O transgressor eficiente

Minhas brincadeiras com corte e colagem de links criaram uma verdadeira bagunça. Fiz diversas correções no texto… Agora parece que está tudo bem. Qualquer coisa, gritem.

Existe um tipo, um mesmo personagem sob vários aspectos, presente em diversas obras americanas de sucesso. Um tipo que vou chamar de “transgressor eficiente”, caracterizado por produzir um bem tangível usando métodos heterodoxos e passar quase o tempo todo na clave do duplo angélico (na fórmula de René Girard), afetando sem ser afetado. Quanto mais tangível e indiscutível for o bem realizado, mais simpatia teremos pelo personagem. Se ele chega a ser minimamente afetado por algo, nossa simpatia por ele também aumenta.

A primeira temporada de Boston Legal tem Alan Shore, um advogado de argúcia aparentemente ilimitada, que não só vence todos os processos como consegue todas as mulheres (nas temporadas seguintes o personagem vira duplo angélico do esquerdismo americano, como os personagens de The West Wing). O tempo inteiro Shore mostra a diferença entre o que se pode obter dentro do sistema e aquilo que deveria ser feito segundo um critério ético maior. O arquifamoso Dr. House faz algo análogo: a busca da verdade por quaisquer meios – o que ainda parece estar mais de acordo com um ideal de ciência – pode salvar vidas, fazendo com que o respeito aos protocolos e direitos dos pacientes pareçam uma frescura. Como salvar vidas é um bem maior e mais tangível (genericamente falando) do que vencer processos, o personagem do Dr. House parece muito menos ambíguo, digamos. Mas o médico nada mais é do que o Alan Shore do diagnóstico. A situação é a mesma do Batman de O cavaleiro das trevas, que, enquanto Batman, vence as batalhas, afeta sem ser afetado, usando métodos que só funcionam para ele mesmo. Quem mais segue a fórmula? O Capitão Nascimento. Com o uniforme do BOPE, ele é superpoderoso. Sem o uniforme, ele passa por crises, como Bruce Wayne. Ou como o Dr. House sozinho em casa, tomando seu Jack Daniels longe de todos.

Sinto-me tentado a dizer que a idéia de “fazer o bem, custe o que custar” vem da leitura que a universidade americana faz de Antígona. Mas antes preciso explicar que uma das coisas que me desagradam (o que não vale por uma condenação) no modelo da “educação liberal” é a transformação das obras de arte em temas. Não é que as obras não tenham temas – e muito menos que certas obras não tenham sido construídas a partir de temas, como as séries de TV e o filme Tropa de elite – acho que o caso de O cavaleiro das trevas é diferente. Mas as melhores obras têm personagens e conflitos antes de ter temas. A idéia de transformar todo espectador em um juiz dos dilemas, ou advogado de uma das partes, ou mesmo em apreciador da complexidade ética, serve sobretudo para deixar de lado a apreciação da obra dramática enquanto obra dramática. Ao dizer isso não estou fazendo apologia da “arte pela arte’, mas simplesmente lembrando que obras de arte não são apenas pretextos para discussões morais, políticas ou filosóficas. Entender porque uma obra de arte funciona, e como ela funciona, seria o propósito de uma educação para a apreciação da arte, e não ser capaz de falar dos temas que se relacionam com ela.

Volto à Antígona. Não agüento mais sequer ouvir falar que a peça é sobre uma menina que ousou fazer o que era certo contra a vontade de um tiranete ensandecido. Creonte tinha não só razões religiosas como civis para proibir o enterro de Polinices. Além disso, tinha uma razão pessoal, com a qual é difícil não simpatizar, para querer livrar-se de Antígona, que era evitar que sua própria linhagem se misturasse com a linhagem maldita de Édipo – seu filho pretendia casar-se com ela. Não havia na Tebas arcaica um estado de direito que Antígona pudesse representar, e ela só pode se tornar símbolo da adesão a princípios universais contra os caprichos dos governantes através de muitas mediações culturais.

