Bolsa-Empresário Editorial

Hoje leio no Globo sobre o programa Livro Popular (o texto só aparece na edição impressa). O governo vai encomendar edições populares às editoras, que vão vender os livros “para livrarias e afins”, e estas repassarão os livros às bibliotecas. O objetivo é estimular a leitura.

Mais uma intenção nobre com resultados provavelmente adversos? Vejamos.

1. O governo jamais vai “estimular a leitura” desse jeito. O governo não tem prestígio para estimular diretamente esse tipo de coisa.

Uma medida do desinteresse por livros é o seguinte. Assim como nos tumultos recentes de Londres as livrarias foram poupadas, o mesmo já aconteceu no Brasil. Tenho muitos amigos no mercado, que sempre recordam o arrastão que passou pela na Rua Francisco Sá, aqui em Copacabana, poupando integralmente os livros que o sebo Mar de Histórias colocara na rua. Creio que a maioria das pessoas no Brasil preferiria beber um copo de detergente a ler 100 páginas. Agora contrate a melhor agência de publicidade do mundo para ver se alguém sabe como mudar essa situação.

E aqui vai, de graça, que eu tenho espírito cívico, uma pequena ideia. Se o objetivo fosse mesmo fazer uma campanha que funciona, o ideal seria fazer uma operação totalmente por baixo dos panos. Personagens de novela, atores, jogadores etc. falariam de romances e de poemas. Afinal, um jogador com um corte de cabelo ridículo tem mais chance de estimular as pessoas a mudar esse tipo de comportamento do que o governo.

Agora, eu não sei quanto ao público, mas eu mesmo tenho uma aversão instintiva a tudo que é ou que parece campanha para qualquer coisa. Sempre que dizem: “vou te convencer”, já me armo para não ser convencido.

2. Quero só ver que livros serão escolhidos pelo governo. Nosso grande agente de demanda vai enriquecer muita gente. Mas assim é o Brasil: rentista até nos livros. Não competimos pela atenção do público, competimos pela atenção e pelo dinheiro do governo. Hoje, aliás, eu tendo a crer que essa bomba só pode ser desarmada desde dentro. Mesmo que os títulos escolhidos sejam de domínio público, os editores vão ganhar rios de dinheiro. Você pode achar isso ruim, mas lembre-se de que se o governo fosse ele mesmo cuidar da impressão dos livros eles sairiam 100 vezes mais caros.

3. Por que os intermediários? Ah, sim, isso me faz voltar ao que acabo de dizer. Pagamos impostos e o governo redistribui. Para os intermediários. Amigos do rei, agora escolhidos por licitação e edital; eis a suposta diferença que dá ares de democracia a uma “aristocracia” burocrático-burguesa.

Não sei se é ilegal no Brasil as editoras tratarem diretamente com as bibliotecas (não ficaria surpreso). Mas essa escolha de intermediários para um negócio que realmente não precisa deles tem todo o cheiro do tipo favorito de redistribuição de renda praticado pelo nosso governo. Creio que esse é o sentido profundo do que disse o presidente Lula no início de seu primeiro mandato: “Neste país, a direita está no poder há 500 anos.” E ele, é claro, não foi bobo de mexer em algo tão tradicional.

É importante eu fazer um aparte aqui para aqueles que acham que estou assumindo uma postura de “neutralidade” ou sei lá o quê. Estou questionando uma estrutura, não um grupo de favorecidos. Uma estrutura perversa movida numa certa direção não deixa de ser perversa. Favorecimento de empresários do ramo editorial não é diferente de privilégios para grupos minoritários ou majoritários.

4. Se é inevitável que o governo faça alguma coisa, prefiro que dê iPads para todo mundo. Pelo menos assim as pessoas poderão vender os iPads e comprar algo que efetivamente querem.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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