Reflexões sobre a prostituição em tempos modernos

Soliciting Discreetly

Hoje fiquei pensando sobre como a poligamia nas sociedades islâmicas deve ter um efeito colateral não intencional : necessariamente, haverá homens que nunca terão esposas. Mais do que isso, o número de homens sem esposas será sempre superior ao de mulheres sem maridos, e será tão maior quanto mais polígama for a sociedade. Considerando além disso a atitude dominante nas sociedade islâmicas sobre sexo fora do casamento, não é de admirar que as mulheres sejam proibidas de saírem sozinhas na rua, tenham que usar roupas que escondam suas formas, e que em tais países as pessoas estejam dispostas a se explodirem em nome de Alá esperando com isso irem parar num paraíso cheio de virgens. Eu, pessoalmente, não vejo nada de terrivelmente errado com a poligamia (supondo que os envolvidos a aceitem voluntariamente e construtivamente), mas há de se convir que se ela for somente masculina (que é mesmo a que biologicamente faz mais sentido), isso contém em si as sementes de uma tensão social constante.

Aí eu pensei que uma forma de compensar (parcialmente) isso seria haver umas poucas mulheres que prestassem à sociedade o serviço público de transarem com os homens que ficassem sem esposas/parceiras. Só que tais mulheres já existem em todas as sociedades – são as prostitutas. Então em comecei a pensar sobre o papel que elas têm nas sociedades cristãs, e acabei por concluir que elas prestam um excelente e muito saudável serviço à comunidade.

Porém, apesar disso, a prostituição é quase sempre cercada de um estigma negativo. Mas pensemos com cuidado. Uma prostituta faz mal a alguém? Não, ela presta um serviço ardentemente desejado por seus clientes. O argumento normalmente utilizado é que esse serviço seria degradante para a própria prostituta, que é colocada como vítima. A construção dessa descrição da prostituta como “vítima” geralmente se dá por duas vias : 1. prostituir-se seria intrinsecamente degradante e 2. para muitas mulheres, a prostituição seria imposta, e não voluntária.

Comecemos pelo segundo ítem. Impor uma profissão a qualquer pessoa já é ilegal. Um trabalhador rural, por exemplo, que seja contra a sua vontade mantido em sua profissão ou ligado a um empregador específico, seja sob ameaças, por contatos abusivos, por falta de meios de escapar, por não poder pagar dívidas ou por qualquer outro motivo, terá pleno apoio da lei e das instituições em quase todas as sociedades modernas. Não que o trabalho escravo tenha desaparecido completamente da face da terra, mas o que o caracteriza – e à sua ilegalidade – não é a natureza da atividade exercida e sim a relacão entre prestador de serviços e empregador. Querer tornar prostituição ilegal porque existem gigolôs ou bordéis abusivos é como querer tornar colher cana ilegal porque existem pessoas enganado ou forçando bóias-frias a realizarem o que constitui na concepção moderna trabalho escravo. E, adicionalmente, não seria justificado tornar ilegal o exercício autônomo dessa atividade (pelo menos nesse aspecto a lei brasileira é coerente). Pelo contrário, é exatamente a ilegalidade da profissão que permite que exista a exploração, escravização e tráfico de prostitutas. Uma prostituta, ao contrário de um trabalhador rural, não tem a quem recorrer quando ameaçada, pois se recorrer ao estado, apenas acrescentará mais uma entidade à lista daqueles que a vitimizam. A forma mais óbvia e simples de proteger as prostitutas de trabalharem sob ameaças ou coação seria simplesmente a descriminalização da atividade. Isso imediatante faria com que as prostitutas pudessem de fato serem ajudadas (ao invés de perseguidas) pela sociedade, e adicionalmente baixaria os preços dos serviços (pelo aumento da concorrência e diminuição do risco), diminuindo cada vez mais o incentivo para que se voltasse para essa área quem se sentisse muito agredido com isso.