O erro de Creonte foi achar que, apenas porque venceu a luta contra os invasores de Tebas, pode querer dar um fim à toda violência em vez de admitir que a violência só pode ser administrada. Não é possível praticar uma espécie de “violência final’, ganhando a guerra e matando todos os inimigos, porque a rede de relacionamentos humanos é intricada demais para que não haja contágio. O máximo que podemos fazer é inventar maneiras melhores de administrar a violência. Mas hoje é comum ver uma inversão: as razões atribuídas a Antígona são usadas para justificar os atos de Creonte. Quando George W. Bush declara estratosfericamente que vai “rid the world of evil” [acabar com o mal no mundo], não diz que vai fazer isso porque é poderoso, mas porque é o certo. Ele também espera ser um transgressor eficiente e justificado pelos resultados.

Mas mesmo aqui já começo a transformar Antígona em tema – apenas outro tema. O importante é perceber essas motivações e ver como elas movem os personagens e como eles podem enganar a si mesmos. Certamente não se pode deixar de remeter as obras ao “mundo” para entendê-las, mas é preciso voltar a elas.

Como, aliás, volto agora à minha questão inicial: a funcionalidade dramática do transgressor eficiente. É possível até falar de uma receita de bolo (e antes de você falar uma besteira e afetar superioridade ante as “receitas’, lembre-se de que a tragédia clássica tem uma receita bem certinha): transgressor eficiente como protagonista, com eventuais cenas de “humanização” + diálogo sarcástico + personagens inteligentes o suficiente para denunciar e confrontar o transgressor, mas não para vencê-lo, incluindo ao menos um personagem que fará a interface entre o transgressor e o “sistema’, respaldando-o e legitimando-o (Denny Crane em Boston Legal, Wilson e Cuddy em House, Comissário Gordon em Batman). Os melhores episódios, ou as melhores histórias, sempre são aquelas em que os conflitos de “quem pode mais” ficam mais explícitos e já percebemos que o “tema” é quase uma pista falsa. Penso em House contra Vogler (o bilionário que se torna chefe do conselho do hospital), House contra Tritter (o policial da terceira temporada), e, obviamente, em Batman contra Coringa. Se o leitor conseguir perceber que a disputa entre House e seus antagonistas é idêntica à disputa entre Batman e Coringa, verá que a questão da transgressão versus estado de direito (ou “protocolo”) é apenas mais uma variação sobre o tema do cabo de guerra. Gostamos de um personagem, identificamo-nos com ele, queremos que ele vença. As questões levantadas pelo caminho podem atender a justas demandas da sensibilidade de pessoas cultas e dar uma aparência de intelectualidade chique a esse desejo primal, mas ele é que está no centro. Na identificação entre personagem e espectador, só o que conta é a questão: “vamos vencer?”

Tanto é que é perfeitamente possível ter essas disputas sem essas questões. Veja por exemplo o sensacional Meninas malvadas, um filme de high school em que uma menina, para diferenciar-se, inveja e imita outras, iniciando uma disputa que, como em todos os casos acima, deixa uma infinidade de vítimas colaterais, e a grande crise coletiva é resolvida de maneira ritualística. Estruturalmente, o “superficial” Meninas malvadas, com a mal falada Lindsay Lohan, não é tão diferente do profundo e badalado O cavaleiro das trevas.

