O dia em que a arte brasileira deixou de ser vinho

Leio agorinha à noite no jornal da manhã um texto de Bárbara Heliodora que assinala a primeira coluna jamais publicada pelo crítico de teatro Sábato Magaldi, em que ele pontificava, como tantos naquelas priscas eras de mil e novecentos e lá vai coquinho, que não havia teatro brasileiro, teatro genuinamente brasileiro! E imediatamente começo a pensar que uma das maiores conquistas intelectuais do Brasil, neste glorioso século XXI, foi que finalmente pararam com isso de querer o genuinamente brasileiro. Eis que uma parte significativa dos escritores, dramaturgos, músicos etc. convenceu-se de que o povo brasileiro é constituído de seres humanos, com capacidades cognitivas semelhantes às dos outros povos, e que portanto não é preciso reinventar a roda, nem é preciso crer que ideias como começo, meio e fim nas obras dramáticas são ideias burguesas de Aristóteles, aquele burguesão, burguesão sim! Conservador! Europeu!

Durante anos fiquei pensando que os nossos artistas de inspiração modernista e romântica apenas enxergassem o mundo pela ótica da enofilia, e vissem o Brasil como uma espécie de grande terroir. Fulano publica um romance e lá vem um genérico de Sábato Magaldi afirmar: “Não é brasileiro, isso é, não é uma expressão do nosso terroir.” (Agora, se você insistir em ter orgulho do terroir, recomendo muito que beba o espumante Cave Geisse, que é feito por um chileno, mas é feito aqui, e é mesmo muito bom.) E lá vinha a tentativa de reinventar a roda. Em última instância, o romance do fulano seria em português – uma língua europeia. Você pode falar que é outra língua, que é diferente do português europeu, mas, não sei, eu leio textos em português europeu e entendo tudo, converso com portugueses e entendo o que eles falam, não me parece que seja mesmo outro idioma. – Ah, mas tem a antropofagia do Oswald de Andrade. E eu vou confessar que já dei tratos à bola mas ainda não consegui entender em que sentido a antropofagia seria original. Será que ela não é apenas uma influência controlada? Mas não é isso que todo artista faz? (Como, aliás, o sr. Mario Geisse, o chileno do Cave Geisse?)

A quantidade de vezes que a palavra “telúrico” apareceu em textos críticos de farofal admiração também faz pensar nessa obsessão com a terra. Com o terroir. Talvez os críticos e artistas quisessem que as obras brotassem do chão. Como se Shakespeare estivesse para a Inglaterra como o jequitibá está para o Brasil. O que aliás explicaria a aspiração do Manoel de Barros a tornar-se um jequitibá. O negócio não é pensar e produzir, é brotar, é exprimir o chão.

Digam-me então que sim, existe um teatro inglês, um teatro americano, um teatro francês. Existe, é verdade. Mas ele saiu de uma obsessão com a expressão do terroir? Não. Será que Shakespeare um dia se sentou e, entre uma peça passada na Itália e outra na Dinamarca, decidiu que faria algo “bem inglês”? (Fosse esse o caso, ele teria inventado o BBC period drama.) O teatro desses lugares nasceu da atenção à sensibilidade e ao gosto dos fregueses, das classes altas e baixas, e não da atenção a um imperativo de nacionalidade apreendido ideologicamente. Nação nenhuma tem existência metafísica; nacionalidade nenhuma existe como substância anterior a seus nacionais. O que provavelmente pareceria óbvio a quem não lesse apenas a última moda de sua época.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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