Os republicanos e a guerra

Ao contrário do que se diz por aí, não há nada de “histórico” ou surpreendente na vitória eleitoral dos democratas nos EUA. Trata-se de mais do mesmo: desde a 2ª Guerra Mundial, o partido do Presidente perde, no 6º ano de mandato (ou seja, no 2º ano do 2º mandato) uma média de 31 assentos na Câmara dos Deputados e de 6 assentos no Senado.

De lá para cá, aliás, o recordista na perda de assentos nas mid-term elections foi o hoje santificado Presidente Democrata Bill Clinton: 49 cadeiras na Câmara dos Deputados e 9 no Senado.

É a velha história do equilíbrio dos poderes, sustentáculo da democracia americana. O que era efetivamente anormal era o predomínio dos republicanos no Congresso durante 12 anos. Isso parece ter produzido uma justificada saturação no eleitor americano, especialmente diante de escândalos de corrupção (pois é, por lá isso faz diferença) e da aparente ausência de saída da guerra do Iraque.

Desde o início escrevi contra a guerra do Iraque, o que me rendeu não poucos insultos dos ditos conservadores brasileiros (conservadores do quê?). Mas até hoje não me convenceram do contrário, e bem que eu tentei mudar de idéia.

Essa guerra sempre me pareceu um esforço inútil e injustificável, que atraiu para os americanos a antipatia mundial e só serviu para despejar dinheiro público pelo ralo. As evidências que surgiram — ou melhor, as evidências que não surgiram — nos últimos anos só vieram confirmar essa impressão. Não existiam as tais “armas de destruição em massa”, o Iraque nada teve a ver com o 11 de setembro e não representava nenhum tipo de ameaça aos Estados Unidos.

Já essa história de que Saddam Hussein tinha de ser deposto porque era um tirano me parece, francamente, conversa de esquerdista e de defensores do “governo mundial”. Não é papel dos EUA arvorar-se a policiar o mundo inteiro. No fim das contas, isso só vai contra o próprio interesse nacional americano.

Por causa dessa maldita guerra, qualquer iniciativa contra ameaças reais — tais como a Coréia do Norte e o Irã — está agora abortada, e, portanto, o saldo final é que desde então o mundo se tornou mais inseguro.

É fato que o Iraque não explica por completo o resultado eleitoral americano. Se explicasse, como justificar a eleição do senador pró-guerra Joe Lieberman, em Connecticut, correndo como independente contra o candidato que o derrotou nas primárias do Partido Democrata justamente por causa de suas posições sobre o assunto? Como justificar a derrota do Republicano anti-Bush Lincoln Chafee em Rhode Island?

É evidente que questões locais pesam muito nesse gênero de eleições, e que a questão não se resume à avaliação dos americanos sobre questões geopolíticas.

Mas há derrotas significativas de republicanos que não têm nenhuma outra explicação senão a oposição radical da população aos rumos da guerra. O veterano Robert Novak nota o seguinte:

“The bellwether of defeats to come was the Louisville, Ky., district where the respected Rep. Anne Northup, who won 60 percent of the vote two years ago, was defeated for a sixth term. There was nothing she had done wrong or that her opponent had done right to cause her defeat. The same was true of other highly regarded Republican congressional veterans who were defeated Tuesday, headed by Nancy Johnson of Connecticut, Clay Shaw of Florida and Jim Leach of Iowa.

Exit polls confirmed what had been clear to anyone who spent any time on the campaign circuit this year. Opposition to the war and the president had produced a virulent anti-Republican mood. About two weeks before the election, political technicians running the campaign of Rep. Charles Bass in New Hampshire suddenly realized that the popular six-termer was in deep trouble. His moderate voting and record of pork-delivery (including a federal prison for his district) meant nothing. He was swept under by the anti-Iraq voting tide.”

É claro que a tendência dos democratas é votar a favor de impostos e da expansão do Estado, mas, a rigor, uma divisão entre Congresso e Presidente, com o enfraquecimento de ambos, faz bem a qualquer país.