O que nos leva ao primeiro ítem. Quão degradante é prostituir-se? Para começar, é evidente que mulheres diferentes reagirão de forma diferente. Cada pessoa tem uma personalidade e uma vocação. Mas no caso geral, o que é mais degradante, dar prazer a um estranho ou ser forçado a aceitar que um editor mexa aleatoriamente em um texto que você escreveu? Fazer sexo sem sentir prazer ou entregar para os clientes um programa de computador que você sabe que não funciona porque seu chefe mandou? Ser tocada intimamente por alguém que você não ama ou passar noites acordado estudando assuntos que você considera irrelevantes para poder ganhar um título ou passar num concurso? Fazer sexo por dinheiro é mais degradante do que ir ao dentista? Ao ginecologista? Do que passar fome no meio da rua e ver seus sonhos se desmancharem? Do que trabalhar como um cavalo e ganhar um salário mínimo? Do que ser garçonete? (Essa é respondida diretamente por *muitas* prostitutas com um ressonante “não”!) Mais ainda, pergunto : é mais degradante casar-se com um homem de quem você não realmente gosta para ter uma vida financeiramente segura ou cobrar abertamente de homens para prestar os serviços de que eles biológica e psicologicamente precisam? Especialmente nesse último caso, acho a segunda opção bem menos degradante para os dois lados. Além disso, assim como no caso por exemplo de homossexualismo, se eu escolho voluntariamente fazer coisas que outros acham degradantes para mim, isso é problema meu. Se outros quiserem me “ajudar”, me dar opções, fazer discursos ou qualquer outra coisa que não envolva coação, é escolha deles. Mas me forçar a seguir as escolhas que fariam no meu lugar é nada menos que totalitário e opressor.

Me parece que a humanidade, nos tempos modernos, cada vez menos consegue lidar com a questão de sexo de uma forma positiva e construtiva. Metade da sociedade trata sexo de forma cada vez mais despersonalizada e niilista, enquanto que a outra metade o trata de forma fóbica e hipócrita. Onde estão as pessoas que enxergam sexo como algo que envolve sim, sentimentos, compromisso e responsabilidade mas que ao mesmo tempo o vêem de forma natural e construtiva?

Sexo não é apenas sobre orgasmo. Se fosse, masturbação seria suficente e os homens não gastariam tanto tempo, dinheiro, esforço, saúde, paciência, dignidade e reputação cavando – muitas vezes desesperadamente – uma parceira sexual. Especialmente na sociedade ocidental moderna, sexo evidentemente também não é apenas sobre ver mulheres nuas – isso é trivialmente fácil, e novamente, claramente não é a questão. Desnecessário dizer que sexo também não é somente sobre ter filhos, ou ninguém veria qualquer sentido em fazer sexo quando filhos não pudessem ser um resultado, enquanto que evidentemente a maioria das pessoas toma extremo cuidado para que filhos não sejam um resultado. Etc, etc. O papel do sexo na psique humana é muito mais complexo do que tudo isso. Tem a ver com afetividade, com afirmação da identidade, com relações de poder, com necessidade de aceitação, com tantas coisas tão fundamentais que é difícil imaginar um ser humano mal resolvido sexualmente que leve uma vida plena e feliz. Grande parte dos psicanalistas do mundo provavelmente ficaria sem emprego se as pessoas pudessem simplesmente fazer as pazes com suas necessidades sexuais.

O que nos leva de volta à prostituição. As prostitutas não existem por acaso. Elas prestam um serviço que satisfaz necessidades profundíssimas e muito poderosas na psique humana. Desde que trabalhem voluntariamente, qual o problema? Por que uma atividade se tornaria *mais* degradante pelo fato de que alguém está extraindo prazer dela? O cliente acho que ninguém discute que está, mas é ainda mais fantástico ver os ultra-moralistas de plantão criticarem as próprias prostitutas por se entregarem à “luxúria”. É um discurso completamente esquizofrênico, e incompatível com sua suposta vitimização. Como se um boxeador (ou qualquer atleta realmente competitivo) não levasse seu corpo até os limites. Como se um guarda penitenciário não fosse submetido a intenso estresse psicológico. Como se um bombeiro ou policial não corresse risco de vida. Isso me parece altamente sintomático daquela lógica repressora masoquista de que se alguém está se divertindo, então algo está errado.

Acho que chegamos a um ponto de desenvolvimento social e cultural em que antigas leis tribais concebidas há milhares de anos não são mais uma base adequada para o nosso sistema de moral. Talvez em algum momento histórico tenha feito sentido enxergar a prostituição como perniciosa; não sei dizer. Mas hoje, me parece que isso não faz mais qualquer sentido. Diria ainda mais – a aceitação e a normalização dessa atividade vêm potencialmente a contribuir para amenizar vários dos desequilíbrios da sociedade moderna.

Enumeremos aqui algumas das forma como esse efeito positivo poderia ocorrer. Comecemos por alguns benefícios mais diretamente ligados à descriminalização para então prosseguir a outros associados a uma prestação mais ampla e disseminada do serviço de prostituição.