Entender por que tantos roteiristas preferem formular esses conflitos sob a aparência de “transgressão eficiente versus regras aceitas pela comunidade ou estado de direito” é uma outra questão, e certamente uma questão interessante. Mostra, em primeiro lugar, que não há tolerância para o transgressor ineficiente – o que aliás sugere que os americanos estão dispostos a continuar tirando os sapatos nos aeroportos e lendo notícias sobre tortura enquanto não houver mais ataques em seu próprio solo, aceitando uma versão pós-terrorista da velha atitude do “rouba, mas faz”. Nas séries, porém, não é só isso. O protagonista não apenas “rouba” no sentido de usar procedimentos heterodoxos, mas destrata a todos a sua volta e vive segundo uma lei privada. Boa parte do drama está em ver quais são as estratégias desenvolvidas pelas pessoas à volta do protagonista para tolerá-lo, e quais são as estratégias que ele mesmo inventa para passar a perna no sistema e sugerir que a via de dependência é de mão única. As obras podem diferenciar-se um pouco nesse ponto: o Batman sabe que Gotham City é que precisa dele, e oferece sua ajuda um pouquinho a contragosto, mas o Dr. House diria que a principal função do hospital em sua vida é apenas fornecer o chiclete mental que ele aprecia.

O que leva, por fim, a algo ainda mais primal do que o desejo de vencer que une personagem e espectador: o desejo de ser perfeito, invulnerável, capaz de afetar sem ser afetado, de só ser perfeitamente compreendido por aqueles poucos melhores a quem concedemos o privilégio de nossa intimidade, aliado ao desejo de que todos reconheçam que essa é nossa natureza. “Eu poderia ser o Dr. House, se quisesse. Eu poderia ser o Batman. A minha vida é a melhor das vidas possíveis.” Esse desejo, por sua vez, remete infalivelmente ao pecado original. A identificação com um personagem perfeito, um duplo angélico, ainda que por alguns minutos de suspensão e transporte imaginário, é a realização da promessa da serpente: “sereis como deuses”. Talvez os roteiristas tenham hoje tanto interesse no tema para ver se encontram um jeito aceitável de seu protagonista (e seus espectadores) não ser expulso do Paraíso.

O Dr. House dos roteiros, RIP

Ainda estou em choque por ter aberto o jornal hoje e lido o obituário de Leopoldo Serran. Li no Globo, mas ponho o link para a Folha porque só ali achei um obituário aberto e “linkável”.

Conheci Leopoldo Serran em 1996, e conheci-o pessoalmente antes de conhecer sua fama. Trabalhamos juntos durante algumas das semanas mais divertidas da minha vida. Muita gente achava que ele tinha personalidade “difícil” (por isso é que eu fui escolhido para trabalhar com ele), mas eu o achava formidável, engraçadíssimo. Leopoldo Serran não era para os fracos – e muito menos para os doentes que não têm senso de humor.

Volta e meia ele me dava de presente um papelzinho em que tinha copiado um trecho de Nelson Rodrigues, normalmente em torno do tema “jovens: envelheçam!” E todos os dias dizia algo absolutamente escandaloso e hilariante. Um de seus melhores momentos, que não me canso de repetir, foi quando perguntei-lhe o que tinha achado de Central do Brasil.

– Aquilo lá é o Bambi iraniano.

– Leopoldo, acho que a parte do “iraniano” eu entendo, mas por que Bambi?

– Matam a mãe do viadinho logo no começo do filme…

Mas isso, é claro, já foi bem depois de quando trabalhamos, entre o fim de 1996 e o começo de 1997. Daquela época, sempre recordo o dia em que ele recitou um dos melhores poemas de Yeats, e que deixo aqui como uma pequena homenagem.

An Irish Airman Foresees His Death
W. B. Yeats

I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public man, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.

Notas sobre Batman

Como estou viajando e tão cedo não poderei rever O cavaleiro das trevas para clarear as idéias, vou deixar aqui apenas algumas notas.

1. Não me parece que o filme seja “filosófico” no mesmo sentido em que The Coast of Utopia, de Tom Stoppard, é uma peça “filosófica”, isto é, um texto em que os personagens falam coisas filosóficas e mostram ter dilemas filosóficos.

