Governo não é literatura

Lembro de ver, nos anos 1990, Gustavo Dahl falando da “importância estratégica” do cinema. Para ele, Hollywood era quase o ministério da Cultura americano – e os EUA, numa frase imortal de Olavo de Carvalho, “uma espécie de União Soviética de direita”. Sem querer discutir todas as acepções do termo, nem o que isso pode significar em tempos de NSA, devo dizer que é dessa cena que me lembro quando penso no que Paulo Coelho tem dito a respeito da delegação brasileira presente na Feira de Frankfurt.

Como a imprensa tem divulgado, Paulo Coelho, o autor brasileiro mais vendido de todos os tempos (sobretudo por causa de O alquimista), recusou-se a participar da delegação por achar que outros autores com força comercial deveriam ter sido convidados.

Colocando à parte as minhas próprias inclinações pessoais, e tentando raciocinar em termos – olha a farofa na boca! – “geopolíticos”, não é difícil imaginar que, se o objetivo do governo brasileiro é aumentar a projeção da cultura brasileira, então parece boa ideia investir em autores que vendam bem. Nesse ponto, parece ter razão o coordenador da programaçao brasileira ao dizer à Folha, na matéria já linkada:

“Em sua maioria, são autores que estão despertando amplo interesse em editores internacionais, […] que vêm se abrindo para as mais diferentes vertentes da nossa literatura contemporânea, para além da literatura mais palátavel ao gosto comum.”

Se isso é verdade, é preciso dizer que Paulo Coelho se equivoca duplamente ao dizer:

“Eu duvido que sejam todos escritores profissionais. Dos 70 escritores convidados (LISTA AQUI), eu conheço apenas 20, então os outros 50 nunca ouvi falar. Presumo que sejam amigos de amigos de amigos. Nepotismo.”

São todos escritores. Na pior das hipóteses, era só colocar o nome deles no Google. E, se há escritores comerciais que ele não conhece, então talvez seja ele que esteja defendendo seus próprios amigos. O pior é que eu até simpatizo com essa atitude; com meu temperamento intempestivo, teria feito a mesma coisa.

O argumento contrário ao pró-comercial diria que autores que vendem bem não “precisam” de apoio do governo. Acho que existe um equívoco aí. Qual é o propósito da delegação? Como o governo vai medir o sucesso ou o fracasso de seu investimento? E, por favor, não venham falar que literatura não é mercadoria na feira de Frankfurt. A feira de Frankfurt é como uma Bienal do Livro (só que anual) em que agentes e editoras do mundo inteiro vão negociar direitos autorais. Não venham falar que feira não deve ter mercadoria.

Feira, mercadoria, mercado. Vejam, agora trazendo as minhas convicções pessoais, eu não vejo nada de errado com o que essas palavras indicam. O dinheiro do governo não é criado pelas musas, mas pela atividade econômica das pessoas. A minha pergunta é: se você está tirando dinheiro das pessoas para realizar um investimento, não é razoável (nem que seja como atenuante) ser prudente com o investimento? Ou o objetivo do governo não é aumentar a projeção do Brasil no exterior?

Agora, fosse eu jornalista, nem precisaria ir a Frankfurt para investigar o seguinte. Quanto dinheiro o governo gastou? E as editoras privadas, gastaram quanto? Quantos negócios foram fechados por interferência do governo, quantos por esforços privados, quais os valores? Os critérios, pois é, não são literários. São econômicos. Governo não é literatura. Talvez verifiquemos que o governo não deveria apoiar quem vende pouco porque os resultados seriam pífios, nem deveria apoiar quem vende muito porque essas pessoas realmente não precisam de ajuda…

Autor: Pedro Sette-Câmara

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