Pecado & preconceito

Anteontem, pequei gravemente.

Li uma notícia horrenda e achei que fosse verdade. A notícia foi a história que saiu na revista italiana Panorama, e depois no jornal italiano La Reppublica, e finalmente chegou à imprensa brasileira – e eu continuo me perguntando: o que faz um correspondente, se nunca temos nada diferente do que sai na grande imprensa estrangeira? Se nunca temos as coisas em português nem ao mesmo tempo em que saem na imprensa estrangeira?

Mas retorno ao assunto. Era a história do grande “lobby gay” corrupto dentro do Vaticano. Do tal dossiê que teria sido entregue ao Papa, feito por três cardeais. E pouco depois ainda recebi um link para um texto no blog Rorate Caeli que seria a tradução inglesa de um artigo em polonês publicado há alguns meses, com teor semelhante.

O problema? Isso tudo concordava com meus preconceitos. Tenho predisposição para crer que o papa é bom, mas há cardeais malvados, e suas maldades explicariam tudo. Aí estaria o bode expiatório. Eliminem-se os cardeais malvados, o tal “lobby gay”, e poderemos voltar ao mundo maravilhoso da tradição.

Robert Moynihan, que já recomendei, foi o único jornalista que teve um lampejo de sensatez. E mesmo esse lampejo lhe foi trazido por um padre. Creio que ele mesmo se deixou levar pela história no primeiro dia. No dia seguinte, publicou seu lampejo, e de certo modo se retratou.

Espero que o leitor saiba inglês e possa ler o desmonte da matéria de La Reppublica no texto de Moynihan. Mas posso adiantar que a matéria não cita fontes, não corrobora nenhuma das informações. Nesse sentido, ele vai na linha da peça de teatro O Vigário, que inventou o mito do Pio XII antissemita. Veja aí também o preconceito. Parece-lhe verossímil que o papa fosse antissemita em pleno século XX porque você não gosta do papa.

Tantos pecados estão envolvidos aqui. Primeiro, a vaidade. Quem crê na existência de algo como um “lobby gay” só precisa de um jornal que imprima a notícia de sua existência, mesmo que nenhuma informação seja corroborada. Assim funciona a sedução: você ouviu o que queria ouvir. Depois vem a ira contra o bode expiatório finalmente encontrado. E depois a vaidade de se achar mais papa do que o papa. Afinal, se o papa tem o dossiê, ele deveria fazer x ou y. Mas não somos católicos? Não vamos dar um voto de confiança nem ao papa? (Como filotradicionalista, eu sei que às vezes é preciso engolir uns sapos bem gordinhos. Mas humildade tem sim algo a ver com humilhação.)

O leitor há de perceber que aqui há dois assuntos. Até agora falei da desonestidade de um jornal de publicar acusações graves sem qualquer corroboração, sem qualquer sinal de prova, e de como somos cúmplices de tudo isso ao acreditar, só porque assim podemos separar, de um lado, os pervertidos cardeais, e, de outro, o papa e seus amigos do bem.

Mas resta a questão do dossiê. E se existir algo assim? O fato de um Robert Moynihan aparentemente ter caído na história por 24 horas mostra o quanto ela confirmaria as predisposições que nós, conservadores, temos, como a visão do papa que tenta de maneira discreta resolver problemas terríveis. Como eu disse hoje a um amigo, o pessoal da SSPX está preocupado com violão na missa e o papa pode estar preocupado com coisas muito piores. Até porque, e vale o parêntese, Ratzinger é um dos homens mais mansos que jamais existiram. A antiga visão de Ratzinger como Panzerkardinal, como “doberman de João Paulo II” é totalmente furada. É a reclamação do burraldo que se vê diante de uma inteligência e de uma alma superiores. Se Ratzinger, então, já falou em “imundícies” e em “gravíssimos pecados” dentro da Igreja, pode ter certeza de que essas palavras na boca dele têm um peso diferente. E ele é padre. É confessor. Como o padre Brown, o personagem de Chesterton, gosta de enfatizar, pouca maldade há que um confessor já não tenha ouvido. Mas também posso apelar para os preconceitos do leitor: você acha que, após décadas na Cúria Romana, ele não precisaria estar muito impressionado para usar palavras tão duras?

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com