2. O filme é “girardiano” não só porque a cena final mostra o nascimento dos mitos – a resolução da crise sacrificial (o desejo coletivo de violência e compensação) pelo método do bode expiatório – mas porque, entre outros, toda sua trama gira em torno da rivalidade mimética entre o Batman e o Coringa. Esses dois personagens não são duplos em sentido girardiano por serem dois freaks que andam fantasiados, mas por desejarem o mesmo objeto, “o coração e a alma de Gotham”, que passa a ser simbolizado por Harvey Dent. O Batman deseja que os cidadãos de Gotham sejam capazes de combater o crime através do “processo da lei”, do sistema policial e judiciário, e o Coringa deseja que eles aceitem a “lei da selva” no lugar do estado de direito. Isso fica bem evidente quando ele queima o dinheiro e diz que quer “passar uma mensagem”, isto é, ele não quer algo para si, quer afetar os outros, afirmando sua supremacia, que é ele – e não Batman ou Dent (símbolo do estado de direito) – que “manda mais”.

Prefiro falar nessa oposição entre “lei da selva” e “estado de direito” em vez de “caos” e “ordem” por clareza. Na lei da selva, existe a obrigação da vingança. Se as pessoas nos barcos tivessem explodido umas às outras, isso teria gerado inúmeras vinganças, que gerariam outras e mais outras e mais outras (vejam como a história do mordomo simboliza isso: queima-se toda a floresta para pegar o bandido, e esse custo não será alto demais?). Para chegar ao estado de direito, o cidadão que sofreu o mal precisa abdicar de sua vingança e não querer sujar suas próprias mãos de sangue. Isso revela a conexão entre esse estado de direito e o Batman, que também não quer sujar as próprias mãos.

3. O outro aspecto “girardiano” do filme está presente nos outros filmes de super-heróis. Nesse momento eu devo dizer que nunca li as revistas, só conheço os filmes dos anos 1990 para cá. Mas bem. Esse aspecto é o uso do “duplo angélico”. Todo herói tem uma personalidade relativamente (ênfase: relativamente) banal e indistinta, em que ele é maximamente afetado pelo ambiente e pelos outros, e outra personalidade perfeita, em que ele afeta a todos sem ser afetado – o duplo angélico ou personalidade de herói. Mesmo o milionário Bruce Wayne, pelo filme, depende muito mais das pessoas que trabalham consigo do que de seus próprios esforços enquanto empreendedor. O drama da maior parte dos filmes de super-herói parece depender dessa – com o perdão da palavra – dicotomia, mostrando como o duplo angélico afeta certas ações da versão banal e vice-versa.

A genialidade de O cavaleiro das trevas está em conseguir misturar todos esses dramas – a criação do bode expiatório, a disputa mimética, o duplo angélico x a banalidade – em uma única narrativa coerente. E quando eu digo “genialidade”, estou sendo bastante preciso. Quanto ao Heath Ledger, sei lá. Mas os roteiristas Christopher e Jonathan Nolan merecem um Oscar.

O texto mais imbecil jamais publicado sobre um filme

Saindo da sessão de O cavaleiro das trevas, vulgo “filme do Batman”, meus amigos mencionaram a crítica publicada nesta sexta no Globo e eu não pude acreditar.

Melhores momentos:

É difícil saber se o Coringa votaria em Barack Obama. Mas conservador como a aristocracia de Gotham, potencial eleitora de John McCain, ele não é.

Que “aristocracia de Gotham”? Ele viu o filme? Ou será que está dizendo que Bruce Wayne votaria em McCain?

No início, a sugestão de uma possível afinidade entre o banditismo e a “audácia da esperança”. Depois, a oposição entre o bandido e o conservadorismo dos potenciais eleitores de McCain. Não é difícil escolher lados. Difícil é realmente equalizar as coisas assim. E eu pensava que minha antipatia a Obama era forte.

Por isso, neste ano de eleição presidencial nos EUA, em que os americanos se dividem entre a opção democrata e a manutenção do poder republicano, cada risada do vilão talha “The Dark Knight” (no original) como alegoria política. Aliás, a alegoria mais perturbadora de 2008, à altura de um filme de Costa-Gavras.

