A pós-verdade de uma anedota

Antigamente, no Brasil, além da possibilidade de uma pessoa escravizada tornar-se livre, havia a possibilidade de uma pessoa negra tornar-se branca. Juro. Bastava que um simples alvará, devidamente lavrado em cartório, assim o declarasse. Quanto a isso, Henri Koster, um aventureiro inglês que viajou pelos sertões nos idos de 1810, deixou-nos o seguinte testemunho:

Um mulato entra para as ordens religiosas ou é nomeado para a magistratura desde que seus papéis digam que ele é branco, embora seu todo demonstre plenamente o contrário. Conversando numa ocasião com um homem de cor que estava ao meu serviço, perguntei-lhe se certo capitão-mor era mulato. Respondeu-me: “Era, porém já não é!” E como lhe pedisse eu uma explicação, concluiu: “Pois, senhor, um capitão-mor pode ser mulato?

O tom anedótico desse relato encontra respaldo num documento que, por acaso, eu achei no arquivo público estadual, mais precisamente no livro de ofícios das prefeituras e comarcas da província de Pernambuco na década de 1830. Nele, consta uma carta do Sr. Zeferino dos Anjos, prefeito e major de uma tal Aldeia Velha, que, remetendo-se ao Ouvidor de Olinda, faz queixa contra outros oficiais, gente de sua parentela, que o desacatam com a alcunha de “major nego Zefo”.

São dois testemunhos de como os documentos podiam e deviam sobrepor-se à realidade objetiva – ou, kantianamente falando, à percepção dos fenômenos. Ora, em tempos de pós-verdade, urge perguntar qual a melhor narrativa para tais ocorrências? Minha dúvida é honesta: seria o caso de reconhecer que a sociedade escravocrata não fora assim tão segregadora e daí, tal como Gilberto Freyre, deduzir indícios de uma democracia racial, atuando através de um frouxo sistema de cotas? Ou, ao invés disso, dizer que seriam casos exemplares de como as pessoas socialmente vulneráveis precisavam compactuar com política racistas?

Antes, porém, de aderir a qualquer dessas narrativas, talvez fosse bom confrontá-las com o entendimento atual de que o conceito de raça não se sustenta cientificamente. Diz-se que raça, tal como gênero, é só um critério de discriminação política, uma invenção, um construto social. E do ponto de vista antropológico, sociológico, quiçá fenomenológico, o que vale mesmo é a “autodeclaração”. Aqui seria oportuno lembrar que há pouco tempo um rapaz branco de olhos verdes foi aprovado na primeira fase do concurso do Itamaraty declarando-se cotista negro. Parece que houve objeções, que impetraram recursos, mas algum tribunal acatou o entendimento antropológico-sociológico-fenomenológico de que a autodeclaração documental sobrepõe-se à aparência, admitindo o sentimento de “negritude” e, consequentemente, a validade da candidatura.

Assumindo então esta perspectiva, deveríamos considerar que a alcunha de major nego Zefo não contradizia de fato a aparência do queixoso sertanejo, mas sim um presumível sentimento de “branquitude”? Ah, mas que absurdo! – protestará alguém – as circunstâncias históricas eram absolutamente distintas!… Sem dúvidas, mas nos dois casos a percepção de um arrivismo oportunista permanece. Tanto que alguns movimentos de luta pela igualdade dos direitos raciais reivindicaram do Ministério do Planejamento a criação de uma “banca para aferição da autodeclaração”. E o critério aferidor de tal banca se apoiaria no argumento de que não se deve conceder direito à cota pela presunção de um genótipo, mas unicamente pela evidência do fenótipo.

Noutros termos, de nada adiantaria apresentar fotos de avós ou bisavós negros: sendo branco, você não sofre discriminação e, portanto, não pode ser cotista! Esse critério, por si só discriminatório, além de não fazer concessões aos brancos pobres, seria igualmente intransigente com os fenótipos postiços – ou seja, de nada serviria encaracolar os cabelos e realçar artificialmente a melanina. Não sei se tal banca funcionou, funciona ou funcionará, só sei que fiquei com a impressão de que os escravocratas do século XIX, talvez, fossem mais brandos do que os burocratas modernos. Naquela época, pelo menos, as “ações afirmativas” (me vem à mente, agora, certo estudo de Thomas Sowell) comprometiam menos a mobilidade social.

