A meia entrada, esse assunto que é um dos meus favoritos

Já comentei que a meia entrada é um absurdo que deve ser visto dentro de um contexto. Se quem produz espetáculos recebe subsídios diretos e indiretos, e pode produzir sem risco, eu na verdade me pergunto até porque é que ainda cobram ingressos. A arte brasileira não quer sair do Convênio de Taubaté.

Mas o que admira e consterna é ver gente adulta querendo dar a entender que não compreende a mais elementar das obviedades: que uma política de meia entrada terá um impacto no mercado de ingressos. Essa semana, o querido (não é ironia) Diário do Balneário falava de como os ingressos para shows no Rio de Janeiro são, veja só, os mais caros do mundo. Claro que isso em parte vem do mito de que existem preços absurdos. Você acha que um preço é “absurdo” porque desconhece a oferta e a demanda por aquele bem. Porque, como sabe qualquer pessoa que tenha de vender alguma coisa, se algum preço se mantém, é porque as pessoas estão pagando. E se as pessoas estão pagando X, por que vender por menos do que X? É por essa razão que eu sempre disse que a Apple pode fabricar iPhones a cem metros da minha casa que não vai ser por isso que eles vão mudar de preço. Grave o seguinte mantra em sua mente: preço não tem nada a ver com custo. Ou melhor, só tem a ver na medida em que, se o custo de fabricar algo é maior do que seu preço de venda, é melhor você não fabricar esse algo.

Volto à meia entrada e às ingenuidades. Claro que você pode defendê-la dentro do contexto de absurdos: subsídio pra lá, subsídio pra cá. Mesmo assim, vale a pena estudar o Convênio de Taubaté. Cai no ENEM? Enfim. Você também pode falar como um político – e quem não se lembra de Lindbergh Farias no palanque, aquele jovem demagogo? – e dizer que a meia entrada é a salvação da civilização ocidental. Que, assim, os estudantes do Brasil terão acesso à CULTURA: shows do Chiclete com Banana, da Madonna etc. No seu discurso demagogo, você, é claro, não vai tocar na questão de que, assim como uma tarifa ou uma cota interferem no preço de equilíbrio de um produto, também a política de meia entrada interfere. E se quem não lê textos de economia conhece Milton Friedman pela frase “não existe almoço grátis”, podemos reformulá-la da seguinte maneira: alguém paga por tudo que acontece. A meia entrada é só uma ilusão demagógica, na qual você acredita porque é estudante, e não existe grupo mais propenso à demagogia do que os estudantes.

Um produtor de São Paulo demonstrou, no DB, sinceridade e clareza ao dizer que os preços dos ingressos de shows internacionais são altos “porque as curvas da oferta e da demanda se cruzam muito acima”. Pode acrescentar aí a meia entrada: se é verdade que 70% a 90% dos ingressos vendidos são meia, então o preço oficial é bastante aumentado. Não é necessariamente dobrado porque o produtor poder arcar com alguma parte do aumento, embora eu ache difícil que, nesse caso…

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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