– Proteção das prostitutas contra abusos. A partir do momento em que prostituição não fosse mais criminalizada, e sim legalmente uma atividade profissional como qualquer outra – como babá, dançarina ou psicóloga – o problema de uma mulher ser “forçada” à prostituição diminuiria sensivelmente. Da mesma forma, seria possível organizar as condições de trabalho das que decidissem oferecer seus serviços através de uma agência ou agente. Só seria prostituta quem escolhesse, e em condições mais seguras de trabalho.

– Desmonte de estruturas mafiosas. Como toda atividade criminosa na qual tanto cliente quanto prestador de serviço estão interessador na transação (outro exemplo típico é o tráfico de drogas), a prostituição é notoriamente complicada de combater, e gera toda uma estrutura de poder paralelo (já que não é possível contar com a lei para garantir segurança e contratos). Isso deixaria de fazer sentido e passaria a funcionar como qualquer outro mercado de prestação de serviços.

– Queda dos preços, juntamente com melhora da qualidade e disponibilidade dos serviços. Sem a necessidade de altas taxas de lucro para compensar o risco associado à ilegalidade, assim como com o aumento da concorrência devido à possibilidade de se oferecer e anunciar abertamente os serviços (se bem que em lugares como o Brasil isso já é uma realidade na prática), é natural esperar-se uma queda de preços dos serviços prestados, juntamente com um aumento da qualidade, sem necessariamente uma correspondente diminuição da remuneração, já que de fato o custo de oferecer o serviço diminuiria, além de que a demanda aumentaria.

– Controle de doença sexualmente transmissíveis. Talvez contra-intuitivamente, isso provavelmente resultaria em um controle muito melhor da propagação de doenças sexualmente transmissíveis. Enquanto as pessoas recorrerem a pessoas aleatórias, que desconhecem e que não querem conhecer, premidas primariamente pela necessidade de satisfazer seus impulsos sexuais em situações muitas vezes absolutamente insensatas, é claro que haverá uma taxa muito maior de transmissão de doenças sexualmente transmissíveis. Ironicamente, é muito mais fácil controlar e regular esse tipo de problema quando se trata de uma profissional do que num encontro aleatório. Em tempos modernos, nos quais testes clínicos são baratos e imediatos, é possível facilmente acompanhar o estado de saúde de uma profissional. Já o mesmo não pode ser dito de alguém encontrado aleatoriamente. Adicionalmente, uma profissional em geral terá muitíssimo maior conhecimento e determinação em detectar doenças e precaver-se de contaminação do que uma pessoa aleatória.

– Diminuição do número de estupros. Esta é auto-explicativa. Claro que em grande parte das vezes o estupro é um ato de poder e agressão, não primariamente sexual, etc, mas mesmo assim – existem sim pessoas por aí desesperadas e/ou revoltadas por causa de sexo e um acesso mais universal e menos estigmatizado a esse tipo de serviço mitigaria o problema. Além disso, uma profissional de sexo não é o mesmo que uma namorada; ela poderia no caso geral com muito mais competência (por conhecimento e por estar sendo paga) satisfazer / desarmar de forma controlada os impulsos que desviassem do trivial simples.

– Controle de natalidade. Estamos chegando em uma época em que a humanidade simplesmente não pode continuar se reproduzindo nas taxas que historicamente manteve. Porém, nossa necessidade biológica e psicológica de sexo não se alterou em nada devido a essa conjuntura. Por imbecil que possa soar, uma quantidade substancial das pessoas ainda têm filhos não porque queira ter uma família mas sim como conseqüência colateral da concretização de seus impulsos sexuais. Seria bastante conveniente que tais pessoas suprissem suas necessidades sexuais sem superpovoar o mundo. Nos casos em que tal desejo sexual poderia ser expresso por qualquer pessoa ao invés de por uma parceira específica, uma profissional provavelmente realizará um controle de natalidade muito superior a uma mulher aleatória.

– Casamentos mais estáveis e fortalecimento da família. Existem muitos homens que aceitam ingressar num casamento ou iniciar uma família como forma de garantir uma parceira sexual. Eles não estão necessariamente entusiamadíssimos de vontade de terem filhos com aquela mulher, ou de partilhar uma vida com ela, mas sentem uma necessidade insufocável de terem uma parceira sexual. Nesses casos, a melhor forma de resolver o assunto não é se casar e ter filhos, e sim ter uma parceira sexual. O homens que seriam chantageados a terem uma família como forma de terem acesso a sexo provavelmente estarão mais bem servidos por uma profissional. Por outro lado, as famílias que de fato se formarem provavelmente estarão mais fortemente fundamentadas em interesses comuns, inclusive sexuais. E um homem não precisará desesperar-se em casar com “alguém” (gerando um casamento provavelmente frustrado que terminará em divórcio) por falta de uma parceira sexual. Poderá esperar com muito mais calma por uma parceira com a qual realmente haja uma relação de complementação mútua.