Insuportável é ter de ler os ignorantes na imprensa brasileira celebrando a vitória do que eles imaginam ser a “esquerda”, ou, pior ainda, ler que Hugo Chávez celebrou em público o resultado. Só isso já basta para deixar qualquer pessoa de bom senso desgostosa com essas eleições americanas.

Chávez, aliás, promoverá novas eleições em breve. Certamente será eleito com 99% dos votos, a exemplo de seu ídolo Saddam Hussein. Mas, claro, Bush é que é o tirano…

Loco por ti, Nicarágua

Anos e anos depois, ressuscitam os sandinistas, que transformaram o país num caos na década de 1980, e saíram do governo com os bolsos cheios. Voltam, agora num estilo “orteguinha paz e amor”, numa eleição possivelmente fraudada.

Fraudada, aliás, desde o início, porque Daniel Ortega aliou-se a um ex-presidente corrupto do país, Arnoldo Alemán, e, juntos, eles usaram o controle que detêm do Congresso para alterar a legislação eleitoral e reduzir o percentual necessário para uma vitória no primeiro turno. Antes, a lei exigia 45% dos votos (que Ortega não teve e não teria). Com a mudança, passou para 40% ou 35% com uma liderança de 5 pontos. Ortega elegeu-se graças a essa segunda hipótese.

Elegeu-se com uma plataforma muito diferente de seus tempos de herói das esquerdas, que inclui até mesmo acordos comerciais com os EUA. Mas sua aliança com Chávez e a imagem de seus dias de glória são suficientes para tornar desastrosa essa eleição.

As perspectivas são ruins, como destacado em avaliação

da Heritage Foundation:

“Unless Ortega has had a change of heart, Nicaraguans can expect a president who acts with impunity, justifies corruption among friends, deals ruthlessly with adversaries, and scares off investors. And if Ortega tries to strangle private enterprise as he did in the 1980s, Nicaragua may find that foreign assistance from the United States and the European Union is not so forthcoming, leaving only Venezuela to come to its aid.

Fortunately, outgoing president Enrique Bolaños has left the economy in better shape than he found it. Growth has risen from 1 percent to 4 percent a year, government deficits have been reduced, and Nicaragua ratified the U.S.- Dominican Republic and Central American Free Trade Agreement (DR-CAFTA), opening up trade opportunities. But a reversal in policy could end Nicaragua’s fragile recovery from the disaster years of Sandinista rule, when a milk carton cost a half-day’s wages.

In fact, Nicaragua still has a long way to go. It is a nation of 5.5 million with a gross domestic product (GDP) of $4.2 billion, which is comparable to the economy of Lebanon, Pennsylvania, a city of 125,000. Some 46 percent of its inhabitants live under the poverty line and two-thirds of its students never make it beyond elementary school. Remittances account for about 12 percent of GDP, while imports, at $2.1 billion, loom over exports of $1.1 billion.”

Agora, francamente: que importância tem a Nicarágua? Ah, que se dane a Nicarágua! Se resolveram reinstalar o velho comuna no poder, azar deles.

Antes que me estranhem

Não, não me tornei um tucano. Deus me livre!

O ideário liberal merecia melhor sorte no calendário eleitoral brasileiro. Continua a faltar um candidato, ou um partido, que defenda, com firmeza, a preservação dos contratos, o respeito aos direitos de propriedade, o enxugamento do Estado, a redução dos impostos. Minha posição é ainda mais liberal (ou anarco-capitalista, como queiram), mas me daria por satisfeito com isso.

Alckmin, que está nitidamente à direita de seu partido, talvez pudesse ter sido esse candidato. Mas não foi, em parte por culpa de sua própria tibieza, em parte por culpa da ditadura dos marqueteiros, em parte porque o Partido rejeitaria essa opção.

