Funarte diz que libera o brioche

Chega-me por e-mail uma “nota de esclarecimento” em Caps Lock da Funarte. Mentira ou incoerência, cabe a algum bom jornalista descobrir. O que eu posso atestar por experiência é que a Funarte é totalmente coerente com seu passado de fornecedora de pulseirinhas vip para Nomenklatura & amigos, e que portanto não é incoerente que ela se manifeste com incoerências, porque, enfim, certas coisas só funcionam se não forem desnudadas. Não sou da Funarte; pago imposto para a Funarte; não posso pedir meu dinheiro de volta.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

A pedido do presidente da Funarte, Antonio Grassi, o Centro de Artes Cênicas se desculpa pelas falhas ocorridas durante a emissão de ingressos para o espetáculo ‘Uma flauta mágica’. Conseguimos viabilizar uma sessão extra no dia 8, com todos os lugares à venda. Além disso, disponibilizamos cerca de cem ingressos extras para as demais sessões, à venda a partir de
segunda-feira.

Primeiro, guardemos o número de “cem ingressos extras”. O Teatro Dulcina tem 429 lugares; na última terça, foram vendidos 100 para cada dia; logo, não foram vendidos 329 lugares. Essa informação de que eram apenas 100 para cada dia veio da própria bilheteria, dos funcionários do teatro. Eu ouvi e vos reporto.

Agora, considerando que a Funarte começou vendendo o balcão e depois as galerias, onde nem há lugar marcado, só podemos concluir que os “cem ingressos extras” significam que Maria Antonieta resolveu liberar um pouco do brioche.

No entanto, alguns esclarecimentos se fazem necessários. Diferente das outras atrações da reabertura do Teatro Dulcina, o espetáculo de Peter Brook não foi viabilizado apenas pela Funarte, mas por uma parceria entre a Instituição, a Secretaria Municipal de Cultura e o Consulado Geral da França no Rio. Os 360 convidados, no total das sessões, não receberam ingressos, mas sim vouchers que dão acesso ao espetáculo somente com o comparecimento antes do início da sessão. Os lugares que não forem preenchidos estarão disponíveis para o público, meia hora antes do espetáculo, como ocorreu durante toda a temporada de reabertura.

O uso do adjetivo “diferente” com valor adverbial pode sugerir que o concurso que aprovou o burocrata que redigiu a nota não tenha sido lá muito rigoroso; isso é confirmado por suas palavras posteriores: “360 convidados, no total das sessões”. Inclino-me para entender que isso significa que houve 120 convidados para cada uma das três sessões originais. Mas 100 ingressos vendidos por dia mais 120 convidados num teatro de 429 lugares sugerem 209 lugares vazios. Por isso me pergunto se são 360 convidados por dia, algo mais próximo dos 329 lugares não vendidos. De 329 convidados, também seria mais fácil tirar 100 ingressos do que tirá-los de 120; afinal, é mais fácil limar menos de um terço dos convidados do que quatro quintos. O funcionário que escreveu isso é concursado mesmo? Porque, bem, Antonio Grassi foi apenas nomeado pela ministra. De repente ele também nomeou a pessoa que ignora a aritmética e algo do português para escrever essa nota. De repente ele deu para ela um ingresso. Na fila de trás. E ela ficou até satisfeita, olha só.

Recebemos uma reclamação de que no primeiro dia de vendas a bilheteria foi aberta com atraso, mas a equipe responsável afirma que iniciou às 14h10, ou seja, apenas dez minutos após o horário divulgado. Tampouco é verdade que os melhores lugares foram separados para convidados: a exemplo do Theatro Municipal, o balcão nobre do Dulcina é uma área de ótima visibilidade e muito disputada pelo público.

Ou seja: “é verdade, não vendemos a platéia, porque, Deus do céu, que horror, misturar-se com público”. Plateia só para convidados do governo é algo tão emblemático de tudo que existe de errado no teatro brasileiro que realmente é melhor eu evitar a tentação de começar a falar disso, porque preciso me dedicar às minhas atividades remuneradas.

Esperamos que os esforços empreendidos para disponibilizar ingressos para as quatro sessões do espetáculo, a preços populares, atendam a um número maior de espectadores. Comemoramos o sucesso e o interesse do público por ‘Uma flauta mágica’.

CENTRO DE ARTES CÊNICAS DA FUNARTE

Que esforços? Quem se esforçou foi quem pagou imposto para isso. Vocês, burocratas, só alocaram o dinheiro dos impostos para pagar a produção e depois alocaram três quartos dos ingressos para vocês mesmos, depois liberando um pouquinho o brioche por causa desse sentimento que Marx não estudou, a vergonha nomenklaturesca. O burocrata privatizou para si próprio e depois ficou com vergonha porque hoje as pessoas se organizam na internet. Vergonha; não sentimento de culpa.

Eu poderia jogar um tomate em vocês. Mas infelizmente as minhas cinco horas de espera só me garantiram um ingresso na última fila do balcão, e eu sou péssimo atirador: não quero correr o risco de acertar alguém que está na primeira fila do balcão porque esperou durante oito horas num calor de 35 graus.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com