Mas eis que novamente as dúvidas se atropelam: como o fenótipo pode ser tão decisivo se o conceito de raça é cientificamente nulo? E esse conceito de fenótipo postiço não poderia desacreditar o discurso da militância trans?… Aliás, se a autodeclaração é bastante para garantir às pessoas trans um “nome social”, por que não o seria para surtir uma “cor social”?… Acudam! O entrechoque das narrativas me faz divagar. Desconfio que, para além dessa barafunda de ditos e contraditos, pretende-se tão somente legitimar uma cota de rancor? Será?!… E se imaginássemos o Henry Koster, redivivo, compondo uma banca para aferir a autodeclaração de casos como aquele do Itamaraty…“Conversando numa ocasião com um homem que estava ao meu lado na banca, perguntei-lhe se certo diplomata cotista era branco. Respondeu-me: ‘Era, porém já não é!’ E como lhe pedisse eu uma explicação, concluiu: ‘Pois senhor, um cotista pode ser branco?…

Tá bom, parei. Em tempos de pós-verdades, parece que até as narrativas anedóticas perderam a graça.

Ode ao escândalo

Foi Heidegger quem disse que a poesia não é propriamente um modo mais elevado da fala cotidiana. Ao contrário, é a fala cotidiana que consiste num poema esquecido e desgastado, que quase não mais ressoa. Talvez, precipitadamente, alguém deduzirá daí uma exprobração à poesia moderna que, no mais das vezes, parece recortes de prosa arranjados em versos irregulares. Antes fosse! – diz o filósofo – Mesmo a prosa, num sentido puro, nunca é prosaica. A prosa é tão poética e, por isso, tão rara quanto a poesia. Em ambas, o fenômeno estético ocorre quando os recursos expressivos fazem ressoar uma realidade que, até então, não atingira explicitamente nossos sentidos ou nossa consciência, surtindo uma comunicação brusca, fulminante. Foi o que se deu comigo no dia 28 de abril, durante aquela greve superestimada, dita geral.

Após duas horas contemplando uma muralha de fogo, que escassos militantes avivavam com pneus, interditando a única rodovia de acesso para o hospital onde pretendia chegar, eu tentei me distrair dizendo poesia. Embora não seja do meu feitio matar o tempo com poemas (infelizmente, faltam-me refinamento e memória), naquela hora, sem livro, rádio ou wifi, deu-me na veneta dizer um verso que se adequasse à ocasião. Comecei então arriscando algo de Dante: – Nel mezzo del cammin di nostra vita… mas esqueci do resto e empaquei nessa reticência. Quis insistir, porém, não sei se por distração ou cansaço, acabei resvalando para Drummond: – No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / tinha uma pedra… A cada rebote desse ioiô poético eu me perguntava se os versos eram irritantes porque pegajosos, ou pegajosos porque irritantes: – Nunca me esquecerei desse acontecimento / na vida de minhas retinas tão fatigadas / Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho

Foi então que ocorreu o fenômeno estético descrito por Heidegger. Uma mulher, que há horas buzinava infatigavelmente, desceu do carro gritando: – Minha gente, ali não há mais de trinta pessoas, enquanto nós somos três filas quilométricas de veículos. Vamos furar a porra desse bloqueio!… Prontamente uma grevista avançou empunhando uma bandeira da CUT e cravou-a no chão, rente aos pés da mulher. O gesto ameaçador fez-me lembrar de Gandalf desafiando Balrog: – You shall not pass!… Mas o que ouvi foi: – Fascistas não passarão! Fascistas não passarão!… E logo os demais militantes aderiram em coro: – Fascistas não passarão, etc., etc. A mulher ficou branca de raiva e, ondeando a cabeça que nem uma cobra, gritou num tom mais alto, quase esganiçado: – Fascista é o caralho! Eu quero ir à praia!… E deu um empurrão na grevista.

