A socialização do prestígio & a elitização sem precedentes

Vamos imaginar que a ideia de educação universal começou com a premissa de que todos deveriam ter acesso aos tesouros da humanidade. Vamos só imaginar, porque essa premissa é completamente falsa: a educação universal é um projeto do Estado-nação moderno, voltado para a competitividade e para a padronização; a educação universal é o paralelo pedagógico da Revolução Industrial.

Aquela premissa, porém, é o que nominalmente anima os burocratas e os educadores. O leitor pode chocar-se, pensar que não, que efetivamente anima, mas eu digo que não, e dou minhas razões. Fiz faculdade de Letras, e posso garantir que metade da faculdade foi dedicada à crítica do “ensino nas escolas”, da “gramática tradicional” e ao combate ao famoso “preconceito linguístico”. O que está por trás disso é o seguinte: não gostamos da gramática, não queremos ofender ninguém, então vamos dizer que a cultura de todo mundo é igualmente boa. Assim, você, que achava que ia para a escola para aprender a conversar com Fernando Pessoa, com Machado de Assis, agora não vai aprender nada, exceto que conversar com o Zé das Couves é tão bom quanto conversar com Fernando Pessoa e com Machado de Assis. E, se você achar que não, bom, você é elitista, você está eivado de preconceito linguístico.

Admirar Fernando Pessoa e Machado de Assis é difícil. É difícil, em primeiro lugar, porque muitos de seus textos são densos. Mensagem exige conhecimento da história portuguesa e intensidade reflexiva. Como explicar versos misteriosos como “Os deuses vendem quando dão”? Por que “o mito é o nada que é tudo”? Machado, em grande parte, exige uma certa maturidade, uma capacidade de olhar para si. Bentinho não é muito melhor nem muito pior do que a maioria de nós, e Dom Casmurro é muito mais do que o possível adultério de Capitu: seguindo uma dica de Antonio Fernando Borges, que, sem saber, guiou minha última leitura do romance, há um ano, percebi que o livro é proustiano antes de Proust, que é uma piada amarga a respeito da seletividade da memória, sem no entanto deixar de despertar compaixão no leitor. O único problema de dar Dom Casmurro para adolescentes é que esse tipo de livro só costuma ser devidamente apreciado quando já é tarde demais e já se sente alguma identificação com o narrador…

Mas, como bom brasileiro, divago. O que quero dizer é que o trabalho intelectual, como todo trabalho, dá preguiça, e olha eu sendo um clichê de brasileiro de novo. Junte à preguiça o fato de que gente de prestígio internacional, como Paulo Freire, vem sugerir que aquilo que você já tem é no mínimo tão bom quanto aquilo que você poderia ter e que os outros, aquela odiosa e opressora elite, já têm. Isso ativa a sua inveja. Então é possível ser tão bom quanto a elite sem fazer nada? Note-se que isso é uma concepção paranoica e equivocada da elite, mas que é comum. Já disse isto no passado: ao frequentar a UFRJ, que tem pessoas das mais diversas camadas sociais, descobri que os mais pobres julgam que os mais ricos leem Machado de Assis como quem folheia uma revista Caras, o que me dava ganas de dar aos meus interlocutores tapinhas condescendentes nas costas. Nossa elite econômica é quase tão inculta quanto seus empregados.

A ideia de educação foi assim contaminada pela preguiça e pela inveja. Nessa disputa de classes, porém, só há perdedores. Primeiro, porque é só um lado que está lutando. Hoje em dia, a elite já manda os filhos estudarem fora do Brasil, ou em escolas americanas e britânicas, ou em escolas que habilmente vão ignorando a correção política e que custam pequenas fortunas. Por outro lado, aqueles indivíduos que são efetivamente movidos pela curiosidade intelectual e que têm grande inteligência existem em todas as classes e progridem a despeito do meio, sempre. Talvez pudessem progredir mais, mas não é um professor dizendo que “nós vai” é apenas um registro sem prestígio por causa da dominação classista que vai impedi-los. Assim, o desejo de uma classe acadêmica e burocrática preguiçosa e invejosa de obter para si o prestígio que julga que uma certa elite possui acaba levando a uma elitização sem precedentes: se você não tiver a sorte de nascer pelo menos nos estratos superiores da classe média, ou de nascer dotado de inteligência e motivação, ou de preferência os dois, pode pelo menos agradecer ao burocrata que inventou a tal da aprovação automática.

