idéias que eu não quero nem ouvir ser chamadas de idiotas – prefiro deixar tudo como está. Um outro lado sente um certo temor. Parece que estou adiando mais uma vez o encontro com as coisas como são.

Mas tudo isso se baseia na percepção de que as coisas são de um jeito e não de outro. Posso compartilhar essa percepção até com um ateu – basta que ele perceba que existe verdade independente da vontade do sujeito. Ele poderá entender que alguém pode estar errado na defesa continuada de algo, mas não discordará do pressuposto de que existem verdades estáveis (mesmo que poucas), nem acreditará que o mundo é uma maçaroca insignificante de matéria coberta de palavras e desejos, “uma história de som e fúria”.

Mas e essas pessoas que querem que tudo mude? O que elas sentem? O que elas pensam? Não me parece que a resposta seja tão simples.

Do esnobismo argumentativo

Uma das maneiras mais persuasivas de desmoralizar uma afirmação sem no entanto refutá-la é simplesmente dar sua classificação e/ou explicar sua origem, como se dizer onde e quando uma idéia nasceu fosse a mesma coisa que mostrar sua falsidade.

Se eu disser que o marxismo, em última análise, é filho da heresia franciscana de Joaquim de Fiore, e que as idéias de Swedenborg e Jacob Boehme fazem parte de sua linhagem, eu nada disse que demonstrasse a inexistência da luta de classes ou que a ditadura do proletariado não chegará. Analogamente, dizer que as histórias do Antigo Testamento podem ser encontradas em narrativas de outros povos não é a mesma coisa que negar sua veracidade histórica.

Por que essa estratégia de desmoralização tem poder persuasivo? Porque atribuímos prestígio à originalidade absoluta e por alguma razão esperamos que a verdade seja única, especial e catártica. É uma postura semelhante à da menina que não pode mais sentir-se especial porque há outra com a mesma roupa na festa.

Assim, ao explicitar as raízes de alguma afirmação, nada fazemos além de revestir-lhe com a banalidade das coisas que já estão por aí há muito tempo. Apresentar a afirmação passa a ser pior do que encontrar alguém com a mesma roupa na festa: agora, é como se você usasse a mesma roupa que várias pessoas usaram na festa do ano passado, e o fato de outra pessoa dar-lhe essa informação na frente de todos só contribui para a sua humilhação.

É assim que um pseudo-argumento transforma-se, retoricamente, num argumento ad hominem, desqualificando o adversário como ingênuo que se julga original.

Mas de onde vem o prestígio da originalidade absoluta? Preconceito romântico? Dizer que é preconceito romântico seria mais o nome de uma resposta do que uma resposta propriamente dita, isso para não dizer que não passa do mesmo tipo de classificação que passa por explicação que acabei de mencionar.

Um longo argumento do princ�pio ao fim

Como estou obcecado pela obra de René Girard, lendo os livros em seqüência, como se fossem de fato a versão estendida de “Um longo argumento do princípio ao fim“, tendo a usar a explicação do desejo mimético (e, para dizer a verdade, estou me esforçando também para não tentar explicar tudo a partir do desejo mimético; alguém já verificou a falseabilidade da teoria?): há o desejo de demonstrar absoluta independência. Admitir que uma idéia vem de outra pessoa seria análogo a admitir que o ser da outra pessoa é maior ou mais intenso do que o seu próprio, como na relação entre o original e a cópia servil. Os argumentos existentes já são vistos como parte da competição; apenas o argumento original tem chance de pairar acima dela e esnobá-la; o argumentador que usa o que já existe sujeita-se ao prestígio concedido pela platéia ao argumento conhecido, ao passo que aquele que expõe a genealogia do argumento conhecido parece estar acima dele — mesmo que não o refute. Assim, desejosa de identificar-se com quem está por cima, a platéia sente-se “persuadida”, ou ao menos prefere declarar-se ao lado de quem aparentemente enxerga mais.

Richard Dawkins contra Papai Noel

Graças ao Sol – que é uma pessoa, aliás um amigo, e não um corpo celeste – tive contato com o livro de Richard Dawkins, Deus, um delírio, publicado em apressada tradução pela Companhia das Letras. Admito logo que já conheci muitos ateus muito inteligentes, e achava que o livro, para causar tanta celeuma, fosse capaz até de abalar este sujeito aqui, que nasceu e cresceu crente e católico numa família tão indiferente à religião quanto qualquer outra.

Fiquei decepcionado. Fui direto na parte em que Dawkins pretendia refutar as cinco provas de São Tomás de Aquino – para quem não sabe, estão no terceiro artigo da segunda questão da primeira parte da Suma Teológica, sob o título “Deus existe?” Já tinha ouvido falar de argumentos sérios contra essas provas, e gostaria de lê-los, sinceramente. Só pediria que o caridoso leitor que os enviasse a mim não esperasse uma resposta imediata, uma catarse de ateísmo. São coisas que eu posso querer meditar por muito tempo.