Eis que o escândalo se fez! Sem nunca terem se visto, sem sequer saberem seus respectivos nomes, as mulheres engalfinharam-se movidas por um sentimento tão súbito quanto vago, que surgira do nada, concentrara-se num obstáculo banal, e acabaria em coisa nenhuma – precisamente como os versos de Drummond. A estrutura do poema era a própria estrutura do conflito. E eu, que ainda o recitava, num murmúrio hipnótico, percebi que sua aparente lenga-lenga, que pouco ou nada dizia, era, por isso mesmo, a ode mais eloquente, mais expressiva para a gratuidade dos escândalos que um obstáculo pode suscitar.

Com efeito, imaginei esses versos sendo ditos por Laio ou Édipo na hora fatal em que, desconhecendo-se, disputaram a precedência da passagem numa estrada. Ou pelo anônimo homem do subsolo quando sofreu a trombada humilhante de um transeunte casual. Ou também por Daniel Hauptmann quando, numa soturna avenida de Curitiba, esbarrou em Satanás. Tal como os personagens de Sófocles, Dostoiévski e Diogo Rosas G., tal como o eu-lírico de Drummond, aquelas duas mulheres não precisaram de discursos ou motivos profundos. Bastou-lhes apenas que no mesmo caminho “tivessem” uma à outra, obstando-se. Um acontecimento escandaloso que, mesmo não tendo chegado ao extremo de um homicídio, de uma mágoa obsedante ou de um pacto demoníaco, tornar-se-ia inesquecível na vida de suas retinas tão fatigadas.

X-Trans, porque somos muitos

Seu nome atual é Eva Tiamat Baphomet Medusa. Mas é também a lista das mutações às quais foi submetendo o próprio corpo no desejo de conformar uma identidade hesitante, que primeiro pretendeu-se mulher, depois dragão, depois demônio, e acabou num híbrido monstruoso de tudo isso. Tendo renunciado à condição humana para abraçar “sua mais natural autoconsciência como uma besta mítica” – tal como declara em seu blog – essa “x-trans”, outrora um bancário do Arizona que acudia ao nome de Richard Hernandez, tenta agora romper os limites binários do “gênero” para se realizar numa categoria mais abrangente, que seria a de uma “espécie”.

Aos 55 anos de idade, trinta dos quais vividos como Richard, vinte e um como Eva, e nos últimos quatro – desde que amputou as orelhas e o nariz, tingiu as escleras de verde, bifurcou a língua, tatuou-se de escamas e implantou protuberâncias sob a pele, configurando uma senhora reptiliana – diz ter evoluído de transgênero para trans-espécie, termo que designa uma prática radical de modificação corporal. Aparentemente, há coerência nessa afirmação, pois nem todo praticante de modificação corporal é um transgênero, muito embora todo transgênero seja um praticante de modificação corporal (assim como o são as beldades produzidas à custa de silicone, botox e lipoaspiração). Trata-se, portanto, de uma autopercepção que ultrapassa a sexualidade e envolve um espectro mais amplo de referências, no qual as noções de identidade e alteridade tendem, por vezes, a sucumbir numa confusão monstruosa – reavivando o antiquíssimo fenômeno de indiferenciação que, de Ovídio a Kafka, é representado como uma aflitiva metamorfose.

Todos os escritores que se detiveram nesse tema, independente do contexto, testemunham o mesmo imperativo pertinaz de se forjar uma singularidade, quer seja voluntária ou compulsória, capaz de ressignificar as relações interdividuais num vácuo de indistinção coletiva. Mas é uma singularidade que só funciona como adesão a uma esfera mítica, imantada por uma poderosa carga emocional, da qual se espera o reencontro com algo ou alguém em sua imediaticidade modelar – ou, como diz Girard, algo ou alguém suscetível de resgatar uma transcendência nas mediações.

Reparem que as metamorfoses de Ovídio e Kafka têm em comum a mesma fatalidade extraordinária com a qual seus personagens são vitimados, isolando-os numa anormalidade trans-cendente, desde a qual se faz possível um consenso identitário. Neste sentido, quando os xamãs se travestem de peles e chifres, de penas e garras, numa reconfiguração totêmica dessas entidades anormais, eles estão, precisamente, atualizando esse “significante transcendental”, que se desumaniza para restabelecer uma noção da própria humanidade.

