Maternidade opcional x paternidade obrigatória

Já sei de antemão que o que vou dizer corre um sério risco de ser mal entendido, mas mesmo assim lá vai: defender o direito ao aborto, defender aquilo que hoje chamam de (peraí que eu vou encher a boca de farofa, porque só assim é possível falar as palavras a seguir) “empoderamento” e “direitos reprodutivos” da mulher, é defender que a maternidade é opcional. No entanto, existe um movimento no Brasil para que o reconhecimento de paternidade seja obrigatório.

Daí que, pergunto eu, não podemos considerar o abandono da mulher grávida pelo engravidador como uma espécie de aborto tácito? Veja-se, por exemplo, que o homem sequer propôs que o filho fosse despedaçado vivo ou tivesse o crânio arrebentado para que um tubo de sucção pudesse mecanicamente cumprir o resto do serviço. Ele simplesmente entregou a criança à sorte, ou à mãe. Se isso é bom ou mau, vou deixar que os seus preconceitos decidam.

Não deveria o homem também gozar de (farofa, peraí) “direitos reprodutivos”, tendo pelo menos até uma certa data para avisar à mulher se deseja ou não aquela gravidez dela, e tornar-se, segundo sua opção, responsável materialmente pela criança, ou, desculpe, por aquele monte de células? Por que os (já estou quase engasgando de tanta farofa) “direitos reprodutivos” da mulher supõem o dever do homem de arcar materialmente com a decisão que, dizem os abortistas, cabe exclusivamente à mulher?

Devo recordar que eu mesmo sou violentamente contra o aborto, mas isso não me impede de observar a tremenda incoerência naquilo que se propõe. Se a mulher puder abortar, o homem também tem de poder. Não ficam dizendo (acho que até em alguma das encíclicas publicadas por algum ministro do STF) que se homem ficasse grávido haveria clínicas de aborto em cada esquina? Então por que a lei desse país machista patriarcal patriarqueiro falocêntrico capitalista selvagem opressor fica obrigando os homens a reconhecer a paternidade de crianças que eles abandonaram quando elas ainda não passavam de montes de células sem vida indistinguíveis de um tumor?

Em suma: não dá para defender que a maternidade é opcional sem que a paternidade seja opcional também. Se a sociedade adota o caminho da ausência de responsabilidade individual, propondo até que “ausência de condições psicológicas” seja razão para uma mulher justificar o aborto, eu não sei porque é que um homem não poderia alegar a mesma coisa.

Mas enfim, mas enfim, o mais importante mesmo é que vejam a minha modesta proposta como uma especulação, e não que pensem que estou a cobrar coerência, de dedo em riste, de quem já abdicou da ideia de responsabilidade individual própria. Porque eu sou que nem o Leonard Cohen. I have seen the future – it is murder.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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