Enquanto isso, podemos assistir ao distanciamento cada vez maior entre língua escrita e língua falada; ao uso cada vez mais amplo do pronome “que” sem qualquer preposição (“a pessoa que eu fui na palestra que eu fui”, isso é, “a pessoa com quem eu fui na palestra a que eu fui”), e a tudo aquilo que já faz do português culto um idioma verdadeiramente esotérico, ao menos no Brasil. O bom uso do idioma tornou-se uma qualidade tão rara que, na minha experiência, é usada até como critério de atratividade sexual por algumas mulheres.

Ministério da Educação, Kulturkampf fracassado

Mais uma vez, reflexões de orelhada, quiçá uma sugestão de pauta para um artigo que não escreverei porque estou muito ocupado com coisas fantasticamente interessantes.

Semana passada surgiu a gritaria do livro com erro de concordância — “nós pega” — recomendado pelo Ministério da Educação. Tendo a crer que a ofensa nasce daquele sentimento que todo brasileiro com diploma tem de que é superior a seu porteiro porque não comete erros básicos de ortografia, de regência e de concordância. É seu tesouro de semiletrado distinguir-se dos iletrados. Os barbarismos e a prolixidade são considerações para pessoas malignas como eu, mais metidas ainda, e por isso sumamente odiadas (os porteiros são desprezados, o que é diferente).

Agora, antes de tudo, recuso terminantemente a discussão da gramaticalidade da forma “nós pega”. É gramatical em sentido linguístico, descritivo, e agramatical em sentido prescritivo, normativo. Eis o fim da discussão. Aceitar que o critério linguístico se sobreponha a outro é tão arbitrário quanto defender que se ande sem roupa nenhuma em dias de muito calor. Ou melhor: aceitá-lo é atribuir a um suposto consenso científico o papel de guia da sociedade. Os hierofantes de jaleco. Para quem curte o STF babando sobre afetividade numa questão pública, até entendo. Ao ver a figura de autoridade sancionando aquilo que até então distinguia os santos dos pecadores, você pode sentir o que eu sinto quando vejo uma bateria dentro de uma igreja. Mas o fato é que ninguém realmente recusa padres, só muda de padres, ou finge que não os tem, mas tem de qualquer jeito.

Não que não haja razão para escândalo. Mas mesmo assim, vejamos. Que é um Ministério da Educação? É Kulturkampf, projeto de unificação nacional por meio da uniformização. E hoje queremos ser democráticos e inclusivos etc, fazendo uma paradoxal uniformização pluralista. Não é a sociedade que é plural e que encontra um terreno comum numa norma gramatical, é o governo que usa a força física para acirrar essa pluralidade, para balcanizar mesmo. Mas esse projeto não nasce com o politicamente correto recente, e sim com o projeto modernista encampado por Vargas. Palhacitos mil ficam a bradar embriagados o verso em que Mário de Andrade fala da “contribuição bilionária de todos os erros”. Kulturkampf modernista é isso aí. O livro com erro do MEC é sintoma, não é a doença. Mas assim caminhamos, querendo uma tirania light (ou nem tanto), da qual só reclamamos quando ela não está a nosso favor.

Eu creio que podemos ter uma bela ideia de qual foi a contribuição bilionária de todos os erros. O Brasil tem coisa de 190 milhões de pessoas, não é mesmo? Dixit Censo 2010. Não consegui encontrar o número de pessoas com nível superior, mas diz o Guia do Estudante que em 2010 tínhamos 5,8 milhões de pessoas matriculadas na universidade. As universidades particulares proliferam, aumentam seus corpos discentes. E ainda teríamos de ver quantas pessoas completaram o segundo grau, ou ensino médio, ou o que for o nome atual daquilo que nos EUA há bastante tempo se chama high school. Diante dessas brevíssimas considerações, qual o resultado do Kulturkampf de décadas do nosso Ministério? Que o brasileiro nunca jamais se habituou a procurar livros como fontes de entretenimento ou de informação. Se você estiver disposto a ficar deprimido, convido-o a conhecer o mercado editorial brasileiro visitando a lista semanal de mais vendidos da Publishnews, que nem traz números de livros para concursos, religiosos cristãos, e espíritas. É verdade que, na lista mais recente, o primeiríssimo lugar é um livro religioso, do Pe. Marcelo Rossi, mas na verdade é um livro de uma celebridade, cuja fama vai muito além do mercado editorial, e que o volume é vendido fora de livrarias. Veja a diferença para o segundo lugar. Agora vou contar uma coisa: eu já vi uma semana em que o livro mais vendido do Brasil ficou em 853 exemplares. Isso, não faltou nenhum zero não. 853. Medite: 190 milhões de pessoas, 5,8 milhões de universitários, 853 livros.

