Estilo brasileiro x anglo

Não é bonito citar exemplos dos livros que já traduzi, por isso vou contar com a cultura do leitor ao compartilhar esta pequena observação: se um dos defeitos mais comuns da prosa do português brasileiro, seja na ficção, no ensaio ou no jornalismo, é a pobreza vocabular, muitas vezes associada a uma pobreza de estrutura, uma incompreensão da subordinação e a um tempero de termos pomposos, um dos defeitos mais comuns da prosa de língua inglesa, nos mesmos gêneros, é a transformação da riqueza vocabular num valor em si. Sim, isso dá cor ao texto. Mas isso também serve de sinal para que o leitor perceba que entrou no terreno da ambição literária, e que o autor, mesmo que esteja escrevendo algo essencialmente informativo, está implorando para ser julgado por seu estilo. Sim, é melhor que haja uma preocupação com estilo. Só que, já diziam os romanos, há medida nas coisas. Ir ao dicionário de quando em quando é parte de qualquer leitura vagamente mais séria. Ir ao dicionário o tempo todo já começa a inviabilizar a fluência. Sem contar que começa a se formar uma sensação de barroquismo carnavalesco, de excesso de ornamentação. Auden dizia que na obra de arte (e tudo pode ser obra de arte, é só você fazer com arte) o que vem em primeiro lugar é seu objeto, seu assunto. Um lugar-comum que serve, talvez, como antídoto aos defeitos de brasileiros e de anglos: deixar que o objeto guie o estilo, até porque, no caso específico das artes da palavra, há que lembrar que a linguagem também tem função referencial, e que é preciso perguntar-se se é necessário referir (chamar a atenção para) tantas coisas.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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