– Homens mais felizes. Existe uma quantidade substancial de homens em nossa sociedade que têm que passar extensos períodos lidando com a (em muitos casos extrema) frustração de não terem atendidas suas instintivas, naturais e saudáveis necessidades sexuais. Sejam quais forem os motivos para essa situação, ela gera uma grande quantidade de infelicidade, que transborda também para a sociedade ao redor.

– Mulheres mais gentis. Nossa sociedade atual pulou de uma situação na qual as mulheres tinham pouca independência política, social e sexual para uma situação diametralmente oposta na qual (especialmente nos EUA) elas têm efetivamente uma quantidade de liberdade superior à dos homens. Por exemplo, se uma mulher chama um homem para sair e ele não está interessado, a resolução normal é ele dizer que não está interessado e a vida continuar normalmente. Já se um homem chama uma mulher para sair e ela não está interessada, por ser que ocorra o mesmo, mas também pode ser que ocorra qualquer coisa desde uma (injustificável, ridícula, hipócrita, neurótica) reação de indignação, uma (cruel) reação de escárnio até, dependendo do contexto, um processo por assédio sexual ou por stalking. Isso tudo tem a ver com uma reação exagerada a uma prévia situação de opressão, mas também com um desequilíbrio entre os comportamentos sexuais femininos e masculinos que ficou muito mais evidente após a “revolução” sexual das décadas de 60/70 após a qual as pessoas se sentiram muito mais livres para perseguir relacionamentos sexuais precedendo ou mesmo sem pensar em casamento. Em nossa sociedade atual, uma mulher normal que deseje sexo (não estou falando necessariamente de relacionamentos) precisa apenas andar até o clube da esquina e esperar. Ja um homem que deseje sexo passa por um processo infinitamente mais desgastante. Diante disso, grande parte dos homens está disposto a aceitar *muita* besteira de uma mulher que seja (ou mesmo que poderia ser) sua parceira sexual. Isso corrompe o caráter de grande parte das mulheres, que se sente numa situação de poder, e abusa desse poder ao invés de agir com dignidade e respeito. Essa atitude se tornaria insustentável num contexto em que o acesso ao sexo fosse trivial. Mulheres antipáticas e rudes seriam simplesmente ignoradas.

– Homens mais sinceros e afetivos. Uma reclamação razoavelmente comum que se ouve no meio feminino é de que “os homens só estão interessados em sexo”. Ora, se eles tiverem acesso simples, seguro e garantido à satisfação de seus impulsos sexuais instintivos, buscarão relacionamentos não profissionais com outras mulheres primordialmente por motivos mais afetivos, como companheirismo e amizade, não apenas para conseguir sexo, ao qual já têm acesso fácil. Isso me parece ser altamente benéfico para ambos os lados.

A novilíngua manda lembranças

Starbucks Job Sign

Aqui em Nova York – e nos Estados Unidos em geral – existe já há um bom tempo um movimento muito forte de tentar reconstruir as relações sociais através de manipulação do vocabulário. De repente, certas palavras se tornam proibidas, outras se tornam obrigatórias, e no processo algumas mudam artificialmente de significado. Eu cheguei a colocar aspas em “proibidas”, mas voltei atrás. São proibidas mesmo, do tipo se você as usar haverá conseqüências. Aliás, uma parte interessante do fenômeno é justamente essa : a obrigatoriedade de seguir certas normas vocabulares não escritas não é necessariamente – nem sequer usualmente – forçada pelo governo, mas pela sociedade, que pune exemplarmente os desviantes com perda de credibilidade, lucros, emprego, votos, e se isso não funciona às vezes até mesmo com violência direta.

Porém, além dos exemplos mais óbvios e politicamente importantes disso, existe paralelamente uma miríade de outras manifestações mais rasteiras que ocorrem em contextos cotidianos e que muitas vezes até mesmo passam despercebidas. Isso tudo é muito bem pensado e não ocorre por acaso. Há pessoas cuja profissão é especificamente conceber tais intervenções. A estratégia básica é a mesma de sempre : alterar o nome do fenômeno que incomoda para algo cuja acepção padrão seja positiva e/ou com significado oposto ao fenômeno em questão. Que isso seja retirado diretamente de George Orwell ou intrinsecamente mentiroso não parece incomodar muito os mentores intelectuais de tais disparates.