Agora eu vou recomendar vivamente que você feche a janela e chame alguém para ficar por perto, com um leque, com um copo d’água. Os Estados Unidos têm 309 milhões de pessoas, pouco mais do que um Brasil e meio. Os universitários matriculados eram 14,3 milhões segundo o censo americano de 2009, ou pouco menos do que 2,5 vezes o número de universitários brasileiros. Vamos ver os números do mercado editorial? Tudo bem, eles vão assustar também porque vêm em dados anuais, mas veja só o quanto venderam em 2010 os livros de capa dura, os livros de capa mole, os e-books e os livros infantis. Eu nem vou colocar os dados aqui, porque comentá-los demandaria muito tempo.

Depois dessa, boa tarde.

Minha enésima vituperação contra o modo como o Ministério da Educação vilipendia a língua portuguesa


Você está vendo esse livro? Ele não teve revisor. Não consta nos créditos. E isso é deveras perceptível. Um livro excelente, soterrado pelo péssimo uso do português.

***

A impressão que tenho, francamente, é que algo entre 99% e 99,9% dos livros brasileiros de direito e economia — escritos originalmente em português ou traduzidos — foram escritos por pessoas cuja cultura começa e termina no Sony Entertainment Television e cujo uso do português se resume aos rápidos contatos com garçons. O português não é língua de cultura da elite cultural do Brasil, e isso é deveras evidente. O português é só uma língua que se fala por um acidente comezinho do dia-a-dia.

Digo-vos, senhores, quem é o culpado; o culpado mesmo, não um mero bode expiatório. O culpado é o Ministério da Educação. Primeiro inventa-se que a criançada tem de saber distinguir entre um completivo nominal e um adjunto adnominal; que é preciso saber classificar uma oração subordinada reduzida de gerúndio (e se vocês soubessem que cousa simples está ocultada por esse termo técnico pomposo…); faz-se provas pedindo mil e uma classificações. O problema, é claro, é que a inteligência não opera sobre o vazio. Quando eu, já burro e velho, efetivamente aprendi essas coisas, foi junto com o grego (se você chegou agora, formei-me em grego antigo na UFRJ — na tenra idade de 33 anos) e junto com mil teorias de sintaxe, algumas realmente fascinantes. E eu já tinha traduções publicadas, já tinha lido todos os romances de Machado, a obra de Camões e muito muito muito mais. Repleta de exemplos, minha inteligência captou algo.

Mas aquele “primeiro” do parágrafo anterior pede um “segundo”, e lá vai: uma discussão como a do “preconceito linguístico” peca muito mais por sua extemporaneidade do que por sua estupidez intrínseca. Estupidez intrínseca porque, bem, todo mundo discrimina todo mundo segundo algum critério. Não gosto de quem não se preocupa em falar bem, ou pelo menos claramente. Se você acha que a cortesia de se fazer entender pelos outros é opressão burguesa, obrigado, nossa conversa acabou. E se você não vê o mais mínimo bem em poder falar com Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Gonçalves Dias etc., não tínhamos assunto mesmo. Passando à extemporaneidade, lá vai: essa discussão só agrava o erro inicial, que é presumir que existe alguma necessidade fundamental em dominar regras de gramática de maneira explícita e autoconsciente. Eu penso na teoria que diz que a preposição é o núcleo do sintagma preposicional toda vez que faço o paralelismo da preposição, mas discriminar um economista por não saber do que estou falando seria tão injusto quanto ele me discriminar por eu não saber o que é Curva de Philips (mas eu sei). Em suma, enfatizar tanto a gramática é tão imbecil quanto ficar reclamando dela. O efeito das duas atitudes é o mesmo: as pessoas falam e escrevem como se nunca tivessem conhecido a língua portuguesa.