Otávio Frias Filho chegou a escrever sobre isso na Folha, nos seguintes termos:

“Quando assumem o poder (vide PSDB e PT), praticam uma política liberal temperada por compensações sociais bancadas pelo Estado, ou seja, pelo contribuinte. É o que José Guilherme Merquior chamava, já na época de Collor, de social-liberalismo. Mas ainda não surgiu um candidato que pregue o liberalismo sem meias medidas. Alckmin poderia ter sido esse candidato (não será outro o vetor de seu governo, em caso remoto de vitória), mas que marqueteiro o deixaria correr tamanho risco?”

Agora, tudo isso não me impede de considerar francamente desprezível a posição de determinados liberais, de considerar que o resultado das eleições era indiferente, porque se confrontavam dois tipos de social-democracia.

Na disputa entre um partido bandido, que tem o propósito evidente de corromper e corroer por dentro o próprio sistema democrático, e um outro que, embora defendendo teses social-democratas equivocadas, admite a convivência democrática e a alternância de poder, não pode haver opção pela neutralidade. É, antes de tudo, uma questão de decência.

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A falsa solução

Agora, não me venham os tucanos dizer que José Serra teria sido a solução.

Serra provavelmente teria feito uma campanha à esquerda de Lula, especialmente em temas econômicos, e sua participação no pleito teria por resultado aprofundar o predomínio do linguajar e do pensamento (ops!) esquerdistas sobre o debate político no país.

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A lista continua

Eu disse que a lista de temas ausentes da campanha presidencial não era exaustiva. Eis outros temas:

– Celso Daniel

– O apoio petista à legalização do aborto

– O dinheiro de Cuba para o PT

– O dinheiro das FARC para o PT

Tudo amplamente divulgado pela imprensa, na época própria, e esquecido durante a campanha, enquanto a oposição brigava entre si.

Cada vez mais me convenço de que a oposição mereceu perder. Se é que, como andaram divulgando alguns colunistas, não perdeu de propósito, numa ingênua crença de que Lula não conseguirá formar um sucessor.

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Nem tudo está perdido

O esforço lulista para comprar votos dos agricultores e empresários deu certo.

Alckmin poderia escrever a incrível história do candidato que encolheu. Conseguiu perder 2,4 milhões de votos entre o 1º e o 2º Turnos.

Lula continuou a perder no Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul, em São Paulo, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, mas sua votação aumentou em todos esses estados, enquanto a de Alckmin caiu.

Ainda assim, e apesar dos apelos em contrário da imprensa, permanece a nítida divisão entre os Estados que produzem riqueza e pagam impostos, contra aqueles que consomem a riqueza alheia.

E nem tudo está perdido: os gaúchos confirmaram a erradicação da praga petista.

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Rumo a Cuba

Os arroubos totalitários já começaram.

Lula, no discurso de celebração de ontem, lamentou que as medidas que toma demorem a ser implementadas, e lançou a bravata: “Medida tomada na minha mesa terá de ser implementadas em 30 dias. Os problemas que sejam resolvidos antes.”

Coisa de ditador. Na democracia, o Presidente não governa sozinho, e entende que as instituições têm um tempo próprio, que impede que medidas políticas sejam adotadas do dia para a noite. E ainda existe um negócio chamado Parlamento.

Temas que faltaram na campanha presidencial

Falei dos motivos da vantagem petista, mas isso não significa isentar a fraca campanha tucana da culpa por ter permitido esse resultado.

Era uma tarefa muito difícil vencer a máquina lulista (tanto assim que nada adiantou a atuação infinitamente superior de Alckmin nos debates), mas a lista (não exaustiva) do que faltou ressaltar ao longo da campanha dá a medida da inépcia do PSDB e seus aliados. Ei-la:

– Lulinha, a Gamecorp e a Telemar;

– as preferências eleitorais do PCC;

– a aliança entre Lula e Chávez, e deste com as FARC;

– Evo Morales;

– a promessa de Fidel Castro de “recuperar na América Latina aquilo que se perdeu no Leste Europeu”;

– as ameaças à liberdade de imprensa;

– os benefícios das privatizações;

