Pensando a brochada cósmica

O texto de Pedro dá nomes a alguns fenômenos que observamos com cada vez mais freqüência e intensidade, e que giram em grande parte em torno de um culto à mediocridade, ao cinismo, à completa banalização e desprezo de qualquer aspiração de transcendência. Note que quando aqui digo transcendência estou falando no sentido mais amplo possível, de superação, de ver mais longe, de fazer melhor, de compreender mais perfeitamente, de não se contentar com o que é fácil, simples, óbvio ou cômodo.

Trata-se de algo tão onipresente que por vezes fica até difícil de enxergar claramente, mas há modernamente uma pressão social fortíssima para que não se busque fazer nada com excelência. Se alguém demonstra qualquer inclinação nesse sentido, imediatamente começa a receber reações cujo subtexto vai desde escárnio condescendente nos casos mais brandos até “quem você pensa que é” quando a intenção é realmente séria.

Existem muito motivos para isso e o processo é complexo, mas uma boa parte vem de um acordo tácito em investir na profecia auto-realizante da falta de sentido. Em outras palavras, vamos todos combinar sermos uns merdas que desde que não haja contra-exemplo podermos nos confortar no pensamento que não existe realmente nada melhor do que isso. Por isso quem tenta fazer melhor incomoda – vai que o sujeito consegue e então a desculpa da inutilidade de sequer tentar torna-se menos admissível. Por isso as pessoas aplaudem no final do filme quando se discursa sobre os méritos de desistir; porque a opção seria o sujeito que desiste ser na verdade um otário e nesse caso temos que escolher entre sermos também otários ou realizar um grande esforço de autosuperação.

Interpretando expressões comuns 2

Não há como resistir a tentação de dar minha contribuição à lista iniciada por Pedro…

Você é pretensioso. – Você ousa achar que sabe algo que eu não sei, e isso é um absurdo.

Vamos decidir democraticamente. – Que tal se a gente parar de discutir idéias e ao invés disso fizer um concurso de popularidade?

Precisamos melhorar a educação no Brasil. – Precisamos emitir mais diplomas para mais pessoas.

Precisamos proteger o grupo XXX de discriminação. – Precisamos criar a ilusão de que quem não der dinheiro para mim odeia o grupo XXX.

Precisamos regulamentar a profissão XXX. – Precisamos entravar ao máximo possível o acesso à profissão XXX para aumentar os privilégios de quem tiver autorização para exercê-la.

Se eu deixar você fazer isso vou ter que deixar todo mundo. – Não existe nenhum motivo coerente para esta regra existir mas eu gosto dela.

Sua opinião também é válida. – Vou ignorar completamente a sua opinião.

Essas são as tendências mais modernas nos EUA e na Europa. – Eu li na revista Veja que uma vez em 1976 alguém tentou isso no Canadá.

Todo mundo sabe que XXX. – Eu não faço a menor idéia de por que estou defendendo que XXX seja verdade.

E, last but not least:

Há que se endurecer sem perder a ternura. – Há que se perder a ternura mas sem admitir abertamente.

Mahmoud Ahmadinejad em Columbia

Mahmoud Ahmadinejad em Columbia - Daily News

A polêmica desta semana aqui em Nova York é sucintamente resumida nesta manchete de página inteira. O presidente do Irã foi convidado a falar nesta segunda-feira que vem num evento promovido pela Universidade de Columbia em Nova York. Um número não pequeno de americanos está furioso com isso. Eu pessoalmente tenho um monte de opiniões sobre esse assunto, mas para não influenciar os leitores, vou deixá-las em suspense por enquanto… 🙂 Entre as confusões diplomáticas que envolvem essa visita, ele queria ir ao Ground Zero e fazer um discurso condenando o ataque de 9/11 e homenageando as vítimas, mas a cidade de Nova York respondeu oficialmente algo como “no f***ing way”.

By the way, diretamente do site de Columbia :

“Due to security restrictions, only those on the registration list will be able to gain admission to this event. There will be no waitlist for registration or standby line, and no walk-in guests will be permitted on the day of the event.”

Infelizmente não estou na tal “registration list”. 🙂

Pessoas aleatórias tocando no metrô de Nova York

E aqui está ainda mais uma outra manifestação musical radicalmente diferente das duas anteriores. Infelizmente só peguei o final, mas o par idêntico era imperdível…

Aqui em Nova York cultura realmente é uma coisa que se respira no ar, não apenas se ensina na escola ou se vê nos livros. Existe uma grande concentração de pessoas que tocam instrumentos, escrevem, compõem, fazem números cômicos de improviso, lêem papers científicos, atuam em teatro, pintam, dançam, etc, etc, etc. Em todas as boas universidades que visitei existe um (por vezes vários) pianos de cauda espalhados pelo campus, disponíveis para quem quiser sentar e tocar. No campus principal de Columbia, por exemplo, sem qualquer conexão direta com a escola de música, sei da localização de pelo menos três – um deles numa das salas de leitura do departamento de filosofia – o qual aliás, ocupa um prédio inteiro. Na sala de estar do departamento de matemática da NYU também há um. E os alunos – de matemática! – de fato sentam e tocam. Entra-se lá e tem alguém tocando Chopin, por exemplo. Na PUC do Rio, teoricamente um dos diamantes na coroa do mundo acadêmico brasileiro, cadê? Onde está a valorização espontânea da alta cultura fora da sala de aula e dos relatórios à Capes? Ah, sim, deve estar nos sujeitos que ficam tocando berimbau nos pilotis.