Solução? Não sou a favor de grandes métodos obrigatórios, mas é difícil não observar que aumentar as aulas de literatura e de redação e diminuir — sim, isso mesmo, diminuir o número de aulas de gramática é fundamental. Nem que seja para acabar com esse negócio de qualquer palhaço vagamente letrado ficar corrigindo a ortografia alheia e se achando o Alexandre Herculano do Baixo Grajaú. Sem contato com a língua, os economistas continuarão escrevendo como economistas, e os advogados como advogados, e estou dizendo isso porque não consegui pensar num insulto pior. Se você é a exceção, então deve ser inteligente o bastante para saber que esse texto não se dirige a você. Ou se dirige também: se você gosta do português, contribua para acabar com o monopólio do Ministério da Educação, que só dá a seus súditos uma mistura sórdida de papinha literária de letrinhas de música e regras gramaticais que ajudam tanto a falar e a escrever bem quanto uma aula de Física ajuda a andar de bicicleta. Quer dizer, se você já for muito bom, essa aula pode até te deixar melhorzinho. Mas é só.

As más consequências das boas intenções do ministro da Educação

Então Fernando Haddad, o ministro da Educação que jamais teria sido poupado pela esquerda se fosse do PSDB, vem propor um ensino médio em tempo integral, com conteúdos profissionalizantes, “porque muitos deles [alunos] precisam de uma profissão, em função das condições socioeconômicas da família”.

Sem sequer entrar no mérito da proposta, vamos tirar suas consequências mais óbvias. O que vou dizer é básico demais. Dá até uma certa vergonha. E não é ideológico, aliás. Não é uma questão de como as coisas deveriam ser.

Digamos que no início de um ano letivo o ministro da Educação venha todo feliz e serelepe dizer que tantos milhões de jovens entraram nos cursos profissionalizantes, e que desses milhões, algumas centenas de milhares escolheram ser eletricistas. Isso quer dizer que ao fim de um ano ou dois o mercado subitamente terá mais algumas centenas de milhares de eletricistas. O preço dos serviços de eletricistas vai baixar. Algum sindicato vai reclamar. Podem surgir tabelamentos de preços. Podem surgir exigências burocráticas que sirvam de barreiras de entrada à profissão. Os garotos que estudaram dois anos para ser eletricistas podem subitamente descobrir que só têm a opção de trabalhar no mercado informal ou esquecer tudo o que aprenderam. Uma boa parte deles certamente vai para o mercado informal. Os preços tabelados ou “sugeridos pelo sindicato” vão parecer estratosféricos e irreais. Vai valer a pena contratar um garoto, mesmo que seja ilegal. Quem vai fiscalizar isso?

A fórmula é a seguinte: muita educação + pequeno mercado de trabalho = astrofísico dirigindo táxi para ganhar a vida.

Agora sim eu vou dizer como as coisas deveriam ser. O governo deveria flexibilizar, e muito, as leis trabalhistas. Deveria permitir o acesso de mais pessoas ao mercado de trabalho. A experiência de outros países já mostra que, diminuindo impostos e burocracias, a base de arrecadação aumenta e com isso a própria arrecadação, em números absolutos. O governo pode fazer o que quiser com o dinheiro: pagar diárias de motéis ou “construir escolas e hospitais” (sinto uma lágrima furtiva escorrendo sempre que penso naqueles sonegadores perversos que “impedem o governo de construir escolas e hospitais”). Todo mundo fica feliz.

***

Já que estou falando de trabalho, ontem mesmo eu li uma matéria no City Journal sobre como a legislação americana bloqueia o microempreendedorismo, ou o trabalhador individual da informação, entre outros. Como eu mesmo. E muitos dos meus amigos, que somos pessoas que ficam em casa trabalhando. Se alguma cidade criasse legislação específica para nós, com baixos impostos, poderia ver sua arrecadação aumentar. Porque, caramba, atualmente eu preciso de um alvará da prefeitura para me sentar no meu próprio computador e traduzir. Francamente, se isso não parece errado, e maligno, então não sei nem por onde começar a argumentar.

