Manifesto de “intelectuais e artistas”

O manifesto de “intelectuais e artistas” que, em plena delação da Odebrecht, fala em “reconstruir o país” e em “construção nacional” ao mesmo tempo em que ataca o rentismo é a piada que escreve a si mesma.

Eu poderia fazer um comentário generalizante, mas sou estudante de literatura comparada, por isso vou fazer uma comparação.

Atualmente moro no sétimo andar de um prédio em Copacabana. O prédio dá para a encosta do morro, o que me proporciona um agradável quintalzinho. Minha vizinha de baixo goza do mesmo benefício.

Porém, minha vizinha fala muito alto: tão alto que já sei da vida dela muito mais do que gostaria. Como falar alto é uma abdicação tácita de privacidade, como falar alto é fazer também seu manifesto, recordarei algumas de suas pitorescas proclamações.

Às sextas ela costuma receber uma faxineira. Não sei se a faxineira mora aqui por perto, mas não é descabido pensar que ela viaja para trabalhar todos os dias, pegando ônibus, metrôs, trens, nos horários mais lotados.

Numa dessas sextas, a vizinha começa a bradar para a faxineira: “Eu já viajei o mundo inteiro! O mundo inteiro! E conheço os Estados Unidos todos! Nova York, Califórnia, tudo! E já fui tantas vezes para Miami que até perdi a conta. Uma vez num restaurante em Miami o gerente nem quis me cobrar. Ele achava que eu era a guia do grupo!”

E essas palavras, que editei e resumi para o benefício do leitor, eram acompanhadas do puro e incomum silêncio da faxineira, que eu imaginava de cabeça meio baixa e olhos levantados, pensando na sua próxima viagem de metrô e em como seria bom não passar 70 minutos de pé, espremida, entre uma condução e outra.

O defeito da minha comparação, porém, é evidente: a vizinha e os “intelectuais e artistas” estão fazendo suas proclamações enquanto as pessoas estão espremidas no metrô.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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