The Minutemen vs Ivy League Mindless Zombies

Aqui em Nova York, continuam os conflitos por causa da questão da imigração. Ou será que é só isso?

Outro dias uns estudantes republicanos decidiram chamar o fundador dos Minuteman para falar em Columbia. (Para quem não sabe, o Minuteman Project é uma organização civil que decidiu, em resumo, patrulhar e cercar as fronteiras americanas por conta própria – eles são encarados como meio malucos por aqui.) Bem o problema é que quando o sujeito começou a falar, uma turba de manifestantes tomou o palco, criando muita confusão e na prática interrompendo tudo e impedindo o sujeito de continuar.

Isso teve várias repercussões, e ficou em todos os noticiários durante alguns dias. Aqui tem por exemplo uma notícia do prefeito se pronunciando sobre o assunto : Mayor criticizes Columbia students who stormed stage

Um aspecto interessante da questão é que os manifestantes estão surpresíssimos com a reação geral de repúdio e com o fato de terem sido censurados pela administração da universidade (mesmo sem que qualquer conseqüência real tenha ocorrido até o momento).

Aqui está um bem humorado relato do evento no Daily Show.

Eles invadiram o palco de forma intimidatória e impediram o sujeito de falar, o que eles esperavam?

Ah, eles acham que isso que é exercer pacificamente sua liberdade de expressão. Vejam o que uma das alunas organizadoras desse absurdo tem a dizer.

Eu não sei onde acaba a hipocrisia e começa a burrice, mas impedir alguém de falar não é desobediência civil. É mera arrogância autoritária.

Eu só posso ficar um pouquinho feliz de que apesar de terem conseguido o que queriam (impedir idéias de que não gostam de serem divulgadas), eles não puderam contar com o apoio escancarado e unânime da universidade e da imprensa. Mesmo que a administração tenha repudiado oficialmente o comportamento intolerável dos manifestantes somente porque seria inconcebível não fazê-lo, isso já é mais do que se pode dizer de algumas “Ivy League” no Brasil.

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PS : Escrevi um pequeno comentário adicional sobre essa questão da liberdade de expressão no Geeks Wanted.

Rant aleatório sobre educação

Mais um dos infinitos exemplos que eu poderia dar sobre como eu NÃO quero mandar filhos meus pra escola de forma alguma : http://www.dailykos.com/story/2005/5/12/6418/77122

De fato, eu prefiro NÃO TER filhos do que ver o governo tomá-los de mim.

É absolutamente inaceitável o grau cada vez maior de arrogância e de interferência desses “educadores”. O sistema educacional é perverso em todos os sentidos possíveis – não só no acadêmico. Ele é perverso moralmente, emocionalmente, socialmente. Como disse o Bertrand Russell, as pessoas nascem inteligentes, é o sistema educacional que as torna burras.

O sistema educacional ensina as pessoas a decorarem coisas que não entenderam, a repetirem coisas com as quais não concordam, a descartarem seus pensamentos que divergem do padrão aceito, e principalmente e acima de tudo a aceitarem cegamente exercícios arbitrários de autoridade (e isso não apenas sobre seu intelecto, que já seria ruim, mas também sobre seu comportamento, aparência e atitude!). Elas aprendem que a lógica não importa, que a verdade, não importa, que ter razão não importa; que apenas a autoridade importa. Elas ficam sujeitas aos caprichos de pessoas absolutamente despreparadas para guiá-las, isso tanto a nível intelectual como pessoal, as quais de qualquer forma na maioria absoluta dos casos não estão nem sequer realmente preocupadas com o bem estar das crianças apesar de todo um discurso pretensioso sobre o assunto. Os professores, e o governo muito menos ainda, não têm qualquer autoridade moral para acharem que educarão as crianças melhor do que seus pais.

Drugs and Copyright

Unfortunately, it is NOT true in general that if millions of people want something and do something, it will ultimately be made legal. Laws are not written directly by the people; they are conceived, debated and approved by the government, which, after elected, is more or less free to do whatever it wishes. Most important positions in the government are not even chosen by vote. Besides, even when they choose to listen or are forced to listen, they listen to those who scream louder, make more noise or have more money, which don’t necessarily represent the majority of people, just the richer and/or more fanatic/determined.

Those who would argue that most people are not able to decide between right and wrong and have no competence to write laws are probably right, but they are missing two very important points. The first is that the option is having some entity hover over society deciding what’s right or wrong for us, either by force (which definitely does not guarantee wisdom) or by choice (by the people we just concluded were unable to judge such matters?). The second, and possibly even more important point, is that people may not be “officially” entitled to make some decisions in a bureaucratic virtual society, and may indeed not be competent to do it, but they are in fact objectively in charge of their own lives (and partly of those around them). Laws don’t prevent me from driving without a permit; it’s within my personal capabilities to do it. In fact, most laws can be broken very very easily. And the point is that it should be so; only in a totalitarian government should you be prevented from exercising your own judgment by default.

