Na França católica

O que me motiva a escrever o que se seguirá é o passado; o passado de grande denúncia de coisas modernosas da Igreja, e o desejo de refletir sobre o quanto é fácil esperar que os outros sejam isso ou aquilo, e o quanto, percebendo ou não, é fácil fazer com que o nosso bem-estar dependa do que projetamos nesses mesmos outros.

A verdade é que estou em Paris, onde fico até meados de janeiro. Hoje pela primeira vez fui à missa no rito novo (ou ordinário), na mesma igreja onde já tinha ido assistir ao rito tradicional, isso na fria noite da última quarta – fui logo suspeitando que não tinha calefação na igreja ao ver que ninguém tinha tirado o casaco. Hoje, apesar do frio, de estar um daqueles gélidos dias ensolarados típicos do inverno, e de eu mesmo não ter tirado o casaco, fiquei felicíssimo ao assistir àquela missa: o coral era impecável, entoando suas polifonias em latim; a congregação era composta sobretudo de jovens casais com pencas de filhos pequenos; o sermão do padre foi breve, simples e católico. Depois da missa, os fieis que haviam trazido comidas reuniram-se para um almoço, um brunch ou algo assim, o que aliás também é comum em certas igrejas do Rio de Janeiro.

Pode-se escrever páginas e páginas sobre a decadência da Europa, do Ocidente, do cristianismo; pode-se perder dias e noites amargurados com algo distante da experiência, algo que hoje me parece uma espécie de feitiço, em vez de olhar para si próprio, para os próprios pecados, e para as pessoas imediatamente à sua volta, buscando uma atitude de gratidão. Que há quem cometa abusos, na liturgia e fora dela, bem, por mais que admire e consterne, não deveria ao menos consternar por tanto tempo, sob o risco de petrificar a alma. Valeria perguntar: e se todas as tradições que você julga perdidas fossem subitamente restabelecidas por uma canetada papal, você deixaria de ser o idiota que é? Teremos nós outra obrigação além de sanar nossa própria idiotice?

Quem quiser pode pregar contra o Concílio Vaticano II, lançar suas invectivas, dar a entender que a Igreja se tornou um clube impuro demais para os próprios critérios de eugenia (pseudo-)intelectual e (pseudo-)moral. Vá lá, de repente tudo que a Cúria Romana deveria fazer seria te contratar como assessor. Mas quem quiser pode olhar uma pequena comunidade num bairro não exatamente central de Paris, e ver que, mesmo que aquilo que você queira seja sentir “que o cristianismo está vivo” para ficar mais motivado a entrar nesse clube – por só torcer para o time que está ganhando – , as condições parecem plenamente satisfeitas. Quisera eu poder trazer a boa notícia de que finalmente me converti; mas a boa notícia que trago é que encontrei, no rito latino, mais um ambiente que me parece moral, intelectual e esteticamente católico. E claro que eu mesmo não fico insensível a isso.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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