Enfim, estava eu outro dia no Starbucks quando vi o cartaz acima, e achei-o tão representativo disso tudo – e ao mesmo tempo tão surrealmente autocontraditório – que tive que fotografá-lo e fazer um comentário sobre o assunto. Essa besteirada sobre “Around here, everyone’s title is Partner” já seria em si mesma exemplo suficiente, mas isso é tão evidentemente falso e hipócrita que o próprio cartaz se encarrega de expô-la em sua última linha “Ask a manager how you can apply today”. Note que eles não dizem algo um pouco mais modesto / honesto / defensável como “Around here, everyone is a partner”, caso em que a tese (questionável, mas vá lá) seria de que o gerente, o vendedor, o sujeito que varre o chão e o dono seriam todos sócios da mesma empreitada, etc. Não, eles fazem questão de dizer que “Everyone’s TITLE is Partner”. Certo… então acho que vou pedir um emprego no Starbucks ao sujeito que varre o chão. Não, não, você tem que pedir ao gerente. Ué, mas não são todos “sócios”? Ah, sim, mas tem o “sócio” que gerencia, o que fica no caixa, o que varre o chão, entende? Apenas com salários diferentes, responsabilidades diferentes a atribuições diferentes. Ceeeerto. E se nós formos realmente LER o texto, outras ironias aparecem, como “eligible partners” (que eles não explicam quais são) e “who work at least 20 hours a week”. (Mas quem trabalha menos do que isso também é partner, entende? Só não tem direito a nada do que está listado aqui.) Enfim, tudo muito bonito, mas em bom inglês, phony. Transbordantemente falso. Evidentemente não sincero se você para 5 segundos para examinar a real dinâmica das relações de trabalho.

Será que isso não importa? Eu digo que importa e muito. As pessoas estão sendo bombardeadas com doublethink e em grandes quantidades já o introjetaram. Enquanto isso Winston Smith, em 1984, vive sua esquálida existência como cidadão de um país em guerra perpétua ocupando um deprimente apartamento de um cômodo localizado num complexo chamado – ta da – “Victory Mansions”.

Aproveito para fazer um comentário completamente aleatório : essa regra de inglês sobre colocação de ponto final em frases que terminam com aspas e que gera belezas como

Around here, everyone’s title is “Partner.”

não faz nenhum sentido.

Histeria e paranóia redux

Comecei a responder a um comentário que *apoiava* o “see something, say something” que citei em um artigo recente como manifestação moderna do mesmo tipo de fenômeno que gerou o “Duck and Cover” e aos poucos fui percebendo que se não é óbvio por que eu acho que isso é péssimo, então talvez o assunto mereça mais elaboração.

O comentário coloca, entre outras coisas, que não haveria um clima de histeria generalizado. Bem, é claro que a histeria sempre pode piorar. Olho pela janela e não vejo pessoas correndo em círculos aos berros. Os Estados Unidos ainda são um dos países com maior liberdade individual no mundo. Mas estão sim se tornando também um dos mais histéricos. Basta ligar a televisão e se vêem coleções de pessoas dispostas a proclamar – e multidões dispostas a acreditar – que praticamente qualquer coisa desde batatas fritas até videogames são uma ameaça mortal e urgente que vai destruir o país se não for histericamente combatida.

