As invasões bárbaras

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Para Arthur Bolívar, a quem peço que entre em contato comigo.

Na Poética, Aristóteles sugere que toda grande obra literária pode ter seu enredo resumido em uma frase. Eu iria um pouco mais longe, e diria que toda obra pode ser resumida em uma frase, e que essa frase mesma, se efetivamente sintetizar a obra, pode ser preciosa a ponto de dispensar a maior parte das críticas.

O filme As Invasões Bárbaras, que em 2003 conquistou as platéias cariocas, pode ser sintetizado assim: “Filho rico proporciona a pai pobre e depravado uma eutanásia de heroína”.

“Mas não podem fazer um filme bom com essa história?” Claro que podem, em tese. Eu prefiro as histórias que seguem o modelo do “imitativo elevado”, mas o imitativo baixo também tem seu valor, só que é mais adaptado para a comédia. Se em uma versão macabra dos Trapalhões Didi Mocó ganhasse uma eutanásia de heroína, teria sido por engano do Zacarias ou maldade do Sargento Pincel.

É óbvio que as pessoas se comoveram com o filme porque se identificaram com o velhinho. Mas deixemos este embaraçoso assunto de lado. A questão é a seguinte: o diretor tinha a intenção de fazer piada com a platéia, ou ele não tem muita idéia do que está fazendo? Ou, hipótese mais sinistra, será que a reação de simpatia é uma peculiaridade carioca?

Como já sugeri, boa parte dos problemas do cinema contemporâneo está em querer fazer tragédia com personagens ridículos. O ridículo, traço do imitativo baixo, é próprio da comédia, diz Aristóteles; fazer tragédia com o imitativo baixo sempre resulta em comédia involuntária, ou em uma certa sensação de desconforto na platéia. Ao menos em parte da platéia.

*Nota: este texto foi escrito antes de Denys Arcand, diretor de “Invasões”, dar uma entrevista à Veja, na qual dizia estar do lado de seus personagens; sua intenção não era fazer uma crítica da estupidez da geração retratatada.

O grande outing dos filisteus

O “filme do Mel Gibson” prestou um grande serviço: obrigando cada um a se posicionar a respeito da paixão de Cristo – evento tão central para o Cristianismo que o cânon da missa se chama “sacrifício” – , separou de vez os hebreus dos filisteus, os que têm um mínimo de decência intelectual e os que são, numa hipótese generosa, inteiros mentecaptos.

Ataque ao cristianismo

Para quem acha que é exagero dizer que a intenção de proibir o filme do Mel Gibson equivale a um ataque ao próprio cristianismo, vale lembrar, como lembra John Zmirak, em excelente artigo na “American Conservative”, que boa parte dos ataques ao filme são motivados não por uma preocupação com o anti-semitismo deste filme especificamente, mas, sim, pela idéia de que todo o cristianismo é, em si mesmo, anti-semita. Nessa linha, já se tentou até expurgar o Evangelho de São João…

‘But Gibson did not go far enough for his enemies. They seem in fact implacable—though that does not stop self-hating Christians from trying. Some biblical scholars suggest the Gospel of John be edited or excised from the scriptural canon because it is “inherently anti-Semitic.” In 2003, some theologians associated with the U.S. Catholic Bishops colluded with several Jewish leaders to produce a document that effectively declared that Christianity was meant only for gentiles, not for Jews, so the Church should stop evangelizing them. When prominent Jewish Catholics, among others, pointed out such statements by Jesus as “Go nowhere among the Gentiles … but go rather to the lost sheep of the house of Israel.” (Matt. 10:5) and “I was sent only to the lost sheep of the house of Israel” (Matt. 15:24), the document was quietly dropped. Appropriately, the architect of that document was Eugene Fisher, the same man who helped the ADL orchestrate an attack on “The Passion” —based on the preliminary, stolen script. The bishops had to back away from that one, too, under threat of legal action.

(…)

‘It is clear that the same spirit motivates the campaign against Gibson’s film, the attacks on Pius XII, and similar assaults against Christianity in public life. It’s more than just a rejection of Jesus’ claim to be the Messiah—a shocking assertion that requires the divine gift of faith to accept. It is an attack on Christian culture root and branch, an assertion that the Christian faith is a dangerous poison that must be purged from the earth to ensure social progress and the safety of other religions. This position, which most Jews would surely reject, is the basic assumption of contemporary secularism, which knows no race or creed.’

“The Passion” – um adendo

Em adendo às observações do Pedro sobre “The Passion”, reproduzo notinha publicada hoje no Globo:

“O polêmico ‘A paixão de Cristo’, de Mel Gibson, pode ter sua proibição pedida no Brasil. A Federação Israelita do Rio de Janeiro está observando como se comportará a França, que também discute o problema e pensa em não liberar o Cristo anti-semita, para se pronunciar. Esta semana o filme será exibido pela primeira vez no Brasil, numa sessão para grupos religiosos em São Paulo. A estréia de ‘A paixão de Cristo’ aqui está marcada para a Semana Santa.”

Desconto a redação preconceituosa da nota do Globo (esperar o quê? isenção jornalística na imprensa nacional? faz-me rir!), e reporto-me, quanto ao “anti-semitismo”, à nota do Pedro. Apenas espero, sinceramente, que a Federação Israelita tenha sido induzida a erro e não insista na idéia. Pedir a proibição de um filme por reproduzir fielmente o que está no texto bíblico equivale a pedir a proibição do próprio texto bíblico e, por que não?, da própria religião cristã.

Seria o caso mais grave de perseguição política ao cristianismo ocorrido por aqui nos últimos anos.