Os monstros de todas as mitologias teriam, portanto, esse encargo de diferenciação gregária. Jorge Luis Borges, no bestiário intitulado Livro dos Seres Imaginários, cita como exemplo um monstro germânico cujo nome, Baldanders, significa “já diferente” ou “já outro”. Enquanto Tolkien, no ensaio intitulado Beowulf: the monsters and the critics, repreende os literatos de sua época por não perceberem que os monstros, Grendel e sua mãe (descendentes de Caim!), não são an inexplicable blunder of taste; they are essential, fundamentally allied to the underlying ideas of the poem, which give it its lofty tone and high seriousness. Para Tolkien, esse poema evidencia o quanto o antagonismo dos monstros lhes confere um prestígio às avessas, que sempre restou despercebido nas narrativas míticas precedentes, mas que, em razão da perspectiva cristianizada de seu autor, adquire ali conotação oposta.

Considerando então esse prestígio às avessas do “já diferente” ou “já outro”, impõe-se a hipótese de que personificar, ou melhor, despersonificar-se numa criatura monstruosa equivale a se retirar do círculo das imitações possíveis, ou seja, inviabilizar, drasticamente, toda forma de mediação, tornando-se o extremo de qualquer coisa. Mas, como ensina Girard, todo ato extremado tende a sabotar a plenitude do modelo, convertendo-o em obstáculo absoluto – no qual cada deformidade cultivada interdita e repele as atenções que até então pretendia concentrar. E o que são essas deformidades senão o conjunto de distintivos, abortados e sobrepostos, onde as individualidades irresolutas tentam se fixar sem jamais obter uma síntese unificadora.

Eva Tiamat Baphomet Medusa, numa entrevista para o canal FOX10 de Phoenix, faz um relato de sua trajetória que parece confirmar tal hipótese. Evocando lembranças de uma juventude difícil (escusas de todos aqueles que se tornam rancorosos depois de terem sido só infelizes), conta do inconformismo precoce com o próprio corpo, que lhe parecia um dado a mais na mais banal das estatísticas. Conta ainda como, na puberdade, o desejo de ser mulher despontou juntamente como o fascínio por répteis, especialmente por cobras (sem nenhuma conotação fálica, faz questão de ressaltar); e, não obstante, tocou a vida como um rapaz, teve um filho (que hoje se mantém distante); até que aos trinta anos, depois de muitas tatuagens e piercings, decidiu apagar o Richard na crossdresser Eva. Decorreram outros vinte anos de progressivas modificações, que, todavia, permaneciam aquém de uma imagem sempre inapreensível. Foi quando, já no limite do desespero, após contrair o HIV e tentar suicídio, aderiu ao satanismo, deixando-se encantar pelo Baphomet. Naquele demônio hermafrodita, ou melhor, naquele compósito de gente, cão, burro, bode, serpente e ave, supunha ter achado enfim um modelo que parecia o ponto convergente para todas as suas imitações malogradas.

O problema é que uma entidade tão marvel, tão freak, como o Baphomet, apenas exterioriza a impossibilidade daquilo que pretende realizar. É o que diz Girard em Shakespeare – Teatro da Inveja (p.129):

Entidades que começam a fundir-se jamais se combinarão verdadeiramente; o resultado é uma maçaroca de pedaços emprestados dos seres que a compõem. Se surge uma ilusão de unidade, ela incluirá fragmentos dos contrários mencionados arranjados num caótico mosaico. Em vez de um deus e um cão encarando-se um ao outro como duas especificidades irredutíveis, haverá misturas e combinações mutantes, um deus com características de bicho, ou um bicho que parece um deus.

Para Girard, essas figuras desconcertantes são os emblemas mais expressivos da própria indiferenciação, que só pode projetar-se como uma “uniformidade conflituosa” e, portanto, irrealizável. Como, aliás, não menos irrealizável é a uniformidade do “X” com qual o se pretende neutralizar os pronomes pessoais e abolir o “sexismo” de artigos e substantivos. Tudo isso seriam sintomas da mesma indiferenciação que subjaz à impostura transcendente que os transformistas arcaicos conseguiam instrumentalizar como um princípio de ordenamento. Mas agora, desprovida de suas máscaras e ritos, esvaziada de sua sacralidade, encontra sobrevida em formas residuais, sem qualquer proveito de ordem grupal, que não o de uma mera evasão. Com efeito, em cada cosplay, em cada human-pups, em cada adicto de implantes ou mutilações desfigurantes, é possível vislumbrar essa indefinição da alma, onde pulsões reativas e compensatórias irrompem como répteis ou felinos assombrosos, símios provocantes, que crescem, encolhem, revoluteiam, no esforço de firmar-se numa individualidade que jamais é satisfatória ou definitiva.