Para mim já chegou, sim, em um clima de histeria. Abundam histórias de pessoas sendo presas / despedidas / processadas / incomodadas por causa dessa maluquice. Como os dois sujeitos (americanos) que estavam tirando fotos de trens, daí alguém os viu e ligou para o “Terrorism Hotline” e em 5 minutos eles estavam tendo que discutir com sujeitos de terno preto e óculos escuros, que se comportam acima da lei e podem prender qualquer um por qualquer motivo. Foram forçados a apagar todas as fotos que tinham tirado e sair do local sem qualquer motivo razoável, e só mesmo porque seguiram todas as instruções não tiveram suas câmeras confiscadas nem foram levados para interrogatório. Ou por exemplo a adolescente que foi *expulsa* da escola meses antes de se formar porque o segurança viu – oooohhh – uma faca de cozinha dentro de uma caixa de papelão no banco de trás de seu carro estacionado no pátio da escola. Detalhe – a garota estava de mudança e também havia panelas, pratos, copos, etc em seu carro. Ou o caso do adolescente que foi PRESO (sim, preso) porque escreveu uma redação em sua aula de “creative writing” na qual descrevia um homicídio. Isso depois de os alunos terem sido instruídos a “não prejulgarem e simplesmente serem criativos”. O aluno não tinha qualquer problema psicológico ou social e era um dos melhores da turma. Ou então que tal a história do cara que trabalhava em uma agêcia governamental e estava conversando com um colega sobre o fato de que queria comprar um rifle para praticar tiro ao alvo mas estava preocupado em escolher um que fosse o menos perigoso possível para pessoas. Algum histérico de plantão que estava passando ouviu algo sobre “atirar em pessoas” e histericamente “denunciou” o que ouvira. O sujeito foi sumariamente demitido de seu emprego sem direito a qualquer explicação. Afinal de contas, better safe than sorry, né? Na verdade, naturalmente, quem o despediu não estava nem aí para a segurança de ninguém; muito mais provavelmente apenas não queria se colocar na posição de não fazer nada e depois ser acusado de alguma coisa. Mas não acaba aí. O sujeito descreveu a situação em sua página na internet e fez a seguinte piada ao narrar o diálogo que teve ao ser despedido : “This doesn’t make any sense! Firing me for talking about buying a rifle? It’s not like I have any reason to go postal. Wait, maybe now I do. :-)” Uma piada, certo? Mas uma das características mais marcantes dos regimes totalitários (ou das estruturas proto-totalitárias) é não ter qualquer senso de humor. (Sinto comichões de citar aqui “A Brincadeira” de Milan Kundera.) A polícia foi bater na casa do sujeito e revistou tudo. Poderia citar mais exemplos atrás de exemplos. Reais, concretos, presentes. Já está acontecendo.

Claro, é tudo em nome da “segurança”, mas quando não é? As intenções são sempre as mais lindas. Esse clima de paranóia é profundamente perverso e mina as bases da convivência civilizada, mesmo sem o governo na equação. Claro, não que se deva ignorar o fato de que, historicamente e psicologicamente, histeria e totalitarismo andam de mãos dadas. Guerra ao terrorismo, guerra às drogas, guerra ao fumo, guerra ao álcool, guerra à pornografia, guerra à prostituição, guerra a isso, guerra a aquilo… sim, os Estados Unidos já se encontram confortavelmente instalados no terreno da histeria.

Para piorar, a histeria é similar de ambos os lados do espectro político. Enquanto um neocon talvez resolva fazer guerra à maconha, um ecoleft talvez decida fazer guerra ao cigarro. Acabam muito parecidos. Não lhes ocorre simplesmente deixar as pessoas escolherem e (exceto em casos realmente extremos) chegarem ao que é socialmente aceitável através da convivência e não da mediação (leia-se imposição) do governo. Aliás, é irônica a freqüência com que a posição libertária tende a ser classificada – na verdade acusada descreve melhor – como sendo de direita pelas esquerdas e como de esquerda pelas direitas. Ambos parecem achar que o governo seja composto de santos e anjos que vão descer sobre nós e nos salvar dos bichos-papões (qual é o plural de bicho-papão?) da condição humana – doença, ignorância, maldade, insegurança, injustiça, etc. Isso é uma ilusão, e uma ilusão perigosa. Não chego ao ponto de achar que seja possível passar sem governo, mas existem limites além dos quais eu começo a preferir que o governo me deixe em paz e eu lido diretamente com os bandidos – em todas as suas manifestações literais ou metafóricas.

Beware of Nukes

Fallout Shelter Sign

Uma das coisas que notei ao vir para Nova York foi a existência de placas – todas elas com aparência de muito antigas – pregadas em prédios aparentemente aleatórios com a inscrição “Fallout Shelter”. Essa placas têm um significado tão rico que eu acabei concluindo que elas mereciam um artigo.

Tais placas são os vestígios físicos mais óbvios de uma época em que guerra nuclear total era um perigo muito concreto. Isso é algo cuja dimensão pode por vezes ser difícil de medir, mas com conseqüências muito fortes na história, na cultura e mais profundamente ainda na psique de quem passou por isso. As crianças eram ensinadas em escolas sobre o que fazer em caso de um ataque nuclear. Os cidadãos americanos foram encorajados, e muitos de fato seguiram o conselho, a construírem abrigos contra ataques nucleares sob suas casas, e a estocarem suprimentos para tal eventualidade.

