Notas para um conservadorismo linguístico (I)

Em nome do combate ao “preconceito linguístico”, vai-se jogando fora uma noção que, na verdade, talvez nunca tenha nem sido muito bem compreendida: a noção de falar bem, de escrever bem, de expressar-se bem. Não é difícil imaginar que é melhor ler um texto e entendê-lo de maneira imediata e com o mínimo de ambiguidades do que ter de penar para entendê-lo. O mesmo, é claro, vale para um discurso falado.

No Brasil, ao menos na minha experiência, escrever e falar mal costumam significar duas coisas. Se a pessoa tem algum diploma (é difícil dizer “formação”), ela fala e escreve de um jeito empolado, cheio de circunlóquios, realmente caricatural. Os textos acadêmicos trazem exemplos abundantes: meu favorito ainda é “um argumento cujo desdobramento subsequente se dirige no sentido de conceber”, cujo autor terá sua identidade preservada. Se você também for a um congresso qualquer, e sobretudo se você for lá para trabalhar como intérprete, vai sofrer na hora das perguntas. Os brasileiros nunca completam uma frase, ficam dando voltas, colocam um aposto atrás do outro, o verbo da oração principal nunca chega… Por outro lado, se vamos ver o discurso daqueles que seriam o alvo do famoso “preconceito linguístico”, temos as mesmas frases que não terminam, e, na escrita, a quase total ausência de pontuação. Você diz que eu sou um opressor que tem fetiche pela norma culta, e eu digo que, só para ficar num critério bem utilitário e nada empolado, preferia não ter de decifrar cada discurso que me chega. Essa é a vantagem da norma “padrão”.

A solução desse problema, a meu ver, é a seguinte: acabar com o ensino que privilegia a gramática e botar a molecada para ler e escrever muito. A língua é um hábito. Você não vai aprender a escrever bem lendo gramáticas, mas lendo Machado de Assis, Camões etc. É até fácil ver como essa estrutura do ensino está refletida nos dois principais tipos de mau português. O aluno só conhece dois registros: o coloquial mais básico e outro, abstrato, que parece não se referir a nada, mas que ele precisa macaquear para passar de ano e que ele acaba associando a uma impressão de respeitabilidade. Sem contar que o português é exigido pelos concursos públicos. Nesse caso, o concurseiro, em primeiro lugar, volta a estudar um monte de gramática, e depois fica lendo um monte de textos horrorosamente escritos, empoladíssimos, o que reforça a perversa ideia de que a “gramática” e a “norma culta” não passam de um monte de idiossincrasias que um bando de gente recalcada usa para oprimir os outros.

Existe o preconceito linguístico? Existe, claro. Mas eu só o vejo sendo praticado por pessoas semiletradas contra pessoas iletradas. Aqueles que conseguiram imitar trejeitos gramaticais rudimentares fazem pouco daqueles que não conseguiram. É o empolado que fala mal do roto, e os gramáticos “progressistas”, como o sr. Marcos Bagno, vêm defender o roto na base da carteirada: “sou gramático – e progressista!”. Fica tudo num universo nebuloso: o coitado que não enxerga a norma padrão, o que enxerga as aparências dela e o gramático que abusa da sua autoridade.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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