– os riscos econômicos do ressurgimento do estatismo petista;

– o fim da independência das agências reguladoras;

– a origem do controle da inflação e seu efeito na vida popular;

– a ONG “Rede 13” (ou “Amigos de Plutão”);

– a existência de figuras que dirigem das sombras (ou das trevas) o governo petista, como evidenciado pela participação de José Dirceu na compra do falso dossiê;

– o aumento da violência no campo em razão do governo petista;

– os gastos dos cartões corporativos;

– o termo “golpe” para designar o mensalão e a compra do dossiê ? por falta de uso, acabou sendo usurpado pelos próprios golpistas do PT para designar a revelação de seus crimes pelos tucanos e pela imprensa;

– o aparelhamento da máquina estatal e seus efeitos imediatos na vida da população. Um exemplo didático: a diretora da ANAC, que revelou todo o seu despreparo ao bater boca com jornalistas e com parentes das vítimas sobre o resgate dos corpos no acidente com o avião da Gol (chegando a pronunciar a famosa frase “depende do que você define como um corpo”), estava lá por ser apadrinhada de José Dirceu (putz, sempre ele!).

E assim por diante. Todos esses temas poderiam ? e deveriam ? ter sido expostos de forma direta, clara e didática no horário eleitoral ou em discursos de aliados de Alckmin.

Mas, não. A campanha se perdeu num debate inócuo sobre “quem fez mais”, com a exibição das obras e programas sociais de Alckmin em São Paulo, fugindo dos temas mais relevantes e do confronto direto com a corrupção e a inépcia do Governo Lula.

Pior: no 2º turno, quando a discussão esquentou, Lula sempre tinha dezenas de apparatchicks para atacar o candidato tucano dizendo as maiores atrocidades (como Tarso Genro, Marco Aurélio Garcia, Jacques Wagner e muitos outros), Alckmin tinha de responder a tudo sozinho, enquanto seus aliados estavam muito ocupados brigando entre si. Era a eles (e não ao candidato propriamente) que cabia espalhar o debate sobre todos esses temas, e apontar todos os pontos fracos do PT.

E agora, em vez de prometer oposição ferrenha ao Governo que se avizinha, os tucanos ainda dão azo a conversas de “aproximação”, e mostram-se prontos para ajoelhar-se no altar do lulismo em nome da “governabilidade”.

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Governabilidade

A ausência de governabilidade é a melhor coisa que poderia advir para o país. Mas isso não acontecerá. Mesmo que os tucanos tomem jeito, o PMDB (o verdadeiro “partido da boquinha”) e os partidos do mensalão se encarregarão de garantir a aprovação dos projetos de interesse do Governo. A começar por essa grotesca “reforma política”, que tomará dinheiro dos pagadores de impostos para financiar as campanhas dos partidos (é o tal “financiamento público das campanhas”) e impedirá as pessoas de votar nos candidatos a deputado de seu interesse (é a tal “voto distrital com lista”).

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Projeto Gabão

Não se iludam com essa história de que Lula não vai deixar sucessor.

O Projeto Gabão ? inspirado no encantamento de Lula a esse magnífico país africano, governado pelo mesmo ditador há quase 40 anos ? continua firme e forte, e certamente ganhará novo vigor com o resultado das eleições.

Anotem aí. Se Lula não for posto para fora do poder em razão do dossiê ou de novos escândalos ainda por vir (hipótese reconhecidamente remota, dada a inépcia das oposições e o aparelhamento petista das instituições), certamente investirá todas as suas energias em fazer seu sucessor ? que poderá ser Tarso Genro, Dilma Roussef, Jacques Wagner, ou até mesmo (por que não?) o próprio Lula.

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Vocabulário eleitoral

Há um ótimo artigo no Globo de hoje sobre o vocabulário legado pelos petistas depois destas eleições.

Transcrevo os melhores trechos (sem link por impossibilidade técnica do site do Globo):

‘ELITE: É o que impede o presidente Lula e o ex-presidente Sarney de libertar o povo nordestino do jugo de suas oligarquias. Seu QG é a Avenida Paulista e seus preconceituosos integrantes não precisam do Estado e de universidades. Nem têm dor de dente.