Look at the situation of drugs, for example. A large portion (if not most) of the population uses or has used some kind of drug. If we count alcohol and cigarrettes as “legal drugs” (which we probably should), it becomes even more obvious that from a human point of view, drugs are not considered intrinsically immoral or unnaceptable. It’s the abuse of drugs which is harmful and socially disapproved.

However, the government just decided that to “protect” those who don’t have the self-control or the intelligence to use drugs in a non-self-destructive way, they must make it a crime for someone to produce, sell, possess or consume substances from a certain list, under any circumstances and in any quantities. That is just plain stupid and oppressive. It’s also inconsistent, since they chose to arbitrarily keep some drugs “legal”.

Even if drugs were generally disapproved or believed to be unnaceptable by almost all people, that would still not be a valid reason to make them illegal; I should be able to do whatever I want as long as I don’t hurt other people. Most people don’t like really hard heavy metal; prolonged exposure at very high volumes could damage one’s hearing; should it be illegal? Should the police come into my house and arrest me for listening to it alone? Come on.

The point I’m trying to make it that this “copyright infringement” thing is looking more and more like the ridiculous and absurd “war on drugs” which plagues our society. More and more resources, laws and police action are being directed at restricting this activity, while a LARGE fraction of society keeps doing it and most people don’t even believe that it is immoral or that it should be outlawed. If they legislate against basic human urges like sharing information, they will only manage to create underground distribution systems, which actually hurts everyone. But no, they don’t care, they just want to have a monopoly on information distribution and charge so much that the average person won’t even be able to listen to the music he/she likes. If this is where we’re going, maybe we should just forget about copyrights and develop some new system to pay the content creators.

Besides, this is getting completely out of control – to prevent “copyright infringement”, they are attacking and trying to destroy the best new technology for distribution and indexing of information that appeared since the beginning of the internet, which is P2P and hashing, a technology which has multiple uses and is beneficial for everyone. How can we, as individuals, fight back? I guess we can’t – it’s just like the stupid war on drugs.

I’m not saying that drugs are awesome and we should be drugged all the time, I’m saying that they shouldn’t be ILLEGAL. Just the same, I’m not saying that the problem of paying the people who create cultural content doesn’t exist – what I’m saying is that making information sharing so completely illegal is clearly an increasingly totalitarian, oppressive and ultimately unenforceable solution. But the government and the media companies don’t care. Unless there is some kind of collective reaction by society, or a clash of interests between some very powerful groups, this non-solution may be stubbornly pursued for decades to come, probably with increasing (and very very costly and damaging) vigor.

Big Brother

Gostaria de fazer uma pequena observação sobre a forma inesperada como aos poucos a distopia de “1984″ se torna presentemente um fato.

O que era para ser algo terrível, humilhante e desumanizador, concebido como símbolo da destruição de qualquer possibilidade de dignidade pessoal, foi transmutado em um programa de televisão de grande sucesso, e ainda com o requinte de utilizar um nome que remete diretamente ao significado original, o qual pelo nível cultural deficiente de grande parte dos espectadores, provavelmente permanece ignorado na maior parte dos casos. Qual o significado disso? A existência e o sucesso desse programa são simultaneamente agente e sintoma de poderosas mudanças culturais e de valores. A realidade dominada pelo Grande Irmão já chegou, e não à força, mas através de uma transformação moral, na qual as pessoas são premiadas por sua vulgaridade. As pessoas competem para serem pagas para serem observadas participando de situações indignas e degradantes, para dramatizarem em pequena escala uma realidade que Orwell evidentemente descreveu como temível e abjeta. E toda uma geração cresce confortável com isso.

Ciência versus filosofia?

Iniciamos com este artigo uma coluna cujo assunto será a consideração das relações mútuas entre os desenvolvimentos da ciência e da filosofia.

Vivemos em uma época na qual os filósofos, em sua maioria, estão muito afastados dos cientistas. Historicamente, ciência e filosofia surgiram juntas e durante muito tempo se confundiram; a própria física começou como filosofia natural. À medida em que o tempo passou, e a ciência ganhou uma complexidade cada vez maior, e nossa compreensão do mundo e do universo – pelo menos a nível fenomenológico – se expandiu, porém, uma atividade ficou cada vez mais distinta da outra. À medida em que o território da ciência se expandiu, suas fronteiras – para além das quais está a metafísica e a filosofia – pareceram cada vez mais distantes, para muitos, da quase totalidade da atividade científica. Desse modo, chegamos a uma cisão suspeitíssima na qual acredita-se que é possível produzir ciência de alta qualidade sem nunca gerar qualquer pensamento filosófico novo e que seja possível filosofar sobre a realidade (supondo que exista uma) sem conhecer ou se reportar à ciência.

