A jornalista, a subsecretária e o diplomata

Boa parte do trabalho jornalístico consiste em procurar pessoas que estejam a fim de proporcionar, de livre e espontânea vontade, seus momentos menos memoráveis, e assim atender ao sublimes propósitos da venda de jornais e do aumento do número de visitantes. O povo tem o direito de saber! – que fulano falou bobagem. Uma espécie de paparazzi verbal da política etc. Não que eu não ache que os funcionários públicos (eleitos, escolhidos ou concursados) não devam ser tratados de maneira mais dura no exercício de suas funções. Mas bem.

Hoje o Diário do Balneário encontrou Aparecida Gonçalves, a Subsecretária de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, que esperneia contra um romance americano que conta a história de um turista sexual no Rio de Janeiro:

Ao saber do conteúdo de Seven days in Rio, que custa US$ 16 no site da Amazon, a Subsecretaria de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, órgão diretamente subordinado à Presidência da República, anunciou que pedirá retratação oficial – mesmo sendo uma obra de ficção.

Aparecida Gonçalves, que chefia a subsecretaria, promete acionar o Ministério das Relações Exteriores através de um ofício para que ele entre em contato com a embaixada dos EUA.

– O turismo sexual ainda não é uma página virada no Brasil – reconhece Aparecida. – Mas nós temos acordos bilaterais que versam sobre políticas públicas para mulheres firmados com Estados Unidos, Portugal, Inglaterra e Itália, e eles precisam ser respeitados. Nenhuma brasileira pode ser tratada assim, nem mesmo na ficção. E o governo de um país tem que responder pela atitude de seus cidadãos. Vamos cobrar isso deles.

A subsecretária promete contactar o Itamaraty. Eu gostaria de estar no Itamaraty para dizer-lhe:

Prezada Sra. Subsecretária:

Venho por meio desta responder à solicitação de Vossa Sapientíssima Excelência para que o governo brasileiro gaste o dinheiro dos contribuintes se manifestando contra um obscuro romance americano:

1. As pessoas que leem romances provavelmente conseguem distinguir entre a ficção e a realidade. Aqui em Brasília há uma Livraria Cultura. V. Sap. pode dirigir-se àquele local e verificar a variedade de narrativas que não correspondem à realidade. Se o decoro me permite uma observação pessoal, quando era adolescente a escola me obrigou a ler Dom Casmurro, de Machado de Assis. Não creio que o meu caso seja especial, mas não passei a enxergar todas as mães como beatas, todos os melhores amigos como traíras, e todas as esposas como safadas.

2. Vamos tentar reformular o pedido. V. Sap. quer que o governo brasileiro proteste contra uma obra de ficção escrita num país estrangeiro por um autor estrangeiro em que brasileiros fictícios seriam retratados de maneira degradante numa narrativa satírica? Só posso prometer solenemente, com a mão no peito, um pouco acima do meio da gravata, onde ela já começa a afinar, cá diante do Microsoft Word, que quando os personagens vierem dar queixa vamos direto ao Conselho de Segurança.

Subscrevo-me,

Diplomata do Mundo Real, Concreto, Lebenswelt da Silva

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com