Sobre a privatização dos aeroportos, ou: O seu PowerPoint é uma navalha

Os aeroportos de Guarulhos, Viracopos e de Brasília são “privatizados” com recursos que vêm do BNDES. 80% dos recursos vêm do BNDES. E vão para fundos de pensão de estatais. Que compram os aeroportos do governo. Se eu entendi bem, é mais ou menos como um cidadão privado usar um cartão de crédito para pagar a fatura do outro cartão de crédito. Essa analogia me parece muito boa: no fim, é o cidadão privado que paga.

O presidente do BNDES e outras otoridades celebram a confiança na economia brasileira. Mas se os recursos vêm do BNDES, isso parece confiança no BNDES. Que tem aquela linha direta com o Tesouro Nacional. Parece mais confiança nas capacidades de o governo de arrecadar e de imprimir dinheiro. Por outro lado, eu não consigo lembrar de atividades econômicas no Brasil que não envolvam o BNDES. O Brasil é o país dos incentivos, não das recompensas: em vez de enriquecer um empresário comprando seu produto ou serviço, o povo brasileiro o enriquece incentivando seu trabalho. Como diria Clarice Lispector, se a burguesia fede, é porque seu PowerPoint é uma navalha.

Mas de repente eu me lembro de que a independência do Brasil aconteceu assim. Houve uma revolução “liberal” em Portugal, que ordenou a volta do rei e o aperto da colonização sobre o Brasil. Então o regente brasileiro libertou o Brasil do liberalismo português e logo depois implementou uma espécie de ditadura.

Não é que depois de lembrar disso tudo comece a fazer sentido. Mas é que, quando liberalismo significa manutenção do exclusivo (pacto) colonial, por que privatização não pode significar uma compra com recursos do governo por consórcios de entes paraestatais?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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