Aliás, ironicamente, isso *não* falta aqui. A coisa mais fácil do mundo é achar uma academia que ensine capoeira em Nova York. Difícil é achar no Brasil alguém tocando Chopin no intervalo entre as aulas.

Pessoas aleatórias tocando no metrô de Nova York

Este vídeo aqui infelizmente está com uma qualidade de som bastante prejudicada pelo ruído de pessoas conversando e trens passando. Mas também, o que esperar de algo que foi gravado quase na entrada de uma das estações de metrô mais movimentadas do mundo? Diversas plataformas em diferentes profundidades permitem acesso a túneis de diferentes linhas. Acima disso tudo, na superfície, fica o Times Square.

Mesmo com todo esse barulho, achei que valia a pena exibir o vídeo. Contraste-se o que esses sujeitos estão tentando fazer com algo menos ambicioso como, por exemplo, ficar batucando num balde.

Em seguida, observe-se o fato de que essa performance está tendo um sucesso financeiro (e de público) infinitamente superior a batucar num balde.

Tirem-se as apropriadas conclusões socio-político-econômico-antropológicas.

O papel dos blogs no debate público

Complementando este texto de Pedro, gostaria de fazer um comentário sobre o papel dos blogs no mítico “debate público”.

Os blogs são um formato de comunicação que permite que seres humanos individuais expressem publicamente praticamente qualquer elocubração que suas mentes conceberem. Podem ser usados para compartilhar opiniões, disseminar informações, propagar fofocas ou denúncias, publicar fotos de mulheres atraentes, contar piadas, simplesmente falar besteira ou mais uma coleção infinita de possibilidades.

A parte revolucionária disso vem, a meu ver, basicamente de dois fatores.

Em primeiro lugar, virtualmente qualquer pessoa, independentemente de recursos financeiros, posição social, localização geográfica, títulos acadêmicos, aptidão física, profissão, raça, idade, religião, enfim, qualquer um – pode iniciar um blog e o mundo inteiro terá acesso a seus, digamos, pensamentos. Não só terá acesso como acesso permanente, prático e instantâneo. Eu clico em “publicar” e um sujeito no interior do Japão pode imediatamente ler o que escrevi. Isso é uma diferença gigantesca com relação a como as coisas funcionavam até não muito tempo atrás.

O segundo fator é que pelo menos em grande parte de nossa sociedade ocidental, a liberdade para expressar opiniões em blogs é praticamente ilimitada. Isso não é verdade em todo o mundo (experimente criticar o governo em seu blog na China), nem sobre qualquer assunto (experimente postar fotos de crianças nuas ou, em praticamente qualquer país que não os EUA, dizer que Hitler era maneiríssimo), mas de forma geral existe uma liberdade infinitamente maior do que jamais existiu no passado. É uma tênue esperança de liberação da máxima atribuída a Goebbels – “He who controls the medium controls the message. He who controls the message controls the masses”.

A mídia organizada, cara e onipresente ainda tem em grande parte o monopólio das ferramentas de lavagem cerebral, em grande parte porque uma das táticas mais efetivas de lavagem cerebral é justamente todo mundo receber a mesma mensagem – seja ela qual for – ao mesmo tempo. Mas ela não tem mais o monopólio da informação. Qualquer um com iniciativa consegue rapidamente encontrar análises, desconstruções, desmentidos e críticas ao que é veiculado na grande mídia. Mais do que isso, freqüentemente consegue acesso a fotos, vídeos, documentos, testemunhos e até mesmo contato direito com as fontes originais das informações, de forma que fica muito mais bem equipado para formar uma opinião independente. Uma grande parte desse trabalho é realizado por blogs. Os quais, em toda a sua multiplicidade, naturalmente levam o indivíduo ao pensamento crítico com muito mais probabilidade do que qualquer fonte oficial e homogeneizada de informação.

Dessa forma o estrondoso (possivelmente inevitável) fracasso da grande mídia em promover qualquer real “debate público” do que quer que seja é tornado progressivamente irrelevante diante do debate público que caoticamente ocorre nas interações diretas entre indivíduos através da internet. Não necessariamente isso ocorre através de um diálogo organizado, mas sim principalmente através de uma rede de influências cruzadas entre pessoas que pensam independentemente mas que se lêem umas às outras. É como um debate escolástico assíncrono, descentralizado e espontâneo. Cabe a cada um julgar por si a qualificação e a honestidade moral das opiniões que levará em conta.