Em que chamo Sofia Coppola de anticristo e digo que Transformers é melhor do que seus filmes

Há algum tempo descobri o truque de Sofia Coppola — e por isso perdi toda a vontade de assistir a seu novo filme. Na verdade, não posso mais assistir a seu novo filme, porque o assistiria com um espírito acusatório que, no caso da apreciação de qualquer obra, é uma self-fulfilling prophecy: como você acha que vai ser ruim, vai ser ruim.

Lembro que Lost in Translation tinha me deixado perturbado por ser, enfim, um filme de adultério. Os espectadores não podem ser tão ingênuos a ponto de não perceber isso, mas são. Tente mudar o sexo dos personagens: homem abandonado pela esposa profundamente envolvida com a profissão conhece menina mais nova no mesmo hotel e eles passam a andar pela cidade. Já consegui ouvir as mulheres dizendo “que safado”. A questão que fica é: por quê? Isso é importante para entender como o público se deixa manipular.

Lost in Translation é uma espécie de Brokeback Mountain heterossexual: o adultério é permitido dentro de certas condições. Uma delas é ser negligenciado pelo cônjuge. A outra é ser gay. Os dois filmes, assim como Marie Antoinette, têm a mesma premissa, que é a mais proletária de todas as premissas: como você é chato / repressor / reprimido / não liga para mim, então eu posso fazer o que eu quiser. Não devemos permitir que a busca do prazer seja sufocada por algo tão trivial e ridículo quanto aqueles compromissos que assumimos de livre e espontânea vontade perante os outros. Os outros só podem existir enquanto forem legais. Essa é a consequência nada distante de se levar a sério a piada de Oscar Wilde segundo a qual as pessoas são apenas either charming or tedious. E, se você for tedious, podemos remover o seu ponto de vista da história sem culpa nem remorso.

O truque de Sofia Coppola é o mais básico e mais cristão de todos: dar aos protagonistas os papéis de vítimas. Assim como Cristo na cruz, os pastores gays são vítima da sociedade, a esposa deixada sozinha no quarto de hotel enquanto o marido trabalha (Deus do céu, que coisa repressora e canalha, realmente o patriarcado é assassino), a princesa austríaca que só quer se divertir mas se casou com um sujeito que só pensa em chaves.

O público não percebe o truque porque gosta. Isso é, porque gosta de sentir-se especial, de estar apenas esperando para ser encontrado — everybody wants to be found, mas sem nem se inscrever para participar do Big Brother. Todo mundo se identifica com Cristo na cruz, não com a multidão que pede sua crucifixão (e no entanto somos a multidão). Mas, numa virada anticristã, na própria virada do Anticristo, essa vítima não pede que o Pai perdoe a multidão que não sabe o que faz, nem sonha com uma reconciliação. Essa vítima quer vingança, ou pelo menos sente que, “já que ele me bateu primeiro”, está livre para bater.

Em Lost in Translation, até o tédio é uma violência que justifica uma conduta, digamos, imponderada. Mais uma vez devo pedir à leitora que faça uma inversão de sexos. O que você acha de passar o dia trabalhando enquanto seu marido passeia com a Scarlett Johansson?

De certo modo, tenho a impressão de que há 30, 40 anos esses filmes não seriam possíveis porque o público ainda perceberia o aspecto trágico, isso é, o aspecto de uma disputa real que não pode ter vencedores e que impediria a identificação total com um dos lados. Nenhum desses filmes explora o famoso outro lado: Brokeback Mountain até mostra uma Michelle Williams (o personagem de Michelle Williams) contrariada, mas rústica demais para que possamos sentir simpatia por ela.

Quando o público admite com essa facilidade toda que existe uma dupla moral — a do protagonista e a do resto dos personagens, que não chegam nem mesmo a ser antagonistas, reduzindo-se a mero plano de fundo cujo único papel é agredir primeiro e assim liberar geral, eu só posso observar duas coisas: 1. estamos em apuros, na sociedade; 2. Transformers tem antagonistas reais, com motivações compreensíveis, e com isso é mais complexo do que Lost in Translation e Brokeback Mountain, além de ser mais realista simplesmente por não ter uma mentira existencial tão profunda em seu enredo.

Meu problema com Inception

Não gosto de obras em que a estrutura do enredo é obscura. O problema não é o sentido da obra ser ambíguo, veja bem. René Girard tem duas interpretações da Édipo rei, de Sófocles: uma segue a interpretação tradicional e explora a descoberta da própria culpa pelo sujeito que se julga onipotente; outra diz que Édipo foi convencido da culpa pelas pessoas à sua volta, tornado bode expiatório (essa interpretação se baseia na continuação da peça, Édipo em Colono, e no fato de que o texto mesmo de Édipo rei fala em “assassinos”, no plural, do rei Laio). Nenhuma das duas interpretações sugere que o enredo da peça seja modificado, que Édipo estava sonhando quando ouviu as notícias dadas por Creonte, quando discutiu com Tirésias etc.