NUNCA ANTES NESTE PAÍS: No “luminoso” reinado do PT, onde tudo é grandioso e inédito, a expressão serviu para criar um novo marco da civilização, não apenas nacional, mas planetário. Assim surgiu o calentário que divide os tempos entre a.L. (antes de Lula) e d.L. (depois de Lula).

GOLPISMO: Por tradição, é a tentativa de tomar o poder por vias não democráticas. Na era d.L., tornou-se sinônimo da divulgação, pela mídia e pela oposição, de investigações sobre os escândalos do PT e do governo. A publicação de fotos que são notícia e o direito constitucional do sigilo da fonte fazem parte da conspiração. Se continuar em destaque, o resultado do trabalho da PF e do Ministério Público vira, a partir de hoje, “terceiro turno”, o outro apelido do golpismo.

DEMISSÃO: É o que acontece quando o dirigente do PT ou membro do governo, flagrado no “erro”, é obrigado, apesar de apelos, elogios e afatos de Lula, a sair pela porta dos fundos do governo, o que o Diário Oficial registra como demissão “a pedido”. Se for preciso, Lula dirá mais tarde que o demitiu.’

Esmola para os ricos

Até Olívio Dutra ? leiam bem: Olívio Dutra, aquela ridícula figura criptostalinista ? pode vir a beneficiar-se dos programas do Governo Federal. Até esse sujeito vem crescendo nas pesquisas, e tem chances de derrotar Yeda Crusius amanhã, para reinstaurar a República Socialista do Rio Grande do Sul, doença da qual os gaúchos já pareciam ter-se livrado.

Mas não é para menos. Lembrem-se de que, logo que anunciado o 2º turno, Lula apressou-se em comprar o apoio de Blairo Maggi e anunciar benefícios para agricultores, de modo a recuperar os votos que perdera no Centro-Oeste.

Do mesmo modo, na última semana, o Ministro Guido Mantega anunciou “apoio” para produtores de calçados, um dos setores do Sul mais afetados pela política econômica lulista.

Eis aí parte da explicação para o ressurgimento de Olívio, além de uma campanha focada na obtenção dos votos dos funcionários públicos?

Pode ser. Não é só a população pobre que está atrás de um cartão do Bolsa Família. Não há nada que comova tanto um empresário brasileiro quanto uma benesse estatal.

The good guys lost

Everybody knows the war is over

Everybody knows the good guys lost

O que transformou o perdedor de três eleições presidenciais sucessivas numa imbatível máquina de recolher votos e ganhar eleições?

Os motivos, certamente, não são os mesmos para a eleição deste ano do que para a eleição de quatro anos atrás.

Ali, era o auge da penetração petista da mídia, e Lula tinha como adversário um ministro de um Governo em crise, enfraquecido política e economicamente. Pior: um ministro que sempre fora crítico do Governo de que participara, cuja indicação contrariou diversos aliados, e que não tinha a menor disposição (ou convicção) de defender os pontos fortes daquele Governo. Eram favas contadas.

Aqui, a equação mudou, mas continua a favorecer Lula. Ele passou a ter a seu dispor a fabulosa fortuna do voraz Estado brasileiro, e não teve o menor pudor de usá-la para despejar dinheiro nos seus potenciais eleitores.

O Bolsa Família, um programa populista e anacrônico, adaptação piorada de programas sociais do Governo anterior, tornou-se uma máquina de compra de votos, tanto porque seu pagamento ficou atrelado à campanha eleitoral de Lula, quanto porque o PT começou a espalhar o boato de que, com a eleição de Alckmin, o programa acabaria. Cá entre nós: antes fosse verdade…

O esquema não se restringiu à campanha de Lula. Todo o PT foi favorecido com o mecanismo de espalhar benesses em troca de votos. Foi assim que o Partido tomou o lugar do PFL no Nordeste, e ganhou eleições para Governador em três estados por lá (e ainda ganhará outras no 2º turno).

