O choramingo como valor universal

Lá estão a exigir que o Papa “exija” de Raúl Castro a libertação de todos os presos políticos de Cuba. Exigiram também que a nossa presidente Dilma Roussef fosse lá encher o saco a respeito de direitos humanos. Foge-me que alguém espere que um chefe de Estado em visita oficial vá tocar nesse tipo de assunto. Primeiro porque isso é equivalente a ser convidado à casa de alguém e dizer: “Eu sei o que você fez no verão passado.” Segundo porque é ineficaz. Se é possível creditar o chefe de Estado mais ativista da história recente, isso é, o Papa João Paulo II, com alguma eficácia, então é preciso observar que ele jamais usou a tática de bater o pé & fazer beicinho. É um tanto vergonhoso dizer, mas há outros jeitos de transmitir uma mensagem além de esfregá-la na cara do destinatário, e os meios sutis de ação também funcionam, se é que não funcionam melhor. Vamos lá, querida direita, vocês não ficam acusando a revolução gramsciana? Ao menos alguma coisa poderiam ter aprendido.

As relações internacionais são regidas (em parte) pelo princípio da não-ingerência. O Papa não vai chegar em Cuba e exigir diretamente nada, mesmo que devido, porque não lhe cabe fazer isso naquele momento. Igualmente, Raúl Castro não vai dizer: “Pô, e esse negócio de pedofilia, hein? E esses escândalos financeiros?” Igualmente, ele também não diria a Dilma Rousseff para dar uma olhada nessa história de trabalho escravo.

A declaração mais escandalosa – digamos assim – da história recente de que consigo me lembrar é o famoso discurso de Ronald Reagan em Berlim, em frente ao portão de Brandeburgo, em que ele se dirige diretamente a Gorbachev (que não era um líder alemão, mas soviético), dizendo: “Senhor Gorbachev, derrube esse muro!” (E se você tem treze anos, ele estava falando do Muro de Berlim.) Isso porque foi de um grande contra outro grande. Se a presidente fosse a Cuba fazer exigências, alguém diria que ela está bancando a valentona, ou, em porto-inglês contemporâneo, “fazendo bullying”. Até porque exigências feitas por chefes de Estado precisam ser bancadas pela força. Se o Papa demandasse a libertação de qualquer pessoa, Raúl Castro seria obrigado a recordar a famosa pergunta de Stálin: “Quantas divisões tem o Papa?”

O que me parece estar se estabelecendo é realmente a choradeira como valor universal. Espera-se que a presidente exija, espera-se que o Papa exija, espera-se que fulano se posicione, que beltrano fale. Mas e os resultados? A indignação pública contra algum mal pode não ser o meio mais eficaz de acabar com ele. No entanto, as pessoas serão hoje celebradas e receberão sua carteirinha de sócio do Clube das Pessoas Legais se baterem o pé, não se obtiverem resultados. O que, aliás, até me recorda que ninguém mais do que o então Cardeal Joseph Ratzinger contribuiu para a celeridade nos processos contra pedófilos, inclusive ordenando que fossem entregues às autoridades civis. Mas, como ele não choramingou, não fez um discursinho, você, que se diz imune ao populismo, não vai acreditar.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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