Kiss and tell, tudo mentira

Isto tudo é verdade verdadeira:

O ponto é: ensina-se poesia, aqui, como uma justificada sucessão de assassinatos, até que, finalmente, se chegue ao modernismo mais chinfrim, do tipo “amor: humor”, como se chega ao paraíso. Imaginem um professor italiano dizendo que Ungaretti, sim, é que é bom, e aquele almofadinha do Carducci faz muito bem em ficar na penumbra; ou um francês dizendo que Apollinaire salvou a França do rendilhado de Gautier; um alemão afirmando que Celan estirpou a praga de Rilke… — seria caso de polícia, acreditem. No Brasil não; e a criançada continua aprendendo que “amor: humor” é ‘a’ poesia brasileira de verdade, enquanto “Ora o surdo rumor de mármores partidos” não passa de afetação…

Em meu último semestre na Faculdade de Letras falei algo semelhante para a professora da matéria de Literatura Brasileira II: “Por que se ensina que o modernismo veio em 1922 para nos salvar dos almofadinhas? Não tínhamos Machado, Augusto dos Anjos? Quem precisava de salvação?” A professora disse que havia Coelho Neto. Façamos pois um movimento literário contra a Hebe Camargo.

Dito de outro modo, a história da poesia brasileira ensinada nas escolas é um kiss and tell cujo kiss nunca aconteceu e cujo tell é prá lá de chinfrim. Agora, a mulher que foi difamada pelo idiota que diz que a beijou volta de panela na mão para arrebentar o safado.

Qualificações acadêmicas

Ando de metrô aqui no Rio quase todos os dias. E quase todos os dias penso que vou morrer, porque as pessoas se aglomeram nas portas, e, apesar de eu ser um sujeito pacífico, sou obrigado a empurrar alguém para entrar, o que faço, admito, sem grandes pudores. Afinal, não existe exatamente um dilema entre eu me atrasar e algum boçal ficar lambendo a porta do trem só porque acha isso gostoso.

Mas bem, nem é desse grave problema civilizacional que quero falar. Quero contar, compartilhar uma coisa que vi essa semana. Dirijo-me como um ser civilizado ao famoso centro do carro e vejo que, sentado, um homem tira da mochila uma apostila, dessas com espiral. É um trabalho acadêmico. É um trabalho de conclusão de curso, e o curso é um MBA do IBMEC. O autor do trabalho é uma mulher.

Em coisa de dois minutos (sim, eu contei) o sujeito folheia o trabalho, saca um papel, e o preenche com a nota — 7,5 — e uma justificativa. Eis que chegamos à estação do Catete. Mais um trabalho de conclusão de curso, assinado por Daniel Sobrenome Whatever (lembro bem, posso dizer qual era, upon request), sai da mochila do sujeito, e, assim que chegamos à estação seguinte, a da Glória, após menos de dois minutos, temos mais uma nota: 7. Não, um momento: enquanto ele preenchia a justificativa da nota, achou melhor alterá-la para “aprovado sujeito a modificações”.

Sei por experiência que corrigir trabalhos é chato, e não pouco. Sempre pensei que, dando aula regularmente, só daria provas e daria a meus alunos um número máximo de caracteres ou de palavras, a fim de que eles não fossem prejudicados pela minha falta de paciência com as embromações acadêmicas. Mas, hélas, também já gastei horas escrevendo trabalhos, e já gastei muito dinheiro com aulas. Não foi para que meus trabalhos fossem corrigidos entre a Glória e o Catete. O que vi pode ter sido um caso isolado. Só para garantir, recomendo que você torre a paciência do seu professor. Você pagou, ele recebeu. A melhor maneira de começar a melhorar a educação brasileira é fazer com que o professor saiba que cada movimento dele é impiedosamente analisado.

A coisa mais “machista” e verdadeira já dita nos últimos tempos

Coisa essa que será dita por mim mesmo, agora.

Acordo, abro o Google Reader, lá está a First Things falando em ensinar os adolescentes a ter um senso moral crítico, que isso é melhor do que campanhas de castidade e melhor que educação sexual médica. Aliás, antes de ir adiante, a idéia de adolescentes colocando camisinhas em bananas em plena sala de aula é puro Pirandello, ou puro Monty Python.