Há uma excelente matéria sobre isso na VEJA da semana passada, da qual colho a observação do Deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA), um dos mais brilhantes políticos brasileiros:

“A vitória dos aliados de Lula no Nordeste é a vitória do coronelismo da era digital. O cartão do Bolsa Família é a institucionalização da compra de votos”, diz o deputado José Carlos Aleluia, do PFL baiano. O poder dos antigos coronéis era lastreado em uma relação de troca. Os eleitores lhes confiavam o voto e, em contrapartida, ganhavam algum benefício, numa relação que combinava favor e coerção.

A esmola com carimbo estatal se somou à estabilidade da moeda, para dar ao Governo a força imbatível de fazer a população ter a sensação de que tudo está indo muito bem no país.

Obviamente, o que há de meritório nisso é a estabilidade da moeda, que se deve ao Governo anterior, e foi intensamente combatida pelo PT. Mas eles não têm vergonha de assumir as virtudes alheias. Estava num táxi outro dia, e ouvi a propaganda do PT no rádio. Eles diziam que, no Governo Lula, a moeda foi estabilizada.

Também li em algum lugar que, num dos programas da campanha eleitoral televisiva, Lula, o grande opositor das privatizações, aparecia como responsável pela multiplicação de celulares entre a população pobre.

E assim foi ao longo de toda a campanha eleitoral, que se iniciou exatamente no dia que Lula tomou posse. Lula assumiu um discurso de fundador do país. Criou-se um bordão de governo (o que significa, automaticamente, um bordão de campanha): o “nunca antes neste país…”. Essa era a senha para introduzir alguma asneira grandiloqüente, e Lula é pródigo na criação de asneiras do gênero.

“Nunca antes neste país alguém fez tanto pelos pobres.”

De fato, com Bolsa Família e moeda estável, e com o Governo assumindo a paternidade de qualquer programa político positivo que tenha surgido nos últimos 500 anos, o slogan tornou-se verdade.

Tornou-se verdade à maneira como, na famosa frase de Goebbels, uma mentira repetida incontáveis vezes se torna verdade. E mentiras não faltaram à campanha do PT.

Na base da mentira, Lula passou a usar até mesmo os escândalos em seu favor. Dizia que mensalão, sanguessugas, cartilhas desparecidas e dossiegate só apareceram porque ele deixou de “jogar a sujeira para baixo do tapete”. Disseminou, ainda, e com a colaboração da imprensa “mais vendida”, a tese delinqüente de que os tucanos é que teriam sido responsáveis pelo dossiê.

Mas ? e aqui vem aquela parte em que vocês devem tirar as crianças da sala ? quem estuda um pouco de retórica sabe que nenhum discurso retórico prospera se não tiver uma platéia minimamente disposta a ser convencida daquilo que se está a defender.

O que significa dizer que, não bastasse a compra institucionalizada de votos, Lula se beneficiou do fato de ser igual à maioria da população brasileira. E não estou falando de sua imagem de “igual a um de nós”, ou de sua apologia do pobrismo, mas da própria falsidade existencial que o caracteriza.

Ocorre que, como alguns estudiosos de política detectaram já há algum tempo, a população, em certos locais, deixou de pretender eleger um líder, uma figura modelo, e passou a votar naquele que mais se parecesse com ela própria. Desapareceu a distância, seja de ordem moral ou intelectual, entre governantes e governados.

A maior parte da população tem consciência de que, como Lula, não teria a menor condição, o menor preparo, para assumir um cargo de liderança. As pessoas sabem que, se fossem colocadas nessa situação, só lhes restaria disfarçar com frases pomposas a própria incapacidade, e, ao mesmo tempo, “aproveitar” a oportunidade para refestelar-se na condição de poderosos.