Édipo rei é citada por Aristóteles como modelo por, entre outras razões, apresentar peripécias e reconhecimentos de modo inseparável. Peripécia é algo que o personagem faça; reconhecimento é algo que o personagem descubra. Quanto mais Édipo procura, mais acha. E a história vai mudando. Primeiro, é a procura da solução para a peste em Tebas. Depois, é a procura do assassino de Laio. Por fim, é a tentativa de confirmar se o assassino é o próprio protagonista. Mas, como leitor ou espectador, sei que passamos de um estágio a outro e a outro. As informações se acumulam e aumentam a pressão dramática.

Quando Inception termina, não sei a qual história assisti. Não sei quando o protagonista começou a sonhar ou quando não acordou. Não gosto da idéia de ter de assistir a um filme mais de uma vez só para ter certeza de qual foi o enredo. Discutir o sentido de uma obra dramática é excelente; mas ignorar a mera seqüência dos acontecimentos é pertubador num péssimo sentido. Não vejo problema em discutir se a Nora Helmer de Casa de boneca é ou não a primeira feminista, mas ninguém disputa que ela realmente foi ameaçada pelo funcionário do banco em que o marido trabalha.

É por essa mesma razão que não gosto de David Lynch. Todos esses filmes que trazem linhas muito borradas entre o sonho e o estado de vigília acabam soterrados pela vã tentativa do espectador de distinguir um do outro. Você poderia dizer que estou priorizando arbitrariamente o plano da vigília, como se ele fosse a “realidade”, mas estou afirmando, isso sim, que sem algum elemento convencional a inteligibilidade da obra de arte fica prejudicada. Para que uma obra signifique X e não-X, claro que sob aspectos distintos, ela tem de significar essas duas coisas claramente; é o espectador que muda de ponto de vista, não é a obra mesma que muda de natureza.

O cinema contra a felicidade

Há alguns anos, minha professora de italiano me fez ver o filme Pão e tulipas, que trata de uma mulher negligenciada pela família que decide largar tudo e viver em Veneza, sozinha, trabalhando numa floricultura. O filme mostra a mulher redescobrindo a vida, o amor, a felicidade, e realizando tudo aquilo a que todo mundo acha que tem um direito natural, concedido por Rousseau, por Joseph Campbell e pelos colunistas de auto-ajuda.

Um outro filme, um pouco anterior, mostra uma situação semelhante: Beleza americana. Um sujeito tem uma filha adolescente insuportável, uma esposa não menos repulsiva, e, fazendo chantagem com a empresa, ganha um ano de salário e decide “ser feliz”. “Ser feliz”, é claro, assim como no caso de Pão e tulipas, significa “fazer o que eu quero”. Nesse caso, porém, o sujeito é vil, baixo e mesquinho. Claro que o filme mostra que ele é mesmo – mas por que não vamos julgar que ele, o homem, é que foi amesquinhado pelas pessoas à sua volta?

Estou observando isso apenas porque subitamente percebi que um filme como Pão e tulipas que tivesse um protagonista masculino simplesmente não seria aceito pelas platéias. O homem não teria o direito de largar a família e “ser feliz”, mesmo que essa família o negligenciasse. Ele seria visto como culpado, inevitavelmente. Se ele decidisse largar sua esposa chata e seus filhos ingratos para comprar um carro novo e arrumar uma namorada mais nova, seria visto como tolo, imaturo, canalha. O filme seria considerado prova da maldita cultura machista neoliberal opressora em que vivemos.

Agora, não tenho o menor interesse em denunciar feminismos (o feminismo é suficientemente autodestrutivo), e sim em observar double standards e o que eles revelam sobre as escalas de valores e sobre as possíveis recepções de obras dramáticas. Um filme como Pão e tulipas certamente propõe que a felicidade da mulher vem antes da felicidade da família. Nenhum filme ousa sugerir que a felicidade do homem possa vir antes da felicidade da família. O estranhamento que essa premissa causaria impediria a fruição da obra.

Também não me interessa escrever apenas reacionariamente, isso é, reagindo à premissa feminista com uma premissa machista, e certamente não me interessa dar uma de superiorzinho às duas premissas, mas simplesmente observar que ambas se baseiam no dogma moderno de que a felicidade é um direito natural e que ela é obtida fazendo aquilo que se deseja. Quando as pessoas vão ao cinema, querem ver histórias em que os personagens finalmente iniciam aquela parte da vida que será uma sucessão indefinida de momentos perfeitos. Nenhum filme poderia terminar como Tio Vânia, de Chekhov, em que Sônia, jovem e já ciente da longa vida de frustração que terá pela frente, olha para o tio do título, que já tem uma vida de frustração atrás de si, e fala que, quando eles morrerem, verão as vidas tristes das pessoas na terra banhadas numa misericórdia infinita.