Quando quer consolar-se dessa recorrente insatisfação, Eva Tiamat Baphomet Medusa diz, em seu blog, que costuma cantar Born this Way de Lady Gaga, ou Desperate Cry do Sepultura; ou ainda ler textos satanistas para convencer-se de que sua metamorfose comporta os mesmos adiamentos decepcionantes da metanoia cristã.

Não deixa de ser uma comparação cabível, visto que as dinâmicas miméticas de ambas as operações têm na vaidade a causa genérica para toda e qualquer decepção. Na metanoia há um modelo definido, cuja transcendência se realiza como participação em nossa humanidade, fazendo de sua “imagem e semelhança” a centralidade daquilo que singulariza cada pessoa. Trata-se, portanto, de uma dinâmica mimética retrospectiva, que implica num retorno à condição original – uma conversão. Mas é essa centralidade comum e gratuita que (sem a humildade, e, sobretudo, sem o concurso da Graça) suscita frustrações e adiamentos. Ou, como diz o stárets Zósima ao jovem Aliocha Karamazov, é esse rosto humano, demasiado humano, que nos faz hesitar e recuar diante do Cristo.

Na metamorfose, por sua vez, tem-se uma dinâmica em sentido contrário, onde a renúncia à condição humana, alinhada à carência de um modelo único e centralizador, precipita o desejo em permutações cada vez mais exacerbadas – tentando assim se esquivar à participação na imagem do outro, cuja inadmissível semelhança, só pode ser decomposta pela decomposição de si mesmo. Girard aponta para algo de escatológico (ainda que num nível particular) nesse embate destrutivo entre natural e artificial. Curiosamente, Eva Tiamat Baphomet Medusa parece ter uma intuição similar, visto que, numa de suas páginas do Twitter, após fazer referência ao último livro da Bíblia, deixou a seguinte postagem: My metamorphosis reveals a new persona I am adding to my list of names: Apocalypta, the Ten-Horned Salt Water Dragon (sic).

É de se supor que suas leituras da Bíblia tenham somente o propósito fútil de buscar outro mito para se reinventar. Caberia então especular se essa busca, num livro tão desmistificador, não estaria dando ensejo a uma revelação desestruturante de seu universo fantasioso. Talvez isso explicasse outra postagem que, dias depois, dizia: Depression starting to set in. I must see a Dr. soon (sic). Talvez!… Fato é que estudos psiquiátricos recentes têm correlacionado a prática de modificação corporal a um tipo de conduta suicida. E nas estatísticas que corroboram esse estudo constam os nomes de Stalking Cat e Shannon Larratt, que, além de suicidas, foram amigos íntimos de Eva Tiamat Baphomet Medusa. Coincidência pouco inusitada para uma turma que não aguenta “ser mais do mesmo”, e faz da própria decomposição uma meta. A propósito, em outro de seus perfis no Twitter, Eva Tiamat Baphomet Medusa deixou uma mensagem tão lacônica quanto intrigante: Jesus wept! John 11:35. So did I today while take a shower. Many thoughts, many thoughts, many thoughts… É o versículo do evangelho de São João em que Jesus chora pelo amigo Lázaro, já morto. Que tantos pensamentos esse versículo ter-lhe-ia provocado? Sua comoção decorreria de uma identificação com o Cristo ou com o amigo morto?

Na falta de repostas, resta apenas o palpite de que a leitura da Bíblia estaria propiciando a Eva Tiamat Baphomet Medusa uma constatação de sua ilusão e, maiormente, de seu sofrimento. Considerando então, como propõe Girard, que o apocalipse não prenuncia um fim, mas cria uma esperança, compete rezar para que esta constatação não lhe sobrevenha como um juízo autodestrutivo. Antes, ocasione um reencontro com Aquele que pode, de fato, restaurar-lhe a individualidade; e no Dia do Juízo – lembrando o verso místico de Adélia Prado – pode fazer seu corpo ressurgir com a beleza das coisas que nunca pecaram, exato e digno de amor.