Alegoria do quê? Parece até que o autor da resenha acha que Coringa é Obama e, como Obama pode ser eleito, o Coringa será o novo líder do mundo livre. Se o texto não fosse tão confuso, seria o texto mais virulentamente direitista que já li.

E como o fato de o Coringa não ser “conservador” faz com que suas risadas sejam “alegorias políticas”?

Na verdade, tanto o Coringa quanto o Batman são conservadores. As “ideologias” dos personagens são nuances de conservadorismo. O Coringa acha que a natureza humana é má; ele só quer empurrá-la mais ainda para o mal. O Batman acha a mesma coisa, mas gostaria que o sistema policial e jurídico fosse suficiente para combater o mal; ele se ressente de ser necessário, em vez de querer ficar aumentando o Estado. Discutir mais nesse momento é estragar o filme para quem ainda não viu.

O filme expõe o risco que a anarquia, encarnada no Coringa, traz ao Leviatã decadente que Gotham virou, refém de tradições. A chegada de um inimigo cuja ambição é o caos causa uma instabilidade moral que os EUA só sentiram no 11 de Setembro de 2001, à mercê do medo.

“Refém de tradições” – que tradições? O filme começa justamente com um promotor que representa o renascimento moral de Gotham. Eu não diria que o filme trata de tradições, mas, se for preciso usar essa idéia, bem, é uma nova tradição que está surgindo na cidade.

Mais ainda, nas poucas cenas em que o filme transfere o foco da atenção para a população americana, ela não demonstra nenhuma “instabilidade moral” – exatamente o contrário.

É o caso de perguntar simplesmente: o autor da resenha viu o filme que resenhou? Porque isso está parecendo o velho dilema: “tenho que produzir mil caracteres sobre o filme, mas só tenho o release“.

O sonho de Cassandra


A moça é talentosa.

Só descobri que O sonho de Cassandra estreava semana passada no Brasil por causa da entrevista de Woody Allen à Folha de São Paulo. Gostei do filme; mas também gostei de Match Point; e acho que se você não gostou desse, provavelmente não vai gostar daquele, ainda que possa não gostar de nenhum e preferir o fantástico Crimes e pecados, que foi o filme que me fez gostar de filmes, lá num tempo remoto e distante.

Os dois filmes mais recentes trazem uma questão dramatúrgica. Os dois têm “oráculos” no início que já anunciam as desgraças que virão. Em Match Point, tanto a fala inicial do protagonista (resumindo, “é melhor ter sorte do que ser bom”) como sua profissão de fé niilista no restaurante valem como prenúncio de que ele fará coisas terríveis. Em O sonho de Cassandra, o título e a cena inicial, remetendo à profetisa agourenta e desacreditada (uma verdadeira pomba-gira, aliás) que Agamêmnon trouxe para casa ao voltar da guerra de Tróia, também avisam que nada de bom irá acontecer.

Na tragédia grega, os oráculos estão implícitos. Muitas vezes, pesam sobre famílias e gerações inteiras, e não precisam ser explicitados no começo porque o público já os conhece. O espectador experiente da tragédia sabe que a palavra dos deuses será cumprida. Mesmo assim, a tragédia pretende gerar simpatia pelo protagonista humano, que ingenuamente julgava ter conseguido escapar. Daí é que surgem os elementos de terror e piedade: terror diante da implacabilidade dos desígnios dos deuses, e piedade pelo sujeito que tem algo precioso a perder com o cumprimento desses desígnios.

