O coice das “vacas sagradas”

Antes de tudo, devo dizer que, essencialmente, concordo com o Adriano. E devo dizer que até comentaria outras coisas do texto “Independência”, mas prefiro concentrar-me em alguns poucos pontos.

Meu caro Júlio, você pode dizer que “não pretende discutir” os méritos de René Girard, Eric Voegelin e René Guénon, mas ao dizer que fez parte da “turma nefasta” que os divulgou, que “[q]uem quer que tenha divulgado esses autores no Brasil fez um dano maior do que o que pensava combater”, e ao fazer, pouco antes, o seguinte diagnóstico –

“Indignados com os erros grotescos da esquerda, uma pletora de intelectuais e sub-intelectuais alternativos acreditaram ter encontrado no cristianismo (teórico) uma chave para a compreensão dos erros do mundo moderno; atraíram-se por uma espécie de teoria de tudo, capaz de se aplicar a todos os fenômenos, desenhada com suficiente sutileza e santarronice (dizem que é o que traduz melhor o termo self-righteousness). Há diferenças brutais entre esses autores — entre René Girard, Voegelin e Guénon, por exemplo, cujos méritos não pretendo discutir aqui –, mas não é difícil captar-lhes o elemento comum, já esboçado, de denúncia dos males do mundo moderno, o que costuma vir acompanhado, mesmo inconsistentemente [sic], da defesa do livre mercado (…)”

– você realmente não está discutindo os méritos desses autores. Está simplesmente, tendo “esboçado seu elemento comum”, sugerindo o seu demérito e cometendo graves injustiças com eles. Afinal, de lógica matemática eu não sei nada; mas creio que sou capaz de fazer interpretação de textos.

A obra de nenhum desses autores tem por base “um cristianismo teórico”, seja lá o que isso for. Dos três, René Girard é o único que diz ter tirado algumas de suas intuições diretamente da Bíblia, e também o único cuja obra pode ser reduzida a duas teorias fundamentais, a do desejo mimético e a do bode expiatório. Mas veja que nem mesmo livros que tratam exclusivamente de religião como O bode expiatório ou Eu via Satanás cair como um relâmpago, que considero o melhor livro de apologia indireta do cristianismo que já li, dedicam uma única linha a denunciar ou a combater “erros do mundo moderno”. Vale ressaltar que, dos três, Girard é o que tem a obra mais influente no mainstream acadêmico. Professor emérito de Stanford, membro da Academia Francesa, com livros traduzidos em diversos idiomas, citado em teses universitárias – e chega, que eu acho muito deslumbrado esse negócio de ficar enumerando credenciais.

Eu via Satanás cair como um relâmpago

De Voegelin meu conhecimento se resume a um livro que traduzi, ainda inédito, que traz sua correspondência com Leo Strauss e alguns ensaios. O que aparece ali é a mente de um investigador. Voegelin aparentemente olharia os tais “erros do mundo moderno” como um fato da vida, algo a se compreender, não a contestar com panfletos ou com golpes de erudição afetada. E é verdade que, dos três, Voegelin foi o que teve menos influência. Contudo, a admiração que Leo Strauss sentia por ela era imensa, dizendo que ele era o único que compreendia certas coisas etc. Sobre a importância de Leo Strauss, a internet está aí para as pesquisas.

René Guénon, admito, é um autor, digamos, singular. Dono de um estilo impressionante, que há anos eu mesmo chamo de “a voz da verdade absoluta”, ele realmente dedicou uma pequena parte de sua obra aos “erros do mundo moderno”. Na França, por razões que só Mark Sedgwick consegue explicar, Guénon é visto como um autor católico, de grande influência universitária. Mas é só ler sua obra para ver que ela não se baseia em cristianismo nenhum, muito menos “teórico”, e que o próprio Guénon acharia essa afirmação esquisita, para não dizer cômica.

Mas cômico mesmo é dizer que esse “elemento comum” imaginário dos três autores “costuma vir acompanhado, mesmo inconsistentemente [sic], da defesa do livre mercado”. Girard, até onde sei, fez uma defesa de 1 (huma) linha do livre mercado quando, diante de um entrevistador que veio com o velho papo de vítimas do capitalismo, respondeu que o mercado também era o sistema com o menor número de vítimas. Voegelin, pelo pouco que sei, não se interessou exatamente pelo assunto. E dizer que René Guénon fez alguma defesa do livre mercado é como dizer que a Madame Blavatsky fazia parte do IPEA.

Agora, não posso deixar de observar que existe sim um elemento comum entre “pessoas que divulgaram autores”, “René Girard”, e defesa do “livre mercado”: eu mesmo. Por isso é que estou me dando ao trabalho de escrever e de publicar isto. Se houve intenção de indireta, não sei, e tendo a crer que não. Ainda assim, há quem possa ter imaginado isso, e eu devo dizer que nunca tive uma rusga com Júlio Lemos, nem espero ter agora.

Se é verdade que “pelos frutos os conhecereis”, é fácil ver de onde vieram as injustiças do texto: da intenção declarada de “pinicar as vacas sagradas do conservadorismo”. Não é só que elas tenham respondido à molecagem com um coice. É só que, diante de um texto que diz que o “homem realista” é assim e assado, e que pretende fazer o louvor da ciência etc., faltou pegar alguma teoria de algum desses autores, algum trechinho que fosse, e discuti-los. Em vez disso, ficamos sabendo que alguém recomendou a Júlio Lemos a “suspeita sobre teorias” – a atitude típica de quem quer uma sã doutrina para viver, e que, se me permitem, é um dos males do conservadorismo – e ainda ficou fazendo fofoca sobre a vida sexual alheia. Esse fofoqueiro deve ter sido a viúva Perpétua.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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