Enfim. Dawkins é banal. Agrupa as três primeiras provas de São Tomás em um grupo e crê refutá-las – mas não as refuta. Essas três provas, para usar seus termos, tratam de uma “regressão infinita”: o movimento supõe algo que cause o movimento sem ter sido movido, todo efeito remete a uma causa e portanto a uma causa primeira. Dawkins admite que isto é razoável, e contesta o que São Tomas não diz no texto daquela questão: a onisciência e a onipotência de Deus. É verdade, São Tomás vai falar disso depois. Por que dar a entender que São Tomás fez um pacote completo de afirmações? Francamente, é o caso de perguntar: será que Richard Dawkins chegou a simplesmente ler a Suma Teológica, ou só leu a respeito dela em algum lugar? O livro está disponível em qualquer livraria e até na internet. Em latim, aliás.

Depois Dawkins contesta o argumento de grau (o argumento “platônico”) de maneira pueril. São Tomás diz que a idéia de qualquer bem vem de uma idéia perfeita daquele bem. O chocolate supremo. A fôrma que fez a Eva Green. Mas Dawkins vem falar do fedor. Não parece muito difícil perceber que o fedor não é um bem, e a doutrina agostiniana do mal como privação do bem, anterior de oito séculos a São Tomás, parece ter sido absorvida até pelo senso comum das classes menos iletradas. O fedor é apenas a privação de um odor agradável – e não existe a ausência de odor. Portanto, ele também é medido por um bem. Não é tão difícil. Não sei qual o problema. É só ler a tal da Suma Teológica.

Por fim, Dawkins pretende atacar o que ele chama “argumento do design”. São Tomás de Aquino apenas pretendia dizer que em tudo o que existe, mesmo nos corpos desprovidos de inteligência, parece haver uma finalidade; porém, como o senso de finalidade só pode ser proporcionado por quem tenha inteligência, parece haver alguma inteligência que tenha dado aos corpos desprovidos de inteligência a sua finalidade. Creio que seria possível questionar a existência de uma finalidade nos corpos sem inteligência – mas Dawkins não questiona isso, preferindo simplesmente dizer que Darwin destruiu “o argumento do design”. Isso me parece duplamente idiota: não apenas Dawkins ignora o que diz São Tomás, como parece fingir que não sabe que a idéia de evolução pressupõe a idéia de finalidade. Mesmo que se admita – o que, pessoalmente, não afirmo nem nego (meu interesse pelo assunto é muito reduzido) – que a origem de uma mudança numa espécie seja aleatória, a perpetuação dessa mudança se deve à maior eficiência com que satisfaz à finalidade da sobrevivência. Portanto, o argumento de São Tomás de Aquino tal como enunciado por São Tomás de Aquino – e não na versão bizarra de Richard Dawkins, que chega a citar um poema inteiro neste trecho, mas jamais abre aspas para o teólogo mais famoso do Cristianismo – é compatível tanto com a existência de uma evolução biológica quanto com a inexistência da mesma evolução.

Nem vale a pena comentar o fato de que Dawkins, certamente sem saber, imita São Tomás de Aquino, que já tinha atacado o argumento ontológico de Santo Anselmo.

Há muito tempo tenho vontade de escrever sobre como me parece pernicioso que pessoas religiosas tratem os ateus como se fossem pessoas intrinsecamente erradas, e, pior ainda, que ousem negar a sua experiência. Toda a possibilidade de um diálogo verdadeiro, para ficar no clichê, se baseia em respeito, só que o respeito pressupõe aceitar literalmente o que o outro diz. Um dos lados não pode assumir o papel de analista e o outro o papel de objeto; dialogar é responder, pressupondo que as idéias da outra pessoa são tão sinceras quanto as suas. É claro que se pode discutir a relação entre experiência, psique e idéias, mas a regra de que só é possível discutir se há acordo em relação aos princípios continua valendo. Ou, em termos mais óbvios, eu não posso esperar que um ateu ouça pacientemente e concorde com uma explicação que pretende apenas mostrar que ele é um mutilado espiritual, do mesmo modo que um religioso mandaria lamber sabão o ateu que apenas quisesse mostrar que ele é um coitado iludido.

O problema do livro de Dawkins é que ele não é, pelas poucas páginas que li, um capítulo de um diálogo sério entre ateus e religiosos. É, como sempre, um ataque àquilo que a religião não é, àquilo que a religião não diz; é o professor de Cambridge contra a interpretação da tia velha, não o professor de Cambridge contra o catedrático de Teologia da Universidade de Paris do século XIII. E por isso mesmo é banal, repetindo a velha impressão de que muitos ateus são apenas crianças malvadas que se comprazem em destruir nas outras, mais inocentes, a crença em Papai Noel. Como crianças, fazem isso também por achar que a descoberta de que Papai Noel não existe é o verdadeiro e último salto para a maturidade.