Paralelamente à reflexão sobre esse clima de paranóia, existe aqui também uma observação a ser feita sobre a quase futilidade e falta de sentido das “providências” tomadas pelo governo para proteger a população em caso de guerra nuclear. Diante de uma ameaça contra a qual não há realmente defesa efetiva, se empregam reações de grande visibilidade e com efeito prático no mínimo questionável e mais provavelmente inexistente. Assim como hoje se combate o terrorismo confiscando pasta de dente em aeroportos, naquela época o governo instituiu campanhas como a infame “Duck and Cover“.

Outra “providência” foi a criação do “sistema” de Fallout Shelters, indicados por placas como a retratada no começo do artigo, para os quais as pessoas deveriam se dirigir em caso de ataque nuclear. Deveriam funcionar como abrigos contra a intensa radiação gama produzida por partículas de poeira contendo elementos instáveis que são produzidas numa explosão atômica. As placas ainda existem, e possivelmente (não sei ao certo) até hoje ainda tenham valor oficial no papel.

O sistema todo, até onde eu sei avaliar, é na prática uma ficção absoluta. Hoje com certeza é, mas suspeito que sempre foi. Morei por pouco mais de um ano em um prédio que continha um desses “abrigos” em seu porão. A porta (teoricamente blindada) não existia mais, e havia janelas quebradas dando diretamente para o pátio interno. Mesmo quando novo, há 50 anos atrás, o local era claramente inadequado, não proveria proteção suficiente, e evidentemente não era grande o suficiente sequer para conter os habitantes do prédio em que se localizava. Provavelmente eu estaria mais protegido me escondendo embaixo da cama.

A onipresença dessas placas em Nova York, mesmo 50 anos depois, nos remete ao duplo propósito que cumpriam de assustar e confortar os habitantes da cidade. São ao mesmo tempo problema e solução; estão dizendo “AAAAH CUIDADO BOMBAS ATÔMICAS PODEM CAIR NA SUA CABEÇA A QUALQUER MOMENTO” mas imediatamente emendando “…MAS NÃO SE PREOCUPE O GOVERNO ESTÁ CUIDANDO DE VOCÊ”.

O pior é que o tempo passa e só muda o tema. Hoje em dia, entramos no metrô e periodicamente o condutor nos avisa pelo alto-falante : “Atenção! Se você notar a existência de qualquer atividade suspeita, não fique calado! Procure um policial ou um funcionário do metrô e relate o que viu!”. A mesma mensagem está presente em cartazes, panfletos, avisos em painéis luminosos e até mesma impressa nos bilhetes de metrô. Vejam por si mesmos :

MetroCard - Back

Um bilhete de metrô como esse é ou não é tirado diretamente de Orwell? Isso é lavagem cerebral da mais escancarada. O benefício em termos de segurança pública atingido com esse tipo de anúncio ser bombardeado continuamente sobre todos é provavelmente zero absoluto. Mas o fato é que é esse não é, nunca foi, não poderia ser o propósito. Mais uma vez, como as quase esquecidas placas indicando abrigos em caso de guerra nuclear, trata-se de uma mistura de incentivo à paranóia com uma garantia vazia de que “estamos cuidando de você”.

Os indivíduos

Estou escrevendo este texto para chamar atenção a um fato que aparentemente tem passado despercebido para uma parte dos leitores: o Pedro não sou eu e eu não sou o Pedro. (Aliás, adicionalmente, nenhum dos dois é o Álvaro, embora essa confusão não esteja acontecendo recentemente.)

Para quem chegou agora, ou no último ano ou dois, este jornal, tornado website, tornado weblog, que em breve completa uma década de existência, foi fundado por nós três e mais um quarto cidadão que contribuiu somente para a nossa edição inaugural para logo em seguida afastar-se. Passamos por diferentes apresentações, ênfases e fases, mas em espírito sempre continuamos uma trindade: Pedro, Sergio e Álvaro.

Inicialmente, nossa presença na internet foi estabelecida e gerenciada por mim mesmo, numa época em que o acesso à rede não era nem de longe tão disseminado. Trabalhávamos basicamente juntos e num formato ainda em processo de amadurecimento. Após algum tempo nesse papel, passei a tocha para o Álvaro, o qual administrou o site com notável constância e dedicação durante anos, estabelecendo um formato padronizado e tornando-se também o principal autor à época. Seguindo-se a essa era, e ao término de um hiato no qual o número de atualizações se reduzira bastante, Pedro acho por bem chamar para si a tarefa de revitalizar O Indivíduo, e promoveu uma grande revolução em seu formato, conteúdo e dinâmica. Passou ele então a ser o principal e constante autor, e como tal foi progressivamente inclinando-se para o assunto de literatura e poesia. Em todas as fases os três (e em alguns momentos até mesmo outros, a convite) contribuíram, mesmo que por vezes esporadicamente. A tendência, contudo, foi a de repetidamente haver um autor marcadamente mais prolífico que os outros dois.