Ora, em ambos os sentidos estamos cometendo erros crassos, e prejudicando – em certos casos impedindo – tanto o progresso da ciência como o da filosofia. Por um lado, a ciência não pode avançar – ou sequer existir – sem a filosofia. As estruturas filosóficas, conscientes ou não, constituem a ferramenta através da qual tentaremos interpretar a realidade – e isso vale tanto para um bebê recém nascido como para um grupo de pesquisa em física nuclear. Até aí, poderíamos conceber a filosofia como fundamento implícito mas dissociado do objeto da ciência. Só que o conhecimento não consiste apenas em preencher com percepções e experiências uma forma já pronta. Ao contrário, os grandes saltos de compreensão se dão quando reformulamos nossas formas (geralmente ao depararmos com percepções que não sabemos onde encaixar). De fato, o tipo de conhecimento que a ciência pretende obter sobre a realidade está muito mais nas estruturas que descobre serem “adequadas” para interpretá-la do que no acúmulo infinito de percepções. Assim, todo grande avanço na ciência – aquele tipo de avanço que alarga suas fronteiras – não só requer mas consiste em uma mudança nas estruturas filosóficas através das quais pensamos a realidade.

Por outro lado, em particular pelo exposto acima, a filosofia não pode ficar alheia aos avanços da ciência. À medida em que a ciência avança, ela penetra em domínios que antes pertenciam à filosofia. Nossa apreensão da realidade se altera através das eras e, aos poucos, questões que antes pertenciam por excelência ao domínio do debate filosófico puro, e demarcavam até mesmo os limites do cognoscível, passam a poder ser tratadas cientificamente. Dessa forma, questões como “Que são as estrelas ?”, “O que é a luz ?”, “Será o universo infinito ?”, “De onde surgiram os seres humanos ?”, “O tempo passa com a mesma velocidade em todos os lugares ?” que em diferentes épocas já foram – e facilmente esquecemo-nos disso – questões filosóficas, hoje são tratadas pela ciência. Tal mudança de situação não impede incursões da filosofia pura em nenhum desses assuntos – porém é fundamental que quem se disponha a fazê-las considere – e para tanto precisará conhecê-los – os argumentos científicos relevantes. Já outras questões como “O que é o bem ?”, “Por que estamos aqui ?”, “Existe um Deus ?”, “O futuro está predeterminado ?”, ainda hoje são, eminentemente, competência da filosofia. Talvez algum dia se torne possível tratá-las no âmbito da ciência, talvez não; a filosofia é mesmo mais abrangente que a ciência. No entanto, o filósofo deve perceber que as descobertas científicas revolucionárias não apenas apresentam conseqüências filosóficas profundas, mas mais do que isso, consistem em reformulações filosóficas, e muito bem fundamentadas.

A ciência expandiu-se tanto nos últimos séculos que muitas vezes filósofos e cientistas perdem de vista que são atividades com uma fronteira – freqüentemente nebulosa – em comum, e que quanto mais a filosofia fala sobre a realidade concreta, mais próxima ela está da ciência, assim como quanto mais a ciência se universaliza, mais próxima está da filosofia pura. Pretender conhecer a realidade e fazer ciência sem empregar a filosofia é como tentar construir a cobertura de um prédio antes de lançar as fundações. Porém, fazer filosofia ignorando a ciência é como estudar o problema genérico das fundações ignorando os arranha-céus que já estão construídos por aí.

Por mais forte e clara que seja essa ligação, há porém uma forma de sabotá-la, que desfruta de considerável popularidade : negar não só a acessibilidade mas a própria existência de uma realidade objetiva, concreta, suposição básica sem a qual a ciência se torna não só desconectada da filosofia mas completamente inviável. A conseqüência direta dessas concepções subjetivistas e relativistas é um universo no qual todas as opiniões têm o mesmo valor e ninguém está efetivamente “com razão” sobre coisa alguma. Deliciosamente “democrático” ? O que de fato ocorre é que demolida a distinção entre o pensamento/sentimento de cada um e tudo o que está fora de nós, entre o que projetamos nos outros e o que vem de nós mesmos, fica, de fato, impossibilitada a comunicação e compreensão do outro, dado que estamos efetivamente negando seu direito de existir independentemente. E, como nada faz sentido mesmo, estamos isentos de qualquer responsabilidade e só o que pode prevalecer é nossa vontade pessoal. Em uma tal situação, só nos resta submeter (a marretadas) continuamente tudo e todos a nossas ilusões e fantasias (ao invés de, ao contário, adaptar nossas concepções e representações internas ao que vemos),num orgasmo de egocentrismo esquizofrênico.

Felizmente, essa visão de mundo se revela não somente dantesca mas também de pouca consistência. Afastada a possibilidade da unificação de todas as nossas realidades subjetivas em uma única e universal realidade objetiva, qualquer proposta filosófica fica transformada em um fim em si, em um delírio exclusivamente formal. E, de qualquer forma, não adianta espernear e dizer que não é possível fazer o que já está efetivamente sendo feito. A evidência mais contundente da existência de algum tipo de realidade objetiva é justamente o gigantesco e cada vez maior sucesso que a ciência vem obtendo em operar baseada nessa suposição.