Diários (e, por favor, leiam o Pedro Mexia)

Gosto muito de diários, o que não chega a ser uma excentricidade. É sabido que, quando o autor atinge a nota certa, diários podem ser obras-primas de pleno direito. O ótimo texto do Rodrigo de Lemos publicado esses dias no Estado da Arte me deixou com vontade de ler os de Renaud Camus. Outro que anda na minha mira é o volume de diários do padre e teólogo ortodoxo Alexander Schmemann (que gênio, meus amigos).

Em língua portuguesa, estou convencido de que o mais talentoso escritor vivo é o Pedro Mexia, justamente pela reinvenção radical que ele vem fazendo da forma “diarística” (palavrinha feia…) há muitos anos. Confesso que sou meio obcecado com o Mexia, pois tenho a impressão que ele não recebe o crédito devido. Tenho vontade de pegar as pessoas pelo colarinho, sacudi-las e gritar: “Leiam o Mexia, porra! Vocês não veem que o homem é brilhante?”

Voltarei a escrever sobre diários nos próximos posts. Por enquanto, como a editora Tinta-da-China está publicando o novo volume do Mexia em Portugal, aproveito para colar aqui um trecho de um perfil mais longo dele que escrevi para a revista Café Colombo, que, aliás, recomendo muito.

“O momento da explosão dos blogs, por volta do início do milênio, coincidiu nos dois lados do Atlântico e contribuiu para aproximar uma nova geração de escritores portugueses e brasileiros, que voltaram a ler-se mutuamente em tempo real. Para Pedro Mexia, tratou-se de um ponto decisivo em sua carreira. Nos blogs nasceram o estilo e a persona que o tornariam um caso único na literatura contemporânea em língua portuguesa. Partindo de um início corriqueiro, em que reagia aos fatos políticos do dia e comentava assuntos diversos, Mexia aos poucos desenvolveu um eu lírico personalíssimo, transformando efêmeros registros na internet numa prosa compacta e evocativa que não apenas parava em pé sozinha, mas que ganhava insuspeitos matizes nas páginas impressas dos diversos livros que se seguiram ao fim de cada um de seus blogs. A forma do texto é breve – frequentemente reduzida ao epigrama – o registro, o “hermetismo confessional”. Numa tensão entre o passado e o presente, o trabalho de Pedro Mexia consistiu em resgatar a tradição dos diários de escritores – Amiel, Kafka, Pavese, Green, Eliade – reinventando-a de acordo com os tempos e vertendo nela sua própria personalidade melancólica, cética e erudita. Ao lermos seus blogs e livros, somos confrontados com uma voz pessimista e autodepreciativa, que dialoga com o mundo por meio de suas monumentais leituras e de seu extenso conhecimento sobre cinema e música pop. Um post intitulado ÉTICA BLOGUISTA, dá o tom ao leitor recém-chegado: These fragments I have shored against my ruins (T.S. Eliot, “The Waste Land”). Os aforismos, aliás, são a melhor introdução a sua visão de mundo, glosando alguns de seus temas recorrentes, tais como a decepção (O dia da esperança é a véspera da decepção), a esterilidade (Tácito escreveu que não devemos chamar paz ao que é apenas deserto), a incomunicabilidade (“Conheci uma pessoa”, eis uma expressão que nalguns casos implica dois evidentes exageros) e o cinismo (O cinismo é a cicatriz da inteligência).

Tal visão de mundo, tão bem capturada nos aforismos, chega ao leitor filtrada através de um subjetivismo radical: Reconheço em Citizen Kane todos os méritos que a crítica há décadas tem apontado. Mas não há nada em Citizen Kane que me comova como o começo e o final de Touch of Evil, do mesmo Orson Welles. Nada que me tenha tocado como esse plano-sequência que parece prolongar-se pela nossa vida adentro, essa cena na ponte tão desesperada, tão negra, tão irremediável. Para mim, Touch of Evil é maior que Citizen Kane. E esse para mim é o único critério que (me) interessa. Como se vê, toda uma declaração de princípios enxertada num post sobre cinema. Princípios esses, aliás, que se aplicam ao seu declarado conservadorismo: Esquerda e direita são sensibilidades. Não são apenas maneiras de votar em eleições.

Sob certo aspecto, aqueles que atingiram a maturidade no fim do século passado reconhecerão algo do Diário da Corte do finado Paulo Francis nos diários de Mexia. Nos dois casos, os autores criam um “eu narrativo” homônimo que comenta o mundo através de suas leituras e idiossincrasias, apresentando ao leitor incontáveis recomendações valiosas de livros, música, artes plásticas, todas elas conectadas antes de tudo por uma sensibilidade. A diferença, no caso, está no temperamento dos diaristas: no lugar da cólera vituperativa e da certeza trotskista de Francis, Pedro Mexia lê o mundo pelas lentes de uma melancolia confessional e autodepreciativa.”