Tudo isso, é claro, vem das mais lindas e estratosféricas intenções. Mas não digo “estratosféricas” num bom sentido.

Nossas sociedades ocidentais dispensaram um componente fundamental da vida humana: a vergonha. Heróis de filmes demonstram não ter vergonha de nada. Modelos dão entrevistas dizendo que não se arrependem de nada. Os famosos excluídos voltaram para se vingar e para criar uma sociedade sem vergonha. A qual não vai funcionar, é óbvio.

Não vai funcionar porque se baseia na aposta estratosférica de que as pessoas são anjos. Que basta dar-lhes algum tipo de educação para que ajam de maneira ponderada, sensata; que basta um bom currículo para fazer de cada adolescente um spoudaios. Que não é preciso — ouçam a palavra-chave que chega a galope — estigmatizar nada, que estigmatizar é ruim, deixa você com sensação de culpa, e as pessoas não te convidam mais para festas.

Como a violência contra a mulher ainda é estigmatizada, basta que as mulheres se valorizem um pouco mais (lembrando: o que é raro é precioso, o que é fácil é barato) para alterar toda a moral sexual da sociedade. Eu sei, você pensa que a moral nasce das profundezas íntimas do homem etc., e isso pode até ser verdade, mas na prática quem manda é a estigmatização. Deixe as adolescentes pensarem que uma gravidez fora do matrimônio é uma espécie de suicídio social (como num romance do século XIX) que tudo mudará rapidamente.

Não há pedagogia além de o professor ser um modelo

Toda vez que o assunto “educação” chega até mim é difícil não reparar que um ponto crucial jamais é discutido: quase tudo de que um professor precisa para obter a anuência dos alunos é ter prestígio diante deles. Simples assim. Não há método pedagógico nem tecnologia que supere o prestígio, o respeito que o professor deve inspirar naturalmente, combinando uma aparência de autoconfiança (preferencialmente excessiva) com a devoção maravilhada por aquilo de que está falando, seja literatura ou geometria. O professor deve comunicar ao aluno: “Eu sei do que estou falando, adoro falar disso, isso é mais importante do que você, você deveria agradecer aos céus pela graça de ter aula comigo, e não terei o menor problema para reprovar você.” Uma vez que os alunos pensem assim, o professor terá prestígio o suficiente para mandá-los ler a Ilíada toda em versos ou estudar física quântica. Os aprovados vão cogitar seguir uma carreira na área daquela matéria. Os reprovados sentirão o orgulho daqueles que foram aleijados na batalha, e falarão das notas baixas como de cicatrizes adquiridas com honra.

T. S. Eliot disse (não consigo mais achar a referência, mas li isso num livro) que “as pessoas querem inventar um sistema tão perfeito que ninguém mais vai precisar ser bom.” Podemos adaptar isso para a esfera da educação. Não há pedagogia tão perfeita que dispense o professor de resolver seus próprios problemas pessoais e conquistar o respeito do aluno. Conquistar, sim. Porque vivemos num sistema de educação obrigatória, em que meu corpo tem de estar presente numa sala de aula, mas minha alma quase nunca está, e já desenvolvi a perfeita arte de estudar o mínimo necessário para obter a nota mínima e passar. Nada mais ridículo do que um professor que diz logo no primeiro dia de aula que os alunos terão de demonstrar interesse. Dá vontade de dizer: “Por quê? Isso é só uma burocracia, eu só quero uma nota, não queria saber dessa matéria e agora que você veio com essa estratégia de um coitado que ganhou um poderzinho é que eu passei a odiá-la mais ainda. Deus me livre de ficar parecido com você.”

Se o aluno não tem interesse prévio pelo assunto, a única maneira de fazer ele ao menos ter respeito é agregar prestígio àquilo que se vai ensinar, e gente coitadinha não agrega prestígio a nada. Em suma, os professores tem de ser modelos, gente admirável. Afinal, é gente que fica horas num tablado falando para platéias que muitas vezes nem queriam estar ali. Creio não enunciar nada chocante e terrível quando digo que é melhor olhar para gente bonita, confiante e apaixonada do que para gente feia, insegura e fria que fica choramingando por atenção, gagueja e, francamente, só não parece odiar estar ali ainda mais do que os alunos porque os anos já ensinaram a disfarçar melhor. Por isso, professor, a dura verdade é que você não pode ter uma aparência ridícula, não pode ser tosco, e muito menos pode dispensar a certeza absoluta de que aquilo que você tem a dizer é a coisa mais importante jamais dita por um ser humano. Não há outra pedagogia. Não há ensino escolar nos moldes atuais sem que o professor transfira seu prestígio pessoal para a matéria.

