O coração & o coração das trevas

Leio no Público “É proibido compreender!”, artigo em que M. José Bonifácio (que torna proparoxítono o petismo com a grafia “Pêtismo”) toca em questões cruciais. Bonifácio cita (corrigindo o português) a entrevista em que António Araújo fala de “pessoas que, a pretexto de compreenderem, acabaram por apoiar”.

O leitor de Adam Smith se lembra de sua teoria da simpatia. A simpatia de Smith é basicamente aquilo que hoje se chama de “empatia”, neologismo do século XX. Apesar das raízes gregas, os dicionários Bailly e Liddell-Scott não registram o verbete empatheía. A simpatia consiste basicamente em colocar-se no lugar do outro, seja para tentar entendê-lo, seja para compadecer-se, seja para poder emocionar-se ao ler um romance ou ao ver um filme.

Daí surge a pergunta: é possível entender alguma motivação propriamente humana sem simpatia? Lembremos do agente fictício Will Graham, do FBI, que desvenda crimes por conseguir colocar-se no lugar dos criminosos. Pode a esquerda entender a direita sem colocar-se no lugar dela? Pode a direita etc.?

A simpatia, porém, parece suspeita. Tentar entender os famosos “eleitores de Bolsonaro” (entra música sinistra) exige alguma simpatia por eles. Por isso uma pessoa que não tenta compreender pode ter a impressão de que outra, “a pretexto de compreender, acaba por apoiar”. Logo começo a escutar os termos da novilíngua: vão dizer que assim se está “normalizando” a maioria dos eleitores.

Entre as várias novidades da nossa época, que me parece a época do delírio das certezas, está essa recusa da simpatia. Esperamos que um antropólogo viva com os selvagens que estuda; respeitamos seu trabalho e ouvimos suas críticas a nossas noções de civilização exatamente porque ele viveu com os selvagens. Mas, quando se trata de “eleitores de Bolsonaro”, tentar compreender já é apoiar; tentar compreender é já ser visto como Kurtz em pleno Coração das trevas.