Esperando o novo acordo ortográfico

Difícil é gostar do acordo ortográfico, e eu nunca vi uma única pessoa que o defendesse além dos gramáticos que o fizeram. É como se esses gramáticos tivessem inventado um imposto que beneficiasse o próprio ego, sabendo que, graças a uma imposição, milhões de pessoas no mundo inteiro agora poderão cometer novos erros ou policiar-se para não cometê-los. A súbita mão do fantasma oculto de Evanildo Bechara quer guiar-nos.

Eu mesmo não gosto do acordo ortográfico porque acho que a estabilidade da língua escrita é um bem que facilita a comunicação entre as gerações. Gostaria de mostrar a meus netos edições facsimilares de Os Lusíadas e deixá-los espantados com o fato de que séculos nos separam de Camões, mas não o idioma. Gostaria de não ter de “transliterar” Camões, ou de transliterar o mínimo. E se eu fosse escolher uma ortografia, seria aquela, a etimológica, que Fernando Pessoa usou para escrever Mensagem.

Também me parece evidente que não serão algumas mudanças ortográficas que vão ajudar a “unificar” o idioma. Não há como não sentir o gosto do português europeu quando lemos que alguém está a fazer alguma coisa, e não fazendo, e isso é só o começo. Há as diferenças de vocabulário – um amigo meu foi morar em Portugal quando criança e nunca se esqueceu da primeira vez que um adulto se referiu a ele como “o putinho”.

Eu trabalho com tradução e tenho de entregar meus textos com o acordo ortográfico. Comprei o corretor da Priberam e tudo bem. Mas só sei enunciar uma regra: não se acentua mais ditongo aberto em posição paroxítona. O resto é o corretor que faz. Ou então consulto o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, vulgo VOLP, vôupi (circunflexo pode?). Não posso deixar de pensar naquele diálogo de Platão (Fédon? Fedro?) em que Sócrates recusa a escrita porque vai acabar com sua memória. Nesse caso específico, eu poderia alegar que, pelo menos no que diz respeito à colocação de hífens, eu nunca jamais soube colocá-los, e não é agora que vou saber.

João Pereira Coutinho vem dizer na Folha que não se muda a língua por decreto. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, digo eu que se muda sim, e eis a experiência a demonstrá-lo amplamente. As editoras adotam o acordo, a imprensa adota o acordo, os concursos públicos adotam o acordo (e o brasileiro que não escreve profissionalmente só escreve em prova de concurso), o ENEM adota o acordo e por isso a escola adota o acordo etc. etc. etc. É duro admitir, mas a maleabilidade da língua portuguesa no Brasil a decretos está intimamente ligada à fraqueza da sociedade civil.

Complemento ainda com o seguinte, que já devo ter dito por aqui. Você entra numa Faculdade de Letras e lá estão os linguistas. Há lá os linguistas que só estudam as estruturas e o uso e tal, e são gente boníssima. Nunca falam da prescrição gramatical e aprendi um bocado com essas pessoas, que me mostraram que o que Chomsky tem de palhaço falando de política, tem de gênio falando de linguagem. Mas há também um bom grupo de professores que passam o dia falando mal da Nomenclatura Gramatical Brasileira, vulga NGB, e do ensino nas escolas. Ora, a NGB foi instituída por uma portaria do então Ministério da Educação e Cultura em 1959. Logo, a questão é de fato jurídica. Claro que alguém pode se perguntar se é função do Estado decidir regras de acentuação ou definir o que é um substantivo, mas isso, enfim, é uma questão de como as coisas deveriam ser, e não de como elas são.

Então, como diriam os paulistas, esses professores que só fazem falar mal da NGB (e eles nem estão errados no que dizem) também fazem outra coisa, que é falar de como as coisas deviam ser. E esse processo já deve ter algumas décadas. O establishment linguístico, digamos assim, não tem defensores ideológicos, não tem seus intelectuais orgânicos. Quem dá aula em cursinho e ensina a língua tal como cobrada em provas também tem lá suas críticas e não fala disso porque, bem, ganha-se por hora, e se o aluno fosse fazer Letras não precisava de cursinho.

Esses professores ainda não estão satisfeitos com o acordo atual. Eu sei que antes de morrer verei novas modificações. Há quem queira acabar com todos os acentos, há de tudo. O mesmo fantasma que há alguns anos subitamente lançou sua mão voltará, apenas com outro nome. Não se trata, como falei, de um fantasma oculto, mas de um espírito de permanente reforma, animado por aquele progressismo ressentido que acha que a “ciência” é a maneira mais elegante de esconder uma sensibilidade pobre e a sensação de estar “excluído”, mesmo que o governo dê escola, professor, lanche e transporte. Só não dá – espero que alguém se eleja prometendo isso! – a vontade de estudar e de passar mais tempo na biblioteca do que na cantina.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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