Como há muito tempo o deus Apolo não assusta ninguém, os personagens da tragédia grega não despertam mais terror. Mas ainda podem despertar horror pelas coisas terríveis que fazem. Para que fique claro que o terror dos deuses não tem nada a ver com o horror dos atos, basta considerar que Agamêmnon (matou a filha) e Clitemnestra (matou o marido) estão longe de ser gente boa; Édipo também não sabia o que fazia, mas vejam só o que ele fez. A corajosa Antígona, por sua vez, parece alguém que gostaríamos de ajudar – ela não fez nada horrível pelos nossos padrões, mas realmente violou a lei civil; Creonte não era um tirano caprichoso. Pelo contrário, ajudou o pai/irmão cego e sepultou o irmão. O terror divino, porém, está presente em sua história e na de todos esses personagens. Só nós é que não o sentimos.

A tragicidade em sentido estrito depende dessa implacabilidade. O Deus cristão não é implacável, por isso o cristianismo não é trágico. Para despertar terror na platéia, seria preciso apelar para algo percebido como transcendente e inelutável como as leis que regem alguma doença. Uma pessoa bem-sucedida que descobre uma doença terminal seria o mais próximo que chegaríamos de um personagem trágico com credibilidade. Mas não teríamos toda a tragicidade, porque mesmo os deuses do Olimpo costumavam apenas reagir a um mal praticado pelos mortais. Punir as gerações futuras certamente é um capricho canalha, mas ao menos alguém como Édipo poderia saber que a raiz de seus males estava no estupro homossexual praticado por seu pai, o que é um pouco melhor do que ter um câncer e isso não ter nenhuma razão ou significado aparente. O significado dos atos divinos pode ser terrível, mas ao menos existe. E é claro que um cristão adulto pode atribuir significados aos eventos da sua vida, ou pode até conhecê-los por meio da prece, mas para ele as dificuldades serão sempre provações e nunca punições.

As exceções são interessantes e provavelmente apontam algo. Entre os cristãos, muitos sentem sinceramente as próprias desgraças como punições de origem puramente externa. O raciocínio é: “fui mau, por isso estou sendo punido”. A soma tem sempre de ser zero, a “justiça”, no sentido de uma retribuição perfeita, deve existir sempre. Mas essa “justiça” não passa uma máscara de ordem para o mal e a violência, que são caóticos e aleatórios – se não fossem, você jamais descontaria inadvertidamente em alguém o mal recebido. Alguém lhe faz um mal, você quer vingança. O paciente de câncer terminal pode acreditar que a violência que é sua doença foi causada por algo que fez, e não apenas material. Creio que é essa questão que está por trás daquele adesivo que diz “reencarnação: uma questão de justiça”. Diante da impossibilidade evidente de atingir a soma zero no aqui e agora, leva-se a questão ao plano metafísico. E, ainda que Guénon seja contrário à idéia de reencarnação tal como exposta pelo espiritismo, creio que é o mesmo espírito que o anima quando diz (creio que em A crise do mundo moderno) que “as desordens parciais apenas contribuem para o equilíbrio da ordem total”. Por isso, creio que muitos cristãos não aceitam a gratuitade da misericórdia e do amor divinos porque o seu próprio desejo de vingança precisa da máscara da justiça, como se ela fosse um loop infinito de bem e mal; o caos precisa da máscara do cosmos, da ordem. Coerentes, sabem que merecem receber vinganças tanto quanto praticá-las. É o que diz Camões: “fui mau, mas fui castigado”. Junto com o desejo de mascarar a vingança como “justiça” está a relativização da liberdade individual: fui mau, mas apenas porque você foi primeiro; não fui eu que causei meus males presentes, é Deus que está me punindo. É difícil saber quem vem primeiro, mas é certo que o mal moral é, por nublar a percepção da responsabilidade, também um mal cognitivo.

Entre os gregos, talvez a exceção seja Édipo, que soube suportar os males e foi por isso favorecido pelos deuses. Após conhecer sua verdadeira identidade e arrancar os próprios olhos, sabemos que praticou apenas um mal: amaldiçoou os filhos Etéocles e Polinices, que o abandonaram. Mas essa maldição já estava prevista para os descendentes de Laio, pois o deus Apolo decidira que sua linhagem logo se encerraria, e brutalmente (sintam-se à vontade para fazer uma leitura “conservadora” e perceber que o homossexualismo não pode, por sua natureza, gerar filhos). Édipo foi premiado após a morte; sua filha Antígona também sugeria que seria, pois afirma (na peça de Sófocles) que é melhor seguir as leis eternas porque vai passar a maior parte do tempo na eternidade e não neste mundo. Assim como nas Eumênides de Ésquilo, a violência só pode ser interrompida no plano divino, e sempre como retribuição ou “justiça”. Porém, nas Eumênides, Orestes, assassino da própria mãe, diz que agiu apenas por temor de Apolo. Já Édipo e Antígona assumem plena responsabilidade por seus atos, e talvez por isso sejam “premiados” e gerem em nós mais simpatia do que quaisquer outros personagens clássicos, porque, diante da necessidade psicológica de mascarar o desejo pelo mal, assumir os próprios atos e suas conseqüências parece um ato de heroísmo.

Retornando aos “oráculos” do início dos filmes de Woody Allen, vemos que eles se voltam para a responsabilidade dos protagonistas e não para causas exteriores. Em Match Point o suspense, uma vez praticado o mal, se volta para suas conseqüências e, se há alguma mensagem, é justamente a de que não há mais deuses no Olimpo para puni-lo neste mundo pelos males praticados. O “oráculo” anuncia a ação do protagonista, mas não a reação de alguma força exterior. Apesar da forte alusão no início de O sonho de Cassandra, são os protagonistas que decidem comprar o barco, que mencionam a possível ajuda do tio (de quem o pai sente inveja), e que mostram depender da sorte – exatamente como faz o protagonista de Match Point. Quando ela não colabora, todos eles resolvem agir. No primeiro filme, não há conseqüências para o protagonista; no segundo há. Mas a própria diferença de finais reafirma que, por sua própria natureza, a sorte não pode ser implacável, assim como não pode haver mais tragédia em sentido estrito dentro do quadro ocidental atual de referências culturais.

As You Like It

Romola Garai in As You Like It

Poucos filmes me deram mais alegria recentemente do que a versão de Kenneth Brannagh para As You Like It.

Nada como filmar Shakespeare de maneira surreal: o filme se passa no Japão (apesar de quase não ter atores com cara de japonês), a luta inicial de Orlando é de sumô etc. O clima, enfim, é o mesmo da adaptação de Brannagh para Much Ado About Nothing. Só que neste As You Like It você pode ver Romola Garai de quimono…

Cem pregos (e a teoria da brochada cósmica)

Domingo fui ao cinema ver Cem pregos, um filme que passou no Festival do Rio. É a história de um professor de filosofia que pira e vai “viver a vida simples”. Logo no começo há uma cena interessante, engraçada dependendo do seu ponto de vista: o professor cita um trecho de Adorno que fala de como tudo é industrializado e não é mais espiritual, blá, blá, blá. O tipo de coisa que me faz dizer: essa é a sua vida, meu filho, não venha encher o meu saco. Admito que o leite de caixa possa ter causado um grande impacto cognitivo quando surgiu. Mas se você não foi ordenhar vacas, bem, você não está suficientemente preocupado. No filme, os alunos também se limitaram a olhar para o professor com cara de “tá, posso ir agora?” Eu ri. Pouca gente riu.

Logo depois disso o professor conversa com uma aluna indiana, que lhe diz que quando era criança gostaria de salvar o mundo. Curioso foi que naquela hora eu pensei: essa é a ideologia do Anticristo, porque o mundo já foi salvo. Como Deus respeita a liberdade, a salvação é opcional. Mas ela já foi oferecida. Assim como o demônio é o macaco de Deus e o inimigo do homem (não de Deus, que ele não é idiota), a salvação promovida por meios mundanos só pode ser uma versão grotesca da divina. Cristo trouxe o céu; o homem trará a falsa promessa da paz mundial e da previdência social perpétua. Mas, você, é claro, é livre para depositar sua fé no secretário-geral da ONU, no presidente da república, no burocrata que mais lhe apetecer. Enfim: como gosto de repetir, respeito perfeitamente o ateísmo enquanto atitude intelectual, mas a fé na burocracia é intolerável.

O fato de a personagem ter falado em salvar o mundo não me fez julgar nada a respeito do filme. Afinal, ideologia do Anticristo ou não, “salvar o mundo” já é um topos, um lugar-comum da nossa cultura. O filme prosseguia, mantinha meu interesse e eu pensava: ok, já entendi, o negócio é parar de ler e estudar e ficar tomando vinho na frente do rio Pó. A apologia dos sentimentos em detrimento da busca intelectual também é comum. Até tenho alguma simpatia por ela. Estudar é árduo, muitas vezes é árido, e os frutos são demorados e modestos. Sem contar o fator de humilhação: não é incomum que a percepção de algo há muito buscado seja acompanhada da percepção da própria cupidez e mesquinharia. É preciso admitir: gostamos das idéias e atitudes idiotas que temos. Portanto, meu caro, se você desistiu, eu te entendo. Mas, por favor, não venha universalizar a sua desistência e o seu fracasso. Você não entendeu o que queria: isso não é prova de que toda a inteligência humana está fadada ao fracasso. Isso só é prova de que a sua vaidade histérica e tresloucada está passando muito bem.

Esse, aliás, é o fenômeno que chamo mui jocosamente de “teoria da brochada cósmica”: o sujeito não consegue escrever um bom poema, e diz que a poesia acabou, que não é mais possível etc. Aí começam as desculpas: a fragmentação do homem contemporâneo, o capitalismo, a industrialização etc. Já que hoje em dia a moda é falar em “a lógica de XXX”, sugiro que comecem a estudar a lógica da brochada. Ou melhor, repetindo uma certa maneira ridícula de falar, que vão “pensar a lógica da brochada”.

Pensava eu nessas coisas durante o filme, querendo saber o que seria daquele professor. Será que ele faria uma longa apologia final de que descobriu que alguns aposentados e uma dentuça talentosa à beira do rio valiam mais a pena que as alunas da universidade e sua BMW conversível? Ah, mas ele tinha que ler um monte de livros. Isso era muito chato. Será que perceberia que só estava precisando de umas férias, pediria desculpas pelas loucuras que fez, e tentaria voltar à vida de antes?

Nada disso.

Nosso querido professor fez, duas ou três cenas antes de o filme acabar, um discurso perfeitamente satanista. Um clichê dentro do contexto do satanismo, é verdade, mas o tipo de coisa que você espera em outro tipo de filme. Disse que no Juízo Final Deus é que será julgado por ter oprimido a humanidade, e que sequer salvou seu Filho da morte na cruz. Não disse “ah, Deus não existe, me deixem dormir”. O professor, que tem uma semelhança fisionômica proposital com a imagem comum de Jesus Cristo e que por isso passou a ser conhecido por este nome entre os outros personagens, simplesmente proferiu estas palavras, gratuitamente, logo após dizer que “um café entre amigos vale mais do que os livros de filosofia” ou algo assim. Eu não tenho nada contra o café entre amigos e talvez possa ser acusado de tomar cafés demais entre meus amigos e ir a aulas de menos. Mas, raios, a filosofia é um bem, não preciso explicar.

Se fosse só isso, o filme seria simplesmente bizarro. Mas, assim que ele acabou, foi aplaudido pela sala inteira. O que levou as pessoas a tantas palmas? Um anticristianismo latente? A idéia de que se suas vidas são tediosas então Deus mesmo deve ser culpado? Não sei. Mas saí da sala lívido e apavorado.