O livreiro e o crítico

Quem faz faculdade de Letras descobre que um dos principais problemas do ensino é a perpetuação da confusão entre um princípio metodológico – a abstração do juízo de valor – e uma afirmação de fato – tudo tem o mesmo valor. Isso é, se a a Linguística considera que o português escrito por Machado de Assis e aquele usado nas letras de funk tem o mesmo valor para que se entenda o “sistema” da língua, então a faculdade de Letras conclui que todos os registros têm o mesmo valor, e eu não queria parar a argumentação agora para sugerir que se escreva um livro de Linguística com o português das letras de funk. Analogamente, as obras literárias também são analisadas segundo as suas características estruturais e temáticas, sem que ninguém se pergunte se X é melhor do que Y, e por quê. Isso, em parte, explica a leitura de tanta porcaria contemporânea na gradução. Uma faculdade de Letras deveria formar linguistas ou críticos literários, ou pelo menos desenvolver nos leitores algum potencial crítico; a postura científica de “neutralidade” está formando livreiros teóricos, pessoas que seriam capazes de descrever as obras mas que não se atreveriam a responder a temível pergunta: dado que vamos morrer e que o tempo é curto, em que devo investir meu tempo e minha atenção?

Aqui chegamos no outro extremo. O crítico, quer ele queira, quer não, é uma espécie de corretor do prestígio das obras. O crítico ocupa lugares de prestígio na sociedade e suas palavras serão ouvidas. Adotar a postura “científica” é evitar a pergunta fundamental. Claro que você pode ser até contra essa pergunta fundamental. Você pode achar que cada um deve decidir o que ler, e fazer suas próprias escolhas, sem perceber que isso é uma mentira existencial, porque você pegou essa ideia de uma bibliografia selecionada por alguém de prestígio num lugar de prestígio (um professor na universidade). Sem contar que abdicar desse papel é propor que cada um refaça o percurso coletivo de toda a humanidade. E mesmo que você pegue as pessoas que aparentemente refizeram esse percurso, como Harold Bloom e Umberto Eco, elas não chegaram a conclusões muito diferentes das do cânon “oficial”.

No Brasil, de fato, ficamos divididos entre dois extremos. O jornalismo literário não é exatamente grande coisa. Não me recordo de ter lido muitas resenhas negativas, para começar. Mesmo as resenhas positivas se limitam a mimetizar o estilo acadêmico, falando das características das obras e não de seu possível proveito. A crítica acadêmica é essencialmente ilegível e fala de literatura como um físico falaria a seus pares, sem preocupação com a inteligibilidade extramuros. Sugerir que a literatura se refere a algo no mundo e que vale a pena discutir essa relação é uma espécie de heresia. Mas o leitor está no mundo. Até os outros textos estão no mundo. A faculdade pode achar que um texto se refere a outro texto se refere a outro texto se refere a outro texto, mas estamos todos no mundo, leitores e textos.

Lamento muito tudo isso. Acho que os principais livros da minha vida foram livros de crítica literária, e, destes, os únicos em português foram pequeninas obras de Manuel Bandeira. Hoje em dia diriam tratar-se de impressionismo. Esses livros me levaram a outros, de crítica e de poesia. A crítica poderia servir para isso, para educar o gosto e por meio do gosto a própria pessoa. É preciso possuir certas qualidades para ser tocado por certos livros; o crítico poderia dar dicas de como se tornar capaz de apreciá-los, e isso não seria tão diferente de um crítico de vinhos que sugerisse prestar atenção em certas características. Atenção, aliás, é uma palavra fundamental. Significa tanto olhar numa certa direção quanto olhar por um certo tempo. E ficar parado, concentrado, não é uma coisa má. Depois, pensar na experiência. Fazer com que as ideias fiquem enraizadas na experiência, levando os leitores a entender por que gostam disso ou daquilo. E não simplesmente agir como um livreiro que fosse capaz de organizar todas as estantes sem estabelecer uma relação pessoal com obra nenhuma.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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