Guia mínimo de fontes imediatas para a sucessão papal

Outro dia percebi que, apesar de o Brasil supostamente ser “o maior país católico do mundo”, a grande imprensa não conta com um único jornalista católico que possa dar um panorama razoável de acontecimentos religiosos. Esse jornalista teria como modelo Damian Thompson, do Telegraph, que fala de questões católicas e anglicanas. (Não me falem em Luiz Paulo Horta, por favor.) Ninguém chama um jornalista que tenha pouco interesse por tecnologia, e que mal saiba usar o seu computador, para cobrir lançamentos e disputas da área de tecnologia, mas por razões insondáveis parece que qualquer pessoa pode falar sobre questões religiosas.

Na ausência do nosso Damian Thompson, vou citar aqui, para que o leitor possa acompanhar os fatos, só algumas fontes que trazem mais fatos do que reflexões. Aviso logo que é preciso entender inglês e italiano. Outras línguas também fazem bem, sobretudo o francês (indispensável para quem desejar se aventurar pelas questões do tradicionalismo). Na hora dos grandes momentos, um latim não faz mal. A jornalista que deu o furo da renúncia chegou primeiro porque entendia latim. E o latim eclesiástico é realmente mais fácil do que o clássico. Em 2005, o Papa Bento XVI fez em latim a sua primeira homilia.

Outra advertência obviamente diz respeito aos conhecimentos pregressos. É preciso conhecer a história da Igreja, os personagens do século XX – inclusive os mais curiosos, como o padre Malachi Martin, cujas obras podem ser proveitosas se os leitores tiverem a prudência necessária. Se os jornalistas conhecessem um pouco melhor o funcionamento da Igreja, parariam de repetir que “Bento XVI nomeou [quando o verbo ideal seria “criar”; cardeais são “criados”] mais da metade do colégio de cardeais”. Um papa teria de ficar muito pouco tempo no trono para que isso não acontecesse. Solta, a informação dá a entender que Bento XVI fez uma jogada para que fosse eleito um filhote ideológico seu.

E uma última advertência para o leitor desavisado é que, se você for católico, tiver amigos católicos, conhecer sacerdotes, bispos etc. as informações simplesmente chegam até você. Nas minhas relações pessoais, além disso tudo, tenho grande proximidade de pessoas de outras denominações cristãs. Por isso, frequentemente recebo e-mails e comentários preciosos.

Assim, as fontes a seguir são as que eu posso recomendar para alguém que deseja acompanhar o fim do papado de Bento XVI e a sucessão papal que ora se inicia. Porque, apesar de oficialmente proibidas pela Igreja (para os católicos, claro), é claro que as especulações já começaram. E vale dizer que, em 2005, 100% dos “vaticanistas” que li, inclusive os entrevistados por jornais brasileiros, disseram que Ratzinger tinha chutado o balde com a homilia de abertura do conclave, passando a mensagem de que não queria ser eleito.

O guia

1. Começando pelo óbvio, é preciso ler sempre o site do Vaticano (que aliás mantém seu charme de “primórdios da web”) e o da Rádio Vaticana. Não acompanhar a parte oficial e pública é como fazer jornalismo político e não ler os atos oficiais do governo.

Porém, sem um bom conhecimento do assunto, ficam perdidas as alusões e as entrelinhas, lembrando que às vezes uma ausência pode ser bastante significativa. Seria como comentar uma lei e não falar do contexto em que ela foi produzida.

2. A Zenit funciona, na minha opinião, como uma espécie de agência extra-oficial. Quer dizer, claro que não é, é uma organização privada não-subordinada à hierarquia. Mas o tom dela é normalmente neutro, e ela reflete opiniões de diversos lugares do mundo. Nem todos os textos são traduzidos em todos os idiomas, então dê uma olhada em todos os idiomas que você conseguir ler.

3. Os anos passam, e a melhor fonte de análise e de comentários continua a ser, de longe, Sandro Magister. Suas colunas saem em quatro línguas (inglês inclusive) e ele também mantém um blog em italiano.

4. Gosto demais de dois blogs: Whispers in the Loggia, de Rocco Palmo, e The American Papist, de Thomas Peters. E por quê? Porque eles sempre sabem selecionar as informações mais relevantes, ainda que evitem as posições escandalosas. Aliás, é preciso dizer que, por respeito, nenhum jornalista ou blogueiro católico vai falar mal de um cardeal, por exemplo. Aí é preciso ler nas entrelinhas. Por exemplo, muitas vezes no catolicismo vão ser usadas fórmulas-chave. O Papa Bento XVI fala em “hermenêutica da continuidade”. É possível dizer que ele está se protegendo com a pompa, para poder dizer algo como “o Vaticano II não liberou o violão na missa”.

4.1. E você também precisa acompanhar no Twitter os mesmos Rocco Palmo e Thomas Peters. Exatamente porque eles repassam o que há de mais interessante. Se eu não indicasse essas duas contas deles, teria de ficar enumerando outras e outras fontes, e falando delas. O objetivo é dar um guia mínimo, não sobrecarregar quem quer se informar, e muito menos escancarar para o mundo que sou meio que um junkie de notícias vaticanas / eclesiásticas.

5. O já citado Damian Thompson.

6. Robert Moynihan também sempre vê as coisas por um ângulo interessante, e tem muitos contatos. Recentemente ele recordou o quanto chamou a sua atenção o fato de que Bento XVI depositou seu pálio no túmulo de São Celestino V, um dos papas a renunciar. E ainda colocou uma foto desse momento.

7. Como o último lugar tem um destaque, cito, no Brasil, o blog Fratres in Unum, que tem viés mais conservador e tradicionalista. Não digo isso de maneira ruim. É que há certas questões que interessam mais a conservadores e tradicionalistas, como a da liturgia tradicional e a da união com a SSPX, que recebem destaque ali. E, mesmo você não sendo conservador nem tradicionalista, se quiser conhecer os fatos das disputas, vai encontrá-los. No blog, sempre há coisas relevantes, sobretudo nos últimos dias. Está indispensável.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com