Fundação Nacional da Pulseirinha VIP

No dia mais quente do inverno carioca, cerca de duzentas pessoas foram à bilheteria do Teatro Dulcina comprar ingressos para as três apresentações de Uma flauta mágica, de Peter Brook. A bilheteria abria às duas da tarde, e eu mesmo cheguei ao meio-dia.

Após uma confusão relacionada a ingressos que não teriam chegado da gráfica, e que levaram a uma ameaça de suspensão de venda, veio outra notícia: dos 429 lugares de que dispõe o Teatro Dulcina, apenas 100 estariam à venda para cada apresentação, todos no balcão e na galeria. Em todas as noites, a plateia estava integralmente reservada para convidados.

Foi nesse momento que me lembrei de que o Teatro Dulcina era da Funarte, e que seu presidente era Antonio Grassi. Como esquecer do Festival de Teatro Russo em 2006, em que apenas metade das entradas eram disponibilizadas para o famoso público em geral, esta gente sem amigos importantes? Lembro das horas de pé para conseguir ingressos, sempre coroadas por um encontro com Antonio Grassi, então presidente da Funarte, já feliz e pimpão no teatro, confortavelmente sentado em meio a seus convidados, nos melhores lugares.

Enquanto eu contemplava a mesma situação se repetindo, apareceu um senhor e me perguntou há quanto tempo eu estava ali. Eu já estava na fila havia quatro horas. E ele me falou que também tinha ficado na fila quatro horas para comprar um ingresso no mesmo Teatro Dulcina, alguns dias antes, para o espetáculo de Bibi Ferreira.

Impossível não enxergar na situação um retrato da cultura de “só a diretoria” que impera no Brasil. De um lado, o Ministério se põe a subvencionar com dinheiro dos impostos obras que ninguém quer ver. De outro, privatiza para a própria Nomenklatura aquilo que todo mundo quer ver. Se o espetáculo de Peter Brook passasse num teatro privado, ou ao menos distante da alçada da Funarte, haveria a oportunidade de comprar ingressos. Estes poderiam talvez ser inacessíveis para alguns, mas ao menos estariam acessíveis num mercado legal, quiçá até recolhendo impostos, em vez de ser exclusivamente financiados por eles.

Dessa vez, porém, Antonio Grassi e a Funarte cometeram um grave erro tático, reservando à plateia que os sustenta as partes superiores do teatro. As promessas de reação com as mais clássicas armas do público – ovos e tomates – não eram nada incomuns.

E se o ator Antonio Grassi merece ovos e tomates, confesso que não sei. Mas o presidente da Funarte merece vários.

Ou quem sabe uma CPI dos ingressos.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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