É por isso que a população aplaude o Aerolula, aplaude o loteamento de cargos para favorecer amigos e colegas de partido, aplaude o “vale-tudo” de corrupção endêmica em que se tornou o Governo do PT. É porque eles sabem que, se estivessem no lugar de Lula, aproveitariam para fazer rigorosamente a mesma coisa.

Ele, de fato, é “um de nós”, e, nesse sentido, o Governo do PT é o símbolo da podridão moral em que chafurda o país inteiro, e que o levará a reeleger, com percentual expressivo, o líder do Governo mais corrupto de sua História.

Não que tudo tenha passado em branco. O Governo chegou a ter momentos de crise de popularidade, especialmente na classe média. Mas a classe média brasileira é a perfeita encarnação do “homem médio” da definição de Mises, aquele que está sempre pronto a acreditar naquilo que lhe dizem, desde que venha com carimbo oficial, e tem ojeriza a aprofundar-se no exame do que quer que seja. São, em geral, pessoas sem fibra, que vivem com medo da própria sombra e têm pavor do que possa parecer “radicalismo” ou “excesso”.

Eis aí uma população propícia para a disseminação de bordões sem sentido como “sempre foi assim”, “eles fizeram aquilo que sempre foi feito”, e assim por diante. Ou, ainda pior: “no próximo Governo, será diferente” (é isso mesmo: a imprensa adesista já está cheia de notinhas dizendo que, no próximo Governo, Lula vai passar a cuidar “pessoalmente” das coisas para evitar a corrupção). E assim, dizem as pesquisas, a classe média já está “enfastiada” do debate político, e quer seguir sua vida. Que se dane a corrosão de democracia.

Quando essa gente resolver acordar, Lula já será um novo Chavez, a estabilidade econômica terá ido pelos ralos e as liberdades políticas estarão em extinção.

Mas isso é assunto para outro post (devo também uma nota sobre como esse segundo turno presidencial fez regredir o debate político brasileiro em 20 anos).

Este aqui pode ser resumido assim: Lula será reeleito pelo Plano Real, em conjunto com programas de compra de votos em massa, e com a inestimável colaboração da combinação entre mau-caratismo e pusilanimidade.

Gastos pessoais milionários e sigilosos

O site de notícias jurídicas Migalhas fez um levantamento sobre a legislação a respeito dos tais “cartões corporativos”, usados, dentre outras finalidades, para gastos pessoais dos membros da Presidência. A questão foi levantada por Alckmin no primeiro debate, e na ocasião Lula ficou nervoso e sem resposta. Depois o assunto foi esquecido, e a mídia apressou-se a dizer que “nunca se comprovou” nenhuma irregularidade no uso dos cartões.

O site detectou que as tentativas de investigação no TCU foram abortadas sobre o pretexto de que os gastos da Presidência estariam cobertos por “sigilo”, por se tratar de questões de “interesse nacional”. Só que essa desculpa não tem respaldo na legislação.

Eis as conclusões da matéria, ilustradas por um quadro extremamente instrutivo:

Em reunião com o TCU, os membros da oposição bem que tentaram, mas não conseguiram obter informações sobre os gastos pessoais do presidente e de seus familiares, já que, novamente, dizem: “são informações de segurança nacional que devem ser mantidas sob sigilo”. Esses gastos considerados “sigilosos” (?) já somaram, com os cartões de pagamento do gabinete da Presidência da República, cerca de R$ 3,6 milhões nos oito primeiros meses deste ano.”

O resumo do quadro é o seguinte:

Gastos da Presidência (em R$):

2004 – 10.154.871,52

2005 – 10.854.886,35

2006 – 6.963.914,73

Gastos Totais (ou seja, do Governo inteiro, incluindo a Presidência, que como se vê, responde por cerca de 50% do total, mas ainda assim se exime de esclarecer a finalidade dos gastos milionários. Em R$):

2004 – 14.151.233,77

2005 – 21.706.269,63

2006 – 20.756.319,22

Eis aí a “distribuição de renda” petista, em todo o seu esplendor: dos pagadores de impostos diretamente para os bolsos dos governantes.