Scherer de um lado, Dolan de outro?

Ontem, Sandro Magister, com um tom que não me parece muito comum em seus artigos (link para a tradução em português do indispensável Fratres; lembro que Magister publica em italiano, inglês, francês e espanhol), começou a soltar informações e a especular, citando como fontes apenas “vazamentos”. O que achei interessante foi que Robert Moynihan ecoou algumas das especulações, então vale um pequeno comentário.

Mas antes de tudo, o comentário mais importante é: pelo menos nos dois últimos conclaves, todos os jornalistas e vaticanistas erraram muito feio. Ninguém esperava o papa polonês, ninguém esperava o papa alemão. Acredito que isso deveria bastar para colocar alguma humildade nas especulações. Porém, Magister e Moynihan são jornalistas com público garantido; se eles especularem e acertarem, ponto para eles; se errarem, você vai parar de lê-los? Nem eu.

Magister (parece um nome de personagem, Sandro Professor) ainda traz uma informação interessante (supondo que seja verdadeira): o número de votos de cada escrutínio do último conclave, e ainda números dos escrutínios de alguns conclaves do século XX, todos confirmando, supostamente, que o conclave sempre começa com um favorito e que esse favorito ganha. E vou insistir: Ratzinger teria saído como favorito desde o primeiro escrutínio e isso confirma o descompasso entre a mente da imprensa, inclusive dos vaticanistas mais sérios, e a mente do colégio de cardeais.

O que Magister diz, em suma, é que o cardeal Sodano estaria por trás de uma articulação para eleger Dom Odilo Scherer como papa. Assim, ele seria o candidato, digamos, da continuidade. Mas que ninguém por isso pense em Dom Odilo como uma marionete etc. Pouco sabemos do reservado Dom Odilo – mas sua defesa da Cruz na PUC de São Paulo é admirável. Magister também diz que Dom Odilo não é popular no Brasil e que sua candidatura à presidência da CNBB foi sumariamente vetada duas vezes (quem tiver fontes e quiser me escrever, agradeço). Nós aqui no Brasil conhecemos a CNBB e podemos tirar nossas próprias conclusões.

(Sensacionalismo sobrenatural: pelas famosas profecias de São Malaquias, tão precisas quanto as de Nostradamus, o próximo papa seria “Pedro Romano”. Dom Odilo se chama Dom Odilo Pedro Scherer.)

Do outro lado estariam o cardeal Dolan, arcebispo de Nova York, e o cardeal O’Malley, de Boston, que ainda fala português e espanhol. Mas o mais interessante é que estaria delineada uma disputa entre uma linha “ratzingeriana” (que ainda incluiria Ouellet) e outra “não-ratzingeriana”.

Agora, se os cardeais de maneira geral realmente pensarem que a Cúria está desgovernada e que a renovação é necessária, é difícil que Sodano vença. Simplesmente porque existem mais cardeais fora da Cúria do que dentro dela; mais cardeais fora da Itália do que dentro dela. Aliás, mesmo entre vaticanistas, duas coisas parecem ser ponto pacífico: João Paulo II não estava nem aí para a Cúria, e Bento XVI num dado momento desistiu de tentar reformar a Cúria.

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Vale fazer uma observação sobre o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, que sempre vejo nas listas de papáveis. Do ponto de vista da Igreja, ele é… controverso. Teria anunciado o donwsizing da Igreja em Viena; arrumado confusão com o bispo de Medjugorje; e dado alguma declaração que rendeu, segundo li (quisera eu achar a fonte, mas creiam em mim), uma bronca tripla e conjunta, do papa Bento XVI, do cardeal Bertone (secretário de Estado) e do cardeal Sodano (decano do colégio de cardeais), que o esperavam numa salinha, aparentemente já de cara amarrada. A reunião do alto comando vaticano com o cardeal é confirmada por fontes oficiais (cliquem nesse link, vale muito a pena). O teor dela é que circulou entre os vaticanistas. E esse é o tipo de notícia que não circula na imprensa não-especializada, mas que circula entre os cardeais. Os cardeais jamais vão desrespeitá-lo. Mas daí a colocá-lo no trono de Pedro é outra história.

Por isso, se alguém quiser uma lista de papáveis com algum grau de realismo, precisa procurar esse tipo de informação. É preciso um currículo impecável. E nesse sentido mais vale ser alguém de quem se sabe pouco, como Dom Odilo, do que alguém de quem se sabe muito.

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Mais de uma pessoa me escreveu como que pedindo um destaque maior para Antonio Socci, que teria previsto a renúncia do papa. Vejam: sem querer desmerecer Socci (de modo algum!), desde Pio XII todos os papas prepararam documentos de renúncia. Entendo que Socci queira enfatizar que disse que Bento XVI renunciaria. Mas, de modo geral, a posição de prudência em relação a esse tipo de afirmação ainda me parece mais recomendada.

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Num ponto concordo com Sidney e Carlos: é bad form desejar que Chávez vá para o inferno. Amai os vossos inimigos etc.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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