Eu mesmo, admito, prefiro que a felicidade comece agora, e não só após a morte. Sei que poderíamos criticar Sônia porque ela mesma não está enfatizando a alegria que se poderia encontrar em dar a vida por outra pessoa, e sim a crença de que sua vida de tristeza será compensada no céu. Mas será que foi já nesse momento, e já num autor como Chekhov, que a idéia de que a felicidade pode estar num serviço a algo ou a alguém foi considerada inadmissível?

Invictus e as causas liberais

Fui ver Invictus. É um filme excelente. É um filme que segue o princípio que enunciei ontem: os inimigos se unem em torno de um outro inimigo que lhes seja comum. Mandela une brancos e negros na África do Sul por meio da vitória da seleção nacional de rugby contra as seleções estrangeiras. A vitória esportiva é uma espécie de violência de mentirinha que tem um efeito similar à violência coletiva verdadeira. As competições esportivas se baseiam nisso. Os torcedores delegam sua identidade aos jogadores e, por meio da vitória destes, sentem sua identidade coletivamente afirmada. Creio, aliás, que os jogos da seleção brasileira exerçam tanto efeito sobre a população exatamente porque não temos a memória de uma violência real que nos unisse contra um inimigo externo. Por isso, de quatro em quatro anos os brasileiros vão em busca de afirmação.

Tornando à história do filme, que vou presumir que é fundamentalmente verídica, um liberal como eu poderia pensar que não é função do presidente da república ficar apertando mão de jogador, nem pedindo a capitão de time que vá vencer a Copa de rugby, mas uma pessoa sensata como eu espero ser não pode negar que o primeiro problema da África do Sul pós-apartheid e pós-eleição de Mandela era evitar uma tensão racial permanente que se transformasse numa guerra civil ou numa violência alastrada à la Zimbábue. A questão não é abstrata, não é decidir se cabe a um presidente fazer isso ou aquilo, mas entender que se o governo, os representantes da violência legítima (isto é, unânime, como a violência contra criminosos), não apaziguar as tensões internas da África do Sul não vai haver federação, não vai haver direitos, não vai haver nada. Seria o apogeu da idiotice dizer que as manobras de Mandela não passam de um abuso de seu cargo.

E aqui chego às causas que propus ontem. Elas seriam causas, não exatamente “idéias”. Não seriam maneiras de fazer com que os liberais concordassem entre si, porque não creio que isso seja possível, e não tenho muito interesse no impossível. Elas não devem ser analisadas pela ótica da competição pelo Maior Grau de Pureza Libertária. Elas representariam apenas um passo estratégico, de retórica coletiva, e ficaria feliz se elas fossem discutidas assim. Acho que a discriminação entre preço e imposto traria às pessoas uma consciência de que carecem imenso: a consciência de que o governo lhes custa muito mais, individualmente, do que imaginam. Na hora em que todo mundo começasse a sentir no bolso o quanto as coisas custam, talvez começassem a achar excelente que o governo não oferecesse tantas coisas. A supressão de propagandas estatais, além de economizar muitos recursos (por que não perguntar, ainda que de modo pouco libertário, quantos doentes deixam de ser atendidos a cada vez que passa um comercial na TV?), daria ao cidadão uma percepção mais seca do governo, cuja função, certamente, não é a de seduzir as pessoas. A adoção de algo como a probable cause melhoraria até as relações raciais — o policial seria obrigado a dizer que está parando um sujeito porque ele tem excesso de melanina e pensaria duas vezes.

Talvez estas não sejam as melhores causas (talvez sejam infactíveis), nem as mais prioritárias. Mas a questão não é essa. A questão é que alguma causa é prioritária, e sua prioridade vem do mero fato de estar entre as opções disponíveis, aliado ao fato de ser aquilo que mais contribui para uma estratégia de longo prazo. Não vai existir uma vanguarda leninista liberal que tome o poder, dissolva o governo e grite: “Privatizai o mundo!” Todavia, há algo que se pode fazer. Um belo dia foi possível optar entre o Plano Real e o desenvolvimentismo à antiga. Será o Plano Real um sonho libertário? Essa questão é menos relevante do que escolher entre aquilo que o cardápio oferece, a relativa estabilidade e a inflação galopante associada a maluquices do governo. Ficar no sonho é entrar no restaurante e não comer nada, indignado, esperando que o pé-sujo em que você se encontra se transforme na alta gastronomia que você só consegue imaginar.

