Jogralidade infinita

De Camilo Castelo Branco, “Gracejos que matam”, no começo das Novelas do Minho:

Ordinariamente, chamam-se á franceza — espirituosos — uns sugeitos dotados de genio motejador, applaudidos com a gargalhada, e aborrecidos áquelles mesmos que os applaudem. São os caricaturistas da graciosidade.

O «espirituoso», á moderna, abrange os variados officios que, antes da nacionalisação d’aquelle extrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de caza, outros importados:

Chocarreiro — tregeiteador — arlequim — palhaço — proxinella — polichinello — maninêllo — truão — jogral — goliardo — histrião — farcista — farçola — végete — bobo — pierrot — momo — bufão — folião, etc.

Esta riqueza de synonimia denota que o bobo medieval bracejou na peninsula iberica vergonteas e enxertias em tanta copia que foi preciso dar nome ás especies.

Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga jogralidade, que era mestér vil, acendrada nos secretos crizoes do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espirito», e com o fôro maior de faculdade poderosa, caustica, implacavel.

Ainda assim o estreme espirito portuguez, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das farças: é chalaça.

Ha poucos mezes, falleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou quarenta annos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rocio. As gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que vivêra aventurosamente uns setenta annos tingidos com primoroso pincel, descontavam n’estes defeitos a sua immensa graça, e reproduziram nova edição melhorada das suas anecdotas.

Averiguado o «espirito» do homem em coisas burlescas de que fez mercancia na feira politica, liquida-se, quando muito, um folião que desbragava a penna e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este, que não deixou nome sobre-vivente para vinte quatro horas—nem o terá aqui—orça a maioria dos jograes que tenho visto, nos ultimos trinta annos, esburgar o osso da facção que lhes alquilla o engenho detrahidor, e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das rizadas.

O satyrico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o politico; mais funesto por que vulnéra melindres—coisa que o callôso peito da politica não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não apégou aqui, nem se adelgaça á feição da nossa indole, bem accentuada nas chocarrices plebeas de Gil Vicente e Antonio José.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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