Verdade e sedução

Há bons nove anos, reunia-me semanalmente com amigos para ler a tradução francesa das Investigações lógicas de Husserl, e lembro bem de termos comentado que um dos efeitos mais evidentes da dedicação à filosofia era uma progressiva imunização em relação aos argumentos retóricos. Não acho que estivéssemos errados, mas voltei a pensar nisso e vejo a necessidade de fazer alguns adendos.

Segundo Aristóteles, argumenta-se retoricamente com exemplos ou entimemas (também com provas técnicas, mas estas não me interessam aqui). Não preciso explicar o que é um argumento pelo exemplo – basta dar um exemplo: “não faça isso porque fulaninho fez a mesma coisa e se deu mal”. Um entimema é um argumento que confirma premissas em que a platéia já acredita. É o tipo mais persuasivo. Por isso, um desafio para um orador seria convencer uma platéia de cristãos de que um aborto é um ato de caridade, porque os cristãos crêem na caridade. Será sempre mau negócio jogar contra as premissas da platéia – o que pode atestar qualquer um que, numa mesa de bar, já tenha cometido a tolice de tentar discutir a sério.

Mas há o risco de interromper a atividade filosófica nesse estágio inicial. Ao examinar diversas premissas, seu primeiro ponto de apoio não é a verdade, mas as premissas de que você mais gosta, e é fácil tomá-las pela verdade mesma. É preciso ir adiante e tentar examinar a razão de se gostar tanto daquelas premissas. É por isso que não consigo acreditar em atividade filosófica que não passe por um auto-exame freqüente em que se estude a motivação psicológica do ato de assentimento intelectual. Esse exame servirá para “desmagnetizar” suas premissas preferidas.

Se você começa a fazer isso percebe imediatamente a impossibilidade prática de examinar detidamente todas as premissas que aceita, e também se dá conta de que os momentos em que você realmente esteve cara a cara com as coisas mesmas foram mais raros do que você imaginava, justamente porque o exame de uma premissa enraizada na alma é demorado, assim como o exame de alguma questão relacionada.

Por exemplo, desde cedo percebi que eu tenho uma disposição maior em acreditar em tudo o que for mais bonito e mais elegante. Discutindo qualquer coisa, posso dar ouvidos à sereia do sublime e facilmente me perder do verdadeiro destino. Claro que você pode dizer que a verdade é mais sublime do que tudo, e você terá razão. Outras pessoas têm mais facilidade para crer no pior, no mais mesquinho. Mas há o sublime e o sublime que eu quero que exista, há a verdade e há a premissa que me confirma psicologicamente.

Daí vem o risco de ser “vítima” de um discurso retórico que apele simultaneamente às premissas aceitas – ainda mais quando são premissas conscientemente aceitas, após uma certa depuração – e à vaidade. Isso é muito evidente nos discursos de todos os tipos de autores esotéricos sobre a religião. Raramente há uma contestação aberta de algum princípio. Quase ninguém faz como o Julius Evola e diz: “o cristianismo é errado”. Antes, reinterpretam o cristianismo à luz da premissa aceita de que há alguma verdade universal, e apelam à vaidade do ouvinte, que naturalmente crê que irá conhecê-la melhor que os santos e os papas depois de 50 páginas escritas em tom de verdade absoluta. A dúvida é longa e a tranqüilidade necessária para vencê-la é difícil. A confirmação de si mesmo é gostosa e fácil. É o pequeno orgasmo proporcionado pela masturbação mental.

Aliás, a vaidade acaba sendo o caminho tradicional da inversão de princípios. O sujeito acha que não cumprir os preceitos rituais do catolicismo é uma forma superior de catolicismo. Que poupar um bebê de uma família paupérrima de crescer nesse mundo terrível e cruel e ainda mandá-lo para o céu é um ato de caridade – eis como o nosso orador do começo do texto poderia apelar a uma platéia católica. Nas duas posições há a usurpação do papel de juiz último das coisas e a recusa das circunstâncias imediatas.

Por isso é preciso relativizar a idéia de que a filosofia nos imuniza mais e mais à retórica. Imuniza se nunca deixar de ser praticada: se houver amor à sabedoria enquanto virtude do sujeito, enquanto estado interior de vigilância permanente. Um pouco de filosofia servirá apenas para depurar algumas premissas, e o destino da viagem será confundido com sua primeira escala. Em vez de ser a ascese que prepara para enfrentar a sedução, será apenas a imunização contra os tipos mais vulgares de retórica, pouco podendo contra os tipos um pouco mais sofisticados, que requerem não apenas que o sujeito ponha o mundo em parênteses como também a si mesmo.

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