Agora, vejam por favor que não estou falando de professores que fazem brincadeirinhas e agem como apresentadores de programas de auditório. Esses podem conquistar a atenção, mas não o respeito; são tão modelos quanto o Sergio Mallandro é modelo. Podem inculcar parte do conteúdo, mas dificilmente inculcarão o amor por esse conteúdo. Pedagogia não é macacada.

Obrigando adolescentes à leitura

O suplemento infanto-juvenil do Globo de ontem levantava a pergunta sobre aquilo que os adolescentes deveriam ser obrigados a ler na escola. Ontem, também, na minha última incursão provável pela literatura brasileira na UFRJ, fiquei sabendo quais livros eu seria obrigado a ler para obter um crédito, e posso dizer que, entre os quatro títulos, apenas um me apeteceria.

A questão, na verdade, já está tão estonteantemente viciada que mal é possível abordá-la; certamente não é possível abordá-la sem fazer uma série de distinções preliminares. Por isso mesmo quis começar o texto dizendo que o que está em jogo é aquilo que os adolescentes deveriam ser obrigados a ler. Desse modo, ao menos fica explícito que você já está concordando que os adolescentes devem ser obrigados a ler alguma coisa. De minha parte, tenho mais interesse em descrever do que em prescrever. Na pior das hipóteses, a prescrição pode ser ajudada por uma boa descrição. Vamos e vejamos alguns pontos.

1. Se você cair na conversa de que é preciso dar aos adolescentes algo que “fale da realidade deles”, “na linguagem deles”, você terá aniquilado o propósito da educação, que nada mais é do que fazer alguém transcender a própria realidade. Nada melhor para adolescentes da periferia carioca do que monstros mitológicos da Grécia antiga.

2. O que é próximo é banal; o que é distante tem prestígio. Adolescentes podem discutir indefinidamente se Zeus é um canalha, se Ulisses é um herói ou um
ador, mas é melhor que não discutam se a professora é idiota. O mínimo que a literatura pode fazer é abrir um mundo imaginário que pode ser compartilhado sem violência, e assim inspirar o sentimento de respeito.

3. Se o adolescente não é dócil à leitura, pouca diferença fará que ele seja obrigado a ler Machado de Assis ou Zequinha Contemporâneo.

4. O risco de uma pessoa de qualquer idade desgostar de algo só porque é obrigatório não pode ser abolido. A PUC me fez ler muito Umberto Eco quando eu realmente não queria. A maturidade me ensinou a respeitar a erudição do homem, mas ainda sinto uma náusea ao escrever as letras de seu nome.

5. A questão de adotar ou não a literatura contemporânea remonta a uma questão anterior a respeito da função e da natureza da escola. Eu, por exemplo, acho que uma função essencial da escola é dar ao aluno uma dimensão do passado, da continuidade histórica. Por isso, nada de Zequinha Contemporâneo; no máximo, menções esparsas a ele. Chegamos aqui a outro ponto: o cânon é estabelecido coletivamente, mas as preferências contemporâneas são individuais. Um aluno de língua portuguesa que vá a qualquer país de língua portuguesa encontrará idêntica reverência a Camões, Pessoa, Herculano, Machado, mas se o Professor Pedro fosse falar de poesia contemporânea, falaria de Bruno Tolentino e sequer mencionaria diversos medalhões com sangue de barata dos cadernos culturais. A questão aqui não é estar certo ou errado nas preferências literárias, e sim estar junto ou separado da comunidade. O passado é comum a todos; a atualidade é diferente para cada um.

6. Não pensem que estou sendo cínico ao fim do item 5. Sucede que eu, como muita gente, não me lembro de uma única fórmula de Química ou Física, e digo sem pestanejar que teria sido mais feliz sem os metilenos, isopropilos, fios sem massa e superfícies sem atrito; mas agradeço pela companhia dos amigos e colegas de escola, e é disso que me lembro com mais gosto…

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