Os leitores mais recentes do site, portanto, vêm acompanhando há um bom tempo uma seqüência composta quase que exclusivamente de artigos do Pedro, e naturalmente passaram a associar o site unicamente à pessoa do Pedro – no que estão em excelentes mãos, diga-se de passagem. Porém, uma das características mais fundamentais de O Indivíduo, verdadeiramente o motivo que nos levou a escolher esse nome e tomar as initiativas que tomamos, sempre foi justamente apresentar visões discordantes da unanimidade, idéias divergentes com o poder de fazer pensar, mas principal e fundamentalmente idéias individuais, isto é, sem o compromisso implícito ou explícito de se conformarem a qualquer linha editorial, ideologia, partido político ou sistema institucionalizado de valores. Idéias que expressassem o pensamento original de seus autores, dirigidas não a uma classe, grupo, ou coletividade, mas diretamente a outras pessoas pensantes.

Assim sendo, é natural que os artigos escritos por mim contrastem com os escritos pelo Pedro. Na verdade é não só natural como central a sermos pessoas diferentes, com identidades próprias e personalidades distintas. Reclamações ou indignação sobre o fato de que o que um diz se contrapõe ao que o outro diz ignoram por sua própria conta o fato de que evitar isso nunca foi um objetivo.

Entre vários exemplos que eu poderia dar, Pedro é convictamente católico, eu sou convictamente ateu. Não existe qualquer tentativa de conciliar as duas visões. A síntese deverá ser feita na mente dos leitores, de acordo com seus critérios.

Outro exemplo de assunto sobre o qual discordamos é com relação a qual política seguir quanto a comentários aos artigos postados no site. O Pedro é favorável a não publicar comentários, ponto final. Já eu acredito em permitir comentários, mas moderá-los substancialmente. Novamente, cada um segue sua política em seus próprios artigos, e dessa forma nenhuma unanimidade artificial é imposta, criada ou desejada. Ao contrário, a dissonância entre estilos é conseqüência natural do que se aqui pretende.

Random People Playing In The New York Subway

Esta cena aqui foi gravada na estação que fica no Herald Square. Eu achei que estava na hora de mostrar que apesar de haver todos os tipos de estilo e nacionalidade representadas nos músicos do metrô, isso não significa que os próprios americanos não estejam bem representados. Temos aqui uma banda típica de rock/pop com vocal, bateria, guitarra e baixo, despejando um tipo de som tão gostoso que é quase como água no deserto para quem curte a cultura tipicamente americana. Então a gente entra no metrô e de repente lá estão eles.

E note, isso não é resultado de campanhas, subsídios, bolsas ou qualquer outro processo institucionalizado para “incentivar” a produção cultural. Isso são pessoas que por iniciativa própria, em sendo deixadas livres e em paz, perseguiram esse caminho. Muitas delas, por terem talento e vocação muito intensos, simplesmente não podem deixar de criar. Outras acham que é um estilo de vida que combina com suas personalidades. Outras simplesmente pegam um violão e ficam batendo o mesmo acorde sem parar infinitamente na expectativa de que seja uma forma fácil de levantar uma grana. (Infelizmente não gravei essa.)

Mas em todos os casos existe uma coisa muito forte de *iniciativa*, de a pessoa estar lá porque quis e escolheu, sem ninguém ter dito a ela o que fazer. Apesar de tudo, ainda é uma nação de pessoas autônomas, que *não* tem como ideal máximo de realização profissional passar num concurso para trabalhar para o governo. Quem não quer ser músico no metrô quer em geral realizar algum outro tipo de vocação ou projeto de vida, mas de fato existem tais projetos e a maior parte das pessoas está engajada em realizá-lo, para o que der e vier, pagando o preço das conseqüências de suas escolhas. Não vejo os músicos do metrô choramingando que querem um “incentivo do governo” para preservarem suas iniciativas culturais. Isso nem sequer passa pela cabeça deles. Tudo o que eles querem é serem deixados em paz para se expressarem, divulgarem seu trabalho, e pedirem contribuições diretamente de quem estiver apreciando o que produzem. Claro que para isso eles têm que produzir algo que alguém de fato goste, ao invés de gastarem seu tempo fazendo lobby, preenchendo formulários ou satisfazendo critérios burocráticos.