Eric Rohmer est mort

Conto de verão

Há muito tempo vi um filme, acho que foi A história de Adèle H. (e será que Isabelle Adjani já esteve mais bonita?*), que terminava com a morte de Victor Hugo. O espectador então ouvia vozes sem rosto que gritavam: “Victor Hugo est mort! Victor Hugo est mort!” Pois quando um artista como Rohmer morre, gostaria que daqui do meu apartamento eu pudesse também ouvir gritos, fossem em francês, em português ou em qualquer idioma cujo sentido eu conseguisse discernir, e soubesse que as pessoas estão gritando porque Eric Rohmer morreu. Foi ontem, eu sei. Mas ontem eu estava amordaçado e cercado por canibais de ossinho amarrado na cabeça, preso na Ilha de Bonga-Bonga, e só hoje consegui me livrar deles e reencontrar meu Aston Martin voador para voltar para cá.

Meu filme favorito é Conto de verão, embora talvez o melhor seja A inglesa e o duque. Na verdade, estou dizendo que meu filme do coração é Conto de verão, mas acho que pessoas que vêem dois filmes por dia e sempre escrevem sobre cinema talvez digam que A inglesa e o duque é melhor. Ou talvez eu esteja totalmente errado. O fato é que todos os filmes de Rohmer são bons e que, quanto mais velho ele ficava, melhores os filmes também ficavam. É verdade que nos filmes dele as pessoas falam muito, mas também é verdade que elas estão sempre representando um tipo. Conto de verão é, nas palavras de um amigo, “Malhação que deu certo, a prova de que é preciso ter 80 anos para filmar uma boa história de romance de férias”. E é isso que o filme é: um rapaz confuso se divide entre três meninas, sem ter o controle da situação em nenhum momento, mas se achando muito profundo. É verão, as meninas querem se divertir, e toda a atmosfera de relaxamento do filme se impregna até na sua roupa e você sai do cinema (eu me lembro de quando saí do cinema) como se tivesse ido à praia. E, é claro, há a Amanda Langlet, a moça da foto aí de cima (a mesma de Pauline na praia, que mostra que é possível envelhecer 13 anos como se fossem 3; ok, exagero, mas mesmo assim… Veja). Se você não se apaixonar por ela 300 vezes durante o filme, tem coração de pedra e discute bandas semi-conhecidas como se isso fosse um assunto relevante. É claro, porém, que boa parte do charme dela no filme vem de ela se fazer de difícil; o gostoso seria tentar vencê-la sem jamais revelar verbalmente seu estado perpétuo de blefe.

E olha que nem falei dos outros filmes.

*Sugiro que o leitor não procure fotos atuais dela.

Aline 0 x 1 Transformers

Maria Flor, defendo. Talvez ela segure a série da Globo. Meu problema com Aline é outro, e muito simples. Até as pipocas frias desprezam os idiotas que rejeitam filmes como Transformers e Indiana Jones “porque têm muita mentira”. Mas as pipocas frias e pisadas do corredor de saída também desprezam os idiotas que não percebem que um monte de filmes realistas se baseiam em uma mentira existencial fundamental (como Juno, que é duplo angélico de gente que conhece bandas que surgiram há menos de três anos; mas, desse filme, esse Sex and the City púbere e mal vestido, falarei um dia).

Ok. Eu falava de TV, não de cinema. É que a série Aline tem pelo menos uma mentira existencial profunda, gritante, espalhafatosa. Meninas como Aline, essa Angelina Jolie da Liberdade, jamais se sentiriam atraídas por aqueles patetas que são seus “namorados”. Não sentiriam atração nem por um, nem por dois; e talvez nem mesmo meninas mais parecidas com um Cheddar McMelt chegassem a sentir atração por aqueles dois emasculados McChickens. Não acontece. Nunca aconteceu. Jamais. Eu garanto. Aqueles dois são causa de lesbianismo; não se pode culpar a mulher por querer virilidade, nem por encontrar mais virilidade numa amiga do que em dois boçais subjugados.

Isso tudo é patente e óbvio. A grande pergunta que se estende sobre nossas cabeças é outra. Se a TV aberta brasileira é sempre duplo angélico da pobreza cognitiva (a TV aberta de outros países é duplo angélico da riqueza cognitiva), quem são essas pessoas que gostam de Aline? Mesmo para uma mulher se valorizar por dobrar um homem, ele não pode ser um pateta. Vejam novamente a Angelina Jolie e o Brad Pitt. Foi o Brad Pitt! Não foi um sujeito cujo apogeu de virilidade foi usar uma camisa rosa, ou dividir uma namorada. Com outro cara. Sob o mesmo teto. Achando bom.

Não se trata, senhores, de moralismo